Trágica melancolia (nota sobre a biografia de Ian Gibson)

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Isto é-Senhor, 1989/11/08. Aguardando revisão.

E como diria o Conselheiro Acácio: “Há biografias de todo tipo, ora pois!”. Nos States a epidemia de “biografite” tem como mira o cifrão refulgente do best seller, esse rio de outro que desemboca no coração financeiro da Wall Street. Biógrafos e biógrafas xeretas invadem alcovas, ouvem relatos de contato com o Além; na maioria são, não biografias que se imprimem, mas colagens de fofocas, mexericos maldosos, explosões de inveja vingativa e iconoclasta. Numa delas Randolph Scott e Cary Grant aparecem juntinhos de avental, enxugando louça como qualquer casal feliz em Berverly Hills. Não ter lido “a última” é estar out: Como?! Você ainda não devorou a vida arrasadora de Picasso, que prova seu ódio às mulheres, às quais prefere os touros Miúra por serem menos idiotas? E não me diga que você ignorava que o ex-Beatle John Lennon foi cúmplice de um assassinato em Hamburgo, além de ser escravo erótico de seu empresário gay!

Agora, a velha Inglaterra, dona do crepúsculo cultural mais em câmera lenta desde que Roma caiu em mãos dos bárbaros, nos apresenta um painel apaixonante, sensível, intitulado, com britânica modéstia: A Vida de Federico García Lorca. São 542 páginas de uma superprodução anglo-espanhola captada em cinemascope. Seu autor, Ian Gibson, naturalizou-se espanhol e – é preciso dizê-lo? – idolatra o poeta do Romancero Gitano. Dispondo de uma profusão gigantesca de dados que coligiu, décadas a fio, sobre o artista andaluz, Gibson opta por começar justamente pela morte atroz de Lorca. Contradiz frontalmente a tese superficial de um poeta contemporâneo, Vicente Aleixandre: “Lorca era uma festa!”, de uma alegria contagiante, esfuziante. Sem meias-palavras, Gibson aprofunda a lírica biografia de Lorca de Marcelle Auclair, publicada em 1968 (Enfances et Mort de García Lorca) e que afirmava que “seu medo era, sem dúvida nenhuma, que seus pais descobrissem que ele era um invertido”.

Essa era a própria essência da trágica melancolia de Federico, que ele procurava ocultar com arrebatos de estouvamento e uma dedicação fanática ao trabalho, à criação poética e tetral. Na Espanha, em Cuba, em Buenos Aires, sempre que o biógrafo aludia ao homossexualismo de Lorca, seus interlocutores se calavam como num pacto de silêncio. Ficaram, porém, por exemplo, as cartas íntimas, esplícitas, de Salvador Dalí, justificando sua recusa a ser sodomizado pelo grande amigo. Mais ainda: Gibson dá o nome completo e detalhes (nada escabrosos) de pelo menos dois dos amantes de Lorca: o escultor Emilio Aladrén e seu amor até a morte pelo jovem Rafael Rodríguez Rapún. Paixão que se revelou fatídica: a fim de não se separar do companheiro, Federico recusou o apelo de amigos como a grande atriz Margarita Xirgu para que se juntasse a ela no México, longe do dia a dia cada vez mais violento da Espanha, preparatório da Guerra Civil. Optou, decidido, por não deixar o amigo e ir a Granada, onde o esperava a família, e a truculência fascista da Falange para aniquilá-lo, em 1936, aos 38 anos de idade.

A insistência de Ian Gibson no homssexualismo de Lorca radica na sua tese de que todo o teatro de Lorca transfere para atormentadas personagens femininas seu inferno pessoal de “marginalizado”, que não podia colocar-se sinceramente no palco em toda a sua crueza. O amor físico é pago com Bodas de Sangre, a esterilidade de YermaI leva à morte. Não que Federico não estivesse escrevendo o rascunho de peças como El Público, que considerava revolucionárias, sim, mas impossíveis de serem montadas, já que partiam da homossexualidade. É interessante notar que Gibson fica cego a uma aproximação que se torna evidente para o leitor entre a mesma problemática de Tennessee Williams, também gay e um outcast por causa disso. Atormentados por uma paixão sensual que a sociedade encarna com um misto de piedade, nojo e escárnio, quando não ódio a priori, ambos outorgam a mulheres insatisfeitas ou rompedoras de tabus suas próprias angústias insolúveis.

A outra face da fisionomia de Federico que o autor sublinha, com nova e irretorquível documentação farta, é sua ojeriza a aliar-se a qualquer partido político. Seu teatro formado por estudantes entusiastas denominados La Barraca, tinha como missão levar a grande cultura do teatro clássico espanhol para um povo que a Igreja primara sempre por deixar debaixo do seu tacão autoritário e obscurantista durante tantos e tantos séculos de atraso e ignorância.

Lorca em inúmeras ocasiões fizera declarações candentes sobre sua adesão ao socialismo, contra a direita, sempre e sempre violentamente a favor do povo espoliado pela cruel e escassa plutocracia espanhola. Mas com a mesma firmeza recusara cair no cerco que os comunistas lhe impunham.

Ao mesmo tempo, renegava a “arte pura”, a “arte pela arte” e enfatizava: o teatro, a poesia, a arte têm de fazer avançar as classes pisoteadas e furtadas de seus mais elementares direitos humanos.

Todo este fascinante panorama da Espanha intelectualmente em efervescência em todas as artes, em meio aos preparativos para “o ensaio geral” para a Segundo Guerra Mudial que viria com Hitler, Stálin e Mussolini desdobra-se ante o leitor deslumbrado. Durante 40 anos quase, o franquismo assassino silenciou sobre este crime. O biógrafo capta a jactância de um dos seus matadores, “Juan Luiz Trescastro, que nesse mesmo dia vangloriou-se, em Granada, de ter ajudado a acabar com Lorca, metendo-lhe , por exemplo, duas balas no rabo por ser fresco”. Um ano depois desse massacre pusilânime, já nas trincheiras da Guerra Civil espanhola, seu amigo Rapún negou-se a escapar de um avião bombardeiro fascista.

Não se atirou ao chão e uma bomba explodiu, ferindo-o mortalmente. Era o dia 18 de agosto de 1937, conforme atesta sua certidão de óbito, exatamente um ano depois do assassinato de Lorca. Tinha 25 anos.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Trágica melancolia (nota sobre a biografia de Ian Gibson) .” In Testemunhos Literários do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 3:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.