Um reencontro fascinante com o universo de Clarice

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1983-08-27. Aguardando revisão.

A oportuna 12a edição dos contos de Clarice Lispector reunidos em Laços de Família (Editora Nova Fronteira) renova a quase que uma geração inteira a importância e o fascínio perenes da revolução literária que ela trouxe à vida cultural brasileira. Deslocando-se do Nordeste intensamente voltado para os problemas sociais da seca, da decadência dos engenhos de açúcar e a perda de sua hegemonia para as economias do Sul do País, antes de Clarice Lispector a sensibilidade e a inventividade brasileiras estavam suspensas. O ato de escrever esgotara-se na denúncia das injustiças sociais e na evocação de uma camada aristocrática já passada? José Américo e José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e o exemplo maior - Graciliano Ramos - tinham delimitado num painel gigantesco as fronteiras da prosa? A alternativa seria o romance baiano cheio de tempero local de um Jorge Amado, com sua antecipação de um “socialismo moreno” e sensual?

Se as décadas anteriores estiveram próximas de um realismo apimentado pelo erotismo mestiço, uma vaga pregação “de esquerda” e - com exceção da profundidade de Graciliano Ramos - um regionalismo fortemente aderente a uma ideologia nevoenta de “transformações sociais”, o decênio dos anos 50 não deixaria de ser abalado por um terremoto de proporções que ultrapassavam o âmbito da própria literatura brasileira. É simbólico que a erupção de Guimarães Rosa com seu Sagarana tenha deixado indiferente Graciliano Ramos. Aquela linguagem “barroca”, escessiva, ora erudita, ora arcaica, ora popular ou criadora de neologismo, se não tocara a sensibilidade dos que viam na sua prosa um recurso meramente formal e amadorístico, não obtivera, por outro lado, eco popular quase nenhum. Seria um equívoco?

Clarice Lispector como que não se insere nem na época, nem nos temas, nem na escolha dos elementos com que aparece em nossa literatura. Os que conheciam, dos exemplos estrangeiros de um James Joyce, uma Virgínia Woolf ou um William Faulkner, aquele tipo de narração, logo reconheceram na precoce autora pernambucana um colorido personalíssimo, novo, inconfundível. Sem participar jamais de “escolas” nem tendências passageiras, com um sorriso desconcertante de “ignorância literária”, ela criava, pela primeira vez em nossa literatura, talvez, a introspecção, a livre associação de ideias, captada das imagens do incosciente dos personagens, e uma originalidade ousadamente rica. Clarice Lispector, felizmente para nós, abolia Descartes e o peso massacrante da sua lógica e não sabia nem o que vinha a ser uma narrativa com começo, meio e fim.

Blasfêmia!

Os chamados “círculos literários”, onde imperavam os figurinos da moda vinda nos navios europeus, indagavam-se perplexos: Clarice Lispector “é séria”? Quem sabe não é uma “arrivista” sem escrúpulos?

Lentamente, o poder de fissão de seus escritos separou o relato entre nós: os que tinham escrito antes dela ou de Guimarães Rosa e os que tinham escrito depois. Aos poucos foi deixando de ser “chocante” a sua maravihosa música de câmara e, ao contrário, muito estardalhaço inútil de outros autores é que começou a se revelar maçante, nocivo, vazio. Agora acirrava-se uma divertida disputa em torno de Clarice Lispector: facilmente ela se prestava a leituras estruturalistas à la Claude Lévy-Strauss; mas a sua não era uma oculta busca mística? Ou melhor, tratava-se da “literatura pura”, sem “mensagens”, imaterial como a música, abstrata como uma tela de Kandinsky.

