Um presente para a sensibilidade

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1989-09-16. Aguardando revisão.

Neste Brasil de hoje, o comércio, a indústria, as gentes não foram avisadas. O Natal chegou em Setembro. A reunião de 30 anos de coesa poesia de Marly de Oliveira comprova abundantemente: será difícil encontrar um presente de Natal mais belo e mais profundo para a sensibilidade brasileira do que ler e possuir estas 457 páginas de poemas.

A primeira, grata surpresa é a precocidade do talento da poetisa que jamais fez alarde de seu canto. Já em 1958 a jovem artista deixava transparecer, forte, a inspiração na magnífica Cecília Meireles: “Deixei em vagos espelhos/ a face múltipla e vária” até o quarteto inicial do livro: “O que vai de mil salvando/ se vai a cada instante,/ nesse morrer diário e sucessivo: um canto”.

O fluir heraclitiano do Tempo, a transformação inevitável e célere do tudo impressionam o espírito jovem, que já intui a degenerescência de todas as coisas nessas metamorfoses na natureza, nos seres humanos e até na aparente impassibilidade dos minerais, mais lentos em sua inexorável mudança. Um pagão e estoico adeus, sem esperanças místicas nem partidarismos ideológicos, preside a essa prematuridade da descoberta do adeus implícito em tudo para nós, efêmeros no espaço e no tempo. Como no poema intitulado “Presente”:

“Para mim, este rumor

alado de primavera.

O vinho da claridade

em copos de mais azul.

Tua lúcida presença.

Enquanto, distante, a terra,

Com toda a sua umidade,

segura e sem pressa, espera.”

A uma visão menos atenta, poderia ser versos de Ricardo Reis, imbuído dos deuses, da inflexibilidade do Destino e do capricho do Olimpo. E mais um lirismo comovente, pois contém em si o momento, esse símbolo da Morte que nos circunda a cada instante:

“Beijo teu rosto no vento.

Mas aí, de gesto tão fundo!

Para embaçar o cristal

da vida, eis o gume, vinho

das profundezas do mundo.”

Um dos poemas concisos em sua perfeição nesta importante reunião dentre tantos outros, é já uma conquista definitiva, um marco indelével da poesia escrita em língua portuguesa. É pena que, pela sua extensão, não possamos citá-lo por inteiro:

“O sentido das coisas,

onde achá-lo, senão nas próprias coisas?

Ou algo está por trás

da rumorosa vida de um inseto,

da quietude da flor, do meu espanto.

Vivendo-nos tranquilo.

E cada dia nos absorve um pouco?

…………………………………………………

As coisas não esplendem,

e nós somos apenas um reflexo

imperfeito do oculto,

como o rio reflete fugazmente

a delicada sombra de uma fronte.

Movendo-se tão alta,

que embora só memória dessa altura

fosse o reflexo na água.

As coisas têm um brilho para dentro,

que lhes é inerente,

do mesmo modo que o homem tem uma alma

e não entende, e vive

num vazio de quem não a tivera.”

Ler completa no belo volume que lhe dedicou o artista requintado que é o editor Massao Ohno, esta sucessão de esplêndidos livros de rara, inspirada e erudita lírica no Brasil, é descortinar, a cada volume, paisagens entrelaçadas por um Leitmotiv, pagão, estoico, agnóstico, corajosamente assumido. Marly de Oliveira celebra o instante morredouro e com ele a “consapevolezza”, a consciência de que o Fatum, o Destino de cada um de nós já foi previamente traçado pelo desenho caprichoso, ou cruel, ou desdenhoso, de deuses incognoscíveis.

Da atmosfera clássica o clima entremeia-se de filosofias íntimas, uma recordação triste sobrepaira a certeza irreparável de “nunca ter sido”, nunca ter alcançado nenhum dos ideais com que sonhou: nem a felicidade, nem o amor, nem a alegria:

“Volta-me, agora, um tempo que não tive,

infância não vivida,

tantas vezes pensada e repensada,

e dá-me uma alegria que refaz,

sonora como fonte,

dentro da paz, a paz que não havia,

dentro do amor, o amor.

……………………………………………………

Sou aquilo que fui sem o ter sido.

O quarto em que vivi,

em abstrações e sonhos mergulhada,

se amplia neste campo sem paredes,”

……………………………………………….

Até a conclusão final do Tempo:

“Volto ao que fui sem o ter sido embora,

e assim como a manhã

se desprende da noite, inexplicada,

eu ganho, de repente,

um futuro e um passado:

um passado que é feito de presente,

de um voltar só com o sonho

onde a memória nunca acertaria.”

O humano sendo mero joguete, seu existir e seu rumo indevassáveis pela inteligência, a poetisa apreende o que há de incompleto, de incompreensivelmente lúdico na existência:

“Criar quae prescinde do que existe.

O que existe é somente

um rascunho ou um ponto de partida.

Enquanto posso, vivo

a fértil realidade destes longes.

Laboriosa construo

com este mel, paar os futuros sonhos

aprazível morada.”

Passando por lembranças vincadas de leituras de Garcillaso, de Leopardi, ela tece, no tear de seus poemas, a trama sem-fim de suas indagações até fixar-se deliberadamente no hic et nunc (aqui e agora):

“Pode o canto de um deus deter-me o passo?♣

pode a trama tecer-se de meu sonho,

com apenas pensar no que desejo?

E a ideia da antiga conjunção

com o Todo de onde viemos?

Foi-se com o que foi o que já foi,

atendemos ao mito do presente.”

O tom melancólico dos versos torna-se denso de sombras: o viver é pouco a pouco reconhecido como ilusão e como trajetória que desemboca no trágico:

“Não creio na justiça prometida,

todos verão um dia

a face do abandono.”

Ou:

“Para os deuses tudo é igual a nada”

E:

“Vasto é o deserto quando nada se quer,

mais vasto quando nada se busca”

Haveria reparos a fazer, sobre a desigualdade das coletâneas aqui enfeixadas (“Viagem a Portugal”, por exemplo, poderia e deveria ser extirpada do todo, melhorando-o, sobre frases a serem possivelmente refeitas a respeito de viagens a paisagens clássicas e cotejos entre os escultores Praxíteles e Miguel Ângelo e que são comparações que têm seu lugar numa carta a amigos distantes ou num diário. A verdade porém é insofismável: Marly de Oliveira, nesta Obra Poética Reunida, consolida sua decisiva importância, fina, sutil, melodiosa, profunda culta, dentro da melhor e mais admirável poesia que se faz he em nossa língua.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1989) 2022. “Um presente para a sensibilidade .” In Poetas brasileiros contemporâneos, edited by Fernando Rey Puente, 4:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.