Otto Lara Resende, do fundo do baú mágico da memória de Minas Gerais

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1976-01-31. Aguardando revisão.

Não tem fundo o Baú da Literatura de Minas Gerais. Quanto mais fundo se mete a mão na memória mineira, mais livros brotam o joio misturado com o trigo. Mas o baú mágico, generoso, recompensa quase todos os que nele se adentram. Seria um baú ou uma Caixa de Pandora nacional?

Afinal, nem todos os escritores mineiros que se inspiram na Musa imaginária, no refúgio e ilha da realização literária são ouro permanente como Guimarães Rosa ou Carlos Drummond de Andrade. Mas o fato inacreditável e, no entanto, comprovável é que Minas produz os amanuenses do Brasil – uns, bons copistas; outros, criadores de prosa ou verso de ressonância universal.

Não – é óbvio – que Minas detenha o monopólio da criação melhor da literatura brasileira. Será preciso insistir na redundância de que o Nordeste, o Rio, São Paulo, o solitário paranaense Dalton Trevisan e os novos paulistas também traçam as diretrizes do pensamento, da inteligência e da sensibilidade impressos aqui?

Otto Lara Resende exemplifica como mineiro de São João Del Rei que os quadrantes desse estado vão desde a reflexão e a criação duradoura até a parvoíce sem cauda de um Antônio Olinto, igualmente mineiro, mas desigualmente infradotado, assim como entre um Drummond e outros há a mesma distância que há entre, digamos, Thomas Mann e a obra deixada pelos seus filhos.

Otto Lara Resende reaparece nas livrarias com As Pompas do Mundo (Editora Rocco), um livro de capa horrenda que antes de mais nada tira de seu exílio forçado um dos contos mais poderosos já escritos em toda a nossa literatura, desde que Gergório de Matos Guerra qualitativamente a inaugurou, por assim dizer, “A Cilada”, por outros críticos classificada como novela, por sua extensão maior, surgira e ficara confinada a um lançamento interessante – fazia parte de uma antologia, lançada em 1964 na qual sete autores diferentes retratavam um dos Sete Pecados Capitais, título dado àquele mutirão ou mosaico literário pela Editora Civilização Brasileira. Otto Lara Resende era, francamente, o único de quem o leitor se recordaria, ao lado de Guimarães Rosa ao encerrar aquela viagem moral pela alma humana em vestes brasileiras. E Guimarães Rosa, com sua genialidade habitual, também criou um conto longo, “Os Chapéus Transeuntes” que é uma obra-prima de graça, retratando o orgulho.

“A Cilada”, de Otto Lara Resende, retrata, de forma inesquecível, a cobiça, a avareza, o apego maldito ao dinheiro. É uma oportunidade rara que o leitor tem de ler ou reler este retrato psicológico apavorante de uma densidade que, em termos, recorda a dos contos de Joyce em Os Dublinenses; ou de Tolstoi em A Morte de Ivan Illich. E Minas em termos universais, é o mundo traduzido em dialeto e costumes mineiros: um homem, como diz o chavão, saído do nada, se faz à custa da asfixia de suas vítimas, que perdem fazendas e até humílimas máquinas de costura estranguladas pelo seu desejo vingativo de posse. A dimensão social, é lógico, insere-se nas entrelinhas: o menino paupérrimo, insignificante e espancado por um padrinho sádico, sem pais, sem nome nem eira nem beira, se torna o monstro usurário detestado e temido por uma cidadezinha inteira. Inverte-se o mandamento bíblico, e em vez de Deus o avarento Tibúrcio “ama as coisas acima de todas as coisas”. Mas se ele tem o dom de causar o mesmo horror, misturado com asco no leitor, quanto o pai dos irmãos Karamazov, no romance de Dostoievsky ele não é um homem que, vindo do zero, chegou à grandeza ética e conflituosa de um Mastro Don Gesualdo, personagem vigoroso de Verga, o magnífico mestre italiano ignorado até hoje pela modorra cultura do Brasil. Tibúrcio é inteiriço sem ser simplista nem linear.

O leitor segue o ritmo do conto ou novela e empolga-se como se assistisse a um filme de Hitchcock, com um desfecho aterrorizante que, uma vez lido, não será jamais esquecido tal a cilada que o próprio autor prepara cuidadosamente para quem o desvenda página por página. A solidão grandiosa, no seu desamparo humano, da personagem é mais uma prova de que o autor mineiro nunca se restringe a perfis sem matizes. Além disso – como em todo o livro – há uma riqueza de vocabulário prodigiosa, termos que Otto Lara Resende capta diretamente da oralidade popular e dos regionalismos mineiros para dar colorido e métrica à sua prosa miniaturesca no seu calculado artesanato:

“Tibúrcio é que não ligou mais para aquele pongó, tão faceto na hora de tratar e agora tão murcho e apelarmado”.

