Fernando Pessoa II: Fotobiografias

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1982-01-09. Aguardando revisão.

Além do pavor que tinha das trovoadas, Fernando Pessoa até em cartas consignara sua “embirração por tirar retratos”. A uma de suas tias, ele tipicamente oferece “esta provisória representação visível de si próprio”. Sentindo uma profunda relutância em entrar em lugares desconhecidos, o poeta que escandalizou a provinciana Lisboa de sua época (1888-1935) deixou, nos arquivos de jornais, em velhos baús de tias e na Biblioteca da Câmara Municipal de Lisboa uma vasta coleção de retratos que o acompanham quase que por toda a vida. Agora, Maria José de Lancastre, estudiosa de Pessoa e professora de literatura portuguesa na Itália, reúne numa original Fotobiografia instantâneos e textos do grande poeta de Mensagem, num lançamento da Imprensa Nacional, de Portugal, com apoio do Centro de Estudos Pessoanos do Porto.

Evidentemente, esta série de documentos, mapas astrológicos feitos pelo poeta e cartões-postais colhe também uma visão política da Lisboa que depois do assassinato do rei passa bruscamente para um regime republicano e mais tarde para a ditadura salazarista. Desenhos dos navios que levaram o menino Fernando Antônio à África do Sul para morar com a mãe e o padrasto, cônsul do Reino de Portugal em Durban, fotos dos autores que o acompanharam na grande aventura de renovar artistística e culturalmente Portugal, como o poeta Mário de Sá-aCarneiro ou Teixeir de Pascoaes, o artista Almada Negreiros e pinturas que retratam Shelley, Shakespeare, Byron, Keats e outros grandes artistas ingleses da predileção do poeta lusitano, completam esta série de imagens sumamente sugestiva da trajetória pessoana.

Paradoxal, polêmico, nada conformista, Fernando Pessoa tinha uma visão irrepetível do que deveria ser a literatura, o povo português, a arte, a religião. Diversas vezes a mentalidade burguesa chocou-se com os seus manifestos, com a fundação ruidosa de suas revistas de vanguarda, como A Águia e sua defesa do poeta homossexual Antônio Botto. Pagão, estranhadamente anticatólico, dotado de uma visão do mundo sui-generis, Fernando Pessoa se desdobraria em outros poetas - Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro - que ele teria recebido de forma mediúnica e cuja obra exprime facetas diversas do seu sentimento poético e cívico. Para cada um deles, Fernando Pessoa, estudante de ocultismo, elabora um minucioso mapa astrológico, com a data de nascimento, seu lugar de origem, estudos que fez, data de seu aparecimento poético etc: são os seus famosos “heterônimos”, ramificações inconscientes da pluralidade do seu “eu”.

Uma de suas teorias mais intencionalmente paradoxais versa sobre a índole do português sobre a qual, em fins do século passado, já Eça de Queirós se debruçara com sarcasmo e vergastadas, em comparação com povos como o francês ou o inglês. Fernando Pessoa é sumamente original:

“Porque o facto significativo acerca dos portugueses é que eles são o povo mais civilizado da Europa. Eles nascem civilizados porque nascem aceitadores de tudo. Neles nada há do que os antigos psiquiatras costumavam chamar misoneísmo, o que significa apenas ódio às coisas novas; gostam francamente de mudar e do que é novo. Não possuem elementos estáveis, como os franceses, que só fazem revoluções para exportação. Os portugueses estão sempre a fazer revolução. Quando um português se vai deitar faz uma revolução porque o português que acorda na manhã seguinte é diferente. É precisamente um dia mais velho, um dia mais velho sem dúvida alguma. Outros povos acordam todas as manhãs no dia de ontem; o amanhã está sempre a vários anos de distância. Mas não esta estranha gente. Move-se tão rapidamente que deixa tudo por fazer, incluindo ir depressa. Não há nada menos ocioso do que um português. A única parte ociosa do país é a que trabalha. Daí a sua falta evidente de progresso.”

Evidentemente, não se trata apenas de um monte de afirmações desmioladas ou feitas somente para chocar pela sua boutade. Fernando Pessoa descria visceralmente da ação material do lucro, do trabalho como único objetivo edificante da vida. Para ele, o advento da era moderna, saudada pelos mestres do Futurismo italiano, como Marinetti, como um ritmo novo, o das fábricas, dos bondes, da eletricidade, das máquinas, era o advento de uma aceleração da angústia humana, um desvio do ser humano dos seus mais altos propósitos: a bondade, a fraternidade, o cultivo da arte, do ócio meditativo, da beleza, do paganismo da adoração da natureza. Álvaro de Campos principalmente, reflete a filosofia corajosa derivada de Lucrécio: a do homem diante de um universo desprovido de deuses e sem outro sentido a não ser o da transitoriedade de tudo e da precariedade implícita da hora que passa:

“Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada

De dentro da minha cabeça,

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,

E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa,

Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,

E quando havia gente era igual à outra.

Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

Génio? Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,

E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.

Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

Não, nem em mim…

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo

Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?

Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —

Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,

E quem sabe se realizáveis,

Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

O mundo é para quem nasce para o conquistar

E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,

Ainda que não more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso;

Serei sempre só o que tinha qualidades;

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem

porta

E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,

E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim? Não, nem em nada.

Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente

O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,

E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

Escravos cardíacos das estrelas,

Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;

Mas acordámos e ele é opaco,

Levantámo-nos e ele é alheio,

Saímos de casa e ele é a terra inteira,

Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)”

(Fragmento de “Tabacaria”)

Ricardo Reis é a manifestação clássica, requintada, hierática, dessa estoica filosofia da inconstância de tudo, o Tempo-Cronos, deus a devorar tudo, mesmo o prazer fulminante que passa:

“Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo,

                E ao beber nem recorda

                Que já bebeu na vida,

                Para quem tudo é novo

                E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos. ou heras. ou rosas volúveis,

                Ele sabe que a vida

                Passa por ele e tanto

                Corta a flor como a ele

                De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,

                Que o seu sabor orgíaco

                Apague o gosto ás horas,

                Como a uma voz chorando

                O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,

                E apenas desejando

                Num desejo mal tido

                Que a abominável onda

                O não molhe tão cedo.”

Uma sabedoria epicurista, culta, de resignação perante o Destino inexorável:

“Só o ter flores pela vista fora

Nas áleas largas dos jardins exactos

         Basta para podermos

         Achar a vida leve.

De todo o esforço seguremos quedas

As mãos. brincando, pra que nos não tome

         Do pulso, e nos arraste.

         E vivamos assim.

Buscando o mínimo de dor ou gozo,

Bebendo a goles os instantes frescos,

         Translúcidos como água

         Em taças detalhadas,

Da vida pálida levando apenas

As rosas breves, os sorrisos vagos,

         E as rápidas caricias

         Dos instantes volúveis.

Pouco tão pouco pesarei nos braços

Com que, exilados das supernas luzes,

         Escolhermos do que fomos

         O melhor pra lembrar

Quando, acabados pelas Parcas, formos,

Vultos solenes de repente antigos,

         E cada vez mais sombras,

         Ao encontro fatal

Do barco escuro no soturno rio,

E os nove abraços do horror estígio,

         E o regaço insaciável

         Da pátria de Plutão.”

Esse desdobramento em várias personalidades simultâneas ou alternadas era um traço de seu temperamento desde a infância: “Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo com personalidades fictícias, sonhos meu rigorosamente construídos, visionados com clareza fotográfica, compreendidos por dentro das suas almas. Não tinha eu mais que cinco anos e, criança isolada e não desejando assim estar, já me acompanhavam algumas figuras de meu sonho - um capitão Thibaut, um Chevalier de Pas - e outros que já me esqueceram, e cujo esquecimento, como a imperfeita lembrança daqueles, é uma das grandes saudades da minha vida”, ele confia em um rascunho de carta ao intelectual Adolfo Casais Monteiro, completando em um fragmento sem data: “A minha infância decorreu serena, recebi uma boa educação. Mas, desde que tenho consciência de mim mesmo, apercebi-me de uma tendência nata em mim para a mistificação, para a mentira artística. Junte-se a isto um grande amor espiritual, pelo misterioso, pelo obscuro, que, ao fim e ao cabo, não senão uma forma e uma variante daquela outra minha característica, e a minha personalidade será completa para a intuição”.

Indefinível pelos cânones comuns, o próprio Fernando Pessoa forjava para si mesmo pseudônimos simbólicos, como o de Alexander Search (Alexandre Busca), enviando a si próprio envelopes com esses nomes inventados: “Não sei quem sou, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros). Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ansias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho. Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não esta em nenhuma e está em todas. Como o panteísta se sente árvore e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente, de cada por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço”, como confessa num fragmento sem data.

