Angola, num momento de reflexões e mudanças - Entrevista com o escritor angolano Agostinho Mendes

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, Sem data. Aguardando revisão.

Como na antiga – e vastíssima – colônia da minúscula Bélgica, o ex-Congo belga, as odiosas forças coloniais só tinham “permitido” que catorze “nativos” se formassem pela Universidade. Em Angola, igualmente, embora o número da intelligentsia fosse bem maior, a libertação nacional chamou a si, após a independência, todas as forças mais aptas a liderar a nação emergente. O escritor angolano de passagem pelo Brasil, Uanhenga Xitu (ou Agostinho Mendes de Carvalho, se usarmos o seu nome português), também foi ministro da Saúde e governador de uma província (o que corresponde a um Estado brasileiro), o de Luana. Fecundo autor de livros como Maka na Sanzala, Manana e Mestre Tamoda, além de outro que preparou em pouco tempo, durante suas férias na Alemanha Oriental, a ser publicado brevemente também no Brasil, é um autor “ingênuo” para as mentalidades complexas europeias, mas que fixa em seus relatos uma África ancestral em célere desaparecimento. Vai buscar suas fontes nos rapsodos das regiões rurais, os anciões que guardam a memória das tribos antes da chegada dos brancos. Antes dos navios negreiros e seus padres a abençoar as naus rumo ao Brasil com as palavras de Jesus em seus sermões à beira da praia e impressas em seus missais: “Amai-vos uns aos outros”.

Junto aos que carinhosamente chama de “velhotes”, Uanhenga Xitu, recolhe a recordação dos rituais animistas, das leis, dos feitiços, das proibições, do vestuário, das bebidas, dos usos dos antepassados, sem, no entanto, a imparcialidade de um Chinua Achebe, evocador nigeriano da barbárie e das humanas imperfeições dos abusos tribais com em seu livro marcante, O Mundo se Despedaça. Não que Uanhenga Xitu não saiba do lado sinistro da África Negra mesmo antes do advento dos brancos e seu séquito de estupros culturais, sociais e humanos: ele tem da África, ou melhor, de Angola, uma visão ao mesmo tempo idealizada e ingênua. Mas sempre infinitamente mais autêntica do que a de um piegas farsante como o português Pepetela, irmão siamês – aí de nós! – de José Mauro de Vasconcelos e suas infantilidades presunçosas do lado de lá do oceano Atlântico.

A experiência administrativa, confessa Uanhenga Xitu, foi-lhe nociva para a criação literária.

“É muito difícil conciliar ao mesmo tempo a política e a literatura. Como outros escritores, fui chamado à tarefa prioritária de reconstrução do país pelo governo e pelo partido, e, embora não me tenha furtado a cumpri-la, durante todo o meu período administrativo parei de escrever. Escrever exige estar atualizado, ler muito para ganhar experiência com os outros: não sobra tempo nem sossego para isso..”

Além desse conflito de esferas de interesse como é o problema da língua em Angola? Quantas línguas há lá, pelo menos as principais?

“Devem ser mais de vinte, as há quatro principais: temos o kimbundu, que é da minha área, o umbundu, do Sul, o kikongo, da região Norte e depois o kioo, que já está perto do Zaire. A minha preocupação e captar as tradições do passado da boca dos ‘velhotes’, porque cada um deles que morre é uma biblioteca que se perde. Escrevo voltado para essas massas rurais”

Enquanto Angola sofre um processo crescente de urbanização?

“Exatamente, que cria o problema do êxodo rural rumo às cidades: favelas, despreparo de muitos para o emprego, a adoção de metas do tipo ter uma boa casa, um bom emprego, a delinquência e as”casas de vadias”, sim, a prostituição. O governo quer fixar as populações às duas regiões de origem, no campo, no interior, mas encontra obstáculo na crise econômica, no bombardeamento de Angola pela aviação sul-africana. Muitos desses projetos de interiorização estão parados, à espera de melhor oportunidade. Nosso plano era criar campos de desportos, hospitais, escolas, num país onde 90% da população é analfabeta, note-se, de criar enfim um mínimo de dignidade mas isso é sustado, como o sr. pergunta, também pelas incursões de Savimbi e seus guerrilheiros da Unita com apoio da África do Sul e dos americanos”

A obra literária de Agostinho Neto, de Luandino Vieira, de Manuel Rui, principalmente, se destacam aqui no Brasil na literatura angolana: que outros nomes deveríamos conhecer?

“Sabe? A literatura angolana, o jornalismo angolano, a atividade intelectual existem desde 1800, com correntes surgidas em 1820, outras em 1850, com obras dramáticas etc. escritas nos idiomas originais. Não que seja uma literatura estruturada: não, são esporádicos gritos de que nós também queremos nosso lugar ao sol. Foi o fascismo português colonial que não deixou medrar essas vozes, muitas delas, porém, fizeram medo aos donos do poder em Portugal. O nome do Brasil, é claro, sempre esteve nos lábios angolanos: afinal, temos uma herança colonial comum: foi de Angola que partiram correntes de escravos para cá; isso nem que se queira, não se pode esquecer. Há vocábulos em dicionários portugueses que o brasileiro diz que é brasileiro: não é, é angolano. Assim como nos reconhecemos no canto, no ritmo, na dança, nos discos, nos ritos religiosos de certas seitas, na capoeira. Ora, parece que o governo brasileiro sempre andou esquecido de nós, não marcou a presença brasileira em Angola: por que será?!”

Além da tarefa de alfabetizar o povo, com as mulheres que se apresentam como professoras voluntárias para isso, o governo incentiva a criação de editoras, o aparecimento de talentos novos na literatura?

“Temos um instituto de Línguas que esta mapeando o país e estamos corrigindo a escrita fonética dos idiomas nativos, pois os símbolos de que dispúnhamos não correspondiam à pronúncia exata, técnicos britânicos e brasileiros estão a nos ajudar nisto. O Sindicato ou melhor a União de Escritores Angolanos incentiva jovens a escrever para que possamos escolher os melhores, chegando mesmo a editá-los.”

Mas editá-los sem censura?

“Nós não temos censura, cada escritor escreve seu livro como crê e cria. Só não admitimos é uma literatura imoral, pornográfica, porque isso de nada serve para uma sociedade nova: isso, sim, é proibido, só se alguns indivíduos quiserem trazer material desse tipo em livros e videocassetes, não impedimos. Veja: Portugal, ou melhor, seu regime, durante muito tempo proibiu que falássemos em manifestações públicas ou nas escolas os nossos idiomas nativos; os batuques, por exemplo, deles temos notícias apenas pelas anotações feitas pelos missionários católicos protestantes, quando esses grupos eram apresentados aos turistas como coisa exótica: em resumo, Angola está-se fazendo dia a dia.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Angola, num momento de reflexões e mudanças - Entrevista com o escritor angolano Agostinho Mendes .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.