Curso sobre o movimento modernista: Mário de Andrade

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Sesc-SP (58 páginas datilografadas e revistas pelo autor em 1994), 1993. Aguardando revisão.

“Mas a ninguém é permitido afirmar nada invocando o seu nome, pois que não lhe foi dado tempo para falar”

Oneyda Alvarenga sobre Mário de Andrade

Geralmente acreditamos que o Tempo, para escrevê-lo com a maiúscula de Proust, se limita a cristalizar o passado, amarelecer as imagens de antigo viço e colorido. Mas, não: o Tempo também traz o avivamento e novos ângulos de luz para o passado. Decorridos cem anos do nascimento daquele que agiu no Brasil como poucos e raros no âmbito das artes, da música, da cultura, Mário de Andrade povoa hoje toda a Paulicéia Desvairada.

Crianças desenham a cidade nas escolas, o grande artista plástico Aldemir Martins lhe presta a funda homenagem do Nordeste, pintando o cartaz com o rosto mutável, sensível, do poeta da Lira Paulistana. Em Paris o filme do mineiro Joaquim Pedro de Andrade baseado no Macunaíma, essa rapsódia do “brasileiro sem nenhum caráter” é exaltado pelos críticos mais exigentes. Macunaíma, como peça de teatro, levada à cena pelo diretor paulista Antunes Filho, é estudada minuciosamente durante seis meses antes da estréia que deslumbra o Brasil e depois New York. Atores do nível internacional de Paulo Autran, Raul Cortez acedem, gratuita e entusiasticamente, em recitar seus versos para multidões no Viaduto do Chá ou para públicos menores no Auditório da Biblioteca Mário de Andrade da capital paulista.

O compositor José Antônio de Almeida Prado dá em São Paulo um curso baseado nas pesquisas do tesouro musical que Mário de Andrade garimpou, sozinho e pioneiro, pelo Amazonas, pelo seu amado Nordeste, pelas cidades barrocas de Minas. Dezenas de manifestações celebram, em meio a um Brasil convulso, submetido há mais de uma década, ao eletrochoque da inflação e do atoleiro da estagnação econômica, que dura já há quase duas décadas, aquele que sempre sublinhou todos os seus esforços, toda a sua ação, sim, toda a sua vida estafante, a colocar o Brasil entre as Nações do mundo conscientes da grandeza de suas realizações nacionais. Essa diretriz quase que obsessiva de Mário de Andrade adquire um significado mais intenso agora, em 1994, quando conglomerados gigantescos de nações formam blocos fechados, o NAFTA, que abrange os Estados Unidos, o Canadá e o México, a Comunidade Econômica Europeia, hoje União Europeia, que congrega 12 países, hoje 15, sem esquecer a muralha fechada sobre si mesma que é o Japão e enquanto se cimenta, apressadamente, antes de terminar o século XX, o Mercosul, liberando de passaportes e alfândegas o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai, todos já livres de ditaduras e guerrilhas sangrentas. Vendo mais longe que a minoria dos brasileiros pensantes, Mário de Andrade aceitava o internacionalismo mas argumentava, irrespondivelmente, que para haver o internacional e preciso que haja primeiro a nação, isto é: para aceitar o diálogo era indispensável que o Brasil se conhecesse e reconhecesse em sua personalidade distinta dos demais países. Ele, que sempre frisara a importância do outro - neste caso os seus interlocutores através de sua imensa, generosa correspondência e o povo, nã na acepção fraudulenta e panfletária da Esquerda hipócrita e maniqueísta, mas o povo visto pelo prisma do amor ao próixmo, o povo calcado pelo egoísmo dos que negam o outro, nessa pirâmide feita de monopólios e oligopólios, que é a face econômica e social do totalitarismo político ou do dogma de ideologias que são pseudo-religiões inquisitoriais.

O Brasil, no tempo de Mário de Andrade desfigurado pela excessiva macaqueação da França, continua, como pela voz de Elis Regina, a pedir socorro aos que lhe impõem, atualmente, com o trator da predominância abusiva da mídia a influência martelante norte-americana. Com saudades do Brasil, o Brazil amordaçado apela para o Brasil. Como o poeta paulistano diz, logo na primeira carta que escreve ao futuro grande poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade:

“… Li seu artigo. Está muito bom. Mas nele ressalta bem o que falta a você - ESPÍRITO DE MOCIDADE BRASILEIRA. Está bom demais para você. Quero dizer: está muito bem pensante, refletido, sereno, acomodado, justo, principalmente isso, escrito com grande espírito de justiça. Pois eu preferiria que você disesse asneiras, injustiças, maldades moças que fizera mal a quem sofre delas. Você é uma sólida inteligência e já muito bem mobiliada… à francesa. Com toda a abundância do meu coração eu lhe digo que isso é uma pena. Eu sofro com isso, Carlos, devote-se ao Brasil, junto comigo. Apesar de todo o ceticismo, apesar de todo o pessimismo e apesar de todo o século XIX, seja ingênuo, seja bobo, mas acredite que um sacrifício é lindo. O natural da mocidade é crer e muitos moços não creem. Que horror! Veja os moços modernos da Alemanha, da Inglaterra, da França, dos Estados Unidos, de toda a parte: eles creem, Carlos, e talvez sem que o façam conscientemente, se sacrificam. Nós temos que dar ao Brasil o que ele não tem e que por isso até agora não viveu, nós temos que dar uma alma ao Brasil e para isso todo sacrifício é grandioso, é sublime. E nos dá felicidade. Eu me sacrifiquei inteiramente e quando eu penso em mim nas horas de consciência, eu mal posso respirar, quase gemo na pletora de minha felicidade. Toda a minha obra é transitória e caduca, eu sei… Eu não amo o Brasil espiritualmente mais que a França ou a Conchinchina. Mas é no Brasil que me acontece viver e agora só no Brasil eu penso e por ele tudo sacrifiquei. A língua que escrevo, as ilusões que prezo, os modernismos que faço são pro Brasil… Estraçalho a minha obra. Escrevo língua imbecil, penso ingênuo, só para chamar a atenção dos mais fortes do que eu pra este monstro mole e indeciso que ainda é o Brasil. Os gênios nacionais não são de geração espontânea. Eles nascem porque um amontoado de sacrifícios humanos anteriores lhes preparou a altitude necessária de onde podem descortinar e revelar uma nação. Que me importa que a minha obra não fique? É uma vaidade idiota pensar em ficar, principalmente quando não se sente dentro do corpo aquela fatalidade inelutável que move a mão dos gênios. O importante não é ficar, é viver. Eu vivo. E vocês não vivem porque são uns despaisados e não têm a coragem suficiente para serem vocês. É preciso que vocês se ajuntem a nós com este delírio religioso que é meu, do Osvaldo, de Tarsila ou com a clara serenidade e deliciosa flexibilidade do pessoal do Rio, Graça, Ronald. De qualquer jeito porque não se trata de formar escola, com um mestrão na frente. Trata-se de ser. E vocês por enquanto não são. Responda, discuta, aceite ou não aceite, responda. Amigo eu serei de qualquer forma.”

Mário de Andrade, temperamento tímido, que se exprimia melhor através do texto escrito (“Eu sofro gigantismo epistolar”) não sobrestou diante das tarefas dignas de um Hércules que o desafiavam. Era preciso resgatar a própria noção de Literatura, que desde tempos imemoriais no Brasil se confunde com leteratice piegas, qualquer moçoilo afoito se jacta de ser grande bardo das massas ao rimar “dor” com “amor”. Mumificada pelo culto da frase como mera sequência de sons pomposa e vazia de significado, a Academia Brasileira de Letras, tinha um culto cheirando a necrotério de tudo que soasse a algo “bonito”, “elevado”, “erudito”, “rarefeito”. Quando Graça Aranha, com seu estouvamento, irrompeu pela casa carioca (fundada por Mestre Machado de Assis e depois tão desvirtuada pela necrofilia dos autores de textos natimortos) Coelho Neto, numa atitude rocambolesca, gritava, de dedo em riste, contra o Modernismo da Semana de 1922 paulista, de que Graça Aranha se fizera o arauto no Rio: “Eu sou o último dos helenos!” O que se considerava como alta Literatura, provocadora de lânguidos êxtases em sensibilidades anêmicas de mau-gosto e preguiça mental eram baboseiras kitsch do escritor maranhense:

“E ribombaram tambores, o som arranhado do ganzá ringiu, cascavelaram trépidos chocalhos e, entre archotes de palma, a farândula surgiu em zanguizarra - negros e negras aos pulos reboleados, uns com plumas à cabeça, colares de cocos, manilhas e pulseiras de penas, esgrimindo paus à maneira de zargunchos, atirando, aparando golpes em duelos; outros corcovensado aos arremessos felinos, rugindo roucos; velhos, em passos arrastados, altivos, com entono senhoril de chefes; mulheres bocejando aos guinchos e, retroando puítas, marimbas, urucungos e as vozes estrugindo em burburinho horrísono que, por vezes, desacaía em deolência fúnebre como um canto de morte.

Viu-se em África e rei, entre sua gente; os sobas gineteando, cercados de lanças que se emaranhavam nos meneios em que eram destros os guerreiros robustos, vistosos sob os mantos de peles e os cocares de plumas; os feiticeiros sarapintados, brnadindo punhais em torno de manipanços; músicos aos pinchos cascavelando chocalhos, tangendo atabales, soprando possantes tubas ou frautas finas de cana; mulheres desnalgando-se em saracoteios públicos, com um guizalhar estrepitoso de búzios e seixos que formavam tangas e ornavam-lhes os peitos…” etc.

