A luminosa despedida seguida de um longo depoimento de Hilda Hilst

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 4 de março de 1989. Aguardando revisão.

A profunda, luminosa poesia de Hilda Hilst tinge-se de tons de melancolia e consciente despedida em seu último livro, Amavisse (infinitivo perfeito do verbo em latim amare que significa “ter amado”). Último por estar agora nas estantes das livrarias e último também por ser intencionalmente o derradeiro que ela se propõe a publicar no Brasil.

A temática de livros anteriores ressurge: Deus incognoscível, talvez cruel por critérios humanos, talvez remoto em uma galáxia inacessível à imaginação ou à concepção meramente humanas. O ser humano na parte baixa do esterco, do charco, do chiqueiro. Logo no primeiro poema usa os verbos no passado: “Não cantei cotidianos” ou no futuro: “Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia/ Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível”. A solidão do insignificante e limitado ser humano, aqui ele é o poeta, testemunha este desamparo e esta pobreza essencial: “Porque de barro e palha tem sido esta viagem Que faço a sós comigo.” Já que a vida foi este frêmito efêmero do corpo, devorado pelo Tempo, metamorfoseado em velhice, para a passagem rumo à outra dimensão da vida, talvez, a bagagem é leve: “Hei de levar apenas a vertigem e a fé/ Para teu corpo de luz, dois fardos breves”. Os próximos poemas também relatam a perda gradual do viço e do rigor da vida pregressa, toda simbolizada em cores vivas, amarelos, ocres, dourados, vermelhos. “Eu mesma diluída e mínima/ No dissoluto de toda despedida”. A separação, a perda se concretizam em imagens retidas na memória tateante: “Como se te perdesse nos trens, nas estações”.

Mas antes do fim, houve a Epifania, a revelação, o instante iluminado, cortante do satori, que ela apreendera, “Brusco, inamovível” fulminantemente se apresenta por um instante como “Um arco-íris de ar em águas profundas”. Aquela “saudade de Deus” de que fala Kierkegaard irmana, no afeto, “tigres baços” com “fome de afagos” que o poeta acaricia com “as mãos nas veludosas patas”. As duas fomes, de afagos e de sonhos, exaltam aquela “agonia de ser” intensa, aquela suspeita-medo “tão indivisa/ como se mesmo a morte os excluísse”. Como acontece frequentemente em seu mundo poético, Hilda Hilst equipara o concreto e o abstrato: “O viscoso do Tempo sobre a boca e a hora”, para findar abraçando calidamente o efêmero: “E deitei-me como quem sabe o Tempo e o vermelho/ Brevidade de um passo no passeio”

E sempre terroso, o apelo do metafísico mesclado ao popular e ao cotidiano, tornando a comunicação absurda ou transcendente ou risível: “E gritou às galinhas que falou com Deus.”

Essa cesura, essa despedida assume matizes lancinantes:

“Que as barcaças do Tempo me devolvam a primitiva urna das palavras”.

Que me devolvam a ti e ao teu rosto para tornar-se um ritual dedicado ao amor morto: “Amor chagado, de púrpura, de desejo… e recheio de sons o teu jazigo… na planície do olvido”, numa eterna vida nova oculta no cerne da semente, como uma primavera que reflorescesse: “E reverdeço/ na rosa de umas tangerinas/ E nos azuis de todos os começos”. A perfeição lírica atinge um de seus ápices no poema XIII:

“Extrema, toco-te o rosto. De ti me vem

À ponta dos meus dedos o ouro da volúpia…

… Extrema, toco-te a boca como quem precisa

Sustentar o fogo para a própria vida.

E úmido de cio, de inocência,

É à saudade de mim que me condenas…”

Como salvar do limbo do esquecimento das heras que recobrem as tumbas a trajetória da busca incessante, o fulgor da paixão, a miserabilidade da limitação grosseira humana e deter as ruínas que documentam a poesia que apodrece, o abandono da alma e do amado? Só através da poesia, como os sontetos de Shakespeare celebravam a beleza de um jovem que desafiaria os séculos nas palávras proféticas do poeta. Haverá paz para a áspera hostilidade das pessoas “de dolorido sumo e de duras frentes/ E que são feitas as caras” das multidões desumanizadas, como robôs cuja corda se quebrou e vagam, mecânicas, atônitas, todos ameaçados pelo Tempo que pode trazer o temível Nada: “o que há de ser da minha boca de inventos/ Neste entardecer. E do outro que sai/ Da garganta dos loucos, o que há de ser?”

