Inconfundível marca diáfana, abstrata

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tardel, 1976-12-18. Aguardando revisão.

Como que em surdina a poesia de Henriqueta Lisboa ressoa como um cêmbalo em um concerto barroco, a sua rarefeita beleza só audível para quem estiver atento à sua sonoridade propositalmente menor.

Agora, com a publicação de Miradouro e outros Poemas (Editora Nova Aguiar/MEC, 164 páginas), tem-se uma oportunidade dupla: a de descobrir novos poemas da autora de Flor da Morte e reencontrar alguns de seus melhores poemas das fases anteriores, reimpressos depois de estarem esgotadas por longos anos as antologias Lírica e Nova Lírica.

O que distingue os grandes poemas, recentes ou antigos, da poetisa mineira é a sua inconfundível marca diáfana, abstrata. Henriqueta Lisboa extrai da sua contínua contemplação da natureza antevisões do informe que brotam do visto em sua forma concreta. É o caso típico do poema que dá o título a esta coletânea. Miradouro, com seu início de cintilação visual e cromática: “Topázios do crepúsculo” para abstrair-se do suposto real:

“Formas sonhando formas

outras formas

de novelo em novelo

numa praia de céu

E formular as questões metafísicas, que são as que constituem sempre o ápice da indagação de Henriqueta Lisboa:

“Contorno exato de insolvência”

E desaguar na humanização da paisagem como se o ser humano fosse apenas um Édipo incapaz de decifrar os enigmas do universo em que se encontra:

“Constelação de humano pranto em trajetória”

E reconhece su finitude e sua incapacidade para abranger uma aproximação mística que “explicasse” a criação e a sua própria vida, em termos humanos:

“- da infinitude do aspirar

às barreiras do conhecer”

O extraordinário é verificar que a poetisa mineira, aos 73 anos de idade, não só se mantém constante às suas imagens e aos Leitmotive de mais de 50 anos de dedicação poética de excelsa qualidade: o sentmento onipresente da morte, o fundo grito humano de desamparo diante do mistério, a predominância de metáforas visuais, a busca intimista e quase quietista de Deus através dos labirintos do absurdo. É extraordinário verficar ainda que Henriqueta Lisboa cria profundos hai-kais filosóficos em que seu tema constante do efêmero assume, na presença fugaz de um pássaro, o valor simbólico de uma inspecção muito próxima de Emily Dickinson ou de William Blake: a da tessitura divina oculta no inconsútil do homem, tão efêmero sobre a Terra quanto o pássaro, e semi-revelada na natureza, esse mudo espelho que ao refletir não aclara o enigma:

“Pousa o pássaro esquivo

sobre o galho. E voa.

Vã teoria segui-lo

pelos ares à toa.

A tona d’água a espuma

Sobe e se desvanece

Em bolhas entre as dunas

Mas logo recomeça

Um desenho na mente

Aponta. Vem depois

Um outro sub-repticiamente.

E perdem-se os dois

Qual seria o substrato

(sem memória) do instável?…”

Finíssima tradutora de Dante, Henriqueta Lisboa atinge com seu “Quarteto” que intitula com um neologismo, “Nostaltália”, uma admirável adequação da percepção sensível da paisgem urbana de Roma, Veneza, Florença e Triste, cifrando a essência aparente do visto em imagens rimadas de introspecão do pensamento e de eternização pela linguagem do captado pelos sentidos. É então uma divinatrória definição do significado íntimo de cada cidade que ela capta miraculosamente, traçando vinhetas fulminantes em que se conjugam a História, o presente, a majestade verbal e a sensibilidade aguçadíssima para o que há de perene por detrás do transitório. Roma, portanto, assume a forma maciça e o colorido ocre de sua arqutetura: “Paredes grossas paredes/ levantadas de orgulho” e vivifica o Império no fascínio atemporal de sua beleza sensorial:

“O passado não conta: está presente

em dóceis curvas de voluta

em dobras de panejamento

em ecos de colunata

na radiosa nudez

de corpos sobre pedestais”

Vozes dificilmente audíveis perpassam pela Cidade Eterna, vestígios de uma espera “no profundo estofo/ ao abrigo do tempo” como se o Cristianismo (ou Deus?) viesse abater os deuses e as vestais: assim como Roma sintetiza o “Eterno agora” a sua duplicidade de mando, poder, glória, opressão, militarismo, Coliseu, sangue e martírio, virtu, luxúria, tudo se contém nos dois versos finais que revelam a ambivalência sensual e mística da cidade dos Césares e da Santa Sé:

“Peso e transcendência de mármore

na própria carne transitória”

Veneza sugere à poetisa a instabilidade do Tempo corporificada no ruído e no movimento incessante das águas:

“Nada fica. Nada se leva.

