Racismo, ideologia, propostas. E o artista?

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1990/03/16. Aguardando revisão.

A complexidade francamente indescritível das relações inter-raciais nos Estados Unidos, na África do Sul do nazista apartheid, no Brasil e agora na Europa Ocidental, sem esquecer que os povos eslavos também são sobejamente conhecidos tanto por seu antissemitismo quanto por seu ódio aos negros e orientais -, essa complexidade não foi liquidada pelas conjecturas de um Sartre, nem de um Malcolm X, nem de Nabokov – que achava indecente haver o próprio conceito de racismo.

Agora, grupos radicais nos Estados Unidos reivindicam para os negros o Sul do país, enquanto os radicais brancos querem fazer do Noroeste a América branca, vizinha do Canadá. O excelente novelista negro Ralph Ellison, em seu magistral livro de ácido humor, The Invisible Man, postulou que o negro é, em si, o homem invisível nos Estados Unidos, um ectoplasma transparente deliberadamente não visto pelos brancos que o odeiam. Alguns dos meus mais inteligentes amigos (brancos) norte-americanos, simpáticos à causa negra e à extinção do racismo, estão atônitos, perplexos e deprimidos: “Creio que o problema do racismo aqui no meu país é insolúvel”, escreve-me a mais arguta delas.

E finalmente para a novelista prolífica negra norte-americana Joyce Carol Oates o negro deve superar o tema obsessivo da discriminação racial de que é vítima. Um escritor homossexual tem que escrever apenas sobre o homossexualismo e não sobre toda a humanidade?, parece indagar pertinentemente.

Esses múltiplos aspectos desembocam na pergunta formulada por uma excelente poetisa norte-americana, de cor negra (estas eternas explicações soam idiotas!) que indagou, sem nenhuma leviandade: “Como ressarcir uma raça do fardo incalculável que sofreu ao ser escravizada?” Deveria haver uma compensação, como a que a Alemanha Ocidental fez aos judeus no Estado de Israel? Deveria haver oportunidades excelentes para os negros estudarem, aprenderem profissões, restaurar-lhes a dignidade aviltada?

Alguns legisladores, sabe-se lá se bem intencionados, propuseram – não sei se com ingenuidade ou cinismo – que todos os negros norte-americanos fossem para a Libéria, um Estado artificial, na África, comprado com dinheiro dos americanos brancos, para que lá os negros voltassem ao solo pátrio africano e não se falava mais do assunto; ah, não, claro que haveria um miniplano Marshall para a Libéria: ajuda em dinheiro, em tecnologia, para que os liberianos, descendentes dos escravos estadunidenses, instaurassem na África Negra um Estado próspero e modelar. A ideia fracassou retumbantemente.

O pequeno, mas eloquente livro de Clóvis Moura, recém-publicado pela Editora Ática, História do Negro Brasileiro, traz mais um ponto de vista forçosamente ideológico e, portanto, debatível, mas é preciso reconhecer que o racismo e a ideologia que subjaz a ele são inseparáveis.

Também é preciso não esquecer que os russos, os poloneses, os tchecos e os franceses, ingleses, holandeses, espanhóis, árabes e outros povos da Europa e da Ásia são decididamente contra o negro. O preconceito não é um privilégio dos EUA, da África do Sul, do Brasil etc., de forma alguma.

Sobra então o que deve soar como uma blasfêmia aos ouvidos dos militares e de grande parte da população brasileira: a diluição da noção de Nação-Estado, desmembrando-se o Brasil, por exemplo, em territórios africanos, áreas exclusivamente indígenas, outras brancas, outras de mestiço? Afinal, a Itália e a Alemanha se uniram como Nações-Estado no século passado: fracioná-las não seria impossível e por tudo que os alemães orientais dizem, eles se recusam a ser “digeridos” pelo capitalismo consumista da Alemanha Ocidental.

Um intelectual russo de grande renome, Afanasyev, argumenta a favor da liquidação da Nação-Estado soviética que é também um Império de mais de 100 nacionalidades diferentes: será, crê, uma forma de solucionar os entrechoques étnicos e impedir o colapso e o caos da “Desunião Soviética”.

E nesse maelstrom de ideias em conflito, o poeta, o artista, o escritor de raça negra e dos dois sexos: que devem fazer?

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Racismo, ideologia, propostas. E o artista? .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.