Lessing, na trilha do horror

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1988/09/12. Aguardando revisão.

Uma das raras e últimas grandes escritoras da Europa hoje em rápido crepúsculo literário, a inglesa Doris Lessing, já focalizou, pioneiramente, vários temas em sua vasta e admirável criação literária. Decididamente a favor dos direitos dos negros e contra o racismo colonialista dos ingleses e dos afrikaners (descendentes de holandeses na África), sua série resumida ao título genérico de Os Filhos da Violência (The Children of Violence) e seus contos de ambiente africano são uma lúcida, irrespondível e humaníssima defesa desses grupos massacrados pelos brancos imperialistas. Depois, com seu Carnê Dourado (The Golden Notebook), ela foi a voz mais ouvida em prol da mulher, não uma feminista histérica, mas uma arguta analista da história da dominação machista, em detrimento multissecular da mulher. Há muitos temas que ela aborda, como o que é loucura, o que é sanidade mental, influenciada pelo psicólogo britânico Laing. Obviamente, ela foi a criadora de um gênero que ela detesta ver confundido com a ficção científica: o space fiction, isto é: a ficção espacial que focaliza a vida dos seres humanos em combate mortal com planetas maléficos como no deslumbrante Shikasta. Abordou ainda o terrorismo, os problemas da velhice considerada sucata por uma sociedade utilitarista e cruel etc. etc.

Agora, a Grande Dama urdiu um relato de horror. Um dos gêneros (com perdão da má palavra extraída do jargão da crítica literária) que distingue a literatura anglo-saxônica (não só a inglesa, mas também o seu transplante para a literatura dos Estados Unidos) é o chamado gênero gothic. Essas histórias góticas abrangem romances, contos e peças de teatro cuja ação inteira está enraizada no horror. Monstros criados por uma mulher, a esposa do poeta Shelley, como Frankenstein, fantasmas que atormentam uma governanta numa enorme mansão rural na Inglaterra como The Turn of the Screw (A Volta do Parafuso) de Henry James povoam essas narrações.

Doris Lessing sempre independente de modismo, criou atualmente uma novela curta, The Fifth Child (O Terceiro Filho que remotamente está ligada ao apavorante pacto com o demônio localizado em O Bebê de Rosemary, do qual Polanski fez uma soberba adaptação cinematográfica. The Fifth Child nada tem a ver com O Exorcista: parece-me mais com A Profecia.

Tólstoi abre um de seus romances incomparáveis, Anna Karenina, dizendo que todas as famílias felizes se parecem, as infelizes diferem umas das outras. Esse ângulo de observação tem que ser questionado de agora em diante, depois do livro mais recente de Doris Lessing. Por quê? Porque os protagonistas principais, os pais de cinco crianças , quatro delas perfeitas e saudáveis, os Lovatts, eram felizes e a felicidade, como diz a autora, era tudo que almejavam e mereciam.

No entanto, essa felicidade é diferente das outras felicidades: de repente a futura mãe, durante sua quinta gravidez, começa a achar que aquele feto está, ela acha, envenenando o seu organismo. O marido David, preocupado, pede à esposa, Harriet, que consulte o médico. Este faz todos os exames e não acha nada de estranho, exceto talvez o tamanho da criança que está para nascer e que para seu tempo de gestação parece grande, mas nada de inquietantemente normal.

Como revela a revista Time, ao fazer uma resenha altamente elogiosa desse novo livro da escritora britânica, há, sim, coisas assustadoramente anormais com esse quinto filho, Ben. Ben é instintivamente evitado pelos seus quatro irmãos, que inexplicavelmente têm medo dele. Precoce, a criança tem uma força física extraordinária e jamais demonstra o mínimo traço de compaixão humana ou de solidariedade. O cachorro e o gato da casa aparecem misteriosamente estrangulados. Pouco a pouco esse “estranho” aliena os próprios pais, que compreendem que ele quis nascer, independentemente da vontade de seus pais, indefesos diante de seu poder assombroso.

A novela contém páginas de puro horror deleitando o leitor que gosta dessa temática. Mas, imagina o autor da resenha com essa história Doris Lessing não terá feito alusão a uma alegoria muito mais profunda, mais metafísica e mais alucinante do que seja o Mal encarnado em carne e osso? O casal Lovatt teria errado ao se acomodar em sua felicidade confortável, sem se importar com ninguém nem com nada fora do círculo de sua ventura familiar? Ou Ben será o símbolo de um gene maléfico, maligno, que precisa ser extirpado para que a espécie humana possa sobreviver em paz? A família e a sociedade talvez não representem mais uma salvaguarda segura contra os males plurais que afligem a humanidade?

Doris Lessing, evidentemente, não tem respostas prontas, panfletárias, dogmáticas, para nenhuma dessas indagações. O leitor pode lê-la, interpretando-a de várias maneiras, nenhuma exegese é a única certa aquela que a autora supostamente prega… Uma derradeira interrogação se prende à família como ela vem sendo constituída até hoje: a família poderá ser o berço de monstruosidades sem nome, sufocadas debaixo de um clima aparentemente agradável e sem mácula de “felicidade conjugal”?

A magnífica escritora inglesa, coitada, não tem tido muita sorte no Brasil: seus livros frequentemente perfeitos e sempre perturbadores se esboroam, diante das horrorosas traduções brasileiras, tão monstruosas e apavorantes quanto esse Ben que vem destruir uma frágil perfeição doméstica. The Fifth Child será traduzida no Brasil? E será reconhecível em meio aos erros de interpretação do inglês e aos erros devidos ao desconhecimento da língua portuguesa da quase totalidade de nossos tradutores famelicamente mal pagos, pelo menos até esta data?

Introdução

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Lessing, na trilha do horror .” In As três grandes damas da literatura europeia: Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar e Doris Lessing, edited by Fernando Rey Puente, 7:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.