Entrevista com Ignazio Silone: ideias, literatura e artes várias

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Diário de Notícias, 1962/10/7. Aguardando revisão.

Pela primeira vez está de visita ao Brasil o escritor italiano Ignazio Silone. Encontramo-nos com o autor em Copacabana, onde fora previsto nosso almoço-entrevista. Com o aspecto de um professor provincial da sua região natal, os Abruzzi, Silone é sobretudo um intelectual sem artifícios, de uma simplicidade ascética e genuína. Explicando sua presença no Brasil, país-continente que começa a desvendar com imensa curiosidade afirma que nosso país vem sendo reconhecido cada vez mais, na Europa e no mundo, como a nação exponencial da América Latina e das suas profundas transformações atuais. “A nossa luta” – diz-nos Silone – é uma batalha também contra o obscurantismo e mil outras formas de opressão intelectual. Nossa primeira vitória na Itália foi conseguida, com muito esforço, contra a censura que foi abolida completamente. Estamos agora empenhados na extinção ou pelo menos na reforma radical da censura cinematográfica, que vem sendo praticada de forma abusiva entre nós. Em termos claros: a censura de cinema entre nós era vil, covarde e burocrática. Utilizava métodos hipócritas e oblíquos: por exemplo, havia filmes que duravam meses a ser censurados, sem que os produtores e diretores obtivessem sequer uma resposta quanto ao andamento da sua liberação. Muitas vezes só a despesa de milhões de liras bastava para enfurecer os produtores que não tinham para quem apelar. Enquanto isso, um funcionário qualquer, nos corredores, dizia em surdina que se fosse cortada esta ou aquela cena, talvez tudo se arranjasse, embora ele nada tivesse que ver com a história etc. Agora não: dentro de suas semanas a censura deve apresentar o seu parecer assinado e com uma motivação precisa, baseada nos dispositivos legais. Não se tolera mais a odiosa arbitrariedade de antigamente, herdada, como outros males da cultura italiana, do período de opressão fascista. Dou-lhe uma ilustração eloquente disso: o filme Pão, Amor e Fantasia, que creio foi exibido também aqui no Brasil teve que ser modificado: o ator De Sica, que fazia o papel de Marechal dos ‘carabinieri’ era forçado, no fim do filme, a demitir-se de seu cargo para poder desposar a camponesa Gina Lollobrigida, porque de acordo com um puritanismo ridículo os integrantes dos ‘carabinieri’ não devem, teoricamente, manter relações, que não sejam platônicas, com qualquer mulher. Outro caso clamoroso: sempre que aparecia um padre no filme, tinha que ser substituído por um pastor protestante se ele expusesse ideias mais liberais e não fosse absolutamente beato e intelectualmente conformista”.

Além dessa campanha contra a censura, que outras atividades tem desenvolvido o Congresso na Itália?

“Agora estamos elaborando leis de proteção às maiorias religiosas, oprimidas por um clero provincial ignorante e obscurantista. Sucedem coisas atrozes, na minha província mesmo: durante o Fascismo utilizou-se como pretexto para prender protestantes a Lei de Segurança e de Higiene! Como argumentavam? Dizendo que ao prender os protestantes em povoados longínquos do Sul do país estavam zelando pela sua saúde, pois como minorias religiosas em um país católico os protestantes forçosamente deveriam sofrer distúrbios nervosos, nocivos à sua saúde, dos quais estariam livres longe do contato com a maioria compactamente católica…”.

Que métodos usam para combater a intolerância e o abuso do poder?

“O único eficaz: a divulgação ampla dessas arbitrariedades da era das cavernas. Não bastam hoje em dia as reações individuais, é preciso uma ação conjunta e coordenada de todos os intelectuais interessados na sobrevivência da liberdade cultural”.

Recordando o tipo de literatura que Silone inaugurou na Itália, de compromisso social e de participação política, como resistência ao Fascismo e aos seus métodos, pedimos-lhe que defina a sua posição diante da dicotomia moderno do escritor engagé ou não.

“Preliminarmente, quero deixar bem claro que não aceito a forma de engagement preconizada por Sartre: o compromisso social do escritor deve ser voluntário, deve corresponder a uma necessidade interior sincera, a uma concepção do mundo sem imposições do meio ambiente. Seria atroz impô-lo à força. Eu sou, conscientemente, um escritor engagé porque sempre me opus ao Fascismo. Não creio que se possa dissociar, hoje em dia, a cultura da política. Eu cheguei à literatura por meio do protesto social-político”.

E, no campo especificamente literário, o seu romance Fontamara, por exemplo, espelha essa sua ânsia de liberdade?

