Na singeleza dos versos, a revelação de uma poetisa inigualável

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1979-09-08. Aguardando revisão.

Henriqueta Lisboa completa agora 50 anos de criação poética.

Não houve festejos na Academia Brasileira de Letras nem na de Minas Gerais. Por enquanto, os suplementos literários anda não dedicaram páginas especiais a essa poetisa quase que secreta em sua obscuridade auto-imposta, em Belo Horizonte. A poesia, desde os primeiros momentos de sua transplantação para o Brasil, surgiu como a herança mais duradoura de todo o riquíssimo legado português, e no desabafo das academias dos literatos baianos e mineiros já afirmava a sua presena e a sua autonomia diante dos cânones da metrópole lusitana. E a poesia de Henriqueta Lisboa vive como que à sombra dos grandes nomes vivos ou mortos recentemente de nossa lírica: Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Jorge de Lima, Manuel Bandeira. A sua é como que uma poesia camerística, sutil, vibrátil, que foge às promoções jornalísticas, aos galardões oficiais, à glória efêmera dos rodapés adulatórios. Por que tal retraimento se sua obra tão vasta atinge várias vezes os mais altos pontos do dizer poético contemporâneo em língua portuguesa?

Agora, duas editoras uniram-se, tralvez propositalmente, na reedição de uma antologia de poemas escolhidos pela própria autora e no lançamento de alguns poemas inéditos. Casa de Pedra, numa requintada feição gráfica da Editora Ática, e a segunda edição de Miradouro e Outros Poemas da Editora Nova Fronteira, também com uma apresentação visual policrômica de um pontilhismo sutil, prestam como que uma homenagem a esse meio século de um painel intimista, iniciado com o lançamento de Enternecimento pela Editora Pongetti, em 1929.

Seja para quem vai ler Henriqueta Lisboa pela primeira vez seja para quem for relê-la, são dois momentos memoráveis do admirável roteiro dessa singular voz poética universal que parte de Minas Gerais. É axiomático que qualquer escolha, mesmo quando feita pelo poeta, desagrada pelo menos a uma minoria, que não viu incluídos alguns de seus poemas preferidos; portanto, esse defeito congênito e inextirpável das antologias persiste também aqui. Reconhea-se também, honestamente, que o único defeito de Henriqueta Lisboa como extraordinária poetisa é o de deixar-se enredar pela beleza sonora de palavras raras - galeios, camândulas delíquios, cerce, etc. - que, no entanto, em vez de dotar de uma precisão cristalina seus poemas lhes dão, ao contrário, um peso de pedantismo adiposo, de carnosidade barroca totalmente dispensável. Pois é justamente quando usa as palavras mais simples do idioma que Henriqueta Lisboa toca mais sensivelmente a atmosfera poética, com a espontaneidade da música, da natureza, do canto e do pranto humano que possivelmente nenhum poeta brasileiro vivo articulou com tanta leveza, graça e profundidade de meditação filosófica.

Henriqueta Lisboa, com as facetas tão variadas do seu breviário poético, no entanto, mantém várias linhas de continuidade interior: o misticismo pudico, sussurrante, a humanização da paisagem através do reconhecimento de suas feições semelhantes às do ser humano em júbilo ou luto, o olhar voltado sempre para tudo que é humilde e pequenino, em atitude muito próxima da poesia ensimesmada de Teixeira de Pascoais, uma inédita compreensão da beleza da Itália em sua celebração das cidades de Roma, Florença, Veneza e Trieste (além de sua estupenda incorporação de vários Cantos do Purgatório da Divina Comédia de Dante para o português). Mas o que sobressai mesmo sobre todos os demais temas é a onipresença da morte. Para a poetisa que em seu apogeu se alça à altura de insuperável voz poética brasileira naquilo que a poesia tem de debussyanamente reticente e refinado, a morte não aparece como um inimigo temido, mas como a fímbria, para nós incompreensível, de um mistério de aparição tão imprevisível quanto já marcada na parada de uma veia ou na interrompida batida de um coração. A maravilha extasiante do seu estilo de uma personalidade de timbre próprio jorra, luminosa, de um poema exponencial como o intitulado:

Restauradora

“A morte é limpa.

Cruel mas limpa.

Com seus aventais de linho

Tem punhos ágeis e esponjas.

Abre as janelas, o ar preciita-se

inaugural para dentro das salas.

Havia impressões digitais nos móveis,

Grãos de poeira no interstício das fechaduras.

Porém tudo voltou a ser como antes da carne

e sua desordem.”

Essa espiritualidade recorda em vários pontos o famoso soneto de Rilke em que as lavadoras de cadáveres conversam animadamente enquanto esfregam o morto e o vestem, maquinalmente: a morte é corriqueira, banal. A poetisa mineira vai além: como no poema denominado “O Mistério” e que começa constatando:

“Na morte, não. Na vida,

Está na vida o mistério.”

