Adeus à palavra (nota sobre Ave, Palavra de G. Rosa)

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Veja, 1970. Aguardando revisão.

Guimarães Rosa recusava coerentemente deixar desvendar sua vida pessoal, insistindo que “a obra é que é o miolo, o autor é a casca”. Felizmente, no caso do autor de Grande Sertão: Veredas até sua casca se aproveita. Alguns dos contos e crônicas esparsas cntidos nesta despedida póstuma da palavra têm o colorido e a fragrância de uma maçã. Já a reimpressão de outros dá a impressão de que se tentou aproveitar até o caroço de sua produção despretensiosa. (É o caso das poesias, do diário de Paris, das visitas a zoológicos de várias cidades.) Seria necessária uma seleção mais rigorosa dessas obras menores publicadas na imprensa. Só assim diminuiria o constraste entre o maravilhoso contista de Campo Geral e a voluntária ausência de crítica severa que permitiu a transcrição de criações tão insignificantes quanto as citadas. Porque, em certos momentos de Ave, Palavra, constata-se que reeditar miuçalhas da criação de um esplêndido artista significa afastar-se da sua grandeza e aproximar-se de seu quinhão de mediocridade comum à humanidade. No entanto, essas quinquilharias estão eclipsadas por momento da fantasia e do estilo rosianos que mereciam ser preservados. É o caso, entre muitos outros, dos seguintes: “A Velha” – uma aristocrata hamburguesa que manda vir o cônsul do Brasil à sua mansão, quando o ódio anti-semita de Hitler incendeia os fornos crematórios nazistas, para salvar a filha de mãe “ariana” e pai judeu. Nessas escassas duas páginas e meia Guimarães Rosa cria um verdadeiro haicai em prosa, com neologismos típicos de sua revolução estlística: “Desfez-se um silêncio, Dame Veronika tomou a voz. Dissesse tão-só frases de polidez, repetia-as, balbuz, sob algum afrontamento, com um arrulho de asma. Ora fechava os olhos, sacudia, levíssima, a cabeça em frinas, reprincipiava. (…) E começara a falar em português. (…) E vi-que a voz pertence às estâncias da idade: que, bem assim, nesse teor de tom, que eu jamais ouvira, conversar-se-ia, outro tempo, em solar e saraus, em tertúlias, merendas e cavacos. Era como se falasse figura de álbum desbotado. ‘- Vivi em vosso país, vossa pequena formosa cidade de Petrópolys… Conheci vosso bom Imperador – ele estudava hebraico. Vosso Imperador nos convidava ao paço…’” Há outras maravilhas nesse livro desigual: “Homem, Intentada Viagem”, sobre um mineiro errante eternamente repatriado da Europa pelos consulados brasileiros; “Nascimento”, com o relato conturbador do Natal esperado por velhos num asilo isolado do mundo (“Até macróbios casais, pares para bodas de brilhantes – ‘Minha boa Irmã’ – um velhote pedia, mansamente irado – ‘mande minha mulher me dar atenção, ela está só conversando om esse aí outro sujeito…’ – e ainda proferia que nem por muito parava caduca, e era o marido dela, por ordem de Deus.”); “Em-cidade”, com uma original visão do bonde, hoje extinto, nas ruas do Rio; “Subles”, que envereda pelo conto fantástico: um chamado telefônico para um desconhecido e que ameaça realizar-se num clima de absurdo pavor; “Uns Índios (Sua Fala)”, com anotações sumamente interessantes do infatigável linguista que era Guimarães Rosa sobre a língua dos indígenas Terenos, “povo meridional dos Aruaks”, no sul do Mato Grosso; e o delicioso encontro com cultivadores japoneses perto de Araçatuba (SP), documentado em “Cipango” (“- Planta só cana? – Tudo paranta, esse bom… – Muito lucro? – Camíjia comporou, dinhêrio num tem…”). Ou a evocação da infância com os presépios vigiados por Vovó Chiquinha. E a ode a Minas Gerais (“O mineiro é velhíssimo, é um ser reflexivo, com segundos propósitos, e entolada natureza. É uma gente imaginosa, pois que muito resistente à monotonia. E boa – porque considera este mundo como uma faisqueira, onde todos têm lugar para garimpar.”). Depois desta Ave, Palavra, deve cessar a garimpagem excessivamente tolerante de preciosidades encontradas no veio póstumo de Guimarães Rosa. Caso contrário, pode-se colher muito que reluz, mas não foi lapidado pelo grande mestre da palavra.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1970) 2022. “Adeus à palavra (nota sobre Ave, Palavra de G. Rosa) .” In Os escritores aquém e além da literatura: Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Hilda Hilst, edited by Fernando Rey Puente, 2:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.