Doris Lessing, a solitária grendeza de uma estilista

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1985/07/20. Aguardando revisão.

Uma das esplêndidas virtudes de Doris Lessing é a de podermos sorrir com a sutileza do seu senso de humor, com a ausência de caricaturas que mostra ao leitor ao meramente descrever personagens ridículos e dominadores. As suas African Stories estão repletas do seu britânico wit, da sua graça sem espalhafato mas sempre irresistível. A Editora Record publica uma nova safra desses contos, Sabores do Exílio, 297 páginas, ambientadas na Rodésia (atual Zimbábue) para onde essa múltipla e fascinante escritora foi, ainda criança, com os pais, e de onde trouxe uma nostalgia da África indelével em todos os seus escritos.

A África deixa, realmente, a sua marca em todos os grandes escritores que a conheceram ou imaginaram: Isak Dinesen, a fazendeira transcendente vinda da Dinamarca para uma propriedade de cultivo na Áfica; Céline, o grande escritor de Voyage au Bout de la Nuit e até escritores mais holywoodeanos como Hemingway e os picos nevados do Kilimandjaro. Sem falar em Joseph Conrad e o Congo personalíssimo que “inventou” em The Heart of Darkness (No Coração das Trevas).

Doris Lessing destes é de décadas muito anteriores a seu Carnê Dourado (The Golden Notebook e à ficção espacial prodigiosa da série da galáxia de Canopus e sua insuperável Shikasta. Mais aparentados com o ciclo em torno de Martha Quest, eles relatam os contatos sociais, o panorama deslumbrante da paisagem africana, o isolamente em que vivem os brancos colonizadores, sua ignorância com respeito às culturas do “nativos”, como os chamam pejorativamente, os movimentos políticos clandestinos que conscientizaram uma minoria branca, da qual Doris Lessing sempre fez parte militante, da monstruosa injustiça que os dominadores ingleses e holandeses praticavam contra os negros aborígenes.

Com uma diferença decisiva: Doris Lessing não quer doutrinar e, sobretudo, ela interpreta os valores africanos não sob um ponto de vista europeu, pretensamente “superior”, nem com uma comiseração cheia de santimônia. Ela os vê como diferentes sociedades tribais que, forçosamente, são incorporadas aos padrões da técnica, da medicina, da eficiência da extradição do minério ou da agricultura ou do gado de corte dos dominadores brancos. As populações negras são analisadas em transição rumo à sociedade única do europeu: racionalista, disciplinada e tendo como meta absoluta o sagradíssimo lucro, o ai, Jesus! de todos aqueles devotos da missa domingueira e da prática diária da mais torpe desumanidade para com os seus semelhantes que não são brancos.

Esta coletânea, na sua atrasada edição em português, parece ter sofrido uma revisão no tocante à tradução. Ou o tradutor não é o mesmo ciclotímico Carlos Evaristo Marques, que recheara Esta era a Terra do Velho Chefe de absurdos, desde o título, modificado incompreensivelmente para A Terra do Velho Chefe pela Editora Record, até erros clamorosos de tradução, seguidos de trechos aceitáveis, deixando a cabeça do leitor em estado semicatatônico. Ou o sr. Marques reviu consideravelmente a tradução desta segunda coletânea, Sabores do Exílio, ficando como lembranças apenas alguns sinais da varíola tradutiva com que vincara a fisionomia do estilo no original inglês. A antecipação do livro, em folhas soltas, que me chegou às mãos, não contém o nome do tradutor: pudor? Desleixo? Arrependimento?

“Fome”, a mais longa de todas estas narrativas, talvez seja a mais rica como abordagem das sociedades tribais negras diante do desafio – para muitas delas mortal, como para as nações indígenas brasileiras em contato com a civilização tecnológica moderna – diante da cidade grande e complexa erigida pelo branco. Os objetos mais comuns, sapatos, panelas, pentes, ternos, tudo faz parte de um mundo fantástico como qual Jabavu sonha. Seus pais são figuras pressas ao passado para ele: a mãe, eternamente passiva, obediente a qualquer mando ou desmando do marido, o pai agarrado ao mundo dos antepassados, imóvel, imutável, sempre bom. Quando a mãe pensa nas lutas entre as tribos, na época em que inimigos ferozes vinham roubar as mulheres, como no rapto das sabinas pelos romanos, ela não deixa escapar uma palavra que pudesse desagradar o marido. Ele teme que Jabavu, que fala demais, é crítico demais e desrespeitoso para com os mais velhos e os costumes de antigamente, possa terminar no meio dos bandidos que infestam as ruas dos brancos na África do Sul, na Cidade do Cabo, em Johanesburgo, os terríveis matsotis, os jovens criminosos marginalizados pela sociedade europeia dominante. Tolice! Para Jabavu as choças de barro, com tetos cônicos de capim, são um mundo para os velhos, não para ele. Ele foi o primeiro do seu meio a usar sabonete, como os brancos, a usar o pente metálico e seus sonhos estão povoados de fartura: ele envergando um vistoso uniforme de policial, respeitado pelos brancos, bondoso para com a gente de cor, ganhando bem, morando bem, numa verdadeira cidade. Quem sabe um dia andaria de automóvel, de avião, moraria numa casa de tijolos como os brancos e passearia diante das lojas reluzentes.