A morte não desperta o horror, mas o sentimento do sagrado, do umbral indecifrável para o entendimento humano. A própria passagem do tempo, a pesar no corpo, é um prenúncio desse delta final em que a vida desemboca, foz inescrutável, como ela diz, com majestade soberba nos versos singelos de “Maturidade”:

“Maturidade, sinto-me na polpa

dos dedos: abundante e macia.

Saturada de sábias

doce-amargas amendôas.

És o tálamo para a morte,

o velame no porto.

Sob teu musgo, a pedra.

O silêncio em teu seio é prata

a sofrer o lavor

minucioso do tempo.

À tua sombra de pomar

ressoam passos do eterno

entre folhas: do eterno.

Ó pesado momento,

Ó bolo cálido!”

Essa presença constante da morte em todos os interstícios da vida não dá, porém, ao seu canto o tom de um lamento nem de uma celebração: como um pintor impressionista que pintasse o fugidio com palavras, Henriqueta Lisboa capta a fronteira indefinida da penumbra entre a última respiração e o repouso com elementos de uma fragilidade simbólica: borbolets, espelhos, véus, tudo que faz fronteira entre o eterno e o passageiro. A morte pode surgir sob uma de suas frequentes máscaras - a da destruição - como uma tempestade que abate um jardim desamparado. É o espanto contido, sem exclamações, da fria averiguação da morte insuspeitada em sua insidiosa violência:

“Entretanto a flor mais suave,

como que ausente do mundo

na sua pureza lívida,

era um pequeno cadáver

que todo o jardim chorava.”

Já no célebre poema “O Véu”, de perfeita confecção poética, o traço quase imaterial da fazenda tênue, transparente, que amortalha os mortos, divide os limites entre os que ainda agitam, refletem, perpassam e os que já chegaram a seu término inexorável, límpido e secreto. Neste poema - dos mais sublimes da língua portuguesa de qualquer época - alia-se à musicalidade rítmica a simplicidade de sua linguagem que transmite fielmente a indagação filosófica sobre o além e o aquém-túmulo.

Há o introito semelhante à frase melancólica de um depoimento inicial feito por um instrumento de cordas de um quarteto meditativo de Brahms: (“Os mortos estão deitados e têm sobre o rosto um véu. Um tênue véu sobre o rosto”), para gradualmente o véu assumir o significado de um cinzel com que a morte esculpe o seu domínio tranquilo e definitivo. Gradualmente também, o véu cresce de ressonância: é o pano que colheu o rosto ensanguentado do Cristo na Via-Crucis nas mãos de Verônica, é a máscara de quem passou pelo engano da maya, o véu ilusório da vida para os hindus, é até mesmo a promessa de uma indefinível aurora ara além da existência humana, ficção que o fio inconsútil da morte desata ou derradeira relíquia da vida, rebelião ou resignação perante a paisagem fina importa à carne.

Toda a tessitura poética policrômmica de Henriqueta Lisboa esvoaça em torno da irrealidade do tempo e da realidade, que não fenece nunca, de Deus e os rastros que deixa à sua passagem: o clamor pela justiça e pela liberdade de Tiradentes, a altivez do rei africano que com seu trabalho de escravo compra a sua alforria e a do seu povo na Minas Gerais setecentista, a súplica angustiada do Aleiajdinho em suas horas finais a querer o bálsamo da Bíblia para seu corpo apodrecido pela lepra.

É sintomático notar, todavia, qe o estro social ou épico não faz parte da inspiração melhor de Henriqueta Lisboa. O Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles ofusca qualquer confronto não só com os temas semelhantes abordados, sem força, por Henriqueta Lisboa, como também a poesia social dos miseráveis nordestinos eternizados por João Cabral de Melo Neto dispensam qualquer comentário mais demorado sobre esse aspecto que nos parece insuficiente da poesia da poetisa mineira.

É nos versos cuja singeleza esconde um sem-número de virtudes raras - graça, leveza, profundidade filosófica do dizer poético, musicalidade e ritmo cativantes - que ela se revela uma poetisa absolutamente inigualável depois da morte de Cecília Meireles. O seu clima é o de tudo que é recôndito, miniaturesco, de uma delicadeza quebradiça, que escapa ao olhar vulgar e grosseiro. A sua comoção maior está na contenção absoluta do sentimento de perda, presente em poemas que nada têm de piegas, mas ao contrário se alçam a alguns dos momentos mais camerísticos da literatura brasileira. É verdade que pelo menos um poema circunstancial, provavelmente inspirado no massacre de Federico García Lorca pelo fascismo franquista, permanecerá rutilante como um preito de homenagem de uma sensibilidade que saúda a outra, tombada em terreno de aço e fogo, longe do Olimpo de seus deuses:

“Um poeta esteva na guerra

dia a dia longos anos.

Participou do caos,

da astúcia, da fome.

Um poeta esteve na guerra.

Por entre a neve e a metralha,

conheceu mundos e homens.

Homens que matavam e homens

que somente morriam.

Um poeta esteve na guerra

como qualquer, matando.

Para falar da guerra

tem apenas o pranto.”

