O mestre Gadda

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Isto é-Senhor, 1989/01/11. Aguardando revisão.

Como de costume, uma geração depois de publicada, uma obra-prima estrangeira é lançada no Brasil. O Conhecimento da Dor, do escritor italiano Carlo Emilio Gadda (Editora Rocco), será talvez o livro mais acessível desse Guimarães Rosa e Joyce da contemporânea literatura da Itália. Gadda, em escritos pessoais, já se referiu enfaticamente às influências que recebeu de Joyce, da sua mistura de dialetos e provérbios ingleses e irlandeses distanciados por séculos, utilizada na composição de seu Ulisses e do seu Finnegan’s Wake.

Carlo Emilio Gadda refere-se até mesmo aos poetas metafísicos ingleses do Seicento que uniam em sua poesia o hino amoroso, as meditações religiosas e a menção dos objetos mais corriqueiros. Esta é a profunda revolução que ele traz a uma literatura de tom clássico, elevado, em alguns casos solene. Gadda, loso secundado pela maestria de uma Elsa Morante que em L’Isola de Arturo tece o romance com vozes dialetais napolitanas, foi porém o primeiro a urdir um complexo labirinto de crime e altíssimas indagações filosóficas em seu famoso e, cremos, intraduzível Quer Pasticciaccio de Via Merulana. Este livro único usa quatro dialetos – o vêneto, o de Roma, o napolitano e o abruzzese – para caracterizar personagens diferentes, além de enxertar no texto termos raros da teologia, da botânica, da engenharia mecânica, da astronomia, da medicina etc, a surgirem aqui e ali em diálogos, em digressões eruditas. Em um de seus romances anteriores, L’Adalgisa, ele já demolira a hipocrisia, a superficialidade e o vazio espiritual da burguesia milanesa, suas motivações mesquinhas, cruéis, de obter o luxo, segurança financeira e satisfação erótica por quaisquer meios, não importa se monstruosos.

O Conhecimento da Dor já tropeça no título, que no original italiano é La Cognizione del Dolore: mas se um escasso número de leitores se propõe a “descobrir” a genialidade de Gadda com essa simplificação-chamariz, quantos se canditariam realmente a ler A Cognição da Dor? Pazienza! Por trás de cada linha de sátira se esconde um moralista, diz-se. Gadda é demasiado niilista e amargo para fulminar qualquer sociedade humana com receitas aptas a “melhorá-las”.

Embora não se furte a fustigar o fascismo de Mussolini a arrebanhar idiotas em suas manias grotescas de grandezza… Ele, como o irascível e hermético Gonzalo, de O Conhecimento da Dor, despreza excessivamente a insanável mediocridade humana e a considera incorrigível, como um dado da natureza: que sermão moral podemos pregar a um tigre ou a uma boa constrictor? Tudo é como é e não há alterações possíveis, mesmo se desejáveis. Seu romance se passa em um país mítico da América do Sul, o Maradagal, que pouco se parece com a Argentina, onde ele trabalhou durante dois anos, depois da Primeira Guerra Mundial. Logo flui sua verve satírica: o Maradagal surgira em 1924, de uma guerra com seu vizinho, Parapagal: “Os dois países afirmam ter ganho a guerra e jogam um sobre o outro toda a terrível responsabilidade do fato”. Parece uma alusão à Primeira Guerra Mundial, na qual ele foi feito prisioneiro dos alemães, enquanto a paisagem do Maradagal se assemelha muito à Brianza do Norte da Itália. O absurdo quase surrealista rege essa republiqueta povoada de europeus que para lá emigraram. Na pasmaceira do lugar, com seus raros índios emborcados nas esquinas, bêbados até não mais poder, sua multidão de pobres que sai cotidianamente para as usinas e fábricas, Gadda capta um traço típico da desordem sul-americana: “Uma vez que na América do Sul a boa reputação ou a notoriedade de um funcionário nem sempre dependem da inutilidade dos seus encargos”…

Hilariantes são as descrições da mistura incongruente de estilos arquitetônicos em Maradagal, a ponto de que certas moradias “tinham algo de um templo e de uma fábrica, e também ficavam no meio entre a Alhambra e o Kremlin…” passado por palácios que inesperadamente colocavam a pudica Rainha Victória (da Inglaterra)… esparramada numa otomana turca (sic). Supersticiosos, os habitantes do lugarejo creem que o piano é um instrumento extremamente perigoso, capaz de atrair raios e que deve ser jogado rumo ao jardim aos primeiros sinais de tempestade próxima…

Em meio a velhas dotadas do poder de vidência e adivinhação de tudo que é oculto, do inevitável fantasma do lugar e do tributo ao Vate que escreveu 50 volumes de sua imortal epopeia à Pátria, a vida monótona corre, entre mexericos e uma enxurrada de disse-me-disse.