A riqueza ímpar da sua novidade prestava-se, realmente, a muitas interpretações simultâneas: o mundo de Clarice comportava componentes únicos. Por exemplo: de maneira quase que obsessiva, ela focalizava bichos (macacos, cachorros, até repelentes baratas!), crianças e velhos, ou melhor, velhas, no que escrevia. E por que tanta insistência em pontos de vista, digamos, incomuns como a vida vista pela perspectiva da mulher, das empregadas domésticas, da mente infantil? Tudo num estilo tão simples, numa literatura acostumada a cosméticos carregados, a adiposidades elefantinas e a uma ausência de sutileza, de meio-tom, de alusão? E como ela se declarava tão ignorante, publicamente?! Não lia nada; fora casada com um diplomata, detestava viver fora do Brasil, nunca respondia ao mais reles questionário literário do tipo “Quais foram os livros que mais a impressionaram?” Sincera, era capaz de responder: histórias de fada, a cartilha. E a crítica literária? Devia ser muito útil, achava, mas nunca lera um ensaio sobre autor algum, nem mesmo sobre si mesma. As conversas “intelectuais” a cansavam, provocavam-lhe bocejos, cansaço, tédio.

Laços de Família, possivelmente, supera os romances de Clarice Lispector, pois é na dimensão miniaturesca, menor, do conto que a sua inspiração e seu fôlego melhor se realizam. Sendo impossível classificar essas obras-primas - superiores mesmo, muitas vezes, a um dos raríssimos guias artísticos a que ela francamente aludiu, a contista neozelandesa que viveu na Inglaterra, Katherine Mansfield -, Laços de Família permite, cautelosamente, indagar: hoje, um dos múltiplos aspectos da sua extasiante criação não seria o do questionamento frontal da situação da mulher na nossa sociedade e por extensão da psique feminina em um mundo antes severamente cimentado por vontades masculinas? Momentos como “Amor” ou “Imitação da Rosa” podiam confirmar que sim. Ama, em “Amor” é uma pessoa que, segundo a interpretação profunda de um Ronald Laing da contemporânea psicologia reivindicatória inglesa, não existe nem para si nem por si. O seu minúsculo universo está arrumado minuciosamente em torno de tudo que lhe está ao redor: os filhos, a cozinha, a casa, o marido. Sem o saber, ela se anula totalmente na tarefa exaustiva de ser mulher, ser mãe, ser esposa. Todos esses papéis a excluem de uma responsabilidade maior que não seja a de não deixar que a poeira tome conta dos móveis ou que os filhos saiam de casa sem ter tomado banho antes do colégio. Renovadamente surgem as frases de anuência diante daquele papel submisso, insconsistente:

“No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher”. Ela tem à sua espera, quando desperta, a atmosfera por ela escolhida: “De manhã adordaria aureolada pelos calmos deveres.” E ainda: “Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher”.

Esse aparador com suas lides domésticas ordeiramente dispostas e suas funções préestabelecidas sofre, porém, uma sacudidela violenta. Do bonde, com sua cesta de compras de trico, ela vê:

“O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaita tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.

O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles.”

Aquela visão transtorna seu mundo previamente bem armado, seu horário satisfatório: “O mundo se tornara de novo um mal-estar”. Tudo sai de sua órbita prevista e tudo perde o sentido, desfazendo seus esforços constantes e até então vitoriosos de mantê-la, como por dertrás de um biombo, preservada da realidade:

“Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto pra que esta não explodisse” … “tudo feito de modo que a um dia se seguisse o outro.”

A revelação apavorante era a de que ela fazia parte dos fortes, “a crueza do mundo era tranquila. O assassinato era profundo”.

Ana descobre, com horror, que ao lado da merenda dos filhos “havia crianças e homens grandes com fome… E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver”. Nada oferecia segurança: “Porque a vida era periclitante”. Essa angústia abissal que caracteriza o clima kafkiano de muitos contos de Clarice Lispector despe a ilusão forçada de que “tudo está bem” e a aproxima de uma verdade negada até ali. A piedade, a dedicação total ao próximo seriam a solução? Num mundo assim, ela poderia agir? A “banalidade do mal”, como a designou Hannah Arendt quando do julgamento de Eichmann em Israel, a envolve, no entanto, para longe do cego, da fome, do horror e a devolve aos integrantes de sua família: “Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos”. Aquele mergulho no Inferno do Outro rompera algum fio das malhas de uma vida precária que a sustentava. Só a reação pronta do marido, “afastando-a do perigo de viver” consegue cauterizar a sua cisão: “Acabara-se a vertigem de bondade”. A autora deixa que o leitor entreveja várias possibilidades de desenvolvimento ulterior da vida de Ana, numa autêntica “obra aberta” a várias interpretações. Com uma imagem talvez simbolicamente lírica ela termina “Amor” sucintamente:

“E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia”.

