A redescoberta de Henry James II

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal de Letras, 1961/08. Aguardando revisão.

O fenômeno de unânime redescoberta de Henry James nos países de língua inglesa e por parte da elite intelectual de toda Europa que domina o inglês vem somente acentuar um fenômeno paralelo a este profundo ato de justiça literário internacional. Referimo-nos às características eminentemente intraduzíveis de seu estilo, até mesmo da sua forma expressiva. Daí a incompreensão com que críticos mal armados linguisticamente, no Brasil e no estrangeiro, se indurgem contra um autor que os maiores intérpretes da literatura ocidental não hesitam em colocar ao lado de Marcel Proust, saudando-o como o maior novelista de língua inglesa deste século, em plena igualdade de direitos com James Joyce. Mais ainda do que Shakespeare, portanto, cuja magia verbal transfigura os enredos por vezes tênues e nada invulgares de suas comédias e de algumas de suas tragédias, a fascinação inconfundível que Henry James desperta em seus admiradores parece jazer oculta detrás da chave secreta de seu estilo. Que dizer, então, da extrema complexidade, da atmosfera rarefeita de seus contos e novelas mais importantes? É compreensível que, de modo geral, a mentalidade mediterrâneia e a sua subsidiária, a tropical, pouco se entusiame por um autor que analisa problemas extremamente complexos da ética no convívio humano, que focaliza quase exclusivamente as classes abastadas e requintadas da Europa e da América em seus livros e que se lança à indagação metafísica mais ampla em seu extenso mural de retratos incomparáveis de personagens-chaves da angústia e da miséria humanas.

O público norte-americano, aturdido com a pletora de ensaios e estudos dedicados a esse seu máximo expoente até então relegado a um anonimato cinzento, debruçou-se com sofreguidão sobre suas obras mais acessíveis, principalmente depois que Hollywood filmou Washington Square, com o título, provavelmente mais atraente, de A Herdeira. Os editores não perderam, naturalmente, a maré propícia e o mercado nova-iorquino se viu, da noite para o dia, inundado de livros de bolso como Daisy Miller, The Turn of the Screw, transformados em best-sellers. Quase um século mais tarde, portanto, a ansiada “popularidade” foi concedida ao autor que falhara em suas tentativas de estabelecer um contato com o público através do teatro. Nas universidades americanas também já aparecem, com frequência, mas pouca inspiração, inúmeras teses dedicadas aos aspectos mais esdrúxulos da personalidade e da obra do “maior escritor americano de todos os tempos”. Naturalmente, o “americanismo” de Henry James pode ser hoje em dia comprovado exaustivamente, com abundância de documentos e testemunhas, no entanto, na maioria dos casos, algumas teses “nacionalistas” produzidas ao norte do Rio Grande esquecem, despreocupadamente, a justificativa madura e serena do escritor perante Turgueniev, explicando por que fixara residência na Europa, de preferência à América do seu tempo: “a flor da arte só viceja em solo profundo e é necessário uma quantidade imensa de História para produzir um pouco de Literatura: só uma maquinaria social complexa pode acionar a imaginação de um autor”. Era o mesmo fenômeno da falta de tradição histórica do continente americano que Joaquim Nabuco deplorara ao declarar que qualquer quarteirão de Roma ou de Paris tinha maior encanto e importância para um homem culto e sensível, embora nascido na América, do que toda a magia luxuriante da baía da Guanabara. A esta relativa ausência de consciência histórica de sua terra natal adicionava-se, no caso de Henry James, a repulsa pela maneira de viver americana de seu tempo, a era do big money e das práticas políticas denunciadas por Whitman em seu veemente Democratic Vistas. É precisamente em The Jolly Corner que encontramos a alegoria jamesiana do homo americanus que coexistira, em seu espírito, com o europeu refinado e digno herdeiro do esplendor literário de Jane Austen, de Balzac e Flaubert, de Tolstoi e Turgueniev: o fantasma flamejante que investe contra o viajante que regressa a Boston depois de 40 anos de residência no Velho Mundo é seu alter ego, o que ele teria sido se tivesse permanecido na América materializada e vulgar de seu tempo: “um businessman rude e insensível, maligno e odioso”.

