Nota sobre o livro Fala, Amendoeira

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1970-9-11. Aguardando revisão.

Transplantado para o Rio de Janeiro, o itabirita Carlos Drummond de Andrade levou na sua bagagem imaterial um segundo eu mineiro. Ao lado de sua grande poesia - meditação para orgão, que engloba todos os instrumentos - ele viu desabrochar sa crônica quase diária da cidade - um cravo modernizado, dotado de notas agudas para a ironia e graves para um humor auto-ironizante.

É dessa melodia menor, mas da mesma origem, que brota essa amendoeira falante, essa coleção de crônicas deliciosas, divertidas, ágeis e participantes da vida do dia a dia da metrópole batizada de maravilhosa, desde os sambas até o erudito André Malraux, árbitro das artes na França.

A crônica tem no Brasil uma variedade tropical de talentos: existe a verve cearense de Raquel de Queiroz; o encontro da poesia na vida diária de uma Cecília Meireles; a graça à la Art Buchwald de um Carlinhos de Oliveira. Mas Carlos Drummond de Andrade resume todas essas qualidades dispersas. E cria até uma crônica nova: a crônica-conto, perfeita como obra literária.

É o caso qda que inicia a série intitulada “Mentiras”: Garbo: Novidades. Talve não haja neste país tão rico em cronistas, desde Pero Vaz de Caminha, outra mais espirituosa, mais fina, mais encantadora. Porquê Carlos Drummond de Andrade inventa uma viagem imaginária de Gerta Garbo a Belo Horizonte, em 1929, quando a luta pela sucessão do Presidente Washington Luís precedia a ditadura getuliana. Quando a maravilhosa Diva de Rainha Cristina e Ana Karenina era o desvario de todos os cinemófilos mineiros, hindus, groelandeses, etc.

Seria como contar o fim do filme revelar ao leitor o que acontece quando Greta Garbo vem, incógnita, a Belo Horizonte - declarando, logo ao descer no trem: “I want to be alone” sua frase clássica naquela voz inimitável.

Mas o leitor não tem só esta pequena obra-prima da crônica-conto, da crônica poética e filosófica nesta deliciosa Fala, Amendoeira.

Há uns diálogos saborosos de duas amazonenses num ônibus, que falam dos pratos de sua terra, desde o pato no tucupi até ovinhos de tracajá.

Há a hilariante metamorfose de móveis medíocres, construídos para a prefeitura “de uma ampla cidade de peregrino horizonte”, que passam a ornar e servir na casa de uma senhora “que bem carecia de tal aparelhagem, pois sua indústria, um tanto quanto hoteleira, exigia grande número de cômodos equipados justamente com peças de casal”.

Há o mistério da bola, quando um jogo de futebol é transmitido no estilo da Odisséia de Homero e quando o poeta interpreta a estética dessa paixão popular: “a estética do torcedor é inconsciente; ele ama o belo através de movimentos conjugados, astuciosos e viris, que lhe produzem uma sublime euforia, mas se lhe perguntam o que sente, exprimirá antes uma emoção política. Somos fluminenses ou vascos pela necessidade de optar, como somos liberais, socialistas ou reacionários”. E até a pelota conduzida por Pelé torna-se um símbolo de civilização e de anseio de paz do povo: “O objeto de couro transpõe uma linha convencional, e o que se chama de vitória aparece aos olhos de todos com uma evidência corporal que dispensa a imolação física. Não podemos acusar de primitivismo aos que se satisfazem com este resultado ideal”.

Imprevisível, brilhante, extraindo do cotidiano aparentemente banal e prosaico veios de poesia filosófica e de um estilo conciso e admirável, Carlos Drummond de Andrade, que já era poeticamente Fazendeiro do Ar, torna-se com estas crônicas, esgotadas há oito anos e agora em 4a edição, um Garimpeiro da Beleza e da Percepção Profunda ao penetrar o fluxo da vida diária e encontrar nela tanto encanto, malícia e sabedoria ocultas.

Fala, Amendoeira exige urgente um “Compre, leitor” como melhor conselho pra quem quer percorrer um Rio de Janeiro mágico nas mãos deste autor que talvez não saiba ser da mesma linhagem dos fantásticos contos de um Jorge Luís Borges.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1970–9AD) 2022. “Nota sobre o livro Fala, Amendoeira .” In Poetas brasileiros contemporâneos, edited by Fernando Rey Puente, 4:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.