Nota sobre o livro A Arma da Casa de Nadine Gordimer

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Caros Amigos, n.39, 2000/06. Aguardando revisão.

Há muitos anos não leio um livro tão perfeito: A Arma da Casa, da magistral autora sul-africana Nadine Gordimer (Coleção Prêmio Nobel, Companhia das Letras). Depois de terminar a leitura de Memórias de uma Sobrevivente, da também sul-africana Doris Lessing, pelos temas que aborda, julguei apressadamente que nada mais se poderia escrever de tão profundo sobre o esfacelamento de uma sociedade. Engano. Nadine Gordimer focaliza, destemidamente, a África do Sul de hoje, com uma igualdade de raças pelo menos no papel e um multiculturalismo efervescente, afastado o monstruoso apartheid que separava brancos e negros numa forma de campo de concentração ara todos os que não fossem brancos.

E atualmente? A mestria da autora permite-lhe visualizar todos os personagens sob vários pontos de vista: o crime cometido – inesperadamente – numa família branca, de tendência liberal, detona o romance inteiro. Os pais do jovem assassino são uma caricatura do “bom comportamento” dos brancos depois da nova bandeira, da mudança radical havida no país? O advogado negro, imbuído de idealismo, será aceito, mesmo sendo gay?

Nadine Gordimer, sem exagero, desenha-se como uma Dostoiévski de nossos dias, buscando as raízes do crime, do preconceito, do sofrimento, não na aparência da mudança política e cultural de uma sociedade, mas como efeito de uma origem remota, entranhada na própria alma humana desde tempos da pedra lascada. Se não fosse uma aposta precipitada, eu diria, eu afirmaria que este é o livro do ano, que comprássemos apenas este para sentir as palpitações do mundo da Bósnia, dos terremotos no Japão, das guerrilhas em Serra Leoa, do Líbano e também do Brasil, que ainda busca seu rumo, distante da política, da corrupção, do racismo, do desleixo governamental, da parte podre – mas não toda – do Brasil que caminha estonteado em meio à ruína de seus problemas e do caos mundial. Um livro eletrizante que demonstra, cabalmente, que a literatura não só está viva, como se põe à frente de todas as tecnologias que a desafiam como consciência mais funda do ser humano trilhando um novo milênio.

Reuso

Citação

BibTeX
@incollection{gilson ribeiro2021,
  author = {Gilson Ribeiro, Leo},
  editor = {Rey Puente, Fernando},
  title = {Nota sobre o livro A Arma da Casa de Nadine Gordimer},
  booktitle = {Racismo e literatura negra},
  series = {Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro},
  volume = {1},
  pages = {undefined},
  date = {2022},
  url = {https://www.leogilsonribeiro.com.br/volume-1/4-literatura-africana/15-nota-sobre-o-livro-a-arma-da-casa-de-nadine-gordimer.html},
  doi = {10.5281/zenodo.8368806},
  langid = {pt-BR},
  abstract = {Caros Amigos, n.39, 2000/06. Aguardando revisão.}
}
Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (2000) 2022. “Nota sobre o livro A Arma da Casa de Nadine Gordimer .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.