Revolução Estética da Arte Moderna

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Os sicilianos - diz Scipio Di Castro, de Messina - geralmente são mais astutos do que prudentes, mais agudos do que sinceros, adoram as novidades, são briguentos, aduladores e de natureza invejosa sutis críticos das ações dos governantes, acham que seja fácil realizar tudo aquilo que eles dizem que fariam se estivessem no lugar do governo. Por outro lado, são obedientes à Justiça, fiéis ao Rei e sempre prontos a ajudá-lo, afeiçoam-se aos estrangeiros e são cheios de reservas quando se trata de travar amizade. Seu temperamento é feito de dois extremos: são sumamente tímidos e sumamente temerários. Tímidos quando tratam de seus próprios negócios, já que estão muito agarrados a seus próprios interesses e para que eles obtenham sucesso transformam-se como tantos e tantos Proteus, submetem-se a quem quer que seja que lhes possa ser útil e tornam-se servis a tal ponto que parecem justamente nascidos para bem servir.

Mas são de uma incrível temeridade quando administram a coisa pública, aí agem de maneira completamente diversa… E antes eu advertira: a Sicília provou ser fatídica para todos que a governaram; e a maior parte destes deixou sepultos naquele Reino sua reputação de tal maneira que nem mesmo na posteridade será possível um ressurgimento.

Uma terra, portanto, difícil de governar, porque é difícil de se compreender. Difícil de se compreender não apenas devido à natureza e seus habitantes, contraditória e extrema, mas também através de suas instituições jurídicas, no jogo complexo das jurisdições, daquele conjunto de privilégios e de imunidades cujo desaparecimento, no século passado, deixou ainda efeitos bem visíveis, confirmados no decurso destes últimos vinte anos por aquela autonomia regional cujo escopo era cancelá-los completamente…

Como base de tudo está, obviamente, o fato geográfico: a Sicília é uma ilha no centro do Mediterrâneo… Pode-se portanto afirmar que a insegurança é um dos elementos componentes primaciais da História siciliana; e condiciona o comportamento, o modo de ser, a visão que se tem da vida: - medo, apreensão, desconfiança, paixões soterradas, a incapacidade de estabelecer relações que não sejam afetivas, violência, pessimismo, fatalismo – seja da coletividade, seja dos indivíduos. Falando de Verga, Pirandello dirá: “Os sicilianos, quase todos, têm um instintivo medo da vida, por isso se fecham em si, vivem apartados dos demais, contentam-se com pouco, desde que lhes dê segurança. Notam, com desconfiança, o contraste entre seu temperamento fechado e a natureza que os circunda, aberta, ensolarada, mais se entrincheiram dentro de si, porque desconfiam dessa paisagem aberta, pois de todas as partes é o mar que os isola, isto é o que os exila e os deixa sós, e daí cada um é uma ilha, e de si mesmo tira a satisfação – mas mal e mal, se é que a tem – a sua pouca alegria; já de si taciturno, sem buscar consolos, apoios, sofre sozinho suas mágoas, frequentemente desesperado. Mas há também aqueles que fogem…” O medo “histórico” tornou-se, portanto, “existencial”; e manifesta-se pela tendência ao isolamento, à separação, dos indivíduos, dos grupos, das comunidades – e da região inteira. E chega um certo ponto em que a insegurança, o medo, invertem-se e se tornam a ilusão de que esse tipo de insularidade, com todos os seus condicionamentos, as demoras e as regras delas derivadas, constitua um privilégio e talvez justamente no ponto em que os efeitos, pela experiência, são pré-condições de vulnerabilidade e debilidade: daí surge uma espécie de alienação, de loucura, que do ponto de vista da psicologia e dos costumes acarreta atitudes de presunção, de orgulho, de arrogância…”

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. Revolução Estética da Arte Moderna . Edited by Fernando Rey Puente. Perscrutando a alma humana: A literatura italiana do pós-guerra. Vol. 8. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.