De Selene à Apollo

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Desde as cavernas pré-históricas, inscrita como uma esfera menor ao lado do círculo maior do Sol, a Lua fascina o homem e reflete sua imagem nas artes, principalmente na literatura. As primeiras menções escritas da Lua estão solidamente ligadas à religião, aos deuses e à magia. É no Antigo Oriente que ela surge primeiro: em Nínive, 3200 anos antes de Cristo, um tijolo de argila da biblioteca do Rei Assurbanípal relata uma viagem à Lua do monarca Etam, “que subiu tão alto no céu que os mares e as terras lhe pareciam pãezinhos dentro de um cesto”. Deusa na mitologia dos indígenas brasileiros (Jaci), dos gregos (Selene ou Ártemis) e dos romanos antigos (Diana), a Lua está indissociavelmente ligada à divindade, surgindo até em textos católicos como símbolo da Virgem Maria e da própria Igreja.

Na Bíblia, a Lua é utilizada como prenúncio da ira do Senhor, como na profecia de Isaías, no Velho Testamento: “Eis que virá o dia do Senhor, o dia cruel e cheio de indignação, e de ira, e de furor, para transformar a Terra numa solidão, e para exterminar dela os pecadores. Porquanto as estrelas do céu, e o seu resplendor, não espelharão a sua luz: cobrir-se-á de trevas o Sol no seu nascimento, e a Lua não resplandecerá com a sua luz”. No Novo Testamento, prevendo o Apocalipse que precederá a segunda vinda do Cristo à Terra, São Pedro adverte: “O Sol se converterá em trevas, e a Lua em sangue, antes que venha o dia grande e ilustre do Senhor”. É na Bíblia que a Lua é tomada, talvez pela primeira vez, como símbolo da mulher amada, quando o Rei Salomão, no Cântico dos Cânticos, exalta poeticamente sua companheira: “Quem é esta, que vai caminhando com a aurora quando se levanta, formosa como a Lua, brilhante como o Sol, terrível como um exército formado em batalha?”

Saindo dessa aura mística, a Lua apresenta-se como um tema fantástico, o ambiente ideal para o sobrenatural e a imaginação. No século II, Luciano, o Sírio, forjou uma História Verdadeira – que de verdadeira só tem o título. Nessa narrativa, que se pode considerar como a avó da ficção científica moderna, a fantasia subtrai à Lua certos aspectos religiosos para transformá-la num reino imaginário onde tudo é “intencional mentira”, como adverte o autor. A ascensão à Lua é feita por meio de um violento ciclone que arrebata nos ares, durante sete dias e sete noites, a barca com seus tripulantes terrestres. Povoada de cavaleiros montados em abutres de três cabeças, a Lua é o cenário de uma espécie de faroeste lunar: de um lado o xerife o Rei Endimião (o belo adolescente pelostar-se qual a deusa da Lua, Ártemis, se apaixonara), que de seu desterro na Lua quer fundar uma colônia para os pobres na Estrela Matutina, mas é impedido é impedido pelo vilão Fáeton, Senhor do Sol e defensor dos ricos. Ainda dentro dessa linha fantástica, o grande poeta do Renascimento italiano, Ariosto, em sua obra de cavalaria e amor Orlando Furioso, acrescenta uma interpretação moral como sendo repositório dos desejos frustrados dos homens e das adulações dos bajuladores aos poderosos.

O Renascimento destruindo a sociedade teocrática da Idade Média, mais preocupada com anjos, demônios, bruxarias e catedrais, renova o interesse pelas ciências. Nos séculos XVI e XVII uma nova fase literária da Lua começa a manifestar-se: conhecimentos científicos cada vez mais precisos se vão imiscuindo no tecido fantástico: Cyrano de Bergerac em 1649, intui a aplicação do foguete retroativo (que os astronautas de hoje utilizam para frear a espaçonave) em sua obra divertida História Cômica dos Estados e Impérios da Lua e do Sol. Amarrando em torno da cintura ampolas cheias de orvalho, Cyrano sobe nos ares até a Lua, quando o orvalho se evapora, abrasado pelos raios do Sol. A lua de Cyrano é um reino de gigantes numa parte e noutra um verdadeiro Éden antes da queda de Adão e Eva. Tem florestas virgens sem geras nem plantas venenosas, sua primavera é eterna, com maravilhosos rouxinóis adoçando ainda mais uma existência sem doenças, sem envelhecimento nem baixos desejos. O próprio Cyrano rejuvenesce nesse paraíso lunar, tornando-se um jovem que admira em êxtase a “perfeição de Deus, infinito como o próprio mundo…”

