Dalton Trevisan traz mais histórias de Curitiba. Pena que só uma agarre o leitor num bote direto na jugular

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1975-10-4. Aguardando revisão.

Para usar seu estilo ficando no linguajar popular, Dalton Trevisan, é, “sem favor algum”, um dos supremos contistas do idioma, que em seu laboratório secreto de Curitiba revira tubos, decepa cenas de vida humana e as examina com a lente de aumento, com o microscópio, ou secciona com um fino bisturi.

Durante décadas, seus livros foram se enfileirando, radiografias nítidas e ainda úmidas da palpitação de Curitiba, que ele analisa com a meticulosidade de um Joyce e seu estetoscópio auscultando o coração dos dublinenses. Novelas nada Exemplares, Cemitério de Elefantes, Morte na Praça, O Vampiro de Curitiba, Desastres do Amor e Guerra Conjugal eram descobertas tão fundas, tão penetrantes que se tornaram perenes obras-primas – não só do Brasil, mas de toda a literatura contemporânea.

São histórias miúdas de uma concisão que se acentua à medida que aguça a precisão do seu corte no vivo tecido humano, e ergue o câncer maligno ou a mera verruga que arrufos e convivência entre os sexos produzem como secreções diárias. Mistura de arte oriental do hai-kai e de um anglo-saxônico horror ao excesso de palavras e exageros, esse Vampiro de Curitiba colhia nos lugares previstos e imprevistos amostras da contenda-coabitação humana, colocando em mãos do leitor a responsabilidade do diagnóstico. Obsessivamente a luxúria, o desamor entre casais, a crueldade, o sadismo, o abandono dos velhos a coletoras sociais do lixo urbano chamado asilos, constituíam como que seu campo endócrino: o que homens e mulheres secretam internamente, agindo como mártires por excesso de bondade e paciência, ou como monstros disfarçados em médicos a seduzir garotinhas normalistas com guloseimas trocadas por taras infanticidas; ou como dois mundos emparedados em que a esposa acrescentou vidro à comida do marido ou a estroina a surra, bêbado, diante dos filhos horrorizados e em pânico.

Depois de O Rei da Terra, porém, a qualidade clássica desses contos revelou a primeira brecha naquela estrutura imensa, de um painel coeso, a Muralha da China brasileira que nos permitia percorrer o país inteiro e toda a sua gente no interior deste painel amplo e minucioso. Com O Rei da Terra a fórmula parece ter sido mal manejada, alguma coisa do encanto, da narcose encantatória, do éter, vaporizou-se. Não importava: um tropeço em marcha tão digna rumo ao lapidar e ao perene não punha abaixo tudo que fora balizado antes. Um escorregão não anulava quem galgara aquele Himalaia literário.

De fato, logo o livro seguinte, O Pássado de Cinco Assas, retomava a faixa anterior, completava-se a cifra cabalística dos 7 livros perfeitos que Dalton Trevisan tinha dado a uma sociedade urgentemente necessitada de análises clínicas, entregues com um delicado gesto de humana solidariedade e piedade cristã pelo Inferno alheio.

A Faca no Coração (Editora Civilização Brasileira, 102 páginas) é seu último livro e, segundo a implacabilidade da numerologia, sempre favorável aos ímpares, é um volume desigual. Sem perda de tempo é preciso advertir: A Faca no Coração contém um dos contos perfeitos, uma obra-prima insuperável do autor paranaense: “Moça de Luva e Chapéu”. O que existiria de mais dilacerante do que esta mulher que monologa com o advogado prevendo a morte próxima, e resume em quatro densíssimas páginas uma tragédia humana de qualquer vizinha, da senhora que atravessa a rua cruzando conosco no Viaduto do Chá – suponhamos – a netinha pela mão? Várias vezes os personagens de Dalton Trevisan já se aproximaram, em tom voluntariamente menor, das grandes tragédias de Shakespeare, com megeras indomadas, com Reis Lear a quem filhas ingratas negam a marmelada e o reino da luxúria não abolida pela senilidade. Raras vezes, porém, seus velhos massacrados – trancafiados à força em hospícios por filhas que querem ficar em casa a sós com os amantes, e que no submundo dos “asilos para velhinhos” cativam a amizade de moscas como companheiras, acuados por enfermeiras com injeções e pelo vozerio das verdadeiras loucas – atingiram um grau de tal intensidade que agarra o leitor não pela garganta, não pelo coração, mas num bote direto, na jugular. É a solidão lúcida, não minada pela desagregação células cerebrais, e que prevê remédios para uma situação ameaçadora, que lateja nestas quatro páginas curtas e que têm a força afetiva de um diagnóstico que dissesse: “O paciente tem seis meses de vida”. Tudo sem sentimentalismo. Com economia verbal. Uma incisão de cirurgião perito. E quem depois jaz inerte pelo trauma é o leitor, confuso entre lágrimas, impotência, revolta, arrebato, admiração, perplexidade.

E o que acontece depois desse retrato tirado do baú do inconsciente brasileiro, dessa atitude de fortaleza estoica, de uma mãe romana que sabe da precariedade de nossa passagem transitória pela terra e quer preservar o netinho da sanha do filho, Nero, e da companheira, Messalina arrogante e Clitemnestra insensível?

