Doris Lessing, grandiosa. Vital

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1984/05/12. Aguardando revisão.

De que Doris Lessing você está falando?

No Brasil, a pergunta tem sua razão de ser. As nossas editoras vêm publicando a esplêndida autora inglesa da maneira mais caótica possível. A editora Record, por exemplo, dedica-se à sua série de romances da década de ’50, portanto, de há 30 anos atrás. Enfeixadas sob o título abrangente de Children of Violence, relatam, em cinco volumes, o gradual afastamento de Martha Quest da sua Rodésia natal, onde mora, ainda adolescente, numa farm dos colonizadores ingleses, completamente exilada dos grupos africanos autóctones do lugar, considerados pouco mais do que bestas de carga. De livro em livro (são cinco no total), porém, a menina-moça sensível desabrocha, torna-se conscientemente marginalizada pela sociedade classista e racista: seu pequeno grupo de amigos são judeus, anarquistas, comunistas, defensores dos direitos dos nativos e da mulher.

Mais tarde, à sua militância comunista inflamada, é que Doris Lessing irá acrescentar a sua combatividade em prol dos direitos femininos espicaçados milenarmente pelo homem em The Golden Notebook (O Caderno Dourado, entre nós). Pouco a pouco, porém, Doris Lessing irá demonstrar um interesse absorvente pela antipsiquiatria de Laing e, em grau menor, de Foucault e Lacan com Briefing for a Descente into Hell (Roteiro para uma Descida ao Inferno). Já em Memórias de uma Sobrevivente (Memoirs of a Survivor) é que ela deixará entrever claramente a sua dimensão mística, ao relatar o abandono da Rodésia pelos colonizadores brancos e a lenta reversão dos adolescentes em tribos com rituais selvagens, o empobrecimento da linguagem, a queda da barreira entre os sexos, a pilhagem e uma organização cultural primitiva e destruidora.

O que vem acontecendo com as editoras brasileiras é que não se respeita a mínima cronologia, de maneira que os livros antigos, de 30 anos atrás, se misturam com os livros publicados há apenas 4, 3 anos. Assim, a Editora Record se especializa em coletâneas esparsas de contos como A Tentação de Jack Orney, enquanto a Editora Nova Fronteira traduz as suas mais recentes criações, abarcadas sob o título genérico de Canopus em Argos: Arquivos, que já incluem Shikasta, o primeiro e magnífico volume, e O Casamento entre as Zonas Três, Quatro e Cinco, o 2º tomo. É interessante notar, porém, que nenhuma editora lançou os textos complementares da sua coleção africana como The Sun Between Their Feet e This was the Old Chief’s Country.

O que resulta dessa desordem? Uma visão não só parcial como distorcida da admirável escritora inglesa.

Alguns exemplos a esmo: Doris Lessing deixou de ser comunista, queimou sua carteirinha do PC desde o Congresso do PCUS em 1956, quando Kruchev revelou quem era Stálin, o Paizinho dos Gulags, mais tarde pormenorizadamente descritos por Solzhenitsyn. Outro: Doris Lessing interessou-se pelo sufismo, aquele ramo medieval do Islamismo que incorpora exercícios espirituais e que a desiludiu de qualquer visão materialista da vida.

De que Doris Lessing se trata agora, com a publicação do terceiro volume daquela que ela renitentemente chama de ficção espacial, para diferenciá-la da ficção científica de Isaac Asimov, Ray Bradbury, Arthur Clarke e outros?

As Experiências Sírias (Editora Nova Fronteira) é uma continuação do primeiro livro, Shikasta, em que um ser doutra galáxia vem, inutilmente, salvar o planeta Terra da dominação crescente do planeta maléfico, Shammat, que infiltra entre nós número cada vez maior de seus emissários para disseminar a escravidão, a peste, a poluição, a desertificação, a violência entre os seres humanos.

Desta vez não é o enviado Johor que vem fazer seu relatório das peripécias entre os desolados habitantes de Shikasta (a Terra), com suas civilizações agonizantes e sua iminente absorção por uma galáxia maléfica.