A voluntária obscuridade de Laura, no conto que de certa forma é uma continuação de “Amor”, “A Imitação da Rosa”, sua rotina, seu medo de destoar conseguem nivelá-la ao mundo amorfo do racional tirânico, todos os seus gestos ditados pelo “que dirão”, “o que acharão” seguindo uma lógica mecânica e de “bom-tom”:

“Também porque uma pessoa tinha de ter coerência, pensamentos deviam ter congruência… Pois ninguém mudava de ideia de um momento para outro.”

A inquietação de Laura já lhe tinha “custado” um internamento (psiquiátrico?) e lhe causado o rubor de não ser igual aos outros. Quanta preocupação para o marido e os circunstantes! Pois não é que suas “crises” voltaram!:

“Ela ia sorrir. Para que ele enfim desmanchasse a ansiosa expectativa do rosto, que sempre vinha misturada com a infantil vitória de er chegado a tempo de encontrá-la chatinha, boa e diligente, a mulher sua… Ia sorrir para ensinar-lhe docemente a confiar nema. Fora inútil recomendarem-lhes que nunca falassem no assunto: eles não falavam, mas tinham arranjado uma linguagem de rosto, onde medo e confiança se comunicavam e pergunta e resposta se telegrafavam mudas.”

Voltara. O quê? A depressão, a “crise”. Timidamente ela se conforma com o isolamento que a “loucura” certamente traz como reação a uma estereotipação de um determinado tipo de comportamento que se convenciounou definir como “lúcido” ou “apropriado”:

“Não pude impedir, disse ela, e a derradeira piedade pelo homem estava na sua voz, o último peiddo de perdão que já vinha misturado à altivez de uma solidão já quase perfeita…” Até o final:

“Ela estava sentada com o seu vestidinho de casa. Ela sabia que ela fizera o possível para não se tornar luminosa e inalcançável. Com timidez e respeito, ele a olhava. Envelhecido, cansado, curioso. Ms não tinha uma palavra sequer a dizer. Da porta aberta via sua mulher que estava sentada no sofá sem apoiar as costas, de novo alerta e tranquila como num trem. Que já partira”.

A mesma dissecação corajosa da família com suas dissimulações, rivalidades, avidez, cobiça, hipocrisia, cólera mal disfarçada surpreende o leitor em “Feliz Aniversário”. Com sua descrição cruel, exata, de outro tipo de solidão: a dos velhos, enfeitados de insincera alegria e “união familiar” numa data pré-marcada e sem conteúdo moral, afetivo ou de verdade. Ou os preconceitos inarredáveis com relação a qualquer diferenciação em “A Menor Mulher do Mundo”. Sem deixar de mencionar a biografia concisa de uma galinha no mundo dos seres humanos, adultos, em “Uma Galinha”.

Se “O Búfalo” atinge a perfeição formal, nele estão implícitas também as únicas “tarefas” consentidas à mulher: o perdão e o amor, ou seja, a anulação de si mesma diante da gélida impavidez alheia e uma generosidade levada a um extremo suicida.

Clarice Lispector, neste renovado encontro, concede ao leitor a rara oportunidade de desenrolar-se do cipoal de conceitos estrangeiros que lhe são impostos diariamente pelas estações de rádio, pela televisão, pelo cinema e refletir sobre uma relidade humana, universal, sem dúvida, mas captada aqui em seu aspecto admiravelmente brasileiro, sem regionalismos intraduzíveis. Clarice Lispector é daqueles rarefeitos momentos em que a inteligência, a sensibilidade, a intuição brasileiras correm pari passu com os seus mais admiráveis equivalentes estrangeiros, sem apelos ridículos a patriotadas nacionalisteiras. O mundo que Clarice Lispector deliberadamente, magnificamente, coloca de cabeça para baixo diante de nós, afinal, é de uma atualidade tangível. E, felizmente para a língua portuguesa, de uma perfeição inalterável pela passagem do tempo.

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1983) 2022. “Um reencontro fascinante com o universo de Clarice .” In Os escritores aquém e além da literatura: Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Hilda Hilst, edited by Fernando Rey Puente, 2:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.