A África em lendas e contos. Lembrando nossa História

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1982/1/30. Aguardando revisão.

Determinante na formação da cultura popular brasileira, os negros para aqui trazidos da chamada África Negra – a região situada ao sul do deserto do Saara e que exclui toda a parte Norte, arabizado, do Continente, bem como a parte sul, hoje feudo do odioso regime racista do apartheid sul-africano – raramente chegam até nós manifestações culturais do Congo, da Nigéria, do Quênia, da Tanzânia. Embora a sua parte antropológica seja tênue, apresentando a cultura negra com certo paternalismo e desejando orientá-la segundo critérios europeus de valor, como por exemplo ao tentar ressaltar a “antiguidade” no tempo das civilizações do Benin e outras, no entanto, Contos de Lendas da África (Editora Melhoramentos) de autoria de Margret Carey nos traz um apanhado genérico interessante sobre um dos aspectos – o da tradição de relatos orais de contos, que remonta a períodos autóctones, quando a África Negra ainda não estava codificada nem pela colonização dos missionários cristãos nem pela conversão de vultosos segmentos de suas populações à religião muçulmana, imposta pelo Islã conquistador.

Com o advento caótico da tecnologia ocidental e do mundo comunista, as sociedades predominantemente agropastorais dessa parte da África sofreram uma perda de sua substância autêntica, tendendo a acelerar e deturpar o ritmo de vida africano, como diz a autora, embora de modo superficial, “tentando assimilar em poucos anos aquilo que a civilização europeia levou de cinco a oito séculos para desenvolver”. O que já mostra uma angulação viciada: a de impor os critérios eurocêntricos como objetivos que a África “atrasada” deva atingir. Muito mais relevante para o leitor teria sido um rápido resumo da história ignominiosa da partilha do território e dos habitantes da África Negra, na Conferência de Berlim, quando as potências dominantes da Europa anterior a 1945 retalhavam tribos e fronteiras, impondo arbitrariamente embriões de Estados, colônias inglesas, belgas, francesas etc. que deveriam subsistir como futuras nações modernas, infensas às tradicionais rivalidades tribais. A importância da demarcação dos territórios forma a manchete de parte do nosso século, com secessionismo dos ibos contra os iorubas, por exemplo, na luta fratricida da Nigéria, na província de Biafra.

Aimé Césaire, o grande poeta antilhano negro, que concebeu a poesia da négritude, logo abraçada pelo senegalês, mais tarde presidente de seu país, o poeta culto, europeizado, Léopold Senghor (uma corruptela do português Senhor, tornado sobrenome naquele país de língua oficial francesa), constitui uma tentativa de retomada da consciência autóctone da África Negra. Mas é seu um dos versos mais amargos e pungentes da poesia contemporânea, quando ele, entre um lamento e um muxoxo de desprezo, descreve os negros como “aqueles que nada inventaram”: nem a penicilina nem o avião, nem a televisão nem a bomba atômica, nem o computador nem o trem ou o navio a vapor. Estudos mais profundos, de religiões comparadas, levadas a cabo principalmente na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, revelam a afinidade, até hoje insuspeitada mas hoje claramente documentada, entre as religiões negras da África e a mitologia da Grécia clássica. Grande parte dessa cosmogonia de deuses, em suas relações com os humanos, conservou-se no Brasil, com seu acervo de cerimônias religiosas e seu panteão umbandista baiano. Nada disto o leitor encontrará, infelizmente, nesta obra feita mais com o intuito de “justificar” os africanos do que propriamente apresentá-los sem comparações ridículas com a Europa. Para os africanos, como para nós brasileiros, pouco importante é a origem cronológica de um dado cultural: as lendas populares que contam – em termos europeus – apenas 500 anos não nos interessam por sua relativa antiguidade mas pelo que revelam da psicologia africana – cujo traço mais interessante é o da originalidade com que, ao contrário de meras “estórias”, homens, deuses e animais convivem o dia-a-dia, de forma muito semelhante às fábulas de origem índia ou africana transplantadas para o Brasil. Se aqui, devido às tradições indígenas, o jabuti e o cágado são mestres de esperteza e finórios malandros, no que restou da África pré-colonialista a tartaruga e a lebre são símbolos da argúcia dos mais fracos que vencem a força bruta do homem e de outros animais de maior porte. Infelizmente, com o advento do domínio árabe a vastas partes do território negro, ao sul do Saara, houve uma distorção mutiladora: o contador oral de histórias profissionalizou-se ao se dedicar a entreter as multidões, em sua maioria analfabeta. No entanto, a linha geral da história contada africana sofreu menos: “As histórias não são usadas como veículo para expressar o desejo de auto-realização, a injustiça é aceita, o herói nem sempre triunfa e os crimes podem passar sem castigo. Esta última característica aplica-se principalmente às histórias populares que têm por herói um malandro. Um deles, Kwaku Ananse, de Gana, homem e aranha ao mesmo tempo, é sobejamente conhecido”. Em todo o continente repete-se as aventuras que têm por protagonista a tartaruga e a lebre (cognome do Coelho Brer). “Seria privar o leitor, porém, do encanto que estes relatos só aparentemente simples mas, na realidade, profundamente filosóficos, oferecem, não transcrever alguns de seus melhores momentos”.