“Certamente Fontamara pode-se definir como um romance engagé. Há um nexo íntimo entre tudo o que faço: a tomada de consciência do homem na época atual. Reitero o que lhe disse antes: não se pode falar na literatura sem falar também na política, direta ou indiretamente. Precisamos reconhecer que na nossa época existe uma fatalidade política e econômica que intervém no cerne do destino do homem. O indivíduo hoje é arrastado, queira ou não, pelos grandes fenômenos político-sociais. Não mais os deuses, como na Grécia antiga, determinam o que nos sucederá, como o Fatum ordenava a Édipo, inflexivelmente, que matasse seu próprio pai. Hoje somos súditos da engrenagem da sociedade até mesmo em seus aspectos catastróficos, imprevistos e imprevisíveis dos fenômenos político-sociais do mundo contemporâneo. Nós, seres humanos, somos como formigas de um imenso formigueiro que um pontapé violento pode esmagar ou destruir: a crise da bolsa de 1929, a guerra mundial, os refugiados de guerra, o desmembramento de países etc. etc. Hoje até fatores incontroláveis como a cor da pele, a raça, o credo religioso são fatores de tragédias pessoais e coletivas. Eis as determinantes fundamentais de nossa época: o destino do indivíduo, o arbítrio individual estão consideravelmente reduzidos. É indispensável que todos reconheçamos que essa situação real e os intelectuais mais do que todos devem estar conscientes dela. Os intelectuais são responsáveis pelo esclarecimento dos seus contemporâneos e pela transformação dos eventos em sua concentração mental. O senhor indagou-me a respeito de meu romance Fontamara: veja que distância indescritível o separa dos romances de Verga. Esse extraordinário escritor, ao descrever a sua Sicília natal, imbuía seu retrato de uma certa impassibilidade, certa compaixão que lhe davam grandeza, mas refletiam também a sua resignação perante a tragédia humana e social do seu ambiente. Em meus livros há outros elementos: a tomada de consciência e a resistência à tirania, até mesmo se essa resistência conduzir à morte. Fontamara, como o senhor se recordará, espelha o mundo dos camponeses, ignorantes, à margem da civilização moderna. Vivem num mundo feudal. O mais inteligente desses camponeses, o personagem central do romance, tem uma centelha de consciência do que está sucedendo a seu redor e como tal deve ser imolado. Já nos outros livros que escrevi, Pane e Vino, Il Seme sotto la Neve é o intelectual que se rebela, sem dúvida, é um pouco autobiográfica esta parte da minha criação como romancista. Mostro o conflito insanável entre o intelectual e a estupidez, a burocracia, a opressão social, política e intelectual. Mostro também, sobretudo, a resistência à força como forma de salvação do espírito. Não podem ser classificados portanto de realistas ou neorealistas meus livros porque, ao contrário, divorciam-se da realidade que é puramente instintiva: de fato os romances chamados”realistas” descrevem só a fome ou o sexo, que é a única realidade que os instintos reconhecem como tal”.

E um livro como o de Carlo Levi Cristo si è fermato a Eboli, o senhor julga que reitera o mesmo protesto humano e social dos seus livros na sua descrição da miséria e do atraso das populações do Sul da Itália?

“Não! É antes de tudo um romance mitológico. Carlo Levi queria aplicar às populações meridionais certos princípios que lera à época em que escrevia o romance, referentes à mitologia dos povos primitivos. Ele absolutamente não se identifica com o povo, não demonstra compaixão com a sua vida de sofrimentos e de injustiça. Não se pode, estou certo, escrever sem esse sentimento de amor pelo que se descreve”.

O mesmo se poderia dizer de Élio Vittorini com as suas Conversazioni in Sicilia?

“Vittorini, creio, fez um relato puramente lírico da mesma situação; talvez em Vasco Pratolini, com suas descrições do meio proletário de Florença, haja mais aderência à realidade social, sem tanta interferência da fantasia do escritor. Levi fez uma mistura de filmes neorealistas e de quadros surrealistas à la De Chirico para fabricar um livro fantástico que não corresponde a uma situação de fato”.

E como o senhor insere o Gattopardo de Lampedusa? Na linha de seu esplêndido conterrâneo Verga?

“Creio que esse livro reflita em primeiro lugar a abstração obtusa dos críticos italianos que retardaram a publicação desse importante romance. É um caso de aberração mental, sem dúvida. Mas note que considero o Gattopardo anacrônico como de resto sucede também com o Dr. Jivago que se atém a um estilo e a uma atitude do século XIX. Lampedusa, como insaciável devorador de romances franceses do século passado, aplicou à sua obra virtudes técnicas típicas daqueles autores, seja na perscrutação psicológica dos personagens, seja no desenrolar da trama etc.”.

O senhor afirma em parte a mesma coisa que Robbe-Grillet com relação ao romance francês hodierno que não inovar e não se aliar, em última análise, ao “novo romance”?

Com um gesto de ceticismo, Silone parece querer afastar fisicamente o argumento:

“Desconfio muito dos resultados finais dessas novidades puramente técnicas do estilo. A literatura não é só técnica. Uma forma antiquada pode, realmente, tornar pesado um relato, como é o caso do Gattopardo, como disse, mas a receita formal-técnica vencerá? Quem sabe? Às vezes com técnicas erradas podemos chegar a resultados certos”.

Desde o início de sua carreira, que autores despertaram o seu interesse, a sua admiração?