O primeiro falso conceito a combater era o de que fazer Literatura era fácil e acessível a todos. O sutilíssimo poeta de Remate de Males destaca a natureza ambígua da palavra - que tanto pode servir para a comunicação, desde a abdicação de um rei à leitura de uma bula de remédio ou à feitura de um rol de roupa como pode ser codificada ao nível de uma linguagem de valores filosóficos e estrutura estética, ao contrário de estetizante apenas. Em seu arguto ensaio “A Raposa e o Tostão” de seu livro O Empalhador de Passarinho já ele, nítido, distinguia:

“Em literatura o problema se complica tremendamente porque o seu próprio material, a palavra, já começa por ser um valor impuro; não é meramente estético como o som, o volume, a luz, mas um elemento imediatamente interessado, uma imagem aceita como força vital, tocano por si só o pensamento e os interesses do ser. E assim, a literatura vive em frequente descaminho porque o material que utiliza nos leva menos para a beleza que para os interesses do assunto. E este ameaça se confundir com a beleza, se trocar por ela. Centenas de vezes tenho observado pessoas que leem setecentas páginas num dia, valorizam um poema por causa do sentido social dum verso, ou indiferentemente pegam qualquer tradução de Goethe para ler. Que o assunto seja, principalmente em literatura, um elemento de beleza também, eu não chego a negar, apenas desejo que ele represente realmente uma mensagem como na obra de um Castro Alves. Quero dizer: seja efetivamente um valor crítico, uma nova síntese, que nos dê um sentido da vida, um aspecto essencial.”

Um cortejo cacarejante de viúvas de Mário de Andrade regurgitariam de triunfo neste ponto, do alto das torres da capitania chamada Mário de Andrade, quereno arrastar o polígrafo paulistano para o rol esclerosado dos “marxistas”. Será inútil responder que não: essas Celestinas universitárias, essas pseudo-femmes savantes (as pedantes “sabichonas” de Molière na sarcástica tradução de Millôr Fernandes) são Pasionarias que dirão sempre à Verdade ou às evidências históricas: “No passarán”. No entanto, pálido de espanto, Mário de Andrade, no mesmo ensaio lhes retrucaria, meridianamente:

“Apenas garanto que esta nova síntese, que é o propósito da arte, ou desaparece ou fica em meio, se o artista não dispõe dos elementos formais necessários que a realizem com perfeição. Mas acontece que muitos, justamente porque ignoram tais problemas, ou não querem o trabalho, a luta de se cultivar, se insurgem contra a cultura, consideram ninharias or problemas da forma, e só exigem o núcleo, a”mensagem”. Se esquecem que justamente por isso abudam no mundo os mensageiros que, em vez de mensagens, o que trazem são cartas anônimas, vagas e impessoais notícias, sem caráter nem força, que podem quando muito indicar pra que lados sopram os ventos da vida”.

Sua lucidez o levará a insistir nesse ponto, quando se insurgir contra a censura stalinista das composições musicais de Chostakovitsch. Mas já por si só o panorama das artes e da literatura no Brasil de 1922 era em geral desalentador. Não que Mário de Andrade fosse um destruidos de ídolos pelo mero prazer de revelar o vazio interior deles. Imune a dogmatismos, sinal inconfundível de inteligência e discernimento desapaixonado, ele reconhecia nos poetas parnasianos, como Bilac, um cultivo musical das palavras, um uso dramático de situações humanaas e até mesmo uma nada subreptícia vegetação tropical a enlaçar o ideal marmóreo e frio de Lecomte de Liste e de Herédia. A sensualidade brasileira, insistindo “elegantemente” na nudez de Frinéia diante do tribunal que a julgaria na Grécia Antiga, a libido latejante sob o véu tênue e genérico da palpitação do “amor” - tudo isso era reconhecível e tinha seus méritos. Nunca ele confundiu “mensagem” com literatura de estafetas como jamais quis jogar de cambulhada fora tanto os parnasianos e simbolistas confundidos como os academismos paralisadores da expressão artística e humana. O que sucedia é que todos esses “ismos” eram europeus e correspondiam a outras latitudes, outras circunstâncias históricas, a outras culturas. Os parnasianos, por exemplo, atinham-se demasiado às artes plásticas, principalmente à escultura, a ideias áticas, a um padrão de beleza hierático como os frisos do Parthenon de Atenas. É verdade que Raimundo Oliveira já introduzira muito da ternura brasileira em seus versos, mas tudo isso era o “complexo de Joaquim Nabuco”. Ou seja: era o vexame brasileiro comum que anseia por uma Europa que desconhece. Conforme a frase famosa do abolicionista pernambucano uma esquina numa cidade europeia tem mais História do que a mais bela paisagem do Brasil.

Em conversa com o Professor Pietro Maria Bardi e sua esposa, Lina Bo Bardi, criadores do Museu de Arte de São Paulo, com a ajuda, digamos, eloquente, da pressão de Assis Chateaubirand junto aos ricaços que ele achava que “deviam” tal e tal quadro ao Museu, Lina Bardi e o marido identificaram certeiramente a “flor do mal” inicial pintada no Brasil por D. João VI: a Missão Francesa. Esta viria catalogar e “civilizar” o Brasil rude que D. Carlota Joaquina execrava a ponto de atirar suas sandálias para fora do navio que a levava de volta à Europa só quando estivesse já em alto mar, para que não levasse com ela nem a poeira daquela malfadada terra do Brasil! É verdade. A Missão Francesa foi o biombo que durante mais de um século impediu o Brasil de se ver por inteiro: na genialidade mestiça de Aleijadinho e dos grandes músicos mulatos do barroco mineiro, impondo-nos desde cedo um figurino le dernier cri de Paris mas que pesava, sufocante nos trópicos. Mário de Andrade, Blaise Cendrars, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e poucos mais descobririam a verdadeira face do Brasil oculta pelo preconceito do critétrio de que tudo que não for europeu - de preferência francês - não vale nada. A Europa, medida única de valor de todas as civilizações e culturas. Que nada! Irrita-se o paulistano. Precisamos tirar a camisa de força da gramática castiçamente lusitana do nosso modo de falar e de escrever, abolir esse verdadeiro apartheid linguístico. Nunca é demais insistir que ele odiava os gramáticos macaqueadores da correção única portuguesa, sublinhe-se. E dava como exemplo da separação inevitável das duas maneiras de falar e de escrever, futuramente duas línguas, a portuguesa e a brasileira, a própria libertação de Portugal do linguajar latino que a soldadesca tosca trouxera da capital do Império:

“Em Portugal tem uma gente corajosa que em vez de ir assuntar como é que dizia na Roma latina e materna, fez uma gramática pelo que se falava em Portugal mesmo… Como é que se está dizendo agora no Chiado: é”chega na estação” ou “chega à estação”?E se escreve o que o Sr. Figueiredo manda. E assim o Brasil progride com Constituição anglo-estadunidense, língua franco-lusa e outras alavancas fecundas e legítimas. Veja bem, Drummond, que eu não digo pra você que se meta na aventura que me meti de estilizar o brasileiro vulgar… Não pensem vocês, aí em Minas, que sou um qualquer leviano e estou dando por paus e pedras sem saber bem o que estou fazendo. A aventura em que me meti é uma coisa séria, já muito pensada e repensada. Não estou cultivando exotismos e curiosidades de linguajar caipira. Não. É possível que por enquanto eu erre muito e perca em firmeza e clareza e rapidez de expressão. Tudo isso é natural. Estou num país novo e na escureza completa duma noite. Não estou fazendo regionalismo. Trata-se duma estilização culta da linguagem popular da roça como da cidade, do passado e do presente… A culpa vem do preconceito civil adquirido na leitura dos livros cultos… Tudo preconceitos e a nossa vida é feita de preconceitos eu sei. Por isso falo em criar uma linguagem culta brasileira e falo em adquirir novos preconceitos porque assim se move a vida do homem e se torna nova a se torna bonita. O meu trabalho não é simples nem pequeno.”

1922, com duração real de três noites no Teatro Municipal de São Paulo, como que abriu um diálogo maior e polifônico da inteligência brasileira com o mundo: parece ser uma constante da nossa História - política, social, ideológica, cultural - um atraso em relação à sua época. Por isso, a atuação decisiva de Mário de Andrade mostrou-se, como se pode comprovar agora mais documentadamente, contemporânea das grandes revoluções da primeira metade do século XX: a Marcia su Roma do fascismo de Mussolini, a ascensão de Stálin ao poder na antiga União Soviética, a publicação do Ulysses de Joyce, e de Jacob’s Room de Virgínia Woolf, crescente criação cubista de Picasso (Femmes Effrayées au Bord de la Mer), da música revolucionária de Stravinsky (Mavra).

Ainda não foi revelado pela crítica lierária o aspecto da quase absoluta ausência de qualquer ligação entre os modernistas brasileiros e o movimento muito semelhante a seus propósitos em Portugal, com Fernando Pessoa e seus fascinantes heterônimos, o pintor Almada Negreiros e o poeta Mário de Sá Carneiro que vinha já de 1915, data de fundação da revista Orpheu. Mais estranheza causa ainda o fato de o poeta carioca Ronald de Carvalho, membro medíocre, é verdade, do grupo de 22 em São Paulo, ter sido integrante brasileiro do mesmo grupo lusitano coetâneo ao capitaneado por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila, Di Cavalcanti, Villa-Lobos e outros. Seria verdadeiro o diagnóstico cético do romancista português de nossos dias, José Saramago, ao declarar que o Brasil e Portugal são, sob praticamente todos os aspectos, “países de costas voltadas um para o outro”?

Seja como for, 1922 representou, de maneira muito concreta, a libertação brasileira dos cânones franceses que Mário de Andrade tanto lamentava, ou seja: foi a nossa independência cultural um século depois de proclamada a indepedência política da tutela de Lisboa.