(História dos hotentotes que, junto com os bosquímanos, constituem os mais antigos sobreviventes da raça africana.)

“Conta-se que certa vez a Lua enviou um inseto aos homens, recomendando-lhe: Vá até eles e diga-lhes: Assim como eu morro e depois renasço, assim vocês morrerão e depois ressuscitarão!”

O inseto partiu com a mensagem, mas, na viagem, foi apanhado pela lebre, que lhe perguntou: “Quem é você?”

O inseto respondeu: “A Lua me enviou aos homens como mensageiro para dizer-lhes que, assim como ela morre e depois renasce, assim eles morrerão e não renascerão”.

Depois a lebre voltou à presença da Lua e disse-lhe o que havia dito aos homens. A Lua ficou furiosa, respondendo: “Como você ousa dizer aos homens uma coisa que eu não disse?”

E assim falando apanhou um porrete e golpeou o nariz da lebre. Desde esse dia o nariz da lebre ficou fendido, mas os homens continuam a acreditar naquilo que ela lhes disse”.

A fina ironia da crendice estulta dos homens, o elemento mágico como parte “natural” da vida formam um elo unitário entre todas as regiões culturais da África Negra, mas a civilização, como nós preconcebidamente a rotulamos de tal, eclode com mais amplidão e mais fundo embasamento no tempo na região da África Ocidental, que desce pelo litoral, desde o Senegal, passando pela Guiné, Serra da Leoa, Libéria, Costa do Marfim, Ghana, Daomé, até atingir a Nigéria e Camarões. Área de intensa presença europeia – principalmente holandeses e portugueses, cujas fortificações dos séculos XV e XVI ainda existem – o comércio de grãos, de marfim, de outro estendeu-se, por iniciativa árabe logo seguida pelos colonizadores rapaces europeus, ao nefando comércio escravagista. Exilados à força, e com a conivência de chefes tribais africanos que vendiam os prisioneiros de tribos vencidas como botim de guerra aos mercadores brancos, esses africanos de compleição robusta, altos, saudáveis, despertaram a cobiça dos europeus estabelecidos nas Caraíbas em “importá-los” como força escrava. Ora, os cultos ancestrais dessas regiões ricas não tardaram a se aclimatar no solo das Américas, como vudu do Haiti: toda uma religião animista, que inclui o culto dos ancestrais, a visão mágica da vida, o comércio com deuses influenciáveis pelas oferendas humanas, refletiu, no entanto, algo de mais profundo e mais autenticamente inerradicável, as sociedades secretas dessa parte da África litorânea. Os rituais são a tônica dessas sociedades, como a Sociedade do Leopardo, que chegam ao assassínio, embora a maioria das sociedades se assemelhe às maçonarias, a sindicatos de mútua proteção, ou clubes de benefício recíproco em que a riqueza de poucos é compartilhada pela comunidade dos pobres numerosos. Outras seitas, como os bundos ou porôs, iniciam os jovens de ambos os sexos na vida adulta, zelam pela manutenção da lei e da ordem, regulam a pesca e a colheita. Uma das riquezas artísticas dessas culturas é constituída pelas máscaras, das mais variadas concepções e finalidades, no entanto as máscaras – que por via indireta fecundaram as artes plásticas da Europa Ocidental no quando Les Demoiselles d’Avignon de Picasso entre outros numerosos exemplos – são apenas a parte mais conhecida de uma estatuária abundante. As cabeças de terracota encontradas em Nok, no norte da Nigéria, datam, segundo os testes de radiocarbono, de cerca do ano 250 antes de Cristo, enquanto a tradição de uma variedade de escolas de utilização artística do bronze “foi trazida de Ife para Benin por volta do ano 1400 depois de Cristo, a pedido de Obá Oguola de Benin, em 1897, fruto em parte da estrutura de organização tribal, com os Estados-nações já avançados como Achanti, Daomé e os reinos dos iorubas Benin e Nupe. Da Serra Leoa provém a fábula poética e simbólica intitulada Por que a Cobra muda de Pele :

