de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Veja, 1974-06-12. Aguardando revisão.

Tombam em Portugal armas e varões assinalados. Nenhum McLuhan com seu telescópio assestado em Lisboa poderia prever que a invenção de Gutenberg abalaria impérios tão sediços e arcaicos. Ao Brasil, estes disparos chegam em ordem cronológica inversa. Lá, o ariete político de “Portugal e o Futuro” do general Antônio de Spinola somente foi detonado depois do assalto à Bastilha do machismo que estas três guerrilheiras empreendem neste livro com fúria e munição surpreendentes. Medéia, Antígona e Electra não têm mais cólera que as três Marias para minar o claustro em que os homens enclausuraram a mulher portuguesa.

Se a (imaginária?) sóror Mariana Alcoforado, freira do século XVII, seduzida e abandonada por seu amante, um guerreiro francês, conformou-se “com a marginalidade” e pôs-se a escrever cartas, suas descendentes por uma linhagem histórica de tirania masculina argumentam que para mudar a religiosa é preciso mudar o convento: “Em salas nos queriam às três, atentas, a bordarmos os dias com muitos silêncios de hábito, muito meigas falas e atitudes. Mas tanto faz aqui ou em Beja, a clausura, que a ela nos negamos, nós vamos de manso ou de arremesso súbito rasgando as vestes e montando a vida como se machos fôramos - dizem”.

Combativas, não temem serem tachadas de “lésbicas”, frígidas ou p…” Ao contrário, preveem claramente os problemas que seu livro escrito em equipe lhes traria. Apelam para gêneros diferentes - poemas, diários, cartas ficcionais, transcrições da Constituição portuguesa - mas em todas ecoa a mesma reivindicação fundamental: é urgente reinventarem-se as relações entre os sexos, romper as estruturas que as mantêm atadas como escravas a seus senhores.

Como um fio contínuo, as três Marias equiparam a libertação da mulher, colônia do homem, à libertação mais ampla do próprio ser humano, pois os opressores na realidade são tão oprimidos quanto suas presas. A militância dessas três intelectuais portuguesas é de um desassombro que só se pode aquilatar ao se levar em conta o controle que um Estado totalitário e torpe mantém sobre os cidadãos e suas mentes. No entanto, essas Joana d’Arc que querem expulsar os invasores de seus direitos não escondem sob as malhas de aço uma feminilidade que nada tem de viril e se revela de uma lucidez profunda.

Elas arremessam de todos os flancos. Às mulheres conformistas e coniventes com a situação de “coisas”, a que foram reduzidas por seus “donos”, dirigem uma carta como se fosse redigida por sóror Mariana à sua própria mãe: “Bem me podeis executar, que me defende? A lei? A que dá aos pais todos os direitos de mordaça, aos machos primazia e à mulher somente o infinitamente menos nada, com dádivas de tudo?” Denunciam a falta de solidariedade das mulheres entre si “de solidariedade ninguém, casadas e vendidas de nós próprias”, pois “à mulher só é dado o parir e o parado”. Enveredam por trechos eróticos de grande beleza e pormenorizadamente descritos, mas com arrebato poético e dignidade. Descem a saraivadas de motes irônicos e específicos contra os “garanhões tão maus amantes”. Esvoaçam sobre o papel social da mulher como produtora de filhos, como matéria-prima dos bordéis na linha de montagem da luxúria masculina. Reconhecem o fulcro da sua luta na obtenção da identidade do homem independente dos padrões machistas, assim com um negro impõe seus valores divergentes dos critérios racistas dos brancos dominadores. E denunciam a pseudo-ascensão feminina: “Em que mudou a situação da mulher? Era dantes uma propriedade rural, para ser fecunda, e agora está comercializada, para ser distribuída”.

São páginas admiráveis, que não têm o amargor nem a erudição de O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir, nem o requinte literário dos estudos do português José Cardoso Pires sobre as “marialvas” (cafetinas) lusitanas. Este livro, porém, divide a literatura portuguesa feminista e talvez a própria concepção da mulher em Portugal em duas épocas: antes e depois das extraordinárias três Marias.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1974) 2022. “de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa .” In Redescobrindo Portugal: Perfis e depoimentos de alguns escritores portugueses, edited by Fernando Rey Puente, 6:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.