A revolta de um precursor

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Veja, n.41, 1969/06. Aguardando revisão.

No dia 13 de maio de 1888, o mulatinho Afonso Henriques de Lima Barreto comemora sete anos de idade na Rua do Riachuelo, no Rio de Janeiro, em meio a foguetes e danças dos negros libertos, que lhe dão a primeira noção confusa do preconceito racial e da escravidão que se abolia naquela data. Em 1922, o romancista social de O Triste Fim de Policarpo Quaresma, o jornalista cáustico de Bagatelas, morria – no mesmo ano da Semana de Arte Moderna em São Paulo, cujas reformas mais importantes ele antecipara de decênios. Esta semana, a Editora Brasiliense comemora os sessenta anos do seu primeiro romance lançado pela primeira vez em Portugal, Recordações do Escrivão Isaías Caminha (numa época em que Machado de Assis e Euclides da Cunha não tinham editores brasileiros para suas obras).

Os dezessete volumes de Lima Barreto que a Brasiliense agora reedita permitem definir a modernidade quase profética do autor que via no romancista “alguma coisa do descobridor”. Contemporâneo de Machado de Assis, por quem sentia antipatia, Lima Barreto precederia a tendência abrasileirante do movimento modernista: “Eu tenho notado nas rodas que hei frequentado… uma nefasta influência dos portugueses. Ajeita-se o modo de escrever deles, copiam-se-lhes os cacoetes, a estrutura da frase, não há dentre ele um que conscienciosamente procure escrever como seu meio pede e requer..”

Rebelando-se contra uma literatura meramente sonora, cheia de retórica e sutilezas verbais inúteis, como a de Coelho Neto, seu contemporâneo. Lima Barreto é um seguidor do filósofo e crítico de literatura francês Taine, que vê na literatura o retrato social de um ambiente, de uma época e de uma raça. A raça seria uma de suas preocupações maiores. “É triste não ser branco”, anota Lima Barreto em seu diário, estruturando desde seu primeiro romance a defesa do negro espoliado que Richard Wright e James Baldwin fariam explodir mais tarde na literatura moderna americana: “Não sei que estranha tenacidade leva (a raça negra) a viver e por que essa tenacidade é tanto mais forte quanto mais humilde e miserável”. Como a adesão ao que ele chama de “negrismo” seguiria de perto as tendências atuais da Négritude de Léopold Senghor e Aimé Césaire: “Pretendo fazer um romance em que se descrevam a vida e o trabalho dos negros numa fazenda. Será uma espécie de Germinal negro, com mais psicologia especial… Essas ideias que me perseguem de pintar e fazer a vida escrava com os processos modernos do romance, e o grande amor que me inspira – puderá! – a gente negra… Dirão que é o negrismo, que é um bom indianismo… mas e a glória e o imenso serviço à raça a que pertenço?” Ao lado de repostas às teorias racistas do Conde de Gobineau (que serviram de base para o nazismo e para o regime de apartheid da África do Sul, ele alinha as fases da sua batalha solitária contra a estreiteza do meio, o preconceito e o álcool, que o levaria ao hospício duas vezes. Ao contrário de Machado de Assis, que via no funcionalismo público uma forma de ascensão social, Lima Barreto, ao deixar o Liceu Nichteroy (com os estudos custeados por seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto), fracassa na tentativa de ingressar na Escola Politécnica para ser engenheiro e consegue um emprego de amanuense obscuro a Secretaria da Guerra, onde seu talento é hostilizado. “As repartições”, exclama Lima Barreto, como um Kafka carioca e mulato, “são como a vida em geral: amam os medíocres.”

Fugindo ao desfile das elegantes na Rua do Ouvirdor e a inauguração do cinema, Lima Barreto estuda filosofia sozinho, em enciclopédias francesas, anota palavras para formar um vocabulário e é, acima de tudo, uma personalidade cheia de contrastes. Apaixona-se pelo positivismo – mas, ao mesmo tempo, paga promessas à sua Madrinha, Nossa Senhora da Glória; exalta o marxismo e a Revolução Russa – mas tem o ceticismo de um Voltaire, que não acredita em reformas de fora sem uma revolução interior; é anarquista, mas candidata-se quatro vezes à Academia Brasileira de Letras, sem sucesso. Sensível, polêmico, Lima Barreto incorporaria o povo brasileiro – nas suas camadas mais humildes – à literatura romanesca do Brasil, precedendo toda a literatura social nordestina de Graciliano Ramos e José Lins do Rêgo, assim como anteciparia Guimarães Rosa na pesquisa do folclore brasileiro para utilização como matéria-prima literária. Além de trágico e inconformista, Lima Barreto seria um autor satírico mais cáustico e mais substancial na críticas dos costumes de seu tempo que qualquer outro autor brasileiro, com suas história dos Bruzundangas, República que simboliza o país das trapalhadas e da mixórdia, o Reino de Jambon, o Brasil-Presunto “que até aqui tem sido muito roído: roem-no os de fora, roem os de dentro, mas o diabo dessa perna de porco resiste à voracidade externa e interna de uma maneira perfeitamente milagrosa”.

Reuso

Citação

BibTeX
@incollection{gilson ribeiro2021,
  author = {Gilson Ribeiro, Leo},
  editor = {Rey Puente, Fernando},
  title = {A revolta de um precursor},
  booktitle = {Racismo e literatura negra},
  series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
  volume = {1},
  pages = {undefined},
  date = {2022},
  url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-1/2-literatura-brasileira/05-a-revolta-de-um-precursor.html},
  doi = {10.5281/zenodo.8368806},
  langid = {pt-BR},
  abstract = {Veja, n.41, 1969/06. Aguardando revisão.}
}
Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1969) 2022. “A revolta de um precursor .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.