Sem classificações pedantes, “Fome” é um curto Bikdungsroman, aquela categoria de romance de formação, de aprendizado do personagem principal. Que os alemães exemplificaram com o Simplicissimus de Grimmelshausen. Não há uma prédica moralista neste relato: Jabavu aprende não a ser “melhor”, mas aprende violentamente o que significa ser negro na sociedade racista do apartheid. Sobre pessoalmente todas as ignomínias que esse regime doente lhe inflige, desde a obrigação de levar sempre consigo um “passe interno”, só exigido dos que não são brancos, até a nazista discriminação de praias só para brancos, bebedouros só para brancos, guichês nos correios e nas lojas só para brancos, trens lotados, sufocantes, só para negros, favelas e empregos mal remunerados e estafantes só para negros.

Nunca é demais repetir que Doris Lessing não faz uma literatura de denúncia apenas: ela mostra a realidade do dia a dia e o leitor que julgue por si mesmo. Jabavu que se esforçara penosamente a ler “língua de branco” (o inglês) e que partira de sua aldeia a pé, andando 60 quilómetros até a grande cidade mais próxima, Jabavu não acredita que seu sonho de “progresso” se tenha transformado no pesadelo da cadeia, da hipocrisia de tantos religiosos que “sentem pena” dele, no horror de ser fichado como gado que é arrastado para o matadouro numa das repartições dos brancos onde se classificam os “nativos” ou “cafres”, como são chamados com asco e arrogância.

Jabavu procurava, sem o saber, saciar uma fome muito mais voraz que a do seu estômago. A dignidade, a solidariedade eram a fome íntima que o devorava. Se o leitor suportas o pavor kafkiano do ambiente de campo de concentração hitlerista que caracteriza o contato de Jabavu com a ilusão da metrópole branca, chegará na última página a uma belíssima reconciliação:

“Na tribo e no Kraal, a vida de seus pais era construída sobre a palavra nós. No entanto, jamais foi assim com ele. E, entre aquele tempo e agora, houve um período duro e desagradável, quando existiu apenas a palavra eu, eu, eu – tão cruel e aguçada como uma faca. A palavra nós foi-lhe oferecida outra vez, com a aceitação de tudo o que ele tem de bom e de ruim, e com a exigência de tudo que ele pode oferecer. ‘Nós’, pensava Jabavu. ‘Nós…’ E pela primeira vez aquela fome que havia nele e se agitou como uma fera durante toda a sua vida avoluma-se, sem ser rejeitada, e flui suavemente para a palavra nós. ‘Nós’, diz Jabavu, repetidas vezes, ‘Nós’. Em suas mãos vazias, sente as mãos calorosas de irmãos”.

Estes contos revelam também muitas das idiossincrasias dessa sociedade provinciana, sob seu aspecto mais grotesco que aterrador. “A Madona Negra” é um triunfo de perfil de outras culturas e maneiras de encarar a vida em choque, desta vez a de duas sociedades brancas. Com a reviravolta da Itália, que na metade da Segunda Guerra Mundial se tornara “aliada” dos ingleses, surgem problemas imensos. Os italianos são ainda “prisioneiros de guerra” dos ingleses numa cidadezinha do interior da África. Mas são brancos. Como proceder? E como aquele italiano Michele, que pinta afrescos e detesta trabalhar, vive na rede, tratando humanamente os negros e cantando canzoni da ensolarada Itália, como aquele Michele pode ser tão diferente dos ingleses? O capitão que lhe encomenda a aldeia artificial a ser destruída pelas forças inglesas, para que a população civil daquele sonolento lugarejo tenha uma ideia do que é a guerra, o capitão se enfurece. O italiano pintou uma Virgem Maria negra, com um Menino Jesus negro preso às costas – como é possível?! E por cima pintou um hospital e uma enorme cruz da Cruz Vermellha sobre a aldeia feita de tábuas: como os militares poderão bombardear instalações da Cruz Vermelha e um hospital?! Michele tem espírito anárquico, que contrasta com o respeito cego à “lei e à ordem” obedecidas pelo capitão britânico. No entanto, a a bondade, a humanidade do latino contagiam o capitão, que em prantos, bêbado, reconhece nos traços da Madona Negra a fisionomia da sua amante negra preferida, Nadya, em tudo diferente de sua esposa branca, que lhe desperta desconfiança (será infiel a mim?) a ponto de pagar um detetive para espioná-la e só obter dela o apelido insultuoso de “meu Hitlerzinho”.

Doris Lessing, em determinados momentos da sua criação literária, é mestra nas situações cômicas, absurdas. Em um dos contos, um grande poeta que escreve numa língua falada só por um milhão de pessoas, o africânder, um dialeto do holandês, pendura seus poemas nas árvores e depois teme que por serem contrários ao racismo possam leva-lo à cadeia. Noutro conto, Doris Lessing se concentra unicamente na epopeia de dois besouros que carregam uma bola de esterco com risco de suas próprias vidas…

Para quem não conhecia essa faceta, desfaz-se o mito de que ela fosse apenas a solene escritora da tragédia da loucura incompreendida de Briefing for a Descent into Hell ou do desmoronamento da sociedade da antiga Rodésia sob o impacto do choque entre negros e brancos de Memórias de uma Sobrevivente.

Coerente, admiravelmente corajosa, combativa, Doris Lessing não permite que o leitor jamais desvende, em estilo singelo e perfeito, onde a estética começa e onde a ética poderia ser desligada dela. Sem jamais ser moralizante nem maçante nem panfletária, na sua solitária grandeza.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Doris Lessing, a solitária grendeza de uma estilista .” In As três grandes damas da literatura europeia: Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar e Doris Lessing, edited by Fernando Rey Puente, 7:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.