E nós seremos uma tribo. De selvagens

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1976-9-18. Aguardando revisão.

O Congresso ou Parlamento, chamado de Casa do Couro, foi fechado e fumigado: a grande tribo está vivendo com medo dos espiões disfarçados em toda parte. Civilização é uma palavra antiga, capaz de comprometer quem a usa. Ela irrita o Chefe Supremo, o Uhmala, que se dedica só a caçadas e partidas do jogo de abóbora. Para o povo, ele baixa os 400 Princípios, que não podem ser transgredidos. Terminou a Era dos Inventos, a capacidade de criar atrofiou-se: agora os rádios, as vitrolas, as televisões, as lâmpadas amontoam-se, inúteis, nos Armazéns Proibidos. Um dos passeios que restam é ir ver as ruínas dos automóveis, empilhados e apodrecendo no Cemitério dos Trambolhos de Rodas. Há muitas gerações nem os aviões, as naus celestes, aterrissam na oca daquela gente conformista, medrosa, que involuiu no tempo e na dignidade humana.

José J. Veiga não faz propriamente uma incursão no mundo da ficção científica nem da alegoria política em seu último livro, Os Pecados da Tribo (Editora Civilização Brasileira 123 páginas). O clima de terror instalado no poder, que caracteriza nitidamente sua obra-prima anterior, As Sombras dos Reis Barbudos, assumiu agora elementos ainda mais surrealistas e arbitrários. Há ainda funcionários sádicos que obrigam os cidadãos a tarefas inúteis e a se identificarem com discos de cores diferentes. É o mesmo totalitarismo burocrático que leva policiais ferozes a extorquir nomes de cidadãos pacíficos sob a alegação de que “ninguém pode ter segredos para o Estado”. Ao contrário dos seres alados sobrenaturais que povoam os céus de As Sombras dos Reis Barbudos, porém, surge um animal estranho, de cauda e peludo, o uiua, que, como o supercomputador Hal, de 2001, de Arthur Clarke, se apodera do comando, subjugando os humanos já tiranizados em fazendas-prisão: “Não é costume discutir ordens aqui em nosso território, e muito menos agora”.

Paralisado pelo pavor e pela inércia, o povoado aceita da Consulesa de outra tribo presentes mágicos: pedras preciosas que colocadas debaixo da língua previnem contra perigos, “pedras de consulta” que respondem a problemas difíceis se postas debaixo do travesseiro. A mediunidade, o alcoolismo, a promiscuidade sexual passam a ser os derivativos para aquela sociedade sitiada pela possibilidade onipresente de “evaporação” (morte).

A ameaça que um ser humano representa sempre potencialmente para o seu próximo, o non-sense de leis, a impotência dos cidadãos diante de usurpadores do poder – tudo isto não reduz a especulação de J. J. Veiga a uma mera alegoria política. Ele não se propõe a demonstrar teoremas sociológicos que mostrem, matematicamente, que a falta de liberdade e de democracia leva a um estágio semelhante ao do Planeta dos Macacos. Mais inquietante ainda é a suspeição de que a própria condição humana participa do pesadelo kafkiano de ser. O seu mundo não admite o humor, a ironia, a sátira. Talvez ele seja o autor brasileiro mais pessimista ou mais realista, de acordo com a perspectiva de quem o observa. Seja como for, seus personagens não têm muitas opções: o conformismo, a adulação, o embrutecimento raramente cedem lugar à esperança e quando esta aparece é sempre sob uma forma de encantamento, de superação dos limites mecânicos de causa e efeito biológicos. Nem o sentimentalismo verborrágico brasileiro tem acolhida em seu estilo coeso, seco, terso.

Uma das interpretações que se poderia dar a este múltiplo Os Pecados da Tribo poderia ser a falência da tecnologia, que determinou a regressão à pré-história. Outra, a de que um moralista pesa as ações humanas e chega ao veredicto da condenação da espécie. Seriam decifrações sempre parciais, porque a riqueza de sugestões e propostas que J. J. Veiga sintetiza em poucas páginas não permite uma classificação tão a gosto de um tipo de crítica arquivista. A sua é legitimamente uma obra aberta e plural, a ser armada conforme a sensibilidade e a perspicácia de cada leitor, mas sempre de leitura convincente e perturbadora.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1976–9AD) 2023. “E nós seremos uma tribo. De selvagens.” In Grandes contistas brasileiros do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 10:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.