Doris Lessing de 1952: apenas uma lembrança arqueológica?

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1983/05/14. Aguardando revisão.

“Pois há duas maneiras de se ler: uma aprofunda e intensifica o que já se sabe; da outra derivam-se novos fatos, novas perspectivas para se inserir no tecido de nossas vidas. Doris Lessing

Publicar no Brasil, em 1983, um romance que a grande escritora inglesa Doris Lessing publicou em 1952 (e não em 1964, como induz a crer a editora Record) é importante, por traçar o passado da escritora, mas no caso da ardente feminista, ex-“agitadora” comunista e adepta das teorias revolucionárias do psicólogo Ronald Laing sobre loucura e repressão, não será um trabalho arqueológico, de uma camada que Doris Lessing já abandonou há muito tempo? Trinta anos, na carreira de uma romancista que hoje tem mais do dobro dessa idade, significam às vezes não se reconhecer no livro inicial a autora preocupada com outros temas na sua evolução ulterior. Tal é o desequilíbrio dos lançamentos editoriais no Brasil que não obedecem a nenhuma cronologia, não fornecem dados atualizados sobre escritor algum (como mencionar uma editora concorrente que imprimiu outra obra do artista?!) nem dão à obra a uniformidade de estilo, perdida quando entregue a bons e maus tradutores de quantos esmolam uma remuneração nas antessalas de nossos editores.

O Sonho de Martha Quest (título talvez mais glamouroso e comercial do que o sóbrio original inglês: Martha Quest ?…), Editora Record, 328 páginas, tradução de Laetitia Vasconcellos, não tem nada a ver com a atual Doris Lessing? De certa forma, trata-se quase de outra autora. Não há nada de paradoxal na verificação: neste primeiro romance que, com outros três, forma um ciclo intitulado Children of Violence (Filhos da Violência) com A Proper Marriage, A Riple from the Storm e Landlocked, a jovem Doris Lessing descrece a fazenda na antiga Rodésia (atual Zimbábue), na África Negra, em que foi morar com os pais, e as cidadezinhas dos colonizadores europeus, quistos encravados no imenso território roubado por sua vez dos “descobridores” portugueses por Cecil Rhodes. Alguns dos motivos constantes da literatura escrita tão soberbamente por Doris Lessing já afloram: a defesa de ideias de esquerda, a luta pela igualdade racial, a insistência na emancipação da mulher, o horror à hipocrisia legada pelo império britânico vitoriano a seus súditos, o falso puritanismo, a cobiça material desmesurada, a antipatia entre os colonos ingleses e os holandeses, que eclodiria na guerra dos boers, na África do Sul. A África do Sul, aliás, aquela região da terra onde Adolf Hitler e sua teoria da “supremacia” de uma raça sobre as demais (neste caso a branca sobre as de cor) permanece implantada até hoje, século após século, a África do Sul parece constituir mais o modelo para essa colônia de um fanático apartheid contra os negros, mas se trata da Rodésia como era administrada durante o período de Ian Smith e seus antecessores fascistas.

Entre a afasia geral que se apoderou da outrora esplêndida literatura britânica, com a mediocridade instaurada de u Graham Greene, de um Anthony Burgess, de uma Iris Murdoch, Doris Lessing destaca-se nitidamente pelo vigor das suas convicções, pela novidade do seu texto, pela força dos ideais pelos quais combate, livro após livro. Martha Quest sobressai, 30 anos após a sua publicação, não por ser o segundo romance de uma principiante (depois de The Grass is Singing, em português batizado de A Canção da Relva…) mas por delinear com temerária originalidade a desobediência aos critérios padronizados. Essa desobediência não é o resultado apenas de uma observação sutilmente inteligente da realidade, mas contém também uma ironia finíssima e diferente por si só. A ironia de uma escritora: será este o elemento “feminino” que distingue possivelmente a sua ironia da ironia de um escritor: é feita à margem dos acontecimentos, é introspectiva, no entanto, nem por isso menos ácida, justa, certeira: lembra em vários trechos os comentários zombeteiros e delicadíssimos de uma Jane Austen anotando a inescrupulosidade, o orgulho e o preconceito dos que decidem, à revelia dos que sofrerão os efeitos da arbitrariedade de suas decisões tão egoístas e calculistas. Seria absurdo considerá-las apenas como anotações e sarcasmos da vítima, pois de Jane Austen e inícios do século passado até hoje a mulher, escritora ou não, convenceu-se cada vez mais de que vive numa prisão, ditada pela aparência, pela riqueza, pela supressão da sua personalidade, uma prisão da qual ela já tem uma consciência, por mais nebulosa que seja, de dever romper para realizar-se como ser humano independente.