“Bem, desde os bancos do ginásio eu lia textos clássicos, além de Dante e Petrarca. Como eu estudava em colégio de jesuítas, estavam proibidos muitos autores que eu, por oposição, comecei a ler escondido. Foi com o aparecimento de Fontamara que surgiram vários antepassados meus no campo literatura que só então fui ler pela primeira vez, à medida que eles me vinham sendo atribuídos pela crítica. Foi assim que por indicação dos críticos li Faulkner, Verga e tantos outros, que, sem que eu jamais os tivesse lido, me tinham influenciado, segundo o veredito dos”entendidos” em literatura. Depois, comecei a ler os autores russos de antes da revolução: Dostoievski, Tolstoi, Chekov, era já uma forma de meu inconformismo antitotalitário”.

O senhor se furta aos comentários mais diretos com relação aos autores italianos contemporâneos, isto significa que o senhor prefere estar apartado dos grupos literários?

“O senhor pode interpretar minha atitude, se quiser, como uma manifestação de falta de afinidade com eles”.

E com relação ao cinema italiano, que muitos consideram o melhor do nosso tempo, qual é a sua opinião?

“Creio que o cinema italiano exauriu-se com a onda neorealista”.

E Antonioni?

“Um cerebral amaneirado”.

Fellini?

“Parece-me que sua visão das coisas deforme a realidade italiana. Um filme como La Dolce Vita, é, na realidade, nefasto, só serve para incrementar o turismo em Roma, chamando à capital todos aqueles sequiosos de testemunhar ou de participar da vida devassa que revela. Mas revela de forma artificial, construída como é construída esta pirâmide de morangos com um pouco de creme de chantily em cima para torná-los apetitosos. Critérios moralísticos de novo cinema italiano? Não os vejo, creio que servem somente de justificação, é como pintar uma prostituta com um crucifixo ao peito para que todos deixem passar o retrato atribuindo-lhe uma intenção edificante. Hoje o cinema italiano está em decadência, degenerou em”negócio” rendoso no qual a preocupação comercial se sobrepõe ao critério artístico: como prova veja que vilas suntuosas, principescas mesmo possuem hoje os diretores italianos”.

Finalmente, na parte conclusiva de nosso diálogo, dirigimos a conversa para o assunto que o trouxe aqui: o Brasil. É sua intenção escrever sobre o que verá entre nós? O Brasil continua quase totalmente desconhecido na Itália?

“Teho a intenção, realmente, de focalizar alguns aspectos do Brasil de hoje, na revista que dirijo e assim de esclarecer e justificar perante os italianos muitas das coisas que ocorrem aqui. Embora o Brasil assuma a posição de líder de todo um continente, o latino-americano, a opinião culta da Itália ignora quase tudo a seu respeito. Realmente, não há livros, bons nem maus, sobre o Brasil publicados em italiano. Tive que recorrer a publicações francesas para atualizar-me”.

E Brasília?

“Bem, a publicidade que se fez em torno à nova capital foi imensa. Brasília é conhecida melhor ainda pelos meios especializados de arquitetos e urbanistas italianos, que na sua maioria a admiram. São os leigos em arquitetura que se demonstram instintivamente desconfiados. É preciso levar em conta que par nós, italianos, as cidades não se fabricam, mas são o resultado de um processo histórico secular. Isto é compreensível se considerarmos que a mais ínfima aldeia da Itália tem sua fundação ligada a eventos históricos antigos e algumas até mesmo a origens míticas, como acontece na Sicília. Uma cidade, com um idioma, é criada através dos séculos, cremos. Por isso muitos dentre nós atribuem a Brasília o atributo de”produto típico da civilização americana do novo mundo”. Na Europa o único experimento urbanístico comparável ao de Brasília esboroou-se ruidosamente: o do escritor Max Frisch, que hoje é um importante dramaturgo, mas que antes era urbanista de profissão. Ele quis criar na sua nação, a Suíça, uma capital artificial, chamada Helvétia, mas foi o seu único projeto “literário” que faliu. Temos um conceito diferente de espaço na Europa. Além disso, muitos justificam a criação de cidades como as russas que surgem perto de centrais elétricas ou de siderúrgicas porque existe uma necessidade econômica que determina o seu aparecimento. Brasília, não, surgiu como necessidade burocrática e por isso tantos relutam em aceitá-la, no Velho Mundo. Mas quem poderá julgar? Este país é um continente novo com necessidade e dimensões próprias e inéditas, qualquer juízo a priori seria absurdo. Primeiro quero ver o que puder do Brasil e da sua realidade. Sem nunca separar, porém, a sua realidade político-social da sua realidade cultural, artística e literária. Pois o senhor que é jovem e vive nesta época aprenda com a experiência: a realidade é indivisível, hoje mais do que nunca. Buon giorno e arrivedervi!

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Entrevista com Ignazio Silone: ideias, literatura e artes várias .” In Perscrutando a alma humana: A literatura italiana do pós-guerra, edited by Fernando Rey Puente, 8:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.