Sucedem-se os cromos kitsch. Volta a girar o carrossel de Curitiba. Desfilam os velhos tarados que, depois de matarem as mulheres à míngua, soterram novas vítimas, apetitosas aprendizes de farmácia; ambientes de circo com crimes passionais entre os pretendentes ao leito da mulher do escrivão; irmãos incestuosos e insaciáveis que caçam irmãs menores e indefesas nos desvios da casa; mulheres ninfomaníacas de vestidos rasgados pelos maridos, Otelos angélicos que nunca as estrangulam; médicos tarados que seduzem meninas no consultório ou doutores de gravata ao peito e empáfia no andar que, por quinze minutos de relógio, se deixam manipular por prostitutas de quem roubam sorrateiramente algumas notas da carteira, enquanto o taxi espera fora do bordel e um telefonema sem emoção avisa à mulher em casa: “chegarei meia hora mais tarde, querida”.

Se há repetição dos mesmos elementos de livros anteriores, não há enfado. Há até a novidade: a introdução do trânsito e seus desastres como armamento novo no arsenal da guerra conjugal. Em “O Rato Piolhento” consigna-se o que os alemães chamam de Erziehungsroman, uma edificante apologia moral, em que o personagem aprende através do esguicho de água fria da vida, da “experiência”, a voltar para as “sendas do bem”. Da mesma maneira, o famoso poema “O Caso do Vestido”, de Carlos Drumond de Andrade, é aqui retomado sob outro ângulo: a mulher arrependida da separação é que pontilha de bilhetes hilariante-pungentes o itinerário de volta do marido rondador de bares, e anárquico por alguns dias, que deixa de pagar suas contas e nem liga para o cobrador vermelho ou para o bom nome da firma em que trabalha. Sem esquecer a cena deliciosa em que uma declamadora faz um muxoxo de escárnio e nojo diante do nível de leitura do galã encanecido e empoado: “Fim de noite com a poetisa laureada. No bolso (dele) a famosa obra Vênus no Convento ou Mil noites do apache. Ela folheia aqui e ali: coxas nacaradas, instrumento de tortura, portas do paraíso. Tem coragem de ler essa imundície?”

E dá-lhe as Cartas a um Jovem Poeta de Rilke para ler.

Os fetichismos da pequena classe média curitibana permanecem, alfinetados como borboletas peregrinas, nesse mostruário: o galã arcaico pego pela mulher munida de vassoura num prostíbulo carunchado; o colecionador de calcinhas surrupiadas do varal; os homens que insistem em amar nus, de meia preta e relógio de pulso; a guerra civil, menor, entre noras feiticeiras e mães edipianas, escaramuça miúda diante do Conflito Geral entre os sexos, entre maridos e mulheres. A Guerra dos Sexos condimentada com tiroteios, vidro miúdo, adultérios, paixões curtidas sem remédio, abandonos e a duplicidade do amor que dá o título do livro: a faca no coração é o amor, “cada dia se enterra mais fundo para que não deixe de sangrar”, exclama João. Aquele que cortou os bigodes no mesmo dia em que a mulher o deixou, a Maria que confessava implacável: “cada dia é mais difícil gostar de você, João”. Aquele João consolado só pela mãezinha, que em sonhos lhe mandava uma flor por um negro desdentado: “Flor é do céu, não é? Quem manda é a velha defuntinha: vá lá cuidar do meu menino, tão sozinho”. Mas quando surge uma viúva não feia, trinta anos mais moça, pela qual João se engraça, aí o amor se transforma: “O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.”

É um contorno de Dalton Trevisan, fiel às imagens que reprojeta em seu cinematógrafo personalíssimo – que estas páginas documentam: um Dalton Trevisan com incursões inseguras pelo novo, apalpando terreno pouco firme quando sai de sua área específica. O leitor tem duas escolhas de cristalina imediatez: relê e destila o admirável destes contos sucintos, refutando o ruim que nele infelizmente se introduz, ou passa aos livros antigos, de filtragem mais rigorosa e seleção mais qualitativa.

Mas na literatura os prognósticos são de uma meteorologia muito mais caprichosa e sem leis. Não será por isso que, depois de um tropeço como O Rei da Terra e depois de seis livros irretocáveis, Dalton Trevisan não deslumbrou novamente com o prodigioso Pássaro de Cinco Asas. Nada e tudo são partículas sutilíssimas que podem levar à previsão de que o próximo livro será majoritário, isto é, da casta das mais absolutas obras-primas escritas em língua portuguesa; ou que fará figura baça ao lado deste A Faca no Coração, ambivalente como a própria face dupla do amor que metaforicamente simboliza.

Se Dalton Tervisan secciona partículas preferencialmente da classe média - que os publicitários e as pesquisas mercadológicas, desapiedada, mas estatisticamente, classificam de B ou C ou “classe média ascendente”, e a sociologia arquiva como “pequena burguesia” – as camadas X, Y e Z da pirâmide socioeconômica e cultural do Brasil são incursões pouco frequentes em seus contos. Há o exemplo gritante de O Cemitério dos Elefantes, que registra os mendigos, bêbados e loucos de Curitiba numa praça da cidade, como um zoólogo traçando o mapa e o roteiro dos paquidermes que a sociedade de consumo, utilitarista, deixou de lado como matéria-prima já bagaço que não entra na reciclagem econômica.

Poucas vezes a literatura das Américas traçou um quadro tão comovente da morte solitária em meio à multidão metropolitana. Pouquíssimas vezes a sociologia abrangeu células agonizantes tão patéticas em seu soçobro, a tromba murcha a engrolar semi-palavras, a viagem embaçada pelo álcool, o corpo ferido desmoronando em cima dos bancos do jardim público, de mangueiras copadas e criadinhas enlaçadas por soldados halterofilistas na noite de Curitiba.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1975–10AD) 2023. “Dalton Trevisan traz mais histórias de Curitiba. Pena que só uma agarre o leitor num bote direto na jugular.” In Grandes contistas brasileiros do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 10:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.