Mais um pastel de vento (resenha ao livro de U. Eco O Pêndulo de Foucault)

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1989 provavelmente agosto ou setembro. Aguardando revisão.

Umberto Eco é um blefe, armado cinicamente em conspiração com o mercado editorial ávido do tilintar de lucro. Em inglês uma palavra o define sucinta e definitivamente: é um autor flippant, isto é, leviano, petulante, que ousa tratar assuntos sérios ou dignos de profunda consideração com arrogante e ridícula ligeireza.

O Nome da Rosa tinha sido aquela pseudo-obra-prima fabricada, o sonho desses argonautas contemporâneos que são as grandes editoras: o Velocino de Outro que unia as aparentes contradições – um campeão de vendas e também um livro primoroso, embora incompreensível pelo seu rançoso recheio de erudição. Citações em latim, às vezes macarrônico, investigações policiais em mosteiros medievais: uma sub-Agatha Christie querendo saber quem era o culto monge assassino, à falta do proverbial the buttler did it (foi o mordomo) das histórias de detetive burguesas.

A poeira – e os dólares dos esnobes enfadados e sequiosos de recôndita Cultura com maiúscula acumulou-se a partir da página 10 ou 20 dessa rosa jamais desfolhada pela vasta maioria de quem a adquiriu e usou, entediado e perplexo, como calço de algum móvel capenga. Mas Umberto Eco, professor de semiologia, destrinchador de histórias em quadrinhos, consultor de uma grande editora na Itália, tomou como epígrafe o dito mordaz de Voltaire. “Todo imbecil sempre encontra alguém mais imbecil que o admira”. Eco tornou-se quase um mantra sagrada nos meios “intelectuais”, como o “Om” do Hinduísmo; e em vez de “Hare, Krishna” por pouco não se começou a saudá-lo, reverencialmente, com uma abafado ou entusiasta “Hare, Eco!”.

Para provar que era fácil ludibriar uma multidão gananciosa de “status” cultural, il professore voltou à carga. Embarafustou por vários mundos simultaneamente: o ocultismo, o esoterismo, a Cabala hebraica, o enigma dos romances policiais, a crença dos heréticos Templários, condenados pelo Papa e pelo rei Felipe, o Belo, da França, em inícios de 1300. Claro, na era da tecnologia e do terrorismo político das Brigadas Vermelhas italiana, era indispensável acrescentar um computador e discussões ideológicas sobre se é moralmente justo ou não trucidar os “opressores do povo” sequestrados pelos heroicos “libertadores desse mesmo povo”.

Misture com dezenas ou centenas de citações inventadas ou colhidas de autores abstrusos, assem em forno exótico de Exu afro-brasileiro, agite com uma pitada generosa de, digamos, não plágio, mas “inspiração” nas Ficcões do esplêndido Borges e pronto! Eis terminado um longo volume de meio milhar de páginas: O Pêndulo de Foucault.

“Oh! Ah! Não?!”

Monossílabos com o tom emocional de uma interjeição ou frases dubitativas, que não cabiam em si de gozo antecipado, fuzilaram as máquinas telex e telefax de quase o mundo inteiro. Possivelmente só a Coréia do Norte, a China de Deng, a Albânia, a Ilha de Fidel Castro e regiões remotas de Uganda ou de Rondônia ficaram a salvo do bombardeio que agitou os meios editoriais mundiais. “Eco rides again!”, “Eco l’há fato di nouvo!”, “Vraiment cet Eco est formidable!” E o circo para incautos se armou em torno do Palhaço-Mor deste final do século XX: toneladas de “indiscrições” vazavam oportunamente das editoras para as revistecas de divulgação editorial, sem qualquer valor de aferição literária, do tipo Publishers Weekly (Semanário dos Editores): “Prepare-se para o romance do século”, “Joyce e Proust ficarão agora em segundo plano!”.

Até notícias cômicas partiam do Grande Templo em que se transformou cada editora que adquiriu os direitos de publicar “o novo Eco”: algumas dondocas confusas emergiam álacres dos divãs psicanalíticos e debulhando suas pérolas confessavam às amigas íntimas, os olhos baixos, o rubor nas faces: “O Eco analisou o meu analista, o Foucault!”. Outras versões davam por certa a afirmativa de que “Eco se refugiou num mosteiro trapista perto de Jerusalém”; à noite, levitava sobre a Cidade Santa, aduziam alguns mais dotados de “informações confidenciais”.

Alguns críticos importantes, no entanto, cujo renome repousa em sua seriedade e independência, uma vez lido o calhamaço que lhes consumira mil e uma noites de enfado, negaram-se a sequer comentar o Nada. Gianfranco Contini, um dos intelectuais mais importantes da Itália, foi impiedoso com Il Pendulo di Foucault. Outro crítico justamente respeitado por sua honestidade e saber vastíssimo, Pietro Citati, desprezou esse pseudo-autor, chamando-o claramente de buffone (palhaço).

Já se divulga a publicação de um Guia e Glossário para seguir os labirintos e meandros desse mais recente confeito desse cozinheiro exímio de pastéis de vento, que enganam, mas não alimentam a mente. Umberto Eco, hábil manipulador de marionetes, responde impertérrito aos repórteres de revistas que o vem entrevistar: “Com o Pêndulo eu quis exprimir o meu conceito pessoal de Deus em sentido metafórico”. Desmaios, orgias de histerismo. O Mestre ressuscita o Deus que Nietzsche declarara morto para todo o sempre! Aleluia! Que maravilha!