Com a invenção da luneta e com a teoria revolucionária de Galileu, a Lua passa a preocupar cada vez mais os escritores, muitos dos quais são cientistas, como Kepler. Mas, temeroso das ameaças que a Inquisição fez a Galileu, forçando-o a abjurar de suas conclusões astronômicas, Kepler se mostra prudente: na sua fantasia delirante Somnium (Sonho), escrita em latim, no século XVII, ele disfarça os dados científicos para não contrariar as noções científicas impostas na época pela Igreja. Voltaire, Bernard de Fontenelle e David Russen, no mesmo século, especulam sobre a pluralidade dos mundos habitados, sobre a utilização de uma catapulta para arrojar o homem no espaço rumo à Lua desconhecida.

Pouco a pouco a Lua deixa suas características fantásticas e passa a ser tema de confluência entre a imaginação e o desenvolvimento paulatino da ciência. Daniel Defoe, o autor de Robinson Crusoé, em The Consolidator acena em 1705 para a propulsão a foguetes e discute a ausência de gravidade que seus personagens sentiriam na Lua. Joseph Atterlay, em 1827, supõe corretamente em sua obra Uma Viagem à Lua que o ideal será construir uma espaçonave de metal, pilotada do interior por seus tripulantes. Nessa época, a Lua bifurca-se na literatura, passar a ter duas imagens. De um lado, os grandes poetas românticos – Leopardi, Shelley, Eichendorff, Musset -, que fazem da Lua a protetora da melancolia, dos amantes, dos loucos: os raios de luar diáfano caem tanto nas sonatas de Beethoven e nos noturnos de Chopin quanto nos sonetos amorosos de Goethe.

De outro lado, a prosa substitui o fantástico pela especulação científica cada vez mais plausível. Júlio Verne chegaria a adivinhar a velocidade exata da cápsula espacial para libertar-se da atmosfera terrestre rumo à Lua (40.000 km/h), seu lançamento da Flórida e sua volta à Terra caindo no oceano Pacífico. Com H. G. Wells e suas descrições da aterradora paisagem lunar e suas guerras interplanetárias, encerra-se o primeiro ciclo de ficção científica moderna. O fim do século XIX é também o fim das tentativas de achar um combustível ideal para a nave espacial. Nos dias de hoje, a Lua é o ambiente obsessivo de excelentes autores de ficção científica. De mera estação intermediária, Clavius, para atingir outros planetas em 2001: a Odisséia Espacial de Arthur Clarke, a Lua passa a ser nos romances subsequentes deste autor britânico (S.O.S. na Lua e Náufragos na Lua) um mundo ameaçador para os seres humanos, com seus mares de pó em que atolam ônibus para turistas terrestres. Robert Heilein, em Revolta na Lua, amplia o perigo, adicionando-lhe ingredientes da Terra: violência e ditadura política. A Lua dessa ora impressionante é a Sibéria do ano 2075, cujos prisioneiros – dissidentes políticos deportados – se revoltam apoiados por um supercomputador dotado de consciência social e rebelde à injustiça. De certa forma, a realidade imita a arte: a Apollo 11 reproduz a imagem do deus grego Apolo, que se reúne, no céu, à sua irmã Selene, a Lua, no dia dedicado à Lua: Monday. Montag, Lunes, segunda-feira.

Mini-antologia da Lua

A Lua, chamada pelos gregos antigos Selene ou Ártemis (Diana pelos romanos), era a deusa da caça, filha de Zeus (Júpiter) e de Latona, representada sempre com um arco e flecha e votada à castidade. Tendo-se apaixonado por Endimião, adolescente de esplêndida beleza, Ártemis obteve de seu pai Zeus que seu amado permanecesse eternamente jovem, envolto num sono que o preservava para sempre da velhice e da morte. Da mitologia grega.