Essa concissão é o máximo que a poesia permite de familiaridade de Henriqueta Lisboa com a realidade circundante. Diáfana, etérea, grifando com palavras gravuras indeléveis de Roma, “peso e transcendência de mármore/ na própria carne transitória”, de Veneza, “Nenhum apoio contra o tempo… / Tudo se esfolha à superfície/ para restar em nostalgia”, Henriqueta Lisboa é, sem confronto possível, a mais pura compreensão da Itália já guardada em vinhetas translúcidas de beleza e palpitação emotiva, atingida por uma sensibilidade brasileira. Pois se os versos de Cecília Meireles sobre o cemitério dos “pracinhas” brasileiros que jazem enterrados em Pistóia, perto de Florença, sacrificados em defesa da democracia, comovem fundamente, a paisagem toscana aí, é mera moldura para a sua litania ou nênia de contagiante tristeza. Henriqueta Lisboa, não: como se diria em italiano immedesimasi, torna-se ela mesma tão inconfundivelmente identificada com a visão soberba da Itália que esta passa, intocada, para o leitor, através de uma lente privilegiada.

Este cinquentenário de uma devoção ritual à poesia frequentemente maior e perene de Henriqueta Lisboa não passaria, em um país civilizado, em branco. Para a maravilhosa artesã de uma túnica imaterial de lirismo e soluço abafado, resta a grandeza atemporal da projeção de uma sensibilidade refinadíssima sobre a tela indestrudível de um idioma.

Ironicamente, a glória de Henriqueta Lisboa, como a de Baudelaire, de Leopardi, de Hoelderlin, será talvez póstuma. Quando houver atenção e merecimento, surgirão os leitores que reconhecerão nela e limpidez de um testemunho intrinsecamente infenso à fugacidade. Mineira no que Minas tem de mais modesto, mais recatado, menos espalhafatoso, mais sutil e etéreo, Henriqueta Lisboa dá ao Brasil neste raro cinquentenário poético uma como que antevisão de si mesma, aquela lembrança plotiniana do ser que não se esqueceu da sua condição prístina ou, nos termos de Heidegger, em suas nobres e inesquecíveis plavras sobre a poesia de Hoelderlin:

“E contudo uma meditação suficiente e persistente chega à convicção: a metafísica jamais proporciona, por sua essência, ao habitar humano a possibilidade de se estabelecer propriamente na paragem, isto é: na essência do esquecimento do ser. É por isso que o pensamento e a poesia devem retornar lá onde, de certo modo, já sempre tinham estado, e, contudo, nada construíram. Nós, contudo, somente podemos preparar o habitar naquela paragem através do construir. A um tal construir quase que não lhe é permitido pensar na edificação da casa para o Deus e das moradas para os mortais. Ele deve contentar-se em construir à margem do caminho que conduz de volta à paragem da recuperação da metafísica e que, por isso, permite que o percorramos e exploremos o que é conveniente e está destinado à superação do niilismo”.

Nas palavras sinônimas de Henriqueta Lisboa, entre vários trechos de sua fulgurante inspiração clarividente:

“Além da Imagem: trama do inefável

para mudar contorno definido.

Ou não bem definido. Além da Imagem

treme de ser lembrança o que era olvido.

Após o letargo em tapetes

um meio despertar a franjas.

Formas moventes de antecâmara

ao pequeno vai-vém do zéfiro

espreitam seja assim a lua o sol.

Dentro dos ninhos e das grutas

os animais são lentos e confusos.

O homem no entanto entre os demais

em sendas da memória para o anelo

como que se premune o anônimo

exercício de ser para ainda ser.

Aleluia - talvez exista um novo reino

para muito além das fronteiras

do mineral, do vegetal, do animal.

Talvez o desaguar do oceano

salpicada de primevas espumas

outra aurora o faça. Talvez.

Aleluia por esse talvez. Aleluia.”

É portanto só aparente a dicotomia entre o ser, fugidio, e a lembrança do Eterno na poetisa mineira. Entrelaçam-se os momentos concretos de observação fulminante:

“Mármore seco, nenhum pranto

umedeceu teu corpo liso.

Foi teu destino a solidão,

companheiro perdido.

Se alguém chorasse acaso

sobre teu compacto silêncio

ao sol secariam as lágrimas

cujo saber desdenhas.”

E os momentos em que a poetisa antevê, lucidamente, como na visão final que seu amado Dante Alighieri tem do firmamento movido pelo amor, a perenidade do animado a vivificar o inanimado e recordar a origem divina de ambos, o ausente e a aceitação absoluta do amor que vence o olvido e a morte:

“Fidelidade”

“Ainda agora e sempre

o amor complacente

De perfil de frente

com vida perene.

E se mais ausente

a cada momento

tanto mais presente

com o passar do tempo

à alma que consente

no maior silêncio

em guardá-lo dentro

de penumbra ardente

sem esquecimento

nunca para sempre

Doloridamente.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1979) 2022. “Na singeleza dos versos, a revelação de uma poetisa inigualável .” In Poetas brasileiros contemporâneos, edited by Fernando Rey Puente, 4:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.