“No princípio a morte não existia. A morte vivia com Deus, e Deus não queria que a morte entrasse no mundo. Mas a morte tanto pediu, que Deus acabou concordando em deixá-la partir. Ao mesmo tempo fez Deus uma promessa ao homem: apesar de a morte ter recebido permissão para entrar no mundo, o homem não morreria. Além disso, Deus prometeu enviar a homem peles novas, que ele e sua família poderiam vestir quando seus corpos envelhecessem.

Pôs Deus as peles novas num cesto e pediu ao cachorro para levá-las ao homem e sua família. No caminho, o cachorro começou a sentir fome. Felizmente, encontrou outros animais que estavam dando uma festa. Muito satisfeito com sua boa sorte, pôde assim matar a fome. Depois de haver comido fartamente, dirigiu-se a uma sombra e deitou-se para descansar. Então a esperta cobra aproximou-se dele e perguntou o que é que havia no cesto. O cachorro lhe disse o que havia no cesto e por que o estava levando para o homem. Minutos depois o cachorro caiu no sono. Então, a cobra, que ficara por perto a espreitá-lo, apanhou o cesto de peles novas e fugiu silenciosamente para o bosque.

Ao despertar, vendo que a cobra lhe roubara o cesto de peles, o cachorro correu até o homem e contou-lhe o que acontecera. O homem dirigiu-se a Deus e contou-lhe o ocorrido, exigindo que Ele obrigasse a cobra a devolver-lhe as peles. Deus, porém, respondeu que não tomaria as peles da cobra, e por isso o homem deveria morrer quando ficasse velho. Desde então o homem passou a ter um ódio mortal à cobra, e sempre que a vê procura matá-la. A cobra, por seu turno, sempre evitou o homem e sempre viveu sozinha. E, como ainda possui o cesto de peles fornecido por Deus, pode trocar a pele velha pela nova”.

Já a África Oriental, segundo as escavações de Leakey; berço do homem africano aborígene, revela um cadinho de raças que no Quênia de hoje se solidifica numa sociedade multi-racial, na qual entram não só elementos negros, como também brancos e orientais, um pouco à feição do Brasil, não fosse pela miscigenação extremamente tênue ainda existente naquele país do Continente Negro. Em grande parte ainda nômades, segmentos importantes de suas populações são constituídas de pastores das tribos nilo-hamitas como os massais, os suk e os karamodjos. Para algumas dessas tribos, o gado é sagrado, existindo mesmo palavras especiais para designá-lo. Os nandis chegam a tomar cuidado para não misturar carne com leite numa mesma refeição. Costuma-se considerar os massais como o grupo mais aristocrático: são elegantes, orgulhosos e conservam muita coisa do seu gênero de vida original. Os homens dessas tribos usam geralmente muito pouca roupa, enquanto as mulheres trajam longas vestes de couro, usando como adereços espirais de latão colocadas nas pernas, nos braços e no pescoço.

Os homens são circuncidados e iniciados em grupos etários e, eventualmente, tornam-se guerreiros. O guerreiro massai deve matar um leão com sua lança, utilizando apenas uma das mãos, para mostrar sua coragem. Por volta dos trinta anos eles se aposentam, casam-se e tornam-se chefes. O gado constitui a principal riqueza, requerida para a compra de uma esposa. Entre algumas tribos, o sangue, tirado de uma veia do pescoço da vaca, é o alimento favorito dos homens.