“Coaraci, o Sol, chamado de rei dos astros, por causa do seu brilho, passeava em seu deslumbrante carro vermelho de fogo e brasa com sete cometas em vez de sete cavalos. Nisto viu a Lua, a delicada e meiga Jaci, distraída em pajear as estrelinhas miúdas do céu, e imediatamente Coaraci apaixonou-se por ela, pedindo-a em casamento à Mãe-Terra. Como promessa de noivado lhe deu o arco-íris luminoso, e o Sol, que vivia atropelando as nuvens e os astros, passou a ter uma vida pacata no céu. Mas Tupã, o Deus Maior, não quis que a Terra ficasse despovoada e resolveu separar os amantes, porque a luz de Coaraci era abrasaçodora demais para que houvesse vida na Mãe-Terra. Aí Jaci, a Lua, chorou tantos meses, tantos dias e noites, que formou o rio que chamamos de Amazonas” Lenda dos indígenas amazonenses.

“Erguendo minha taça, convido a Lua;/com minha sombra, somos três./ Embora a Lua não saiba beber,/e minha sombra me siga em vão,/Delas faço minhas companheiras de um momento./Com brindes alegres, saudemos a primavera!/Eu canto: a Lua passeando, ondula;/Eu danço: minha sombra vacila./Antes de embriagar-me, regozijamo-nos juntos;/E, chegada a embriaguez, nos separamos./É assim que me uso a essas amigas indiferentes,/Quando a Lua me espera no céu.” “Libação solitária sob a Lua”, Li Po, poeta chinês (701-762)

“Chegou a um vale fechado entre duas montanhas, no qual se achavam admiravelmente recolhidas todas as coisas que se perdem por culpa nossa, por causa do tempo ou pelos reveses da fortuna; em uma palavra: tudo que se perde (na Terra) vai parar lá. Aí se encontram muitas reputações, que o tempo, como verme roedor, corrói e conclui por destruir: aí se acham súplicas e promessas infinitas que nós pecadores dirigimos a Deus. As lágrimas e os suspiros dos amantes, o tempo que se perde inutilmente nos jogos, o prolongado ócio dos ignorantes, os projetos vãos que não se chegam a executar, os desejos menos efêmeros, são tantos e tantos que enchem a maior parte daquele vale. Em resumo: tudo que procede de nós se encontra ali (na Lua) reunido, exceto a loucura, que não existe em pouca nem grande quantidade porque permanece toda na Terra, de onde não sai nunca” Orlando Furioso, Ariosto.

“A Lua inté parecia/uma frô das aguapé,/e as estrelas era as abêia/de todo lado avuando/pr’a vi chupá o seu mé!” Trovas, Catulo da Paixão Cearense

“Cristo é o Sol Divino da Justiça, Maria é a Lua Mística da Bondade. Se Cristo é o Sol, cujo clarão imenso deslumbra as nossas pupilas fracas, entretanto, para captar o brilho forte de Deus e adaptá-lo às nossas vidas humanas, existe a Lua mística do céu. Nossa Senhora. Por ela descem até nós as graças preciosas e as bençãos eleitas de Deus. Se a Lua é uma linda rosa branca na graça do Símbolo, Maria é a bela rosa do céus.

Elevações Marianas, Mosenhor Primo Vieira

“Astros dos loucos, sol da demência./Vaga, noctâmbula aparição!/ Quantos, bebendo-te a refulgência,/Quantos por isso, sol da demência,/Lua dos Loucos, loucos estão!” Plenilúnio, Raimundo Correia

“Céu limpo e Lua no horizonte, de lá virá o vento. Se vires a Lua vermelha, põe a pedra sobre a telha. Lua com circo (círculo), água traz no bico. Nasceu-se a Lua clara, para a feira te prepara.”