A segunda parte do volume, “A Via Espessa”, revela os laços de parentesco ou afinidade entre o poeta e o louco: “Mas o poeta habita/ O campo de estalagens da loucura”. Um louco que aparece sobre o muro lhe grita, tendo entre a coxa um lixo de papéis: “- Procura Deus, senhora/ Procura Deus?” e num gesto de irrisão revela a loucura de querer se chegar a Deus por meio do intelecto, “o lixo de papéis”. Na verdade, o louco recorda, o que busca merece o nome de Samsara, ou seja, a roda das reencarnações sucessivas desenhada, para o homem, pelo Budismo, já que o original em sânscrito, Samsara, siginifica passagem, como a “travessia” humana com a qual Guimarães Rosa termina seu monumental Grande Sertão: Veredas. O louco propõe: “Por que não deixas o fogo onividente/ Lamber o corpo e a escrita? E por que não arder/ Casando o Onisciente à tua vida?” … e em outro poema: “Esquece texto e sabença. As cadeias do gozo”, como nos ensinamentos da filosofia religiosa Vedanta, da Índia, expostas por Swami Vivekananda.

Mesmo um enfoque tão exíguo como o que o espaço concede aqui em poucos linhas, consigne-se que a terceira e final parte, “Via Vazia” eleva a busca mística e a animalização do ser humano em sua invocação de Des a parâmetros inéditos. O poeta é “um rato d’água” que circula “no remoinho da busca./ Que sou teu filho, Pai, me dizem. Farejo./ Com a focinhez que me foi dada/ Encontro alguns dejetos”, depois se estende sobre a pedra “que dizem ser teu peito” e continua a farejar e esperar algum sinal da Divindade: “Há quanto tempo. Há quanto tempo. Depois da morte Deus se assemelha a que? a trevas?” Não é lícito então pedir-lhe “Dá-me a via do excesso. O estupor./ Amputado de gestos dá-me a eloquência do Nada/ Os ossos cintilando/ Na orvalhada friez do meu deserto”?

Saturno que devora os próprios filhos, sua ávida boca é o Tempo, “no furor da tua víscera/ Trituras a cada dia/ Meu exíguo espaço”. Como Blake em versos famosos já reconhece nas feições humanas o esgar hediondo da crueldade, Hilda Hilst também repisa que “Tu sabes que serram cavalos vivos/ Para que fiquem macias/ As sacolas dos ricos?”. E avisa, resignada ao desespero da ferocidade humana: “Descansa./ O Homem já se fez/ O escuro cego raivoso animal/ Que pretendias”. E como o grande poeta inglês John Donne ela reconhece, no final, que a vitória não será o triunfo da morte: “O Tempo não roerá o verso da minha boca”, reiterando com maiúsculas: “O TEMPO NÃO VIVERÁ SE TOCAR A MINHA BOCA”, como em um verso anterior tivera o lampejo de um raio de certeza:

“E o poeta preexiste, entre luz e o sem-nome”. Nas reflexões extraordinárias de Boris Pasternak em The Poet’s Work:

“Um livro é um ser vivo. É plenamente consciente e está no uso pleno da razão: suas imagens e cenas são o que ele trouxe do passado e guardou na memória e não aceita esquecer.”

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Em sua fazenda perto de Campinas, a escritora paulista Hilda Hilst ultima os preparativos para o lançamento, pela Editora Massao Ohno, de seus últimos textos. Um volume é de poesia, Amavisse, que evoca, entre outros temas, o tempo do verbo que em latim significa “ter um dia amado”. As duas obras seguintes causarão surpresa: O Caderno Rosa de Lori Lamby quer, abertamente, ser um livro de pornografia caipira, explorando o tabu da sexualidade infantil, uma ninfeta-Lolita do interior precoce, e no entanto, ingênua, com 27 ilustrações do magnífico desenhista e humorista do Brasil, Millôr Fernanddes. O terceiro livro, Histórias de Escárnios, Textos Grotescos, a meu ver, mistura pornografia com citações eruditas, tudo num tom de deboche e galhofeiro.

Hilda Hilst concedeu ao Caderno de Sábado este depoimento singular, às vésperas dos três lançamentos próximos que marcam a despedida da Literatura e a incursão num gênero de pornografia cheia de humor, inédita em toda a sua longa carreira. Uma trajetória percorrida há 40 anos quase, criando uma vigorosa dramaturgia, uma belíssima poesia e sobretudo a prosa mais resplandecente e abissal do Brasil ou talvez mesmo da língua portuguesa, desde a criação igualmente genial de Guimarães Rosa.

