A tragédia e a vitória de Henry James

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Diário de Notícias, 1964/12/13. Aguardando revisão.

Se toda grande criação artística encerra uma extraordinária soma de esforços na sua lenta e penosa elaboração, todo grande artista exige para a decifração de seu segredo pessoal, do seu tema insistente, dotes também extraordinários, por parte do leitor, de percepção, intuição, de dedicação e reflexão. Nesse encontro de sensibilidades que é a leitura, a audição de um concerto, a contemplação de um quadro, não conta somente o fator da afinidade mas também o da profundidade da percepção do recipiente, os espectador do espetáculo artístico. Com a valuação atribuída comumente à obra literária de Henry James tem ocorrido o mesmo quase que com o valor dado pela esmagadora maioria das pessoas à música de Mozart, à obra de Joyce ou de Proust, a qualquer criação, enfim, que não se revela imediatamente e exige de quem nelas quiser penetrar uma humildade e uma falta de preconceitos fundamentais.

De fato, se observadores superficiais demonstram desprezo por Mozart, considerando-o “enfeitado e pomposo” e desta forma ignoram por completo sua genialidade única, o seu demonismo, a trágica melancolia que seus allegros mal escondem, é sobretudo entre os “intelectuais” de profissão, entre os semi-alfabetizados culturalmente que Henry James é colocado entre os que, “como Proust, só se ocuparam com a atristocracia” e, “como Joyce, escreveram de maneira incompreensível e complicada”. Esse julgamento, que seria grotesco se não fosse visceralmente lamentável, tem sido parcialmente disperso pela “redescoberta” de Henry James nos países de língua inglesa, mas predomina ainda entre nós, principalmente devido à ausência de traduções de suas novelas e contos. Durante longos anos Henry James foi objeto de contendas ferozes entre seus detratores e seus defensores, pois diante da sua unicidade é praticamente impossível não se definir, não optar pelo mais cálido entusiasmo ou pela “revolta” diante de seu relativo hermetismo. Por volta de 1930 Van Wyck Brooks satirizou-o ao descrevê-lo como “o escritor capaz de causar tempestades aristocráticas e bem comportadas em copos de cristal refinadíssimos”, chegando ao extremo de atribuir o “fracasso” de Henry James ao seu exílio voluntário de seu país de origem, os Estados Unidos. De fato, a América do seu tempo só produzira, literariamente, Hermann Melville, com suas sombrias e magníficas introspecções da alma humana na sua densa alegoria de Moby Dick. Os restantes eram autores como Cooper, empenhado em tornar o índio americano num ídolo quase mitológico ou como Hawthorne, preso a temas e meditações fortemente impregnadas de um Puritanismo ancestral e esterilizante. Contrapondo-se a esses escritores, surgia, sem “mensagens” patrióticas, sem “ufanismos” oportunistas, um verdadeiro aristocrata do espírito, armado do que não hesitamos em classificar da sua genialidade e voluntariamente enraizado na Europa e desenraizado de uma América que via com repulsa como o país de infinita vulgaridade, de ausência de cultura, de predominância de valores grosseriamente materiais, “de uma falta de encanto quase cruel” e num estágio artístico então rudimentar e inaceitável para a sua sensibilidade requintada. No entanto, Henry James criou, na realidade, uma literatura muito mais profundamente americana do que os demais autores celebrados em sua época como precursores da “autêntica” literatura americana. Como ressaltou Graham Greene no prefácio que fez para The Portrait of a Lady – cronologicamente a primeira obra-prima de James e que julgamos pessoalmente uma das novelas fundamentais da literatura ocidental desde os seus primórdios – não só as heroínas (e alguns dos herois) das novelas jamesianas são americanas, também os “vilões” e pérfidas tramadoras de ardis diabólicos. Seria linear e infantil a classificação, comum até há poucas décadas, dos personagens de suas novelas em “americanos bons, inocentes e puros”, diante do mundo culto, refinado, mas moralmente corrupto dos “europeus perversos e sem escrúpulos”. As histórias de Henry James são demasiado complexas para admitirem qualquer simplificação tão primária, produtos que são sobretudo de uma inteligência agudíssima e da acumulação através dos anos, da sua extraordinária percepção para sutis situações psicológicas e para uma cosmovisão própria da vida. Desta se poderia dizer, até certo ponto, que revela certa semelhança com o isolamento de Kafka, com a sua trágica não-integração numa sociedade ou numa estrutura circundante. Educado (por um pai de conceitos culturais nada ortodoxos) em vários países, o autor americano, desde cedo perde, letral e espiritualmente, um solo que pudesse considerar pátrio, seu. Um misterioso acidente em sua juventude o tornou um semi-inválido, privando-o também de um papel ativo, aumentando assim o cerco da solidão que caracterizaria toda a sua existência. E finalmente o fato de residir na Itália e na França antes de estabelecer-se definitivamente na Inglaterra dava-lhe claramente a noção de ser um estrangeiro, um excluso das atividades nacionais de qualquer das nações em que vivesse, inclusive e sobretudo a sua, na qual não tinha raízes culturais nem espirituais. As viagens que empreendera à América o convenceram cabalmente da impossibilidade de adaptar-se aos valores americanos, à maneira de viver e de conceber a vida típicas dos Estados Unidos. Chocavam-no as características negativas que diagnosticara, em cartas a amigos íntimos, durante sua permanência em Chicago e outras metrópoles de seu país de origem: o gigantismo meramente físico, o poderio econômico não compensado nem orientado por uma maturidade intelectual, a