Essa multiplicidade de personalidades permite, porém, que um patriotismo ardente o anime a fundar revistas literárias, a esperar o advento de um Quinto Império, no qual Portugal cumprirá sua missão superior, depois dos Descobrimentos e de ter trazido uma noção fraterna à convivência das raças: “O meu intenso sofrimento patriótico, e meu intenso desejo de melhorar o estado de Portugal, provocam em mim - com exprimir com que ardor, com que intensidade, com que sinceridade! - mil projetos, que, mesmo se realizáveis por um só homem, exigirim dele uma característica puramente negativa em mim - força de vontade. Mas sofro - até os limites da loucura, juro-o - como se tudo eu pudesse fazer sem, no entanto, o poder realizar, por deficiência da vontade. É um sofrimento horrível que, afirmo-o, me mantém constantemente nos limites da loucura. E, depois, incompreendido. Ninguém suspeita do meu amor patriótico, mais intenso do que o de todos aqueles a quem encontro ou conheço. Não o traio; como sei, então que não o possuem? Como posso dizer que a sua preocupação não iguala a minha? Porque, nalguns casos - na maior parte, até - o seu temperamento é inteiramente diferente; porque, nos outros casos, a sua maneira de falar revela a ausência de, ao menos, um patriotismo nominal. O fervor, a intensidade - terna, revoltada e ardente - do meu, jamais os exprimirei… Além dos meus proectos patrióticos - escrever República de Portugal, provocar aqui uma revolução, escrever panfletos portugueses, dirigir a publicação de obras literárias mais antigas, fundar um periódico, uma revista científica etc - outros planos em que me consumo na necessidade de serem em breve postos em prática conjugam-se para produzir um impulso excessivo que me paralisa a vontade. O sofrimento que isto produz não sei se poderá ser definido como situado aquém da loucura. A tudo isto acrescentam-se ainda outros motivos de sofrimento, alguns físicos, mentais outros, a susceptibilidade a toda coisa comezinha ue posa ser dolorosa (ou que não o seria, até, para um homem normal), acrescentem-se ainda outras coisas, complicações, dificuldades de dinhero - junte-se isto tudo ao meu temperamento fundamentalmente desequilibrado e talvez se possa SUSPEITAR quel a intensidade do meu sofrimento”.

As revistas que fundava a tipografia que adquiriu, os movimentos artísticos que lançou - tudo durou efemeramente: Portugal estava muito aquém da genialidade do seu supremo poeta. Já distanciado da vida real, a não ser por um pequeno grupo de artistas, escritores e intelectuais que com ele se reuniam em cafés boêmios, Fernando Pessoa alia a seu humilde e mal remunerado ganha-pão, a correspondência comercial em inglês de algumas firmas lisboetas, a atividade complementar de tradutor. É quando traduz do inglês os ensinamentos da teosofia de Helena Blavatsky através de sua discípula Annie Besant que ele tem o momento de radical transformação da sua vida e se dedica inteiramente ao ocultismo, à cabala, à alquimia, à magia. Seus poemas da fase final refletem uma estrutura esotérica, inacessível aos não-iniciados. É possivelmente a única falha desta coletânea fotobiográfica: a de quase não aludir a essa fase nem ilustrá-la, quando durante algum tempo Fernando Pessoa até pensou seriamente em estabelecer-se profissionalmente como astrólogo em Lisboa.

Já seu eminente biógrafo, João Gaspar Simões, em sua longa e fartamente documentada Vida Obra de Fernando Pessoa, obtivera dados raros sobre essa fase final do grande poeta, antes que este mandasse destruir todos os ensinamentos esotéricos em cartas dirigidas a amigos, como Adolfo Casais Monteiro. Esta Fotobiografia preferiu, um tanto arbitrariamente ou por falta de documentação abonadora, enfocar as confusas noções políticas de Pessoa, sua utilização de partes da filosofia nietzscheana, escolha que nos parece de importância menor. Na sua prismática versatilidade dos heterônimos, o Fernando Pessoa derradeiro é, essencialmente, o oculto, o iniciado o esotérico que transcende as ilusões de regimes políticos e infunde à própria literatura uma magnitude transcendente e atemporal: “Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em existências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando-se até chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo… Não procures nem creias: tudo é oculto”; ou na transposição poética de sua “conversão”:

“Não dormes sob os ciprestes,

Pois não há sono no mundo.

……

O corpo é a sombra das vestes

Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte

E a sombra acabou sem ser.

Vais na noite só recorte,

Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro

Tiram-te os Anjos a capa.

Segues sem capa no ombro,

Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada

Despem-te e deixam-te nu.

Não tens vestes, não tens nada:

Tens só teu corpo, que és tu.”

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1982) 2022. “Fernando Pessoa II: Fotobiografias .” In Redescobrindo Portugal: Perfis e depoimentos de alguns escritores portugueses, edited by Fernando Rey Puente, 6:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.