Já no soberbo prefácio, Doris Lessing alude à cosmologia que criou. Se, quando era mias jovem, tudo lhe parecia fácil, tanto do ponto de vista religioso quanto político, à medida que o tempo passa, ela se dá conta da complexidade das situações humanas. Pode ser, ela especula, que o nosso conceito a respeito do tipo de espécie que somos, neste planeta, seja tão impreciso, quanto a visão de mundo que têm, por exemplo, os habitantes da Nova Guiné, na nossa escala de valores. Ou seja: que o que pensamos de todos nós e sobre a nossa situação no mundo não corresponda à verdade, seja uma visão errada. E coloca a questão-chave: muitíssimo – talvez mesmo o essencial – do que não nos é permitido saber, como cidadãos comuns, é privilégio de uma casta, de uma junta. E compara a atitude das pessoas comuns com as dos físicos. Ora, quantas ideias absurdas ou tidas como absurdas nos ocorrem com respeito à educação que recebemos, rígida, oficial, sempre dentro de certos limites. Já os físicos, não! Para os físicos, ela sublinha, nada é considerado louco nem absurdo! Podem falar (sem ser trancafiados em hospícios) de buracos negros que engolem estrelas e constelações inteiras, de áreas das galáxias a serem atingidas por meio desses buracos negros nas quais predominariam mais as leis universais do tempo e do espaço como nós as conhecemos.

Os físicos, ela se refere ainda a eles, são os únicos a poderem falar, naturalmente, de universos paralelos que nos são invisíveis e nos quais os universos abarcam tempos que correm ao contrário dos nossos tempos ou que espelham os nossos. E cita o inventor Haldane, que na sua obra Bichemistry in Gentics (A Bioquímica na Genética) afirmou, depois de décadas de trabalhos científicos reconhecidos mundialmente:

“Atualmente, a minha suspeita é a de que o universo é não só muitíssimo mais estranho e insondável do que nós supúnhamos, mas também muito mais estranho do que pudéssemos supor que fosse!”

Isto é: quaisquer suposições ou afirmações científicas são adotadas como verdades inquestionáveis por que aos escritores, que lidam justamente com a imaginação, seria proibido especular sobre os reinos do mal e do bem, que existem desde as histórias mais antigas de Gilgamesh, de Caim e Abel até os níveis mais populares das fitas de “mocinhos” e “bandidos” no Oeste dos cowboys norte-americanos e nas comuns novelas de detetive?

A única coisa que Doris Lessing tem certeza de saber resume-se a poucas frases: nas antigas cosmologias não terá havido a intervenção de civilizações extraterrestres infinitamente mais avançadas do que nossa que tenham agido sobre a Terra e seus habitantes? O que significam, na realidade, nossas noções do “bem” e do “mal”

Ela crê que a Terra já foi usada por outras criaturas mais adiantadas, que aqui levaram a cabo diversas experiências. Crê que a dimensão dos edifícios nos afeta de maneira que ignoramos e que perdemos uma ciência de que dispúnhamos no passado: quem sabe não estamos escravizados sem o saber? Ou, ainda: o que chamamos de “envelhecimento” não constituirá uma vida que vivemos no passado e nos atinge agora biologicamente, mas à qual não estamos ainda adaptados psicologicamente? Os artefatos de todos os tipos com que lidamos sabe-se lá se terão outras funções das quais nem suspeitamos? A raça humana que futuro terá? E podemos desacreditar de todas as centenas de milhares de visões dos objetos voadores não identificados, vistos por pessoas que não são loucas, de perfeito juízo, até na Rússia, visões detalhadas e confirmadas por cientistas sérios?

Nesta inspeção da Terra, que nos tempos áureos se chamava Rohanda e agora é Shikasta (o planeta que falhou), uma das supremas autoridades das galáxias mais avançadas, Sirius e Canopus, se deparam com uma Terra presa da Doença Degenerativa: o orgulho, a avidez por coisas e prazeres materiais, o racismo, as hierarquias baseadas no poder, no dinheiro, na ditadura.

Esta patologia social causa, inevitavelmente, uma inversão evolutiva. As populações crescem, desordenadamente, aos milhões e milhões por ano e nenhuma tecnologia pode remediar essa situação, pois todos os que nascem afirmam desde cedo o seu direito à “boa vida”, isto é: ter só direitos, e esses direitos são crescentes, com relação a tudo que é bom e causa prazer, mas sem despender esforços, sem trabalhar, sem obedecer a leis comuns a todos, sem reconhecer obrigações e exigindo como seu Direito de nascença todas as liberdades sem deveres quaisquer. O resultado é que uma insânia geral se apodera dos habitantes: morrem de decepção, de falta de força de vontade, de falta de um propósito na vida, de epidemias cujas causas não podem ser esclarecidas com exatidão e morrem também durante maciças ondas de loucura que abrangem populações inteiras. São o resultado da mistura com os bárbaros shammatianos que lhes dá aquele ar paranoico, furtivo, submisso, de uma espécie que logo findará vítima do desânimo.