“A literatura para mim foi sempre o Sagrado. Transformaram a literatura em lixo”

Eu fiquei fascinada com a parte maldita dos ensaios do Bataille, de que gosto mais do que como ficcionista. Eu tenho a impressão que ele tentou a Salvação, por isso é que ele escreveu todos aqueles livros evidentemente pornôs. Quando eu li a parte maldita eu tive a compreensão do porquê ele escrevia esses textos. Me fascinou todo o processo de Potlatch e achei demais importante aquela frase dele, quando ele diz que “o maior luxo de nossa época pertence ao miserável, aquele que se estende sobre a terra e desprezam-no”. Compreendi o esforço do escritor em passar para o outro aquilo que é essencial, por isso o Bataille fala da “essencialidade da Literatura”, sim porque a Literatura ou é essencial ou não é nada.

Para voltar ao Potlatch, foi através dele que o Bataille foi se descobrindo a si mesmo. O Potlatch, resumindo tudo, para mim ficou como o poder de perder. O Potlatch é um ritual de índios norte-americanos. É antes de tudo, aparentemente, uma grande festa que se celebra nos bastismos, nos casamentos, nas datas marcantes. Aí os índios exibem as coisas mais bonitas, mais preciosas que possuem: mantos com plumas finíssimas, objetos que construíram artesanalmente, além de objetos que eles dão para outras tribos. É uma grande demonstração também de poder. Isso já toca naquilo que você aprende na escola: a economia política que é a ciência das trocas. Aliás o próprio filósofo norte-americano Ernst Becker fala da doação de colares de dentes pois o dente significa o poder de morder, de atacar, já as penas simbolizam o poder de voar.

Isso foi muito importante para mim porque eu sempre refleti, me preocupei com o poder, como por exemplo o poder do dinheiro. O que é o dinheiro? É uma máquina que o faz, montanhas de papel com um valor simbólico outorgado a ele, dinheiro. E o Becker se interroga por que até hoje não se escreveu uma história verdadeira do dinheiro? O dinheiro readquiriu seu caráter sagrado, como tinha, ao ser inventado, há milênios, pelos antigos egípcios. O dinheiro, em mãos dos sacerdotes em torno do Faraó, constituia-se de conchas daquele metal dourado que refulgia e era como uma espécie de talismã, que trazia, a quem o tivesse, sorte, felicidade, um porte-bonheur. Depois os egípcios começaram a reproduzir aquelas conchas míticas de ouro. As pessoas iam ao templo dos sacerdotes, detentores desse primeiro dinheiro, e o trocavam por mantimentos e outras mercadorias. Aí começou tudo a partir de um princípio sagrado. Por que as moedas são redondas? Não para caber melhor no bolso, mas porque são uma imagem do sol, então o ouro e a prata ficaram ligados ao Sol e à Lua. E através do Potlatch eu me conscientizei de que o verdadeiro poder estava na capacidade de perder, renunciar àquilo tudo. O que as pessoas em nossa civilização fazem quando viajam? Procuram avidamente comprar, acumular coisas compradas. O Potlatch, não: ele se reduzia ao mínimo necessário para viver e toda a opulência, quer dizer o poder, todas as tribos abriam mão dele. Esse me pareceu ser o verdadeiro vigor, o verdadeiro poder, a força absoluta. Você não admite que um Rockfeller faça isso.

E com relação ao meu trabalho como escritor eu reconheci que meu esforço todo tinha sido excessivo, na renovação da linguagem, na busca, na tentativa de transmitir a quem me lesse a sensação profunda da vida, da experiência da vida, você colocar o horizonte mais longínquo de si mesmo a serviço da sobrevivência do Outro. É, que queria despertar um lado do ser humano que ele ainda se recusa a ver, como, entre outros aspectos da vida humana, a morte, essa experiência mais importante que o homem pode ter. Agora, sim, eu sinto que o posso, que eu tenho o direito de fracassar. Eu passei 40 anos de reclusão dedicada a escrever e de tudo de mim não houve quase eco, não fui compreendida, não fui consumida, não fui aceita. Os editores, com uma ou outra exceção de amigos meus como a Nelly Novaes Coelho e o Massao Ohno, eu compreendi: os editores no Brasil não estão interessados em uma obra que leve a pensar.