Ora, já que no Brasil não há defesa do consumidor de alimentos, recobertos de agrotóxicos, quanto mais de livros contaminados por uma cultura de bacilos, é mais do que provável que o leitor desta inflacionada República desistirá logo diante dos primeiros capítulos ou páginas. A menos que se muna de várias Enciclopédias, em vários idiomas, e dicionários em diversos tomos. Logo de início é preciso saber o que é panta rhei, a doutrina de Heráclito, filósofo pré-socrático da Grécia Antiga; Francis Bacon, o do século XVI, não o pintor britânico atual; Empédocles; o etnólogo Frazer, autor de O Ramo de Ouro e mais:

O que são os aristocratas ossiânicos;

O que é teatro catóptrico, mancinismo, a eolípia de Héron de Alexandria, Pleroma, Ogdóade,

Quem é Hermes Trimegisto, Ildabaoth

E interromper a leitura, se necessário, para verificar o significado de um fragmento de frase como o seguinte:

“… e a cada imagem, fácil de gravar, podes associar um pensamento, uma categoria, uma elemento da alfaia cósmica, decerto um silogismo, um sorites imane, cadeias de apotegmas, colares de hipálages, rosários de zeugmas, danças de hysteron proteron, logoi apofânticos, hierarquias de estolquéias, precessões de equinócios, paralaxes, herbários, genealogias de gimnosofistas – ad infinitum…

O senso de humor de Eco é esquálido: “A única coisa que nestes momentos não te traí é o rol da lavadeira” ou “sacudiu-me um diálogo, preciso e desenvolvido, entre um rapaz de óculos e uma jovem que infelizmente não os tinha”, isso quando alguém não surge, “cheirando a água de colônia esotérica”.

Se Umberto Eco realmente quis criar a ficção teologal-policial computadorizada para perscrutar a origem do Mal no mundo e a existência ou não de Deus, tudo não passa de um pastiche fracassado, tornado indigesto de tantas citações eruditas e ilegível pela ausência seja de estilo seja do que dizer. Os “iniciados” que partem da contemplação do Pêndulo de Foucault (os três funcionários da Editora Garamond, Belbo, Diotallevi e Casaubon) naquela igreja de Saint-Martin-des-champs, em Paris, constroem, de brincadeira, um Pano universal para reger os destinos humanos e de tudo que há sobre o planeta Terra. Fascinado pelo ocultismo até mesmo em suas manifestações diabólicas de um Aleister Crowley, Umberto Eco faz desfilar pelos olhos pacientíssimos de seu hipotético leitor termos em hebraico da cabala judaica da mais recôndita impenetrabilidade para o leigo; adentra-se por rituais druídicos; dá atenção à numerologia; ao candomblé brasileiro; aos heréticos Templários e aos Rosa-Cruzes, sem esquecer filósofos da religião árabe, da Hélade clássica, do Século das Luzes, personagens de E o Vento Levou e de Guerra e Paz, tudo de cambulhada com menções fugidias a filmes, histórias de detetives, tecnologia biogenética contemporânea etc. etc.

O esplêndido escritor inglês Anthony Burgess (que no Brasil é conhecido quase que apenas por ter escrito A Laranja Mecânica, embora seja um autor erudito e altamente legível em mais de uma dezena de outros romances e obras de pesquisa sobre Shakespeare etc.) não se deixou enganar um instante. Não hesitou em dar sua opinião no jornal Corriere della Sera:

“É uma erudição completamente a serviço do lúdico: tudo acaba em jogo… um livro que, afinal de contas, nada mais é senão um complexo jogo…”

Eco brinca de inquirições religiosas como brincaria com a semiótica do Xou da Xuxa ou com bloquinhos de madeira para armar “cidades de Deus”, miniaturas escolásticas de jardim da infância.

Para mim é tudo uma brincadeira mercenária e cínica. Os textos que tratam seriamente do tantrismo tibetano, os livros de René Guénon, de Frithjof Schuon, de Coomaraswamy, de Ramakrishna e muito mais, incluindo-se nesta enumeração extremamente sumária a magnífica antologia de Whitall N. Perry, A Treasury of Traditional Wisdom (Editora Simon and Schuster) demonstram, à saciedade, a leviandade vazia deste livro e de seu grotesco autor. Aliás, o próprio Eco em pelo menos duas ocasiões se autodefine, cáustica e talvez involuntariamente:

“É inútil escrever livros quando não se tem uma poderosa motivação, é melhor reescrever os livros dos outros, como faz um bom redator editorial”.

Realmente, seria infinitamente melhor para a inteligência ocidental que Umberto Eco copiasse, com bico de pena, toda a obra de Jorge Luis Borges, isolado, quem sabe, num nicho da Igreja onde está o seu fatídico Pêndulo ou encarapitado no mosteiro do monte Atos, cujo nome certamente lhe agradará: mosteiro de Vatopedhiou.

Em outro momento desta Via-Crucis parece que o próprio processador de palavras no qual esta sensaboria torturante foi perpetrada comentou, de maneira concludente:

“Como pode ser tão generosa a vida, que proporciona compensação tão sublime à mediocridade?”

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Mais um pastel de vento (resenha ao livro de U. Eco O Pêndulo de Foucault) .” In Perscrutando a alma humana: A literatura italiana do pós-guerra, edited by Fernando Rey Puente, 8:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.