Quanto à religião, todas as tribos acreditam num ser supremo, sendo também importante o culto dos ancestrais, que atuam como mediadores. O curandeiro exerce um papel de relevo: pratica adivinhação, faz chover, proporciona fertilidade, aconselha no plantio e decide se os augúrios são favoráveis à guerra. A África Oriental, fortemente cristianizada, arabizada e hoje apresentando um mosaico de opções políticas que vão de um marxismo sui generis de Moçambique ao despotismo recém-deposto de Idi Amin Dada em Uganda até o “socialismo” de feições cristãs protestantes da Tanzânia e Estados extremamente carentes como o Burundi, a Ruanda e o Malawi. Para o Ocidente, reveste-se de dramaticidade, poesia e alegoria a lenda tradicional da tribo baganda, de Uganda, que relata com uma pré-ciência multi-secular, a impossibilidade que os judeus já tinham expresso por meio do “Golem” e a tecnologia moderna por meio do robô humanizado de repetir o ser humano por meios mecânicos, como nos ensina de maneira saborosa e filosófica o relato de Como Walukaga, o Ferreiro, Respondeu ao Rei: “Há muito, muito tempo, havia um ferreiro chamado Walakaga, artesão habilíssimo, o mais capaz de todo o país. Chefe dos ferreiros reais, fazia ele todo tipo de trabalho – enxadas para os lavradores e mulheres, espadas para os homens e guerreiros, foices e machados para cortar as florestas; e, além de tudo, era capaz de fazer lindas figuras de ferro para o rei.

Um dia o rei mandou um mensageiro chamar Walukaga, pois tinha um trabalho muito especial a encomendar-lhe. Walukaga obedeceu de bom grado e, após vestir sua melhor roupa, foi ao palácio do rei, sendo recebido no pátio interno, onde o rei estava sentado para a audiência. Walukaga aproximou-se do rei e fez-lhe uma mesura, tocando o chão com a cabeça. O rei disse então: ” – Walukaga, você é o chefe dos meus ferreiros, o mais hábil de todos. Nenhum deles consegue fazer figuras de ferro tão bonitas como as suas. Mas agora tenho um grande trabalho para você, pois ninguém mais é capaz de executá-lo”.

Dito isto, bateu palmas e alguns criados apareceram com uma grande quantidade e ferro, pronto para ser forjado. O rei continuou:

” – Walukaga, quero que você pegue este ferro e, com o seu martelo, forje um homem para mim. Não quero uma estátua pequena, nem uma estátua de ancestral. Desejo um homem de verdade, que possa falar e andar, com sangue as veias, conhecimentos na cabeça e sentimentos no coração”.

Walukaga escutou o rei com assombro e desespero, mas tornou a inclinar-se e levou o ferro para casa sem esboçar o menor protesto. Sabia muito bem quão absolutos eram o poder e a vontade do rei. Se não conseguisse fazer o que o rei mandava, ele e toda a sua família seriam obrigados a tomar veneno do pote e morrer. A partir desse momento, não teve paz. Por mais que se esforçasse, não sabia nem por onde começar. Visitou todos os seus colegas de profissão, e todos os seus amigos, contou-lhes o seu problema, implorando-lhes para ajudá-lo. Infelizmente, ninguém estava à altura de dar-lhe algum conselho.

Houve, naturalmente, sugestões impraticáveis. Ele poderia tentar fazer uma estátua de ferro oca e colocar alguém lá dentro para fazê-la falar e andar. Mas isso não seria honesto e o rei poderia desconfiar. Ou então, poderia sair do país e ir para outro lugar que ficasse a muitos dias de viagem, fora do alcance do rei, onde ninguém tivesse ouvido falar nele, e ali começar a vida nova, pois a um bom ferreiro nunca falta trabalho. Mas isso significaria deixar seus amigos e parentes a mercê da cólera real.

Um dia Walukaga estava voltando para casa, após ter visitado uns amigos em busca de conselho. No caminho, encontrou um velho conhecido que ficara louco e agora vivia no mato, sozinho. Walukaga não sabia que ele tinha enlouquecido, mas quando o cumprimentou o louco o reconheceu e respondeu-lhe de maneira bastante racional. Sentaram-se, falaram de cousas e lousas e finalmente o louco perguntou a Walukaga o que o estava atormentando. A isto Walukaga, suspirando profundamente, respondeu que estava a braços com um problema desesperador de cuja solução dependia sua própria vida. O louco mostrou-se interessado e pediu-lhe para contar sua história. Walukaga, refletindo que o amigo parecia bastante lúcido e que, afinal, contar sua história não faria nenhum mal, explicou-lhe a ordem que recebera do rei e sua dificuldade para cumpri-la. O louco ouviu-o em silêncio e quando Walukaga, meio sério, lhe perguntou o que fazer, explodiu em gostosa gargalhada.