Raramente dentre os escritores dedicados a James ultimamente, encontramos referência à sua suposta “ausência de sensibilidade para problemas sociais e coletivos”. Provavelmente já ficou suficientemente esclarecido que não há Literatura que não seja socialmente engagée, como comprovam até mesmo os críticos marxistas lúcidos e objetivos como Luckács e Lefebvre. A deformação de perspectiva que o preconceito determina, na análise de uma obra literária, fez da novela, principalmente, um tubo de ensaio grotesco e absurdo: na Alemanha comunista publicam-se teses volumosas com o fito de “provar” que Eça de Queiroz tinha tendências francamente marxistas ao revelar “a podridão da sociedade portuguesa” em seus romances. Da mesma forma, durante algum tempo, Henry James se viu sob o fogo cerrado duplo dos que o queriam reduzir a mero esteta sem consequência maior e os que vislumbravam em sua obra unicamente um testemunho social vibrante e persuasivo. Evidentemente, a atmosfera na qual vivem os personagens jamesianos é demasiada vivificada pela inteligência para que espíritos tão tacanhos possam nela sobreviver, embora ousem “interpretar” essa obra gigantesca à luz frouxa de suas “teorias sociais”. Sem referir-nos, por exemplo, a The Bostonians, com seu background em parte feminista ou a Princess Casamassima, em que o problema camusiano da revolta e do assassinato político é dissecado lentamente, bastaria uma compreensão menos limitado de um conto como The Real Thing para documentar o óbvio: a preocupação de James com os náufragos sociais, os aristocratas decadentes, neste caso, incapazes de ganhar a vida como modelos para um fotógrafo que, no final, contrata uma atriz reles para posar, pois ela parecia mais “the real thing”, uma verdadeira aristocrata, do que os requintadíssimos e genuínos lord e lady. Seria totalmente falso afirmar que o tema obsessivo de toda a inspiração moderna a frustração – se sobrepõe aqui ao tema social, o que há, na realidade, é uma síntese de ambos. Todas essas pretensas “exegeses” de The Wings of the Dove e The Ambassadors que tentam ver nessas supremas obras da era moderna reivindicações que estariam melhor colocadas em manuais de sociologia e de política pecam justamente pela unilateralidade de ponto de vista que denotam. O próprio Henry James desvendara o absurdo dessa atitude em seu magistral ensaio The Art of Fiction, que ninguém menos do que Virginia Woolf considerava “o mais eloquente, o definitivo depoimento de um artista sobre sua arte”. Nestas reflexões, James enuncia clara e corajosamente a multilateralidade, o caráter extremamente rico de caleidoscópio que é a narrativa, que reflete a realidade em toda a sua amplidão e em todas as suas aparições: sublimes, nobres, hediondas, mesquinhas, abjetas e imbuídas de uma transcendência quase mística.

Finalmente, parece-nos, da mesma forma que tentar ver em sua criação uma mera projeção – por mais diluída e superada que seja – de sua frustração pessoal e do acidente físico que o invalidou para uma vida “normal” seria querer [interpretar sua obra sob um viés] autobiográfico tão ilógico quanto querer redimensionar a obra de Tosltoi transformando-a “numa tentativa frustrada de compensar sua vocação religiosa não realizada”, como lemos, com estarrecimento, numa tese surgida além da Cortina de Ferro. Seria muito mais oportuno, cremos, relacionar a frustração individual de Henry James com a frustração coletiva do ser humano e estabelecer nexos entre sua interpretação do Mal e o demonismo de Kafka e de Lautréamont, diagnoses seguras, como o Expressionismo alemão, de uma sociedade enferma e de um período abissal da humanidade, entre duas guerras mundiais. Muito do mundo surrealista de James – a alegoria dos fantasmas, a violência de um espírito dominado por outro, o holocausto dos mais nobres pelos calculistas e sem escrúpulos – insere-se na linha de consciências profundamente conturbadas pela Pureza e pela Mácula, pela Inocência e pela Experiência de William Blake a Hieronimus Bosch. Só se o considerarmos um símbolo luminoso da frustração de cada indivíduo diante da vida poderemos redescobrir sob essa “luz negra” de sua arte o tesouro inestimável de sua participação humana e metafísica da condição do homem sobre a terra.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1961) 2022. “A redescoberta de Henry James II .” In Testemunhos Literários do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 3:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.