O musicólogo finíssimo que foi Mário de Andrade só fica fiel à música francesa: admira e ouve com frequencia cada vez maior as composições deslumbrantes de Debussy. No terreno estrito da criação literária, nem o vigoroso libelo de Monterio Lobato, Os Urupês e sua denúncia da tragédia do Jeca Tatu rural, nem, por outro lado, a epopeía única nas Américas de Os Sertões de Euclides da Cunha parecem ter impressionado vincadamente os “loucos” modernistas de São Paulo, commo eram conhecidos pela classe média ignara, que desprezava sua atitude anti-burguesa e anti-capitalista. Mário de Andrade já saudade precocemente sua amada cidade natal, a então acanhada e provinciana São Paulo da década de ’20 nos versos da sua desafiadora Paulicéia Desvairada:

“São Paulo! comoção de minha vida…

Os meus amores são flores feitas de original…

Arlequinal… Traje de losangos… Cinza e ouro…

Luz e Bruma… Forno e inverno morno…

Elegâncias sutir sem escândalos, sem ciúmes…

Perfumes de Paris… Arys!

Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal…

São Paulo! comoção de minha vida…

Galicismo e berrar nos desertos da América!”

A característica aliciante da correspondência inacreditavelmente grande de Mário de Andrade é a espinha dorsal de toda a sua vida e de toda a sua atividade: um contagiante calor humano aliado a uma alegria extrovertida e ao amor quase que ilimitado pelo próximo. É o sentimento que ele considera como o privilégio de ser feliz - noção que surge em sua correspondência e em seus contatos humanos -, sempre um privilégio que tem que ser “pago” através da dedicação do artista à coletividade. Se em certos pontos o diagnóstico da sociedade industrial inglesa deixado por Marx há 150 anos foi certeiro, é impossível afirmar que Mário de Andrade seguiu o marxismo na terapêutica que a História demonstrou à saciedade ser natimorta, obsolet, no desmoronamento da União Soviética, máscara a ocultar os desígnios crus do Império czarista que a Rússia mantivera com o stalinismo e sua sequencial podridão. É flamejante a ira com a qual Mário de Andrade se revolta contra o terror cultural stalinista (nesta época não chegariam ao Brasil os ecos dos campos de concentração stalinistas nem por intermédio de Jorge Amado, a nossa Carmen Miranda literária, nem de Oswald de Andrade, um clown talentoso mas sem profundidade real no panorama da criação literária do Brasil).

Repetidas vezes, até no seu importante ensaio “O Movimento Modernista”, o versátil intelectual paulistano se refere à sua “felicidade”:

“Eu fui o filho da felicidade. Nunca sofri. Tive energia bastante para repudiar o sofrimento do espírito e forças físicas suficientes para impedir os sofrimentos do corpo. Dominei com facilidade, e sobretudo com inalterável otimismo, todas as ladeiras do meu caminho. Desenvolvia a luta com uma filosofia egoística, de espírito eminentemente esportivo, que fizera de mim literalmente um gozador… Minhas cóleras de crítico, minhas violências jornalísticas, minhas peleias literárias, minhas dores de amor e revoltas conra a vida ambiente, em que fui tão sincero, hoje me parecem fantasmagorias gostosas em que pus em prática uma encantadora satisfação de viver…”

Alheio às sanhas internas e ambições pelo poder dos partidos políticos, a militância política nunca o interessou. Não seria exagero atribuir a Mário de Andrade um verdadeiro “apostolado” leigo de profundas mudanças sociais estruturais por meio do ideal utópico de “catequizar” as massas despossuídas de seus mais elementares direitos humanos por um comando de cartéis e oligopólios nacionais que asfixiavam 97% da população brasileira, despojando-a de um acesso, por mais elementar que fosse, a seu quinhão de qualidade digna de vida de acesso aos bens culturais que deveriam ser patrimônio usufruído ela totalidade da população. Aqui surge sempre o vigilante alter ego do catedrático do Conservatório Musical e Dramático de São Paulo: o Mário “aristocrata”, “egoísta”, e “individualista” que é sempre fustigado pelo Mário que quer amar a todos os seus semelhantes, indistintamente, e que atribui à arte a capacidade de redenção dos humildes espezinhados em suas mais comezinhas tentativas de melhorar a subvida em que está condenado a viver pela cegueira das classes dominantes nacionais.

Certos estudiosos sectários detêm-se nos versos de estrídula cólera do poeta contra a burrice, a crueldade, a insensibilidade, a ganância e a impunidade dos sangue-sugas de sua época que vampirizam o povo vergado sob o jugo do trabalho quase escravo, aviltante e subpago. Um dos momentos culminantes dessa “ira sagrada” é o famoso poema: “Ode ao Burguês”, que melhor se intitularia “Ódio ao Burguês”:

“Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,

O burguês-burguês!

A digestão bem feita de São Paulo!

O homem-curva! O homem-nádegas!

O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,

É sempre um cauteloso pouco-a pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!

Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!

Que vivem dentro de muros sem pulos;

e gemem sangues de alguns milreis fracos

para dizerem que as filhas da senhora falam o francês

e tocam o Printemps com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!

O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!

Fora os que algarismam os amanhãs!

Olha a vida dos nossos setembros!

Fará Sol? Choverá? Arlequinal!

Mas à chuva dos rosais

o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!

Morte às adiposidades cerebrais!

Morte ao burguês-mensal!

ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!

Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!

” - Ai, filha, que te darei pelos teus anos?

Mas nós morremos de fome!

Come! Come-te a ti mesmo oh! Gelatina pasma!

Oh! purée de batatas morais!

Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!

Odio aos temperamentos regulares!

Odio aos relógios musculares! Morte e infâmia!

Odio à soma! Odio aos secos e molhados!

Odio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,

sempiternamente as mesmices convencionais!

De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!

Dois a dois! Primeira posição! Marcha!

Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Odio e insulto! Odio e raiva! Odio e mais odio!

Morte ao burguês de giôlhos,

cheirando religião e que não crê em Deus!

Odio vermelho! Odio fecundo! Odio cíclico!

Odio fundamento, sem perdão!

Fora! Fú! Fora o bom burguês!…”

Poema ainda da sua primeira fase de aprendizado artístico, ele contém, porém, a veemente acusação de reificação, coisificação do ser humano, transformado pelas relações aviltantes do domínio econômico. O burguês perde sua humanidade paa se tornar um níquel, uma curvatura da ética ajustável a todas as adulações e simulações, a avareza cifrada na cautela vagarosa, sem rasgos de destemor ou de virilidade, todos pegajosamente agarrados ao lucro arrancado selvagemente dos milhões de ludibriados. É a mesma invectiva de Kafka na célebre Carta ao pai, em que vê no progenitor um falso temente a Deus, preso apenas à vacuidade dos rituais sem alma nem fé. É também a visão da robotização do homem pela indústria monopolista do capitalismo selvagem, na realidade um mercantilismo feudal que no Brasil até hoje se confunde com o capitalismo de risco dos Estados Unidos.

Sua estreia voluntariamente escandalosa na poesia (“Uma Gota de Sangue em Cada Poema”, de 1917 é uma obra de seu período de imaturidade estilística) o transforma no objeto de escárnio de toda a São Paulo bem-pensante e logo de espanto e chacota de todo o Brasil. Paulicéia Desvairada tem seus epigramas didáticos também:

“Sou passadista,

confesso. Ninguém pode se libertar duma só vez

das teorias-avós que bebeu.”

“Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem

pensar tudo o que meu insconsciente me grita.”

“Não sou futurista (de Marinetti). Disse-o e

repito-o. Tenho pontos de contacto com o futurismo.”

“Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres.”

“A inspiração é fugaz, violenta. Qualquer impecilho a perturba e mesmo emudece. Arte, que somada a Lirismo, dá Poesia, não consiste em prejudicar a doida carreira do estado lírico para avisá-lo das pedras e cercas de arame do caminho. Deixe que tropece, cáia e se fira. Arte é mondar mais tarde o poema de repetições fastientas, de sentimentalidades românticas inúteis ou inexpressivos.”

Já próximo do stream of consciousness do enlêvo de Molly Bloom no final do Ulysses de Joyce, com suas associações de imagens libertadas de uma sequência cronológica, ele também adverte que:

“Quem canta seu subconsciente

Seguirá a ordem imprevista das comoções, das

Associações de imagens, dos contactos exteriores.”

“Virgílio, Homero não usaram rima.”

“Uso palavras em liberdade.”

Mais na vanguarda do que todos os demais componentes daquele pequeno grupo de pintores (Anita Malfatti, Tarsila, Di), escritores como o cabotino trocadilhista Oswald, enfant terrible ferino, Mário de Andrade já se refere, com quase 50 anos de antecedência, à abertura da criação literária que permite a participação do leitor na composição do texto que lê. Obviamente, já o delicioso Tristram Shandy de Sterne delegara essa faculdade generosa ao leitor, como Machado de Assis a adotara também muitas vezes. E que dizer dos jogos de TV e realidade virtual, nos EUA de hoje, nos quais o espectador passa a decidir por si só os desenlaces e peripécias dos enredos e personagens que lhe são apresentados nos aparelhos ópticos transformados em cabines de comando ou Podestades do Fado, em termos de mitologia ou até mesmo Deuses do Olimpo diante dos destinos dos meros mortais?