Se o que tenho a revelar ou recordar, que vem lá do fundo de nós mesmos, não ressoar, não há mais nada a fazer. O Brasil se mostrou, com exceção do Anatol Rosenfeld e de você, absolutamente impermeável ao que eu tinha que dizer. A futilidade é como o napalm: vai queimando, corroendo até chegar à medula, ao osso. O homem está sem nenhuma curiosidade a respeito de si mesmo, da incógnita “X” da sua personalidade, de que ele se esqueceu ou abafou em si. Que se pensasse nos fundamentais problemas, que os grandes cientistas como o Heisenberg levantam como a ciência dos limites, o caráter incognoscível, imprevisível dos átomos e seu comportamento. Então eu vi que minha única saída era parar, pois seria absurdo continuar. Eu acho que temos que refletir sobre os aspectos transcendentais da Terra, da Natureza vertendo seu sangue, destruída, violada, mutilada pela ignorância e pela ganância imediata do homem, estudar o problema do ar que respiramos, a índole guerreira por trás dos arsenais atômicos ou das guerras “convencionais” com armas primárias em todo o planeta.

E rever esse conceito que nunca se questiona, só se aceita sem discutir, que é o conceito de obscenidade. É preciso pensar que a verdadeira obscenidade, criminosa, é o comportamento do corpus político do Brasil e de outras nações inteiras dedicadas à devastação a qualquer preço, à fraude, à morte do outro em prol do conforto e da indiferença de quem polui o ambiente e as almas. De maneira intuitiva essas foram as perguntas que me acuavam, me obcecavam e para as quais eu buscava, inutilmente, uma resposta junto com o leitor.

É verdade, neste meu livro publicado agora, Amavisse (em latim: ter um dia amado), há um tom de melancolia, de despedida final. Eu não vou escrever mais nada, a não ser grandes e, espero, adoráveis bandalheiras. Agora, sim, eu acho que sou senhora do meu tempo. Eu acho que o que eu fiz foi uma radiografia do meu percurso. O Jacques Bergier fala em seus livros de seres superiores, não eu!, que vieram à Terra e falaram de coisas grandiosas que só daí a cem anos os homens compreenderam. Eu me limitei a buscar aquilo que está invisível para os olhos do homem, e no homem toda a relação dele consigo mesm, com o Outro, com os animais, com o cósmico, com aquilo que não sabemos denominar, com o mais secreto dentro de si mesmo o mais escondido dentro de si mesmo. Houve homens deslumbrantes, Oliver Heaviside, Norbert Wiener, que diziam coisas extraordinárias a respeito da física quântica e que o Max Planck só veio a comprovar séculos depois. Havia também um russo, o Roger Boscovich que impressionou muito o cientista inglês Faraday.

A Literatura para mim portanto foi sempre o Sagrado, o Essencial, e o que fizeram? Transformaram a Literatura num lixo! Você não vê aquela escritora de best-sellers norte-americana, a Marion Zimmer Bradley, que interrogou surpresa: “Há escritores no Brasil?!” Até eu queria que você pusesse no seu artigo a receita que eu dou para ela. É só pegar um prato do bebê e viajar, na bicicleta azul, rumo às brumas de Avalon”… Então você vê que não é só no Brasil que se impõe o lixo como literatura, como no caso do Salman Rushdie, pode acarretar a condenação à morte pelo aiatolá Khomeini, escrever hoje pode ser mortal ou uma fonte de dólares, é isso a Literatura agora…

No Brasil a Nelly Novaes Coelho fez uma abordagem bonita sobre o meu livro Qadós, mas dos críticos de peso, tirando o Anatol Rosenfeld e você, quem mais, cultíssimo, de peso, escreveu sobre mim? Faço questão que você inclua neste meu depoimento que o Antônio Cândido sussurrou a meu ouvido, durante o enterro do Paulo Emílio Salles Gomes, marido da Lígia Fagundes Telles: “Adoro (seu livro) Ficções, mas nunca disse uma palavra sobre meu trabalho, nem o Benedito Nunes, nunca. Mas não é só no Brasil, na Alemanha e na Áustria por acaso leem e citam Hermann Broch, Robert Musil, são como se diz,”campeões de vendagem”, best-sellers absolutos?