feiúra arquitetônica, o espírito mercantil, a falta de tradição histórica e cultural. Durante algum tempo ele tenta manter a ilusão de que poderia conciliar, através da criação literária, a sua origem americana e a sua atração pela Europa, notadamente pela Inglaterra. Como Rubén Dario mais tarde se confessaria “un europeu de América y un americano de Europa” ele tenta adquirir essa ambivalência que logo se revelaria ilusória. Ao conversar com Garland já perto do final de sua vida, Henry James confessa, melancolicamente, sua derrota: “Essa mistura de Europa e América que você vê simbolizada em mim é desastrosa”. Vai mais longe ainda e confia-lhe que embora seja tarde demais para tentar um modus vivendi com seu país natal, ele se tivesse que viver novamente procuraria integrar-se nos Estados Unidos, ver seus lados positivos, pertencer à sua comunidade nacional. Tinham falhado suas tentativas de adaptar-se a Paris, desilidindo-o profundamente o provincianismo das rodas literárias francesas nas quais até autores da eminência de Flaubert, Zola e Daudet pouco interessavam, cegados pelo seu chauvinismo cultural, por escritores de outras nacionalidades. Turgueniev constituira o único escritor que ele conhecera no Continente europeu que participava de sua visão cosmopolita do mundo e das artes. Assim como falharam as investidas de Kafka para penetrar no castelo inexpugnável da integração nos círculos católicos, tchecos ou culturalmente autóctones de Praga, falharam também as peregrinações de Henry James de um país da Europa a outro em busca de uma adesão ideal a uma nacionalidade, a um conceito cultural, a um grupo de indivíduos afins. Sua patética incursão no mundo do teatro também constituiu um fracasso retumbante, talvez devido à vulgaridade de propósitos e de meio de agir que anima a grande maioria dos atores e diretores e que levaria atualmente Jean Genet a imprecar contra o teatro por seu “sórdido e fundamental exibicionismo”. É então para a totalidade da Literatura, da criação literária que ele se volta, como seu único e derradeiro refúgio, exatamente como Kafka encontraria nela a forma de comunhão com o mundo e Proust a superação do Tempo e a evolução vivida do passado. Com a ilimitação crescente imposta pelas circunstâncias adversas de sua vida, James no entanto não se sente deprimido, mas ao contrário estimulado, reconhecendo sua força e sua missão suprema na construção, com diretrizes quase arquitetônicas, de suas monumentais novelas e contos. Aceita a totalidade da vida, a sua extraordinária variedade, a sua vitalidade, reconhecendo nelas não só o critério artistico, mas, mais ainda: “a terrível lei do artista – a lei da frutificação, da fertilização, a lei pela qual tudo é trigo para o seu moinho – a lei da aceitação de toda a experiência, todo o sofrimento, toda a vida, toda a sugestão, sensação e iluminação”. E ainda: “As dimensões não importam – devemos cultivar nosso próprio jardim. Escrever muitas histórias curtas e de maneira perfeita: esse é o meu refúgio, o asilo… (Devo escolher) só temas, enredos de solidez e capacidade emocional, só as coisas amplas, finas, humanas, naturais, fundamentais, apaixonantes” ele escreve em suas anotações diárias que lhe servirão de roteiro para suas criações. Seus métodos de criação partem sempre de frases incompletas, de meras sugestões, oblíquas feitas geralmente por uma interlocutora durante um jantar, durante uma viagem de trem. É o que ele chama de “gérmen inicial”, o “virus” que fecundará a inspiração e a imaginação do autor. Às vezes, uma novela magistral como The Ambassadors ou um conto insuperável como The Beast in the Jungle pode ter sua origem numa reflexão abstrata como “é tarde demais”. Ou por exemplo uma situação apresentada na sua forma esquelética, descarnada: uma moça bela e cheia de vida é informada pelo seu médico de que morrerá em breve, fatalmente, inevitavelmente. Tecendo meandros e filigranas em torno desse núcleo inicial, ele nos conduz a uma novela trágica, esplendidamente construída, estilisticamente perfeita, como é The Wings of the Dove. Dentro de grupos compactos, de círculos com reduzidíssimo número de pessoas, ele urde suas tramas, seus conflitos entre seres humanos diversos: quase sempre descreve a integridade de suas heroínas, idealmente encarnadas por Isabel Archer de The Portrait of a Lady, que sucumbem diante da traição do mundo exterior. Seria portanto lícito interpretá-lo como um novelista pessimista, que admite a derrota dos íntegros, dos puros, dos que creem nos escrúpulos alheios? Teria ele precedido Camus e a filosofia existencialista com sua insistência na vacuidade de tudo exceto no valor moral do bem e na consciência individual do homem colocado num mundo absurdo, sem Deus e trágico na sua essência? Parece-nos mais crível a suposição de que através da sua superioridade ética as heroínas de James comprovam a existência de um elemento transcendental no ser humano que se sobrepõe à mesquinha vitória materialista de seus inimigos. Talvez como afirmam Edith Wharton, Graham Grenne, Pound e Spender com acuidade, talvez a soma final da obra jamesiana revele a preocupação obsessiva com a perfídia latente no ser humano, com o “complexo de Judas” que como um fio condutor percorre o interior de quase todas as suas criações. Mas paralelamente a esse reconhecimento fulge com um brilho próprio e inextinguível a verificação da supremacia não só dos valores éticos sobre os valores estéticos, mas do traído com relação ao seu traidor.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “A tragédia e a vitória de Henry James .” In Testemunhos Literários do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 3:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.