O poeta insiste na sua propedêutica para iniciantes: “A gramática apareceu depois de organizadas as línguas”, “o passado é lição para se meditar, não para reproduzir”. E como mais tarde o movimento Pau Brasil, que pregava a “devoração e deglutição” da herança cultural europeia pelas três raças tristes que compõem o Brasil, Mário de Andrade pressente, com segurança, que está pisando solo novo, jamais tocado anteriormente: “Somos na realidade os primitivos duma era nova.” Não aceitar mais passivamente a tirania do eurocentrismo. Integrar as culturas indígenas e o patrimônio artístico e cultural negor e mestiço: esse seria o terreno a ser explorado. “Sou um tupi tangendo o alaúde” exprime bem a sua atitude: o Brasil inaugura, apesar de todos os racismos, óbvios e hipocritamente disfarçados, uma miscigenação racial e cultural que já nos torna diferentes dos demais países. O preconceito que assevera que o negro não tem aptidão para as artes plásticas o leva a minuciosas pesquisas sobre o grande gênio da escultura barroca no mundo, capaz de rivalizar, senão de eclipsar, o máximo escultor italiano desse período, Bernini. Debruça-se in loco meses a fio, sobre a vida de Aleijadinho. Um mulato, filho de uma escrava negra e um arquiteto português. Seus profetas bíblicos no adro da matriz de Congonhas do Campo e sua Via-Crucis talhada em madeira com episódios do Novo Testamento também naquela cidade, além dos altares e criações arquitetônicas de igrejas de uma beleza e uma originalidade sem igual nas três Américas. Em seu vasto dicionário musical, Mário de Andrade inclui termos específicos e esdrúxulos para quase 100% do público brasileiro.

Assim como amar era, para ele, um verbo intransitivo, a batalha em vários fronts ao mesmo tempo não tinha tréguas: atacava-se a acomodação do mau-gosto, da preguiça de pensar e do culto das criações cafonas que se faziam passar por “arte” para os incultos, ao mesmo tempo que se combatia a coleira da gramática lusitana a amordaçar o linguajar livre brasileiro e se buscava encarniçadamente e com toda a humildade servir ao povo refletindo o Brasil profundo fora dos esquemas impostos pela Europa. O ensino não eliminava a ironia ferina, como no célebre poema “As Enfibraturas do Ipiranga”. Misto de composição musical e de invectiva contra a fortaleza dos assassinos da liberdade artística e de tudo que fosse novo, Mário de Andrade coloca nesse “oratório profano” vozes delirantes de corrosiva pândega. Os Orientalismos Convencionais ficam por cima do muro, não querem pôr abaixo o carcomido prédio das “verdades inquestionáveis” mas estão acima da estupidez teimosa e tirana das chamadas Senectudes Tremulinas, ou seja: os cérebros já esclerosados e trêmulos diante de qualquer dissidência diante do “já aceito por todos os séculos afora”. Para caracterizar o povão, jejuno do que seja arte ou cultura oficiais, o autor busca na Roma Antiga o termo raro de “sandapilários”, ou seja: são os joões-ninguém que serviam de coveiros, levando às costas os caixões em frangalhos dos indigentes, gatos pingados sem eira nem beira precedidos na morte miserabilíssima pelos gatos-pingados seus antepassados. As Juvenilidades Auriverdes (nenhum contato como Integralismo auriverde de Plínio Salgado) simbolizavam eles, os modernistas: eram jovens, renovadores e por cima voluntariamente brasileiros por opção. Por último “Minha Loucura” representava os desvarios do próprio Mário de Andrade e seus utopias delirantes. Ele próprio açula e turba-multa como iconoclasta petulante e destimido, nesse misto de reencenação das três noites da Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal e irrisão pessoal contra os defensores do bocejante e letal status quo político, social e cultural.

Pari passu com a sua militância em prol do posso desassistido e espoliado de seus mais comezinhos direitos de cidadão, Mário de Andrade combate uma guerra interna e que não cessará de incendiar a sua consciência. Se a missão do artista, do intelectual, é a de melhorarar a vida do povo, a arte e a cultura têm, forçosamente, que tender para o coletivo, o social. Mas como conciliar esses objetivos libertários com sua feição íntima individualista, elitista por formação? O que ele pretende obter para os marginalizados quando fala em justiça?

Em longos trechos de seu estudo intitulado “O Banquete”, o eminente floclorista brasileiro aborda a questão com uma franqueza desassombrada e rara:

“… Sou mesmo um individualista na maior desgraça e grandeza do termo, naquilo que posso, que devo chamar, sem modéstia falsa, minha sabedoria… Meu Deus! Meu Deus! Que atitude tomar diante das formas novas, coletivas e socialistas da vida que encerram para mim quase todas as vozes verdadeiras do tempo e do futuro?… Mas vozes”coletivas” que não interessam ao meu individualismo, nem podem me fazer feliz nem desinfeliz?… Mas de que tenho de participar, porque a isso me obriga a minha própria satisfação moral de indivíduo?… É a servitude et grandeur militaires do artista que só pode estar satisfeito da sua liberdade e da sua indiferença ao Bem e ao Mal nessa contradição trágica de cumprir o seu dever. Você falou nisso, eu senti como que uma iluminação em mim. Eu não amo o povo, enquanto este é uma pessoa mais uma pessoa mais uma pessoa. Estas pessoas só podem desagradar ao meu refinamento pessoal, ao meu aristocracismo espiritual. Nem quero ter comiserações delas, porque isto seria me aniquilar na balofa caridade esmoler dos cristãos, que substituíram interessadamente Charitas pela esmola.

Eu apenas exijo uma justiça mais superior, que não consegue negar a fatalidade das classes, enquanto classificação da validade individual dos homens em grupos coletivos - coisa que pertence à História Natural - mas justiça a que repugna e suja a predeterminação classista mantida pelas classes dominantes. Porque isso não está de acordo, não poderia nunca estar de acordo com a “minha” verdade… Porque sendo outlaw, extra-econômico por natureza, sem povo por natureza, sem nação, o artista não deixa por menos: o ue ele exige é a humanidade… A minha consciência moral e intelectual exige de mim participar das lutas humanas. E eu participo. Solicito a verdade e pela síntese das obras de arte, proponho uma vida melhor e combato por ela.”

Sem nenhum prurido de “superioridade intrínseca”, ele começa a recolher, no Amazonas, no Nordeste, em Minas, a arte do povo: o folclore. Sem paternalismos, antes reconhecendo que as diferenças que puderem surgir entre a arte “erudita” e a “popular” se devem apenas a um instrumental técnico, a uma escolha de meios expressivos, nunca uma “hierarquia” entre uma arte culta, pretensamente “superior”, e outra semi-analfabeta e portanto “rude”, “sem refinamento”. A forte marca das lendas, cantigas e rituais de dança e festa trazidos de Portugal mesclam-se, nas regiões mais antigas do Brasil, a festas e alegorias indígenas e africanas. Do encontro com estudos de etnologia ele faz um retrato cômico, sem deixar de ser fiel e trágico também, do homem brasileiro, esse camaleão ético, sem caráter, do “jeitinho”, do desperdício, da preguiça, da sensualidade sempre premente, da impunidade. Macnaíma corresponde a uma rapsódia burlesca captada por Bertok ao coligir o folclore húngaro. O tempo e o espaço são abstrações e dentro do riso hílare do romance sucedem-se as maravilhosas transformações que nos contos para crianças de Monteiro Lobato aparecem como o milagroso “pó de pirlimpimpim”, possibilitando a Macunaíma e outros personagens transformar-se em animais, árvores e até numa estrela da constelação da Ursa Maior.

Mas esse divertissement que é mais uma travessura e uma irrisão bem-humorada se parece um palimpsesto indecifrável para a maioria dos que tentam ler seu romance, é aqui ao mesmo temop que Mário de Andrade entra no início de sua suprema fase. É quando ele adquire um domínio prodigioso do verso, reminiscente da magia da Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, no âmbito da poesia brasileira. O pretexto de ter servido o Exército e ter envergado a farda verde-oliva lhe possibilita burilar poemas de uma beleza profunda, memorável. Para alguns amantes da sua obra, os versos do período militar deixam perpassar, nitidamente, uma tendência homoerótica, principalmente o poema galhofeiro, andrógino, impertinente e brasileiramente meigo:

“Cabo Machado”

“Cabo Machado é cor de jambo,

Pequenino que nem todo brasileiro que se preza.

Cabo Machado é moço bem bonito.

É como si a madrugada andasse na minha frente.

Entreabre a boca encarnada num sorriso perpétuo

Adonde alumia o Sol de oiro dos dentes

Obturados com um luxo oriental.

Cabo Machado marchando

É muito pouco marcial.

Cabo Machado é danaçarino sincopado,

Marcha vem-cá-mulata.

Cabo Machado traz a cabeça levantada

Olhar dengoso pros lados.

Segue todo rico de joias olhares quebrados

Que se enrabicharam pelo posto dele

E pela cor-de-jambo.

Cabo Machado é delicado gentil.

Educação francesa masureira.

Cabo Machado é doce que nem mel

E polido que nem manga-rosa.

Cabo Machado é bem o representante duma terra

Cuja Constituição poroíbe as guerras de conquista

E recomenda cuidadosamente o arbitramento.

Só não bulam com ele!

Mais amor menos confiança!

Cabo Machado toma um geito de rasteira…

Mas traz unhas bem tratadas

Mãos transparentes frias,

Não rejeita o bom-ton do pó-de-arroz.

Se vê bem que prefere o arbitramento.

E tudo acaba em dansa!

Por isso cabo Machado and maxixe.

Cabo Machado… bandeira nacional!”

Também no “Improviso para um Rapaz Morto” há quem vislumbre um homoerotismo recalcado, o amor que não ousa pronunciar seu nome, da mesma forma que versos esparsos aqui e ali ou poemas de intensa voluptosidade:

“Ai momentos de físico amor,

As reintrancias de corpo…

Meus lábios são que nem destroços

Que o mar acalanta em sossego.

A luz do candieiro te aprova,

E… não sou eu, é a luz aninhada em teu corpo

Que ao somdos coqueiros do vento

Farfalha no ar os adjetivos.”

Ou ainda:

“Quando

Minha mão se alastra

Em vosso grande corpo,

Você estremece um pouco.

É como o negrume da noite

Quando a estrela Vênus

Vence o véu da tarde

E brilha enfim.

Nossos corpos são finos,

São muito compridos…

Minha mão relumeia

Cada vez mais sobre você.