Aqui tudo se agrava com os arquicitados 40 milhoões dos analfabetos, dez milhões de crianças desamparadas, cinco milhões de bóias-frias etc. etc. Não creio que possa ser um parti pris, um boicote por razões ideológicas contra mim, porque as direitas e as esquerdas foram sempre para mim as mesmas esterqueiras, eu não tenho nada a ver com igrejas, seitas, esquemas, grupelhos: será que o silêncio de meu nome se deve ao fato de eu ser mulher, me pergunto? Porque eu não vejo nenhuma mulher escrevendo como eu por aqui, salvo engano meu. Será que ainda persiste aquele preconceito de que *“Ela escreve como homem”? É, deve ser isto, porque me lembro da jornalista e escritora Heloneida Studart, que é inteligentíssima, dizer que se meu trabalho tivesse sido escrito por um homem já estaria conhecido vastamente. E eu não procuro ninguém, meu trabalho é fruto da solidão, de eu ficar exasperadamente só! Aos 33 anos de idade eu abandonei tudo o que se convencionou chamar ”a vida mundana”, e comecei a fazer o meu trabalho, agora com quase 60 anos de idade eu pensava que meu trabalho fosse reconhecido ou pelo menos comentado; não por uma questão de vaidade pessoal mas porque eu acredito ter feito um trabalho que só é importante, talvez, por traduzir coisas de cuja existência os homens suspeitam. É, eu os concitava a mudar, a pensar, e quem sabe eles temiam mudar virando a barata gigantesca do Kafka em A Metamorfose? Mas será que no Brasil os editores não acreditam que se possa pensar em português? Não haverá um editor que em vez de pensar com a cabeça pensa só com a outra cabeça? No meu segundo livro de bandalheiras divertidas, Histórias de Escárnio. Textos Grotescos* em que eu me ponho no nível do Brasil de hoje, não é?, faço o personagem Crasso-Casso porque está ligado a tudo que é grosso – encontrar-se com o demônio e o demônio recita para ele um poema que é para crianças, aí o Crasso comenta:”Esses poemas (assim difíceis) só se forem para a filhinha do Rosa…“; o diabo retruca:”Que Rosa?“,”Ora, o escritor Guimarães Rosa”, “Não conheço nem leio uma língua sem consoantes, falada por velhos e crianças que perderam os dentes…” Aí o Crasso comenta: “Puxa, quem ia ficar chateado de ouvir você falar isso é o Euclides”; pergunta o diabo: “Que Euclides?”; “Euclides da Cunha” (e aí o Crasso recita um trecho do sertanejo que é um forte acima de tudo etc.) e o diabo encerra a discussão, enojado: “Ih, não vou a esse tal de sertão, não, tenho horror daquele Brasilzão!…” (risos)

Eu fico contente porque tenho assim uma meia dúzia de leitores inteligentissimos, pessoas jovens, fazendo doutorado. Mas para mim a Literatura foi uma decepção. Absoluta. Como projeto de criação para mim. Não que eu não tenha vivido muito, fui amada, etc, mas eu achava que a esta hora a minha obra estaria pelo menos traduzida para o inglês. Não, eu não vou parar de escrever, vou parar de publicar a não ser deboches e bandalheiras de tom galhofeiro. Mas vou terminar um texto curto, chamado Rútilo Nada. Creio que de agora em diante vão gostar dos textos que eu escrevo. O Caderno Rosa de Lori Lamby, uma pornografia jeca sobre sexualidade de uma menina, (com 25 ilustrações de Millôr Fernandes), quero que as pessoas se divirtam, podem até me achar grotesca, não importa, depois vêm, no mesmo volume, as Histórias de Escárnio. Agora toca aos editores, se quiserem, editar e divulgar todo o meu teatro, que está inédito, toda a minha poesia, todos os meus textos em prosa. Isso não me compete. E aí terminou. Eu quero transformar esse fim de vida meu em uma coisa doce para mim, vou ter tempo agora para ler autores amadíssimos, vou ter tempo par estudar, ler toda a obra e OttoRank, do Ernest Becker, quero tempo para mim e tempo para o riso. Eu queria que a cidade inteira risse comigo. Com doçura, com riso, finalmente, eu me tornarei – espero – consumível.

E com os versos de seu útimo livro no sentido de mais recente e de derradeiro, Amavisse, Hilda Hilst se despede da incompreensão incompreensível da sua genialidade artística no Brasil e saúda o final paradoxalmente alegre, humilde, orgulhoso, altivo e sem mágoas de sua criação única em todas as literaturas do Ocidente contemporâneo:

“O escritor e seus múltiplos vêm vos dizer adeus.

Tentou na palavra o extremo-tudo

E esboçou-se santo, prostituto e corifeu. A infância

Foi velada: obscura na tela da poesia e da loucura.

A juventude apenas uma lauda da lascívia, de frêmito

Tempo-Nada na página.

Depois, transgressor metalescente de percursos

Colou-se à compaixão, abismos e à sua prórpia sombra.

Poupem-no o desperdício de explicar o ato de brincar.

A dádiva de antes (a obra) excedeu-se no luxo.

O Caderno Rosa é apenas resíduo de um Potlatch.

E hoje, repetindo Bataille:

‘Sinto-me livre para fracassar’ “.

Reuso

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Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “A luminosa despedida seguida de um longo depoimento de Hilda Hilst .” In Os escritores aquém e além da literatura: Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Hilda Hilst, edited by Fernando Rey Puente, 2:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.