Provérbios brasileiros recolhidos por Luís da Câmara Cascudo

“São Jorge achou muito interessante a ideia que os homens faziam da Lua, mas declarou que havia erros. ‘Os mares, por exemplo, parecem mares vistos lá da Terra, mas não são mares, sim imensas florestas das plantas que existem aqui.’ – E que plantas são essas? – quis saber Pedrinho. ‘São as plantas que a nossa Terra vai ter quando ficar velhinha como a Lua. Hoje você olha e nem entende essas plantas. Como também não entende os animais daqui, de tão diferentes que são dos da Terra. Isso de quinze em quinze dias a Lua passar dum terrível verão para um terrível inverno fez das plantas e dos animais lunares umas coisas que nem entendemos. E também muito influiu a rarefação do ar. Os animais tiveram que tornar-se quase que só pulmões. São verdadeiros ’pulmões animalizados’. A Emília há pouco manifestou vontade de ver um gatinho e um cachorrinho da Lua - mas se os visse nem sequer os reconheceria. São mais pulmões-bichanos do que gatos… – Eu quero ver um pulmão-bichano! – berrou Emília. Eu quero ver um pulmão-totó!… ‘É difícil’ – informou São Jorge. ‘Além de serem raros, esses animais andam muito bem ocultos no fundo dessas crateras, onde ainda há uns restos d’água’” Viagem ao Céu, Monteiro Lobato

“Sobre a Lua de leite coalhado/vê-se um homem/Que leva nas costas/um fardo grosso de lenha./Deve ser bem pesado/Pois ele não sai do lugar/Entra mês, sai mês, caçador de outras eras./ Sobre a Lua de néon/vê-se um astronauta/Que leva nas costas/O foguete de retorno./Já se foi embora/Não há mais ninguém/Entre o Mar das Crises/E a Serenidade/Sobre a Lua de algodão/Pintaram os olhos e a boca/O nariz e um carneiro grande/Sobre o qual dorme uma mosca./Sempre se pensou/que esse objeto astronômico/estivesse ao alcance de nossa mão/Tão familiar, tão melancólico…” “A Lua”, Raymond Queneau

“Quando deparamos com ele pela primeira vez, era a paisagem mais selvagem e desolada possível. Estávamos num enorme anfiteatro, uma vasta planície circular, o chão da cratera gigantesca. Suas paredes escarpadas como as de um desfiladeiro nos cercavam de todos os lados. Do lado oeste a luz do sol invisível àquela hora caía de chofre sobre elas chegando até o sopé dos imensos penedos, pondo a nu um escarpamento revolto, de rochas pardas e cinzentas, venadas aqui e ali de fendas de neve. Isto estava talvez a umas 12 milhas de distância, mas a princípio nenhuma atmosfera interceptora diminuía absolutamente o brilho minuciosamente detalhado das coisas que nos ofuscavam o olhar. Claras e cintilantes, contrastavam com a negridão estrelada que para nossos olhos terrestres parecia mais uma cortina gloriosamente semeada de astros de que a vastidão sem fim do firmamento.”

Os Primeiros Homens na Lua, H. G. Wells

“As montanhas lunares eram totalmente diferentes das da Terra. Não possuíam as brilhantes calotas de neve, nem a verde vegetação que as enfeitava, nem as coroas de nuvens encimando-as. Mas os fortes contrastes de luz e sombra davam-lhes uma estranha beleza. As leis estéticas da Terra não se aplicavam a esta paisagem. Este mundo fora moldado e formado por outras forças que não as terrestres, trabalhando no decorrer de séculos desconhecidos para a jovem e verdejante Terra, com sua efêmera era do gelo, seus mares subindo e descendo, suas montanhas dissolvendo-se como a bruma na madrugada. Aqui a idade era uma ideia inconcebível, mas a morte não, pois a Lua jamais tivera vida – até agora.

Prestes a alunar, a nave estava agora pousada quase exatamente em cima da linha divisória, entre a noite e o dia. Lá embaixo havia um caos de sombras misturadas com picos brilhantes e isolados, recebendo a primeira luz da lenta aurora lunar. Era perigoso tentar pousar naquele local, mesmo com toda a aparelhagem eletrônica disponível. Afastaram-se então lentamente em direção à face noturna da Lua.”

2001: Odisséia Espacial, Arthur Clarke

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. De Selene à Apollo . Edited by Fernando Rey Puente. Conferências, ensaios e alguns artigos especiais. Vol. 9. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.