E nós partimos adorados

Nos turbilhões da estrela Vênus!…”

Ou nos versos em que o amor se interroga, androginamente “vive em teu corpo nu de adolescente” sem que o poeta queira revelar a qual dos dois sexos se dirige no êxtase da comtemplação da pessoa amada:

“Soneto”

“Aceitarás o amor como eu o encaro?…

… Azul bem leve, um nimbo, suavemente

Guarda-te a imagem, como um anteparo

Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de milhor e de mais raro

Vive em teu corpo nu de adolescente,

A perna assim jogada e o braço, o claro

Olhar preso ao meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo

Também mais nada, só te olhar, enquanto

A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza… A evasão total do pêjo

Que nasce das imperfeições. O encanto

Que nasce das adorações serenas.”

Talvez as preferências sexuais de Mário de Andrade se desvendem, em 1995, quando por expressa determinação sua e só então poderão ser abertas suas cartas. Paulo Duarte assinala no livro que dedicou ao amigo:

“Mário não deixou testamento, deixou apenas uma carta com recomendação a seu irmão, Carlos de Morais Andrade, datada de 22 de março de 1944. (Ela) diz textualmente:”Toda a minha correspondência, sem exceção, deve ser fechada, lacrada, para só poder ser aberta e examinada, cinquenta anos após a minha morte (em 1945)“.

O poeta sempre foi arisco com relação à sua vida pessoal, discretíssima na menção vaga, fugaz, de seus encantos e desencantos amorosos. Agilhoado pela constante falta de dinheiro. Com suas próprias palavras:

“A isso se ajuntavam dificuldades morais e vitais de vária espécie, foi ano de sofrimento muito (1920). Já ganhava pra viver folgado, mas na fúria de saber as coisas que me tomara, o ganho fugia em livros e eu me estrepava em cambalaxos financeiros terríveis. Em família o clima era torvo.”

E ele refere um pouco do perfil do personagem principal de seu conto “O Peru de Natal”. Era considerado um “louco”, “um perdido”, um objeto de desespero e de muxoxos de escárnio por parte de parentes que viam nele apenas um esbanjador, um proponene de uma “arte” incompreensível. Seguiam-se as discussões violentas, o desnível entre ele e a família, já morto o pau que sempre fora para ele uma figura cinzenta, inexpressiva e remota. São frequentes também as queixas de Mário de Andrade, em sua correspondência, de males físicos e angústias existenciais: dores de cabeça, paixões não retribuídas ou terminadas e às quais faz, de vez em quando, obscuras, enigmáticas alusões.

Nunca a vaidade o fez perder a noção muito clara que tinha de suas próprias limitações, do muito que ainda teria que errar, a fim de cumprir a missão sacrificial a que votara a sua vida inteira: a de usar a arte e a sabedoria como armas de aperfeiçoar o seu amado povo brasileiro. Os versos de “O Carro da Miséria”, dedicados a Carlos Lacerda, insistem na reivindicação de uma ferocidade ácida, conlindando com a opera buffa e a irrisão cortante de um Volpone. Com repetições, com excesso de versos palavrosos ou piegas, ou ambos, Mário de Andrade com que carrega a cruz do social que ele mesmo teimou em carregar vida afora. Tudo era urgente, não havia tempo nem latinórios a perder: da Europa vinha a Segunda Guerra Mundial, o nazi-fascismo que se apoderara da Itália, Alemanha, Espanha, Portugal e arrancara da França, com dois milhões de homens em armas, uma capitulação só superada pela ignomínia pela comprovada colaboração de considerável parte da população francesa com as tropas invasoras de Hitler. Mais do que nunca, a ameaça do terremoto planetário - a vitória nazista - pairava sonbre todos os povos que não fossem brancos. Mulato como Aleijadinho e como Machado de Assis, Mário de Andrade esteve na linha de frente na batalha contra o racismo que vinha destruir o seu mais belo sonho ou iiusão: o convívio humano entre raças diferentes e que se cruzavam no Brasil. Enquanto as tribos “arianas” se digladiavam no Velho Mundo e o fulgor do sol se punha naquele horizonte de uma Euro-esclerose crescente, como proteger o Brasil do holocausto que alimentava os fornos crematórios de Dachau, Auschwitz, Theresienstadt com 14 milhões de prisioneiros trucidados, 6 milhões de judeus e 8 milhões de homossexuais, ciganos, religiosos, eslavos, dissidentes ideológicos, pessoas “que era preciso exterminiar como piolhos”, segundo o Mein Kampf hitlerista. Na Alemanha a derrota da Primeira Guerra Mudial, as condições draconianas, humilhantes do pesado Tratado de Versalhes, o desemprego, a inflação que elevava o preço de um pão a um bilhão de marcos, na Alemanha 18 milhões de pessoas elegem HItler. Daí à conquista de territórios inteiros e a explosão sa Segunda Guerra Mundial o mundo parece ser tragado pela voragem invencível da violência e da morte. Extremamente preocupado com as notícias crescentes das atrocidades nazistas, Mário de Andrade, imagina o que será o Dia da Ira de Deus quando chegar:

“Ah… Dies magna et amara valde… Dia imenso e talvez amargo… Que dia vai ser esse horroroso… em que o mundo se estorcerá de espavento ante a decisão do castigo final, tão necessário no século, como o proclamado por David e pela Sybilla… que direis vós, como o proclamado por David e pela Sybilla… Que direis vós, criminosos dos crimes do mundo? Vós, nazistas, vós fachistas, vós totalitários, racistas e ditadores ad ostentationem, vós alemães, vós italianos, vós japões!… que direis vós ante o Julgador da tremenda majestade? Porque então há-de ser de chocalho e reco-reco o tremor que arrepiará os culpados, casta nazi-faschista maldita quando vier o Grande Julgador para pesar as ações de todos, dos revoltados como dos conformistas, dos que se disfarçam de inocentes e dos que se sabem infames…”

Em 1933, Hitler se tornando Chanceler do IIIº ReichI, de nefanda memória, Mário de Andrade ainda celebrava, com um soneto clássico, estoico como sempre seus quarenta anos de vida, sem saber que apenas mais doze anos lhe seriam concedidos para viver:

“Quarenta Anos”

(27-XII-33)

“A vida é para mim, está se vendo,

Uma felicidade sem repouso;

Eu nem sei mais si goso, pois o goso

Só pode ser medido em se sofrendo.

Bem sei que tudo é engano, mas sabendo

Disso, persisto em me enganar… Eu ouso

Dizer que a vida foi o bem precioso

Que eu adorei. Foi meu pecado… Horrendo

Seria, agora que a velhice avança,

Que me sinto completo e além da sorte,

Me agarrar a esta vida fementida.

Vou fazer do meu fim minha esperança,

Oh sono, vem!… Que eu quero amar a morte

Com o mesmo engano com que amei a vida.”

Ele estava a um ano de assumir o cargo que se revelou decisivo para o decurso da sua vida e para o novo enfoque que ele e o amigo devotado Paulo Duarte dariam a todas as atividades culturais artísticas brasileiras. Por enquanto, como que amainara o espírito, aquele Walhala, aquele campo de batalha eterno em prol do Brasil, da música brasileira e universal, do amor fraterno entre todos os seres humanos, acima de todos os racismos e nacionalismos letais. Mário de Andrade, se é que se pode dizer isso, serenara, nao mais um tupi tangendo um alaúde renascimental italiano, mas um exímio poeta intimista, de versos diáfanos, sutís e impreganados de uma meiguice brejeira e melancólica brasileira com as “Saudades do Brasil” de Darius Milhaud. Os poemas englobados em “Rito do Irmão Pequeno”, dedicados a Manuel Bandeira, com quem manteve uma troca epistolar que por si só já é uma obra-prima, são os poemas de temática indígena, com a pureza, o senso de humor inocente, o sentido já ecológico da Natureza dos que ele ajudou a resgatar do “primitivismo” são já o ápice de sua criação lírica. Musical, encantador, colorido, o primeiro começa afirmando:

“Meu irmão é tão bonito como o pássaro amarelo,

Ele acaba de nascer do escuro da noite vasta!

Meu irmão é tão bonito como o pássaro amarelo,

Eu sou feito um ladrão roubado pelo roubo que leva,

Neste anseio de fechar o sorriso da boca nascida…

Gentes, não creiam não que em meu canto haja siquer um

reflexo da vida!

Oh, não! antes será talvez uma queixa de espírito sábio,

Aspiração do fruto mais perfeito,

Ou talvez um derradeiro refúgio para minha alma

Humilhada…

Mas deixem num canto apenas, que seja este cando somente,

Suspirar pela vida que nasceria apenas do meu ser!

Porque meu irmão pequeno é tão bonito como o pássaro

Amarelo,

E eu quisera dar pra ele o sabor do meu próprio destino

A projeção de mim, a essência duma intimidade incorrupti-

vel!…

Um tom inusitado de funda melancolia se insinua entre os versos agora intimistas como um acalanto ou um chamado dentro da quietude da floresta. O frescor de uma cultura intocada pela técnica a serviço da cobiça seduz em forma de apelo inteligente ao ócio, à meditação, em vez da labuta insana e a obediência robotizada ao relógio, à produtividade, ao lucro, à ideologia política dominante:

“Vamos caçar cotia, irmão pequeno,

Que teremos boas horas sem razão,

Já o vento soluçou na arapuca do mato

E o arco-da-velha já enguliu as virgens.

Não falarei uma palavra e você estará mudo,

Enxergando na ceva a Europa trabalhar;

E o silêncio que traz a malícia do mato,

Completará o folhiço, erguendo as abusões.

E quando a fadiga enfim nos livrar da aventura,

Irmão pequeno, estaremos tão simples, tão primários.

Que os nossos pensamentos serão vastos,

Graves e naturais feito o rolar das águas.”