Para Doris Lessing meramente abanar a cabeça, discordar de uma situação não basta: ela põe em prática seu anticonvencionalismo a fim de não se tornar outra mulher sufocada pelo status quo e um status social que carregará como troféu, como se tivesse vencido uma corrida de obstáculos: fisgar, finalmente, um marido. A menina de 15 anos que lhe serve de alter ego, a Martha Quest inicial, lê livros sobre sexo e se interessa por arte moderna não figurativa, para espanto e indignação dos pais, conservadores frustrados que, jogados para fora da concorrência mais feroz da Inglaterra, vem ser “brancos pobres” a considerar os nativos “inferiores” e sonhar com um relevo social e decisório que jamais tiveram na metrópole. Martha Quest distingue-se da maioria das condenações do imperialismo, porém, por não apresentar um quadro sem matizes: todos os de cor são boníssimos, os brancos, todos carrascos incorrigíveis. Talvez a sua abordagem contenha, ao lado de uma visão profundamente satírica daquela sociedade que macaqueia a sociedade “alta” de Londres, uma angulação intimista daquele labirinto em que os ingleses mergulham no tédio e discriminam contra “a grosseria” dos “camponeses rudes” que são os colonos holandeses. Ao mesmo tempo desprezam os negros “incorrigíveis, preguiçosos, sem se orgulhar do trabalho que fazem nem executá-lo com precisão e capricho”. E os judeus? Uma aglomeração incômoda, um pouco como os gregos, “todos brancos”, sem dúvida, mas os judeus são um “grupo estranho”, de religião e sobretudo propósitos indesvendáveis, quem sabe “ameaçadores”? E os mediterrâneos, ora, como os latinos, mais caricaturas do que pessoas, com seu lado pitoresco mas no fundo todos cidadãos, perdão, súditos, de segunda ou terceira categoria de Sua Majestade: úteis pelo seu trabalho mas inapresentáveis e infrequentáveis por gente de nível “mais elevado”. Deus secretamente não delegara aos ingleses “tomarem conta” do mundo?

São as castas de uma sociedade esquizofrênica que Martha Quest/Doris Lessing percebe desde cedo: em suas longas conversações os representantes dos ingleses e dos holandeses evocam recordações não do seu passado, de seu comportamento, mas de suas respectivas e rígidas tradições e portanto os longos diálogos de mútua tolerância não constituíam uma amizade real, sólida, temperada anos a fio, mas apenas diálogos ocos de qualquer sentido ou qualquer sentimento, pois tudo o que era importante não se mencionava, não “ficava bem”… Aquelas séries de esnobações de uma nacionalidade que se considera “superior” à outra, as mentiras, omissões, conciliações insatisfatórias entre a verdade e a sua versão “melhorada” – tudo isso desembocava na discussão única e eternamente repetida sobre as empregadas, a cozinha, as “grandezas” imaginárias de cada nação europeia de que elas, matronas inabaláveis, provinham, ou à elevação fictícia de sua “posição social” em Londres ou em Amsterdã. É típico este trecho de meditação precoce da adolescente Martha:

“Ela era adolescente, portanto, inevitavelmente predisposta a ser infeliz. Era britânica, portanto, inquieta e sempre na defensiva; vivia naquela quarta década do século XX e, portanto, inexoravelmente acossadas pelos problemas de raça e de classe e forçada a repudiar as mulheres algemadas, acorrentadas, do passado”.