Ambien II, a enviada de Sirius e narradora do livro, como o Gulliver de Swift, passa por reinos extremamente dessemelhantes. Há o planeta dos homens-insetos, que só se alimentam de ar, comunicam-se por telepatia e usam seus tentáculos como sensores. Outros planetas, como Adalantaland, regidos por uma rainhas bondosa, pacífica e justa, são arrasados por uma tropa de homens-cavalos destruidores, ao passo que outro astro, Koshi, submete as mulheres ao papel de escravas, privando-as de toda e qualquer dignidade, com seus prédios feitos de dez e onze andares a fim de que as populações de baixo pudessem ser facilmente vigiadas pela polícia ubíqua, a miséria mais abjeta é imposta sem cessar pelos ricos decadentes do momento. Aproximando-se do império em que governa o Grande Irmão, na novela 1984 de George Orwell, ali cada perfeição se transforma no seu oposto que é Shammat. Você quer saber o que é Shammat quando você indaga pelo amor e sem demora aparece o ódio; se você disser paz, logo em seguida surge a guerra – isso é que é a essência de Shammat.

Como já no primeiro volume, em que as raças subjugadas historicamente pela raça branca instauram um tribunal mundial para julgamento da destruição de todas as civilizações que os conquistadores brancos arrasaram na Índia, na África, nas Américas, aqui também ela dá ênfase à crueldade e brutalidade da raça branca cuja única divisa é sempre: “Qualquer coisa que existir é intrinsecamente minha.” E mais ainda: “Qualquer coisa que não for idêntica a mim é primitiva e ruim, pois essa é a natureza shammat da própria raça pálida.”

Ambien II, mandada por Sirius, encontra três vezes o dominador branco, usando três pretextos e posições diferentes para apropriar-se de tudo que lhe parecer de valor e exterminar ou escravizar todos os povos “inferiores” que caírem sob seu domínio. Primeiro como padre, fomentador de guerras de religião e inquisições para apoderar-se dos tesouros dos astecas e dos incas, entre outros. Depois como pirata disposto a saquear qualquer navio, qualquer galeão, qualquer porto, a fim de enriquecer-se e prestar homenagem à sua ou seu “soberano”. E, por fim, como um presidente dos Estados Unidos ou premier da União Soviética ou talvez mesmo como um arrogante cientista, a decidir dos bilhões de vida sobre a terra, tornando os poderes destruidores da tecnologia moderna meras “balelas”, plenamente “confiáveis” pelo povo que o escuta boquiaberto e impotente.

Na sua simbologia da televisão, ela a considera apenas como um mero transmissor de mentiras, de falsas verdades, de visões completamente sectárias de situações políticas, sociais, econômicas, culturais.

É tudo um ópio acalentador para que os povos de todas as nações adormeçam “sem causar problemas” às autoridades e sem acesso a informações vitais para a sua sobrevivência individual e coletiva.

E Doris Lessing distingue entre o indivíduo, que já não tem mais voz audível nem levada a sério, e o que ela chama de group mind, isto é: o pensamento coletivo predominante. Qualquer desvio desse padrão uniformizado, que não pode absolutamente ser transgredido, será punido com o exílio, a morte, o ostracismo…

A romancista – a mais importante deste nosso final de século, sem dúvida – aborda muitíssimos outros aspectos da viagem interplanetária que não podem ser tocados aqui por questão de espaço. Entre eles: a degenerescência da Terra a partir da Primeira Guerra Mundial; a perversão das religiões, metamorfoseadas em instituições laicas em luta pelo poder com impérios e repúblicas; a existência de discriminação racial ou com relação à mulher como sintoma de que uma sociedade está profundamente afligida por um mal fatal, a decadência; e sobretudo o estado de ignorância a que as massas são submetidas voluntariamente pelos donos do poder do momento, a ponto de ninguém poder dizer que age espontaneamente, de acordo com a sua escolha e a sua consciência livre.

Um voo tão assombroso – e tão já futuro com relação ao presente – reforça, de livro para livro, a preeminência de Doris Lessing como a mais perceptiva, mais aguda e mais espiritualizada de todos os autores dotados de originalíssima imaginação neste século. A sua é uma fábula moral, no sentido de igualdade das raças e da mulher em relação ao homem, de predominância da tecnologia sobre os destinos de uma Humanidade que jamais foi consultada sobre os desígnios finais dessa tecnologia clandestina, de degenerescência espiritual de uma sociedade baseada só na soberba e na avidez? Pelo menos, é a fábula moral mais consequente e mais urgente do nosso tempo.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Doris Lessing, grandiosa. Vital .” In As três grandes damas da literatura europeia: Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar e Doris Lessing, edited by Fernando Rey Puente, 7:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.