Como a sabedoria intuitiva do Grande Chefe Seattle que previa ao homem branco dos Estados Unidos a destruição da espécie humana se não respeitasse a Natureza e não se abandonasse o estéril tótem do progresso apenas material, Mário de Andrade argumenta sem espalhafato mas de forma convincente a favor de um retorno à terra e aos costumes tribais, longe da loucura mecanicista do europeu:

“Irmão pequeno, sua alma está adejando no seu corpo,

E imagino nas borboletas que são efêmeras e ativas…

Não é assim que você colherá o silêncio do enorme sol

branco,

O ferrão dos carapanãs arde em você reflexos que me

entristecem.

Assim você preferirá visagens, o progresso…

Você não terá paz, você não será indiferente,

Nem será religioso, você… ôh você, irmão pequeno,

Vai atingir o telefone, os gestos dos aviões,

O norteamericano, o inglês, o arranhacéu!…

Venha comigo. Por detrás das árvores, sobrado dos igapós,

Tem um laguinho fundo onde nem medra o grito do

cacauê…

Junto à tocáia espinhenta das largas vitórias-régias,

Boiam os paus imóveis, alcatifados de musgo úmido, com

calor…

Matemos a hora que assim mataremos a terra e com ela

Estas sombras de sumaúmas e violentos baobás,

Monstros que não são daqui e irão se arretirando.

Matemos a hora que assim mataremos as sombras sinistras,

Esta ambição de morte, que nos puxa, que nos chupa,

Guia de noite,

Guiando a noite que canta de uiara no fundo do rio.”

Nesta guirlanda de poemas, o trajeto do sofrimento do poeta se irmana com o destino do índio, já tudo perdido daquilo que dava sentido a suas vidas. Agora são momentos poéticos breves, tristes como o queixume de um pássaro na Amazônia devastada pelo incêndio das florestas e pelo envenenamento de seus rios e igarapés. Soa como um Quarup, um lamento fúnebre coral e convite:

“Chora, irmão pequeno, chora,

Porque chegou o momento da dor.

A própria dor é uma felicidade…

Escuta as árvores fazendo a tempestade berrar.

Valoriza contigo bem estes instantes

Em que a dor, o sofrimento, feito vento,

São consequências perfeitas

Das nossas razões verdes,

Da exatidão misteriosíssima do ser.

Chora, irmão pequeno, chora,

Cumpre a tua dor, exxerce o rito da agonia.

Porque cumprir a dor é também cumprir o seu próprio

destino:

É chegar àquela consciência vegetal

Em que as árvores fazem a tempestade berrar,

Como elementos da criação, exatamente.”

Com o lirismo e a segurança de um excelente poeta como W. H. Auden, Mário de Andrade embala um lullaby tão aliciante e doce quanto um motivo orquestral com a magia de Debussy:

“A cabea deslisa com doçura,

E nas pálpebras entrecerradas

Vaga uma complacência extraordinária.

É pleno dia. O ar cheira a passarinho.

O lábio se dissolve em açúcares breves,

O zumbido da mosca embalança de sol.

… Assurbanipal…

A alma, à vontade,

Se esgueira entre as bulhas gratuitas,

Deixa a felicidade ronronar.

Vamos, irmão pequeno, entre palavras e deuses,

Exercer a preguiça com vagar.”

Mestre do ritmo e da palavra concisa e precisa, o musicólogo adquire uma maturidade a par de uma trizteza prenunciadoras de angústias sempre silenciadas, de desenganos que o Tempo acarreta como passagem para o conhecimento, o conhecimento agudo da dor:

“Teu dedo curioso me segue lento no rosto

Os sulcos, as sombras machucadas, por onde a vida passou”

A morte, o luto, o desânimo espreitam a cada passo uma alma até então desacostumada à perda, ao desengano, a íntimas derrotas nunca confessadas. A geografia de São Paulo, a multicor Paulicéia Desvairada, dos imigrantes italianos, dos arranha-céus, da velocidade, da industrialização, das fortunas, da garoa, de cidade pacata bruscamente despertada para o progresso e o gigantismo de uma metrópole barulhenta e cruel, a geografia de São Paulo antes afrancesada agora é um dínamo cosmopolita: será porém a lápide sem nome e sem lembrança de quem tanto a amou e celebrou?

“Na rua Aurora es nasci

Na aurora da minha vida

E numa aurora cresci.

No largo do Paissandu

Sonhei, foi luta renhida,

Fiquei pobre e me vi nu.

Nesta rua Lopes Chaves

Envelheço, e envergonhado

Nem sei quem foi Lopes Chaves.

Mamãe! me dá essa lua,

Ser esquecido e ignorado

Como esses nomes de rua.”

A garoa típica paulistana assumiu “timbre triste de martírios” ou é uma lúgubre “costureira de malditos”. Mas a ironia afiada não perdeu seu corte rente, como nas rápidas constatações sintéticas:

“Moça linda bem tratada,

Três séculos de família,

Burra como uma porta:

Um amor.”

“Grã-fino do despudor,

Esporte, ignorância e sexo,

Burro como uma porta:

Um coiô.”

“Mulher gordaça, filó

De ouro por todos os poros

Burra como uma porta:

Paciência…”

“Plutocrata sem consciência,

Nada porta, terremoto

Que a porta do pobre arromba:

Uma bomba.”

Essa topografia paulistana receberá seus despojos, o testamento comovente do “bardo mestiço” como ele próprio se intitula no grande afresco que é seu longo, patético poema “A Meditação sobre o Rio Tietê”. Nessa macabra e marioandradianamente galhofeira e auto-irônica distribuição póstuma testamentária, ele pede, meio-Arlequim, meio-Pierrot, sinistramente a sério e ternamente zombeteiro:

“Quando eu morrer quero ficar,

Não contem aos meus inimigos,

Sepultado em minha cidade,

Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora

No Paissandu deixem meu sexo,

Na Lopes Chaves a cabeça

Esqueaçam.

Escondam no Correio o ouvido

Direito, o esquerdo nos Telégrafos,

Quero saber da vida alheia,

Sereia.

O nariz guardem nos rosais,

A língua no alto do Ipiranga

Para cantar a liberdade.

Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá

Assistirão ao que há de vir,

O joelho na Universidade,

Saudade…

As mãos atirem por aí,

Que desvivam como viveram,

As tripas atirem pro Diabo,

Que o espírito será de Deus.

Adeus.”

Foi o mais pueril de todos os seus enganos. Mário de Andrade condói-se, nas notas amassadas pela pobreza e pela inflação do Brasil esquálido de hoje, dos miseráveis extorquidos do direito à vida pelos vís dinastas herdeiros do poder de furto impune; Mário de Andrade é uma Biblioteca vital para as artérias do conhecimento da metrópole que ele transformou com o esforço e o amor de toda a sua vida. Se sua ópera - sintomaticamente inédita até hoje entre nós - “O Café” está demasiado próxima de uma leitura maniqueísta, já roçando o didático-panfletário de um socialismo utópico desvairado, não são essas as últimas palavras que nos ficam da grandeza de um coração que pulsava unicamente em função da generosidade, do amor ao próximo, do tributo aos despojados. Ele que foi tão injustamente severo na avaliação de sua própria contribuição individual à coletividade pronunciou, ele próprio, as alavras que se adequam tanto ao Brasil de 1945 quanto ao de hoje. Se ao morrer Mário de Andrade o mundo estupefato refazia seus sonhos, decepados pelo pesadelo nazista, hoje o mundo se soergue, em meio a escombros, da poluição ambiental e mental do terror comunista, desmoronado 200 anos depois da queda da Bastilha. E haveria maior legado de esperança para o Brasil aturdido de hoje do que este derradeiro vaicínio de Mário de Andrade?:

“… Eu creio que os modernistas da Semana de Arte Moderna não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição. O homem atravessa uma fase integralmente política da humanidade. Nunca jamais ele foi tão”momentâneo” como agora. Os abstencionismos e os valores eternos podem ficar para depois. Sei que é impossível ao homem, nem ele deve abandonar os valores eternos, amor, amizade, Deus, a natureza. Quero exatamente dizer que numa idade humana como a que vivemos, cuidar desses valores apenas e se refugiar, em livros de ficção e mesmo de técnica, é um abstencionismo desonesto e desonroso como qualquer outro. Uma covardi como qualquer outra. De resto, a forma política da sociedade é um valor eterno também.

E apesar da nossa atualidade, da nossa nacionalidade, da nossa universalidade, uma coisa não ajudamos verdadeiramente, duma coisa não participamos: o amelhoramento político-social do homem. E esta é a essência mesma da nossa idade.

Se de alguma coisa pode valer o meu desgosto, a insatisfação que eu me causo, que os outros não sentem assim na beira do caminho, espiando a multidão passar. Marchem com as multidões.

Aos espiões nunca foi necessária essa “liberdade” pela qual tanto se grita. Nos períodos de maior escravização do indivíduo, Grécia, Egito, artes e ciências não deixaram de florescer. Será que a liberdade é uma bobagem?… Será que o direito é uma bobagem?… A vida humana é que é alguma coisa mais que ciências, artes e profissões. E é nessa vida que a liberdade etm um sentido, e o direito dos homens. A liberdade não é um prêmio, é uma sanção. Que há-de vir.”