A “novidade” quase “indecente” da menina-moça que raciocina e sente é a de se dar com os judeus, “que afinal, são intrinsecamente sujos e infrequentáveis, além de todos saberem que os judeus querem é dominar o mundo inteiro”, é a de revoltar-se contra o futuro que repetiria o tédio e a irrealização da mãe, sonhando com uma Inglaterra como quem sonha com o príncipe encantado ou com uma fortuna a ser ganha na loteria; sobretudo, antecipando-se de várias décadas ao grande líder negro norte-americano, assassinado quando das lutas pela igualdade de acesso à educação, aos transportes, aos restaurantes, Martin Luther King. Como ele, Martha Quest/Doris Lessing tem um sonho nobre, idealista, até hoje irrealizado: sonha com uma sociedade realmente humana que destrua para sempre as noções que separam os seres humanos numa hostilidade tão letal quanto absurda: um mundo sem as palavras raça, negro, branco, nação, mestiço, mulato, judeu, inferior, superior, “assunto de homem”, “não é lugar para mulher”. Mais ainda: da leitura do grande coração inglês de Charles Dickens, condoído das crianças abandonadas nas ruas de Londres, à mercê de bandidos, a leva a transplantar a compaixão do romancista inglês para a paisagem africana: e por que o infeliz, desgraçado Oliver Twist branco, favelado e sem direitos não poderia assumir, na África, o aspecto da criança negra, exposta à brutalidade e indiferença da “Casa Grande” branca dos invasores? De fato, os jornais africanos não abordavam nem os problemas dos proletários nativos nem os das crianças e mães solteiras: os negros não existiam, como a paisagem além da próxima montanha, que obsta a visão além daquele horizonte estreito e deliberadamente cruel.

Os preconceitos não só raciais mas também religiosos e o mito da nação como representante de uma civilização incomparavelmente superior têm de ser abolidos para que a sociedade possa autenticamente ser chamada de humana, ela afirma reiteradas vezes. A remuneração injusta paga aos negros e às mulheres brancas, a promiscuidade sexual imposta aos negros e negras pobres pela classe “dominante”, branca, a hipocrisia dos segmentos que compõem aquela justaposição de ódios e cobiças mas nunca uma comunidade que tivesse interesses coletivos comuns – tudo isso vai paulatinamente revelando ao leitor seu amadurecimento, paralelamente a seu desligamento da família que “faliu” segundo um código grotesco de “sucesso econômico” que se impôs como única “meta”. Essas constatações, nunca pronunciadas como sermões moralistas, mas como dolorosa realidade vívida e atuante, a separam do mundo imaginário, da utopia eternamente perseguida: “Aquele reino de emoções generosas e trocadas mútua e livremente para o qual ela tinha nascido – e não só ela, mas todos os seres humanos; pois naquilo em que ela acreditava tinha sido construído para ela pelos livros que tinha lido e aqueles livros tinham sido escritos por cidadãos daquele outro país: pois como podemos nos sentir exilados de alguma coisa que não existe?”

Há todo um itinerário demarcado neste romance da fase inicial da assombrosa autora de The Golden Note-Book e Memoirs of a Survivor: o curso futuro de suas incursões no mundo mágico, multidimensional, do fantástico, dos momentos fulminantes de misticismo, de comunhão poética com a natureza, de descidas corajosas até a mente enlouquecida – um de seus temas mais insistentes – de um feminismo lúcido e nada panfletário, de amor por culturas e raças opostas à raça e à cultura branca, de crença obstinada em um mundo melhor, mais habitável para todos os seres humanos. Falta ainda, é claro, o salto mortal que representará Shikasta: mas Shikasta é mesmo um livro, no sentido corriqueiro da palavra? Ou será mais uma revelação tão poderosa quanto qualquer texto religioso: a Bíblia, o Talmud, o Corão, o Baghavad-Gita?

