Literatura negra nos Estados Unidos - James Baldwin

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Correio da Manhã, 1965/3/27. Aguardando revisão.

O cartão entregue a cada um dos milhões de refugiados da Europa Central acampados em barracas à espera do visto de imigração é simbólico da nossa era atômica – a era das displaced persons. A expressão inglesa é cruel na sua especificação de que uma pessoa está “fora do seu lugar”, no desajuste, no desenraizamento que são a forma século XX da angústia mais desesperada que o mal du siècle dos românticos e o Weltschmerz dos melancólicos poetas alemães. Kafka foi o arauto dessa multidão em