Final

“Eu sou trezentos, sou trezentos e cincoenta”

O amigo Paulo Duarte, em seu livro Mário de Andrade por ele mesmo, conta em pormenores a “loucura” da criação dele e do poeta paulistano de um Instituto Paulista de Cultura, futuramente ampliado para um Instituto de Cultura do Brasil. Amigo do grupo em torno de quatrocentõess paulistas, como Paulo Prado e D. Olívia Guedes Penteado, Paulo Duarte participava com Mário de Andrade de recepções que naquele tempo faziam as vezes de um salon littéraire. Com Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, além de Blaise Cendrars, o poeta se apaixonara pelas igrejas e estátuas mineirass de Aleijadinho, reconhecera todo um legado do passado colonial que representava a própria memória do Brasil. Em torno de uma mesa, relata Paulo Duarte, durante uma festa de gourmets de repente afastaram as iguarias requintadas, os vinhos franceses raros e - ele não sabe precisar exatamente quem começou o desenho, obra talvez coletiva - logo surgia um esboço da “loucura”. Os traços de um projeto de preservação artística e de expansão da cultura, primeiro na São Paulo tachada de “provinciana” e “sem o cosmopolitismo” da Capital, o Rio de Janeiro, depois com ramificações por todo o território, do Amazonas ao Rio Grande do Sul.

No âmbito político, Paulo Duarte aproximou-se de Fábio Prado e depois de Armando de Sales Oliveira. Ambos, ainda que achando que era um plano talvez grande demais, meio “desmiolado”, mesmo assim aprovaram aquela que poderia arecer uma utopia a mais no Brasil, esse arquétipo da incultura enraizada nas classes dominantes séculos a fio. Em 1936 esse embrião que era o Departamento de Cultura passava a ser cinco divisões: Exansão Cultural, Bibliotecas, Educação e Recreio Documentação Histórica e Social, Turismo e Divertimentos Públicos. Relutante, a princípio, logo Mário de Andrade se deixaria seduzir pelo próprio ideal que ele e outros do grupo (na versão dada por Paulo Duarte no livro mencionado) delinearam. Era um ideal de envergadura da breve embriaguês de liberdade e fantasia criadora dos artistas e intelectuais que se apoderaram, efemeramente, da Revolução Russa de 1917: tornar a Arte e a Cultura parte integrante, “constitucional”, no sentido jurídico e no biológico, de cada cidadão. Não haveria mais a odiosa e tirânica linha de demarcação separado o povo da música clássica, da grande pintura, do teatro, da Grécia Antiga a Ibsen. No Brasil, um Serviço do Patrimônio Histórico preservaria as fazendas do período colonial, as igrejas, entregues, como hoje, aos cupins e aos morcegos, seriam restauradas e preservadas. Das viagens anteriores que Mário de Andrade relatara em Turista Aprendiz lhe veio a noção agora concretizada de coletar o riquíssimo folclore do Amazonas, do Nordeste, de Minas: pois não saíra das lendas indígenas a figura inconfundivelmente brasileira do Macunaíma, sem caráter e em eternas mutações de fauno libidinoso tropical? Mais: a criança não seria entregue a li a livros didáticos feios, de linguagem carcomida pelas “gramatiquices” do jugo lusitano do idioma, como Mário de Andrade os julgava. (Ainda não se dera a revolução da litertura infantil trazida por Monteiro Lobato, esse grande realizador e intelectual paulista). Õnibus levariam livros, “livros à mão cheia”, como queria Castro Alves, aos bairros mais carentes, mais distantes. Era um sonho, uma embriaguês, uma vertigem. Parecia que um filme de Frank Capra de repente se desenrolasse, mas de verdade, no Brasil.

Paulo Duarte cita trechos comoventes dos bilhetes que Mário de Andrade lhe mandava:

“… Paulo, o Flávio tem um primo ganhando pouquíssimo e que sonha ser servente ou contínuo. O Flávio fiz que é ótimo, o recomenda e diz que é trabalhador e bom…”

Ou:

“Paulo: … A Penitenci´ria nos prometeu o móvel prá discos e até agora!!! A discotecária já não tem mais lugar dentro da Discoteca, é um absurdo!”

E:

“Paulo, o guarda vigilante Eugênio Góis, do Parque infantil Pedro II, ganha 228$000, tem seis filhos, tem 42 anos, tem infelicidade. Pede para ser nomeado servente. O Departamento Cultural precisa, necessita, carece (no sentido português) e carece (no sentido brasileiro) de serventes. Fora m’ermão!”

O trator da Ditadura varreria as utopias sob suas rodas: na Rússia de Stálin e no Brasil de Getúlio Vargas decretava-se a morte da liberdade, da inteligência, da discordância. Essenin, Górki, Mayakóvsky, Ossip Mandelstam, Anna Akhmátova- todos foram tragicamente silenciados pela Censura onipresente da KGB. Energúmenos getulistas, através do artigo 177 da “Constituição” fascista do déspota dos pampas (que dificilmente escondia sua “simpatia” pelos algozes de meia Europa Ocidental: Franco, Mussolini, Hitler, Salazar) intervinham na Cultura.

Como que atingido por uma explosão violenta, Mário de Andrade não conseguiu manter-se de pé, estonteado: fora demitido da sua prórpia criação. Cambaleando, o homem que sempre se declarara “feliz” nunca mais se soergueria. A inveja, o corporativismo, a triculência dos ignorantes e ociosos que compõem o câncer que ameaça corroer todos os funcionários dignos e laboriosos do serviço público em todos os níveis no Brasil - municipal, estadual, federal - tinham se revelado poderosos como uma leucemia galopante.

Paulo Duarte não hesita em usar as palavras mais acertadas para descrecer a tomada do poder pela imbecilidade sempre latente, sob a pele das classes dominantes, subjugando imemorialmente o Brasil novo, pujante, fecundo de talento, tolerância, criatividade, mutabilidade:

“Desgraçadamente, o que aconteceu foi a invasão de uma horda. E a uma horda de bárbaros nem Roma pôde resistir. Os Evangelhos ficaram par dizer das dimensões de um Cristo. E o Departamento não teve até hoje quem pudesse gritar em miúdo o que foi o trabalho, e o sacrifício de Mário de Andrade. É isso que explica, neste livro, o capítulo a seguir, que seria inútil se o intuito não fosse apresentar uma face nova de Mário de Andrade, o seu papel na construção ou, melhor, no lançamento dos verdadeiros alicerces culturais de um país que durante os primeiros anos, a partir de 1934, se havia resolvido a ser grande e, por milagre, ainda é, geograficamente. Os energúmenos se junstaram para impedi-lo. Eles estão aí para evitar, por todos os meios, que o”Brasil continue”.

Terríveis verdades ainda vivíssimas de atualidade! Quanto da cultura se amesquinhou de 1936 até hoje, 1993! O Brasil continua calcado pelo lixo musical dos Estados Unidos que quase que literalmente impede que as rádios, os canais comerciais de televisão, as boates difundam aquela que talvez seja a mais rica e mais bela música popular, a brasileira. Quantos teatros municipais pelo Brasil afora não estão entregues a funcionários estultos quando não a gatunos impunes, expulsando o talento e a competência se possível para fora das fronteiras do Brasil! Enquanto os Estados Unidos têm magníficas orquestras sinfônicas e filarmônicas (algumas com mais de um século de duração), nossas universidades estão impotentes para não sucumbir à mediocridade geral, enquanto as universidades do Peru, do México, dos Estados Unidos datam de fins de 1500, 1600 e a primeira de São Paulo, foi fundada… durante a ditadura getulista, em 1940!

A Biblioteca principal de São Paulo, que leva o nome de Mário de Andrade, sobrevive graças ao empenho pessoal de bibliotecárias que se sacrificam para mantê-la viva. Mas nenhum mecenas brasileiro surgiu jamais para doar um prédio novo para desafogar o prédio da rua Coronel Xavier de Toledo. As obras raras, que precisam de constante proteção térmica, estão precariamente defendidas, mas ameaçadas a todo instante de se tornarem pó. Pois se o Brasil é o país que embargou a entrada do computador durante décadas, em favor de incompetentes e rendosos oligopólios tupiniquins, quando já em 1968 o computador revolucionava no mais literal sentido do termo toda a vida dos Estados Unidos e logo do resto do mundo inteiro!

Mário de Andrade foi se estiolando, entregue à bebida, desleixado, auto-exilado no Rio de Janeiro, cidade onde não encontrou acolhida e pela qual não sentia empatia alguma. Aí suas cartas adquirem tons sinistros, inimagináveis em sua vasta correspondência de todos os anos anteriores:

“Basta de sentimento. Mas, a não ser o sentimento, vejo que não tenho nada a lhe contar (a Paulo Duarte) senão as coisas tristes. Estou literalmente desesperado, não aguento mais esta vida do Rio, e eu ou acabo comigo ou não sei. Prá disfarçar as mágoas, vivo bêbado. Tomo porres colossais, dois, três por semana. Os outros dias, me trato. O último médico que me exainou, poucos dias faz, me garantiu que tenho todas as vísceras atrapalhadas e estou condenado à morte. Morte, melhor que a vida, quem não te ama! Diante da condenação, tomei um porre tão fabuloso que, além de pela segunda vez perder completo acordo de mim, não saber o que faço, ainda fiquei dois dias de cama, imóvel…”

Nem a decisão repentina, enganadoramente uma panacéia, de voltar a São Paulo, o salva da amargura que doravante envenenará a sua vida:

“Você tem razão na sua última carta, quando me acha muito inquieto. Egoisticamente eu poderia dizer que estou vivendo uma vida pessoal de uma intensidade admirável, prodigiosa, não raro sublime. Porém isto não me satisfaz à minha moral de homem. Por dentro sou um descalabro, um sofrimento atroz, não consigo acomodar meus gestos com a consciência. Não aceito esta política, não aceito esta guerra (nota: a Segunda Guerra Mundial), uma atitude de recusa, um ideal de anarquia, um desequilíbrio humano detestável, irrespirável, ferocíssimo.”