Se é uma Doris Lessing pregressa que estre primeiro romance de uma série de quatro romances enlaçados pela mesma temática desenterra quase que arqueologicamente três décadas após a sua divulgação, é também um maço de páginas que – mesmo que ela não tivesse escrito as demais obras-primas que a tornam o maior escritor vivo da cultura ocidental – se distinguiriam do conformismo literário transformado em “nomeada” pela ausência de outros valores na literatura inglesa atual. Teria sido mais auspicioso e teria feito mais sentido publicar os quatro romances do ciclo Children of Violence do que apenas este, que nas livrarias brasileiras coexiste, de forma surrealista, com Shikasta e sua inauguração da ficção espacial, que parte da informação brasileira desavisada teima em confundir com a “ficção científica” de um Bradbury ou um Asimov. Esse confronto insólito tem, no entanto, seu aspecto positivo: denota a coerência, decênios a fio, de Doris Lessing, a sua fidelidade a uma série de crenças e convicções que constituem o seu código de honra, o seu ideal utópico, talvez inalcançável, mas pelo qual se deve lutar sem nunca esmorecer. Como Hannah Arendt assinalou, com relação ao carrasco nazista Eichmann, que em defesa alegou apenas um robótico “eu estava cumprindo ordens”, o mal é, quando examinado de perto, supreendentemente banal. E banal deve soar igualmente a definição do ideal de Doris Lessing, de seu longo e fascinante percurso desde os romances da década de 50, como Martha Quest, até Shikasta e os que publica atualmente: é a ação altruísta em prol do próximo que dá sentido à vida, é a devoção a um ideal como o do amor que justifica moralmente a nossa sobrevivência. A palavra amor não será a mais desgastada na vasta coleção de clichês que agitou o século XX? Contudo, o amor, a fé, a coragem, a esperança são todos sinônimos de uma testemunha ativa do seu tempo e da condição humana como a encontrou e diagnosticou sem conformismo. Doris Lessing participou sempre da transformação ética do mundo que encontrou e que lhe causou repugnância, e sua adesão não se limitou a palavras e queixumes. Se Martha Quest é a primeira medida da intensidade de um talento e de uma tenacidade moral inquebrantável, hoje podemos distinguir como que duas Doris Lessing: a da fase em que agia com o fito de mudar as injustiças gritantes de uma sociedade arrogante, estúpida, maligna, indiferente, participando de comícios, de partidos, de manifestações e de uma literatura honestamente engajada no melhor e mais exaltante sentido do termo. E a par dela como uma que uma Doris Lessing já profética, a contemplar com dor, melancolia mas decisão e pugnacidade o futuro sombrio que o passado e o presente da humanidade desenharam nas manchetes alarmantes dos jornais e nos noticiários da televisão. Por certo um mundo trágico de guerras, de ambição desmesurada, de intolerância religiosa, racial, sexual, de minorias que se levantam em defesa de seus direitos, tudo somando uma humanidade enlutada por 1/3 da população mundial enfronhada sangrentamente em guerras intermináveis de El Salvador ao Irã-Iraque, do Camboja-Vietnã à Rússia-Afeganistão. O ódio será o apocalipse nuclear, castigo da cegueira humana, ela prevê: mas na batalha cósmica, que ultrapassa as fronteiras da Terra, há uma certeza abstrata, ilógica, de que o que chamamos de o Bem triunfará no final.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Doris Lessing de 1952: apenas uma lembrança arqueológica? .” In As três grandes damas da literatura europeia: Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar e Doris Lessing, edited by Fernando Rey Puente, 7:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.