Disse então ao amigo: “- Se o rei lhe está pedindo algo impossível, você não deve fazer por menos. Vá até o rei e diga-lhe que, se ele realmente deseja que você faça esse homem prodigioso a partir de ferro frio, capaz de andar e conversar, com sangue nas veias, conhecimentos na cabeça e sentimentos no coração, é essencial que você disponha, além do ferro, de um carvão especial para o fogo e de uma água especial para apagar o fogo e evitar que ele arda em excesso. Diga-lhe então para ele mandar todas as pessoas do reino raspar a cabeça e queimar o cabelo até completar mil cargas de carvão, e para elas chorarem até que a água de sues olhos encha cem potes”.

Walukaga ficou muito grato pelo conselho, que era de longe o melhor que recebera, e não perdeu tempo: foi à casa do rei e pediu uma audiência.

Quando foi admitido à presença do rei, Walukaga inclinou-se respeitosamente e disse: “- Senhor, se deseja realmente que eu construa esse homem fabuloso da maneira como me descreveu, preciso de combustível especial e de água também especial para apagar o fogo”. O rei estava tão ansioso pelo homem de ferro, que prontamente concordou em dar a Walukaga tudo o que lhe fosse necessário. Portanto, Walukaga continuou: “- Senhor, mande todas as pessoas do reino raspar a cabeça e queimar os cabelos, até perfazer mil cargas de carvão, para eu poder aquecer o ferro. Depois, mande-as juntar cem vasos de lágrimas, para com elas eu apagar o fogo e evitar que ele arda em excesso. O carvão comum de madeira e a água comum dos poços não se prestam para forjar um homem de ferro”.

O rei enviou mensageiros a todas as partes do reino, exigindo que todo os seus súditos raspassem a cabeça para o carvão e derramassem lágrimas para a água.

Ninguém deixou de atender a essa ordem, pois todos temiam o poder do rei. Mas, depois que todos haviam dado o melhor de si, e todas as cabeças estavam raspadas e todos os olhos secos, o resultado foi de apenas uma carga de carvão e menos de dois vasos de lágrimas.

Os chefes do reino foram até o rei e o informaram desse fato. O rei ponderou por alguns momentos e então mandou chamar Walukaga. Adivinhando o que estava por vir, Walukaga dirigiu-se o palácio do rei, tremendo. No entanto, quando olhou para cima após a reverência, o rei disse-lhe: “- Walukaga, não precisa mais fazer o homem de ferro para mim. Não posso dar-lhe o carvão e a água que me pediu.

Walukaga tornou a inclinar-se até o chão e agradeceu ao rei. Então, olhando para cima disse: “- Senhor, foi por saber que não seria capaz de obter cabelo suficiente para o carvão nem lágrimas suficientes para a água que eu os pedi; o senhor pediu-me para fazer o impossível, ao mandar-me forjar um homem de verdade, capaz de falar e andar, com sangue nas veias, conhecimento na cabeça e sentimentos no coração.

Ouvindo isso, todos os cortesões se puseram a rir e disseram: “-Walukaga diz a verdade”.

O livro, farto em ilustrações, relata mais algumas lendas tradicionais, belas e interessantes, justificando sua leitura até o capítulo final, dedicado aos povos Suailis: neste trecho cessa realmente o interesse por que a cultura africana se desfigura, mera copiadora dos preceitos árabes, impostos pela conversão religiosa forçada aos Islamismos e meramente repetem, sem nenhuma originalidade, preceitos e preconceitos do Corão, sufocando a autenticidade autóctone e tornando supérflua essa parte do livro, como seria inútil um relato bíblico “africanizado” por mentes colonizadas por premissas e metas inteiramente estranhas à mentalidade aborígene da África Negra.

Mas no Brasil de hoje em que, nunca é demais repisar no assunto, como que uma muralha de silêncio se ergue entre a informação existente no mundo e que não chega, por meio de traduções, até nós, em qualquer campo, da ecologia à ideologia e à memória histórica, esse livrinho abre uma fresta minúscula sobre a herança africana e nos deixa entrever quanto de fecundante, para o Brasil que os trouxe, além-oceano, e deve grande parte de sua especificidade como nação, reconhecidamente, ao elemento africano que aqui se aclimatou e com outros segmentos étnicos criou uma cultura que, dia a dia, delineia-se como inconfundivelmente brasileira, fruto de miscigenação como talvez o exemplo único em todo o mundo contemporâneo.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “A África em lendas e contos. Lembrando nossa História .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.