Mesmo acabrunhado, sem um ambiente que o compreendesse em toda a sua grandeza intelectual e sua nobilíssima dimensão ética e humana, Mário de Andrade trabalha num projeto derradeiro:

“Estou vivendo uns dias sublimes de fecundidade criadora… Escrevi um ensaio sobre a situação do folclore no Brasil… E não é que me pus escrevendo uma ópera? Pois é, m’ermão. Se chama”Café” essa ideia em mim que vem de longe. É que o teatro cantado sempre existiu e com dignidade humana. Se chamou tragédia grega, se chamou chegança e Bumba-meu-boi, teatro nô etc. e tal. Até que um dia, perdendo validade social, também careceu mudar de nome e se chamou ópera”

E explica seu intento:

“Como tornar à dignidade e eficiência humana do teatro cantado em referência ao nosso tempo? E então parti da força coletivizadora do coro e imaginei um melodrama exclusivamente coral, onde, em vez de personagens solistas, os personagens são massas corais. E então, obedecendo ao princípio (utilitarista agora) de que a depreciação de um valor econômico fundamental traz insatisfação pública que se revolta e muda o regime político, esbocei o meu”Café”.

O entusiasmo por essa despedida cheia de revolta e cólera se alterna com os períodos de depressão profunda:

“Que carta amarga… Hoje estou adoentado, está fazendo um frio úmido, me sinto muito infeliz, inquietíssimo, cheio de pressentimentos. Por que será que fico assim se tudo vai bem?”

A morte, ele mesmo vaticina, o espreita (“devo morrer em 1949, mais ou menos”). A velhice e o adoecimento induzido pelo golpe mortal da demissão covarde e injusta o derrubam precocemente:

“Paulo, não se zanga, não. Sua carta quase que é só de passar pito, de xingar meu chope, xingar meus exageros vitais, xingar eu… Cheguei a ficar tão humilde com o sofrimento que abandonei por compleo o álcool, fumo, extravagâncias de qualquer burguesia, faz prá umas quatro semanas.”

E presciente:

“Não adianta nada. Mas velhice chegou. Chegou um ano antes do tempo prá meu gosto, pois eu só pretendia cuidar um bocado de mim depois do dia 9 de outubro deste ano, em que faço as cinquenta ilusões. Engraçado: hoje estão fazendo justamente três meses que a saúde me largou, pois foi a 1o de janeiro que me bateu a primeira dor de cabeça que me paralisou na cama horas.”

Um de seus últimos pensamentos, nesse ano final de 1945, volta-se, amoroso, para Portugal:

“Sei que amo muito, mas de amor todo, carnal e espiritual, é Portugal, isso não tem dúvida, é o país que eu mais amo… E como vai o meu Portugal pequenino? São Paulo?… Não, São Paulo é outra coisa, não é amor exatamente, é identificação absoluta, sou eu. E eu não me amo. Mas me persigo.”

E é nas águas do rio da penetração bandeirante, o rio esdrúxulo, diferente, que imita o espírito de Mário de Andrad e corre para dentro de São Paulo, para dentro do Brasil, é no Tietê que a mais perturbadora meditação de Mário de Andrade á na agonia final das martelantes e incessantes dores de cabeça que o vitimarão em breve que ele mergulha em sua voluntária amálgama com a cidade de seu desvario quixotesco:

“É noite… Rio! meu rio! meu Tietê!

É noite muito!… As formas… Eu busco em vão as formass

Que me ancorem num porto seguro na terra dos homens.

É noite e tudo é noite. O rio tristemente

Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.

Água noturna, noite líquida… Augúrios mornos afogam

As altas torres do meu exausto coração.

Me sinto esvair no apagado murmulho das águas.

Meu pensamento quer pensar, flor, meu peito

Quereria sofrer, talves (sem metáfora) uma dor irritada…

Mas tudo se desfaz num choro de agonia

Plácida. Não tem formas nessa noite, e o rio

Recolhe mais esta luz, vibra, reflete, se aclara, refulge,

E me larga desarmado nos transes da enorme cidade.”

Essa vagarosa Sinfonia patética que segue os meandros e como que “a alma” do rio que tanta labuta humana, tanto sofrimento e heroísmo humanos testemunhou e que rola, como uma parábola de Heráclito, não permitindo que nele se banhe duas vezes ninguém, esse afresco grandioso e épico se detém aqui e ali para deixar bem marcada a Fé cristã que nunca abandona Mário de Andrade em meio a seu martírio e a seus sonhos de justiça social e amor ao próximo:

“Si todos esses dinossauros imponentes de luxo e diamente,

Vorazes de genealogia e de arcanos,

Quisessem reconquistar o passado…

Eu me vejo sozinho, arrastando sem músculo

A cauda do pavão e mil olhos de séculos,

Sobretudo os vinte séculos de anticristianismo

Da por todos chamada Civilização Cristã…”

O individualismo que ele considerara sempre como uma que “maldição” elitista - até os gênios de vez em quando erram! - se contrapõe no grande poema final ao coro dos sugadores da vida alheia e da autenticidade de sentimentos e na arte:

“Porque os homens não me escutam! Por que os governadores

Não me escutam? Por que não me escutam

Os plutocratas e todos os que são chefes e são fezes?

Todos os donos da vida?

Eu lhes daria o impossível e lhes daria o segredo,

Eu lhes dava tudo aquilo que fica pra cá do grito

Metálico dos números, e tudo

O que está além da insinuação cruenta da posse.

E si acaso eles protestassem, que não! que não desejam

A borboleta translúcida da humana vida, porque preferem

O retrato a ólio das inaugurações espontâneas,

Com béstias de operário e do oficial, imediatamente inferior”

E insiste, meio à temática do rio e seu fluxo rápido, imagem do efêmero de tudo, as sua visão estoica, cristã, despojada de materialismo e irada pelo desamor e pela ganância selvagem do homem contra o homem:

“Como é possível que o amor se mostre impotente assim

Ante o ouro pelo qual o sacrificam os homens,

Trocando a primavera que brinca na face das terras

Pelo outro tesouro que dorme no fundo baboso do rio!

É noite! é noite!… E tudo é noite! E os meus olhos são noite!

Eu não enxergo siquer as barcaças da noite.

Só a enorme cidade. E a cidade me chama e pulveriza,

E me disfarça numa queda flébil e comedida,

Onde irei encontrar a malícia do Boi Paciência

Redivivo. Flor. Meu suspiro ferido se agarra,

Não quer sair, enche o peito de ardência ardilosa,

Abre o olhar, e o meu olhar procura, flor, um tilintar

Nos ares, nas luzes longe, no peito das águas,

No reflexo baixo das nuvens.”

A dissolução, na noite que apaga as formas e as cores, envolve pouco a pouco, mais e mais, tudo a ser redor:

“… E tudo é noite. Rio, o que eu posso fazer!…

Rio, meu rio, mas porém há-de haver, com certeza

Outra vida melhor do lado de lá

Da serra! E hei-de gardar silêncio!

O que eu posso fazer!… hei-de guardar silêncio

Deste amor mais perfeito do que os homens?”

Como reflexos da luz na água, ora o poeta, altivo, se anima diante da grandeza intrínseca que sente, como integrante da humanidade maior:

“Estou pequeno, inútil, bicho da terra, derrotado”

Ele medita, aniquilado, um momento, para ressurgir, vital, no outro:

“No entanto, eu sou maior… Eu sinto uma grandeza infatigável!

Eu sou maior que os vermes e todos os animais

E todos os vegetais. E os vulcões vivos e os oceanos,

Maior… Maior que a multidão do rio acorrentado,

Maior que a estrela, maior que os adjetivos,

Sou homem! vencedor das mortes, bem-nascido além dos dias,

Transfigurado além das profecias!

Eu recuso a paciência, o boi morreu, eu recuso a esperança.

Eu me acho tão cansado em meu furor.”

Até o destino glorioso e trágico de Mário de Andrade mistura-se, ele imagina, nas águas lodosas do Tietê:

“As águas apenas murmuram, hostis, água vil mas turrona paulista

Que sobe e se espraia, levando as auroras represadas Para o peito dos sofrimentos dos homens. … e tudo é noite. Sob o arco admirável Da Ponte das Bandeiras, morta, dissoluta, fraca, Uma lágrima apenas, uma lágrima, Eu sigo alga escusa nas águas do meu Tietê.”

Na escala mensurável, humana, da engenharia moderna, o rio Tietê reconquista, paulatinamente, a transparência cristalina do tempo em que nela nadavam os paulistas, em seu leito disputavam regatas. Às vezes a simbologia perecível da marca humana - as pegadas dos Bandeirantes, as barcaças que singram o Tietê rumo à divisa com Mato Grosso atualmente - reproduz a simbologia poética.

De fato, Mário de Andrade não se desfez, como lágrima da impotência humana, fraterna, em auto-sacrifício de amor pelos seus semelhantes. Não: Mário de Andrade está disperso num desfile de Escola de Samba no Carnaval do Rio de Janeiro que o homenageia, está na sensibilidade de todos os que abrem seus livros pea primeira ou pela centéssima vez. Eles está na Avenida São João e nos igarapés do Amazonas, nas cantigas do sertão nordestino e nas modinhas cantadas em Minas, nas cidades barrocas ou na pradaria gaúcha. Como ele próprio vaticinou, o Mário de Andrade feliz, alegre, comunicativo, generoso, plural, está em mil feições de São Paulo, do Brasil, da crença nos ideais de paz, amor, justiça, liberdade, inerradicáveis da alma humana enquanto esta sobreviver. Realmente:

“Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,

Ôh espelhos, ôh! Pireneus! ôh caiçaras!

si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,

E os suspiros que dou são violinos alheios;

Eu piso a terra como quem descobre a furto

Nas esquinas, nos taxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

mas um dia afinal eu toparei comigo…

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo.

Reuso

Citação

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    em 1994), 1993. Aguardando revisão.}
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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1993) 2022. “Curso sobre o movimento modernista: Mário de Andrade .” In Alguns artistas da Semana de Arte Moderna de 1922: Entrevistas, depoimentos e ensaios, edited by Fernando Rey Puente, 5:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.