Afinal, o fidalgo misantropo, misógino, Gonzalo, que morava sozinho com a mãe, já idosa, naquela casa decadente e imensa, causava horror ao vilarejo. Pois não se dizia que era um glutão grosseiro, que devorava tudo exigindo porém talheres, toalha de mesa e copos refinados em tabernas frequentadas pela escória da aldeia? E, Deus!, cochichavam as lavadeiras entre si, como era raivoso, como era bruto e mau, malíssimo, com a pobre mãe, de cabelos brancos, trôpega, em lágrimas, a levar-lhe, escada acima, escada abaixo, o café, os jornais, os livros! E ele trancado em casa, a imprecar contra a ralé de tamancos, incapaz de condoer-se da miséria alheia, vendo em cada pedinte um ladrão de seus bolsos recheados de herança ainda! Sovina, ainda, por cima, antipático, não saudava ninguém cortesmente! O bondoso médico local é chamado para diagnosticar o mal que corrói aquele arredio insolente, isolado de todos por sua própria arrogância sem limites e amado, idolatrado, somente pela velha mãe que ele, monstro!, repele e, dizem, maltrata com palavras e gestos.

Inesquecíveis também são as cenas de solidão a dois, do filho enigmático e ensimesmado e a mãe amantíssima, carente de um olhar, de um gesto do filho que tanto ama, abandonada com seus achaques e suas melancolias perenes: “Vagueava pela casa: e às vezes entreabria as venezianas para que o sol entrasse no grande aposento, A luz encontrava então suas vestes humildes, quase pobres: os pequenos remédios com que pudera medicar, resistindo ao pranto, o hábito humilhado da velhice. Mas o que era o sol? Que dia trazia? Sobre os latidos da escuridão. Ela conhecia suas dimensões e âmago, a distância da terra e dos outros planetas todos: o ir e revolver-se dele; muita coisa aprendera e ensinara: os matemos e as quadraturas de Kepler que perseguem na vacuidade dos espaços sem sentido a elipse da dor desesperada. Vagueava pela casa, com oque procurando a misteriosa senda que a levaria a encontrar alguém: ou talvez apenas uma solidão, despida de qualquer imagem. Da cozinha já sem fogo aos quartos já sem vozes, ocupadas por raras moscas. E ainda via a campina à volta da casa, e o sol.”

A dor sem remédio do fidalgo misantropo seria a confissão de que ele era “diferente” dos demais? Murmurava-se que ele nunca quisera casar-se, não havia menção de amizades femininas em sua vida. Homossexual ele próprio, Gadda teria espelhado em seu personagem com o qual mais se confunde, deliberadamente, o drama da marginalização das minorias eróticas em nossas sociedades hipócritas, ignaras e intolerantes? Não creio. Seria restringir demais um sentimento de derrota diante da vida, a derrota de quem não vê nem fé nem lógica nem transcendência numa efêmera e dolorosa passagem logo sulcada pelas rugas, pela perda da memória e sobre a qual, indiferente, triunfa a morte. Algumas palavras eruditas e citações em latim não empanam a compreensão do que subjaz a este esplêndido, pungente Conhecimento da Dor. Seria antiético revelar ao leitor como O Conhecimento da Dor se avoluma, da segunda parte em diante. Se a primeira fora um adágio preparatório, a final é um crescendo indescritível e que o leitor terá o privilégio de vivenciar, entre a comoção e a humana, tácita compreensão da condição em que submergimos todos, nesta breve e tormentosa passagem do berço ao túmulo.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “O mestre Gadda .” In Perscrutando a alma humana: A literatura italiana do pós-guerra, edited by Fernando Rey Puente, 8:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.