Ou como no trecho magistral entre vários outros:

“Coisas domadas, serviçais exalando uma confidência que ele sabe captar. Não há neste mundo um só trem que mereça ser deixado fora. Se não é objeto de venda ou de troca, recolhe ao depósito do Pastinho. Barbante, papel de embrulho, jornal velho, caixinha de papelão, caixote de pinho, vidro de remédio, garrafa vazia, arco de barril, prego enferrujado ou botão caído, nada ele desdenha. Juntando o pouco é que se amealha o muito. Sem poupar no tostão, ninguém chega ao milhão. Enquanto viver, não muda de credo. E depois de morto, está pouco se importando se mortalha não tem bolso, como diz o povo. Viver é possuir. Nenhum desperdício. Desde que se entende por gente, Tibúrcio sabe dentro dele que as coisas foram feitas para serem possuídas. Carecem ser possuídas. Desejam ser possuídas. E elas correspondem, vêm de mansinho, se oferecem ao seu apetite e ao seu cabedal. Tudo que existe exige a fatalidade de um dono. Como é pouca gente que sabe disso, os rios correm para o mar”.

Não fique, porém, a falsa impressão que de um livro só se aproveita o último conto. Ao contrário. Os seus contos precedentes são como ondulações que desembocam no dramático delta final. Há um arco que vai – sociologicamente – da aristocracia endinheirada ontem e decadente financeiramente, mas ainda altiva e arrogante hoje, como no conto inicial, “Bem de Família”, até o sem posses devorado pelo seu próprio materialismo obsessivo, o Tibúrcio irmão do Harpagon sovina de Molière.

Otto Lara Resende examina a alma de Minas minuciosamente como um cientista imparcial, embora sensível. A Tradição, A Família. A Prosperidade. A Religiosidade. A graça maliciosa e expressiva do povo. Examina até os chavões da Minas dúplice. PSD que acendia uma vela para a Direita, outra para a Esquerda, como no conto satírico “Viva la Pátria”, em que um ditador, condecorado com a medalha da Ordem dos Patriotas Sem Jaça, acaba mineiramente descobrindo que o círculo pode, em determinadas circunstâncias, ser quadrado e consegue conciliar o gelo com o fogo, uma espécie de Iago caipira, mas igualmente ardiloso: “Estendido com os oligarcas, juro desbaratar a oligarquia. Apoiado pelos velhos caciques da política, prometeu renovar as lideranças populares. Firmado no poder, pronunciou um discurso histórico. Escrito por um erudito intelectual acusado de ligações com a direita autoritária, mas de conhecido passado subversivo como militante da esquerda radical”.

Como fio que ata todas estas vidas o motivo central da morte.

Desde Boitempo, de Carlos Drummond de Andrade, nenhuma criação brasileira demonstrou uma obsessão tão profunda pela morte, verme a consumir a maçã da vida, catarata a fechar o olhar para tudo, leucemia a minar e dominar todo um organismo vivo. Como até em “O Elo Partido”, um conto nitidamente surrealista, que começa quando um homem se esquece de como se dá o nó na gravata, é uma morte – a do cérebro, da lucidez – que penetra no corpo permeável da existência estudante.

Como em toda literatura filosófica, sobrevive à morte este pó miúdo: letras de um idioma, imagens de um passado flutuando numa mente esclerosada ou caquética. Em outras palavras: Otto Lara Resende paradoxalmente prova o contrário do teorema moral de que As Pompas do Mundo se encerram todas engolidas pela morte democrática, igualitária em sua horizontalidade e com seu apetite sem luxos. Ele prova que a morte, se elimina os homens, não toca naquela parte congelada, cristalizada, que o homem deixa atrás de si: a grande obra de arte, a meditação perenemente válida, a testemunha para os pósteros e longevidade de sua herança, de quatro memórias que se sobrepujam ao desmoronamento orgânico, a escrita legada depois que o câncer se suicidou. Que para a soberba lição de angulação religiosa, pensamento e literatura Otto Lara Resende dá a todos que lerem este livro magistral!

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1976) 2023. “Otto Lara Resende, do fundo do baú mágico da memória de Minas Gerais.” In Grandes contistas brasileiros do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 10:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.