Tudo é chegada e partida.

Tudo se esfolha à superfície

para restar em nostalgia”

Mas se a vitalidade criativa de Henriqueta Lisboa se afirma nas páginas iniciais, que contêm os poemas novos, o leitor que desconhecer essa voz injustiaçada da poesia brasileira, relegada a um segundo plano que só a sua modéstia pessoal explica, é na rememoração dos poemas antigos, que formam a segunda parte do livro, que estão a surpresa e o encantamento de quem até hoje não conhecia a poesia da magnífica autora de “O Alvo Humano”. Aí é que se constata claramente que Henriqueta Lisboa é a autora de alguns dos poemas mais perfeitos da língua portuguesa, com triunfos deslumbrantes de um dizer poético que é também entranhadamente filosófico e tecidos com apenas 4 ou no máximo 30 versos, sem nenhum desbordamento inútil. Aí é que o leitor das novas gerações encontrará poemas perfeitos como “Constância”, “Lucidez”, “O Anjo da Paz”, “Sofrimento” e tantos mais. É impossível especificar em que momento a percepção poética é superior, se nestas 10 ou naquelas 20 linhas. Só uma preferência subjetiva poderia destacar, por exemplo, “Restauradora” commo “melhor” do que “Mármore”.

Uma aferição imparcial, porém, reconheceria em “O Véu” um dos poemas reflexivos mais pungentes e mais indagadores de toda a produção poética brasileira. Nele a poetisa divisa no tênue tecido que recobre os mortos a linha divisória entre os anda vivos e aqueles que ela descreve:

“Os mortos estão deitados

e têm sobre o rosto um véu.

Um tênue véu sobre o rosto”

E vislumbra an sua indecifrável imobilidade o conhecimento de uma verdade que a inquietação humana inutilmente procurou e que é agora ampliação do ser, depois da morte, como se o véu fosse uma travessia não para o ignoto, mas para a lucidez e o conhecimento em vão buscado na vida:

“E através do véu a aragem

de um sorriso treme, prestes

a dar à luz um segredo”

Noção que confirmam os versos de outro poema:

“Na morte, não. Na vida

está na vida o mistério”

A morte é oposto da natureza, fugaz, assim como as rosas, sentidas em seu desafio rilkeano, são:

“Perturbadoras rosas!

Transladais porventura

do eterno para o efêmero

a mensagem primeva”

Como no poeta que cultua, Hoelderlin, também a poetisa mineira entrevê, como nas doutrinas da filosofia religiosa do Hinduísmo, no Oriente, ou na filosofia transcendente de Heidegger, no Ocidente, o nexo sutil entre os nós do perecível enovelados com os nós do Eterno, quando ela equipara mutabilidade heraclitiana do rio que passa com a lição platoniana de que o homem é “lembrança do ser”.

Quando em Sobre o Problema do Ser (Editora Duas Cidades) Heidegger como que define a filosofia e a poesia como uma origem, um retorno a uma lembrança agora toldada pelo esquecimento - assim como Martin Buber nega o existencialismo ateu, definido o afastamento da fé como um “eclipse de Deus” e não o seu “desaparecimento”, a poetisa consegue, com 4 versos imelhoráveis, sintetizar toda a profunda reflexão heideggeriana sorbe a coincidência entre recuperação da metafísica e a recuperação do esquecimento do ser:

“Além da Imagem: trama do inefável

para mudar contorno definido

Ou não bem definido. Além da Imagem

Treme de ser lembrança o que era olvido”

Muitos prodígios mais surpreenderão o que se iniciar na leitura desta poetisa melancólica, mística, introspectiva, às vezes insegura e encantada por uma riqueza verbal que roça no pedantismo, na maioria das vezes porém cingindo o seu vocabulário a um quotidiano que, como a sua própria poesia, tem todas as rutilâncias de uma sensibilidade para o Infinito que palpita no finito e ela sem o saber cumpre a tarefa que reconhecera ser a do próprio poeta:

“E acaso simplesmente prolonga

o ato criador de um deus.”

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1976) 2022. “Inconfundível marca diáfana, abstrata .” In Poetas brasileiros contemporâneos, edited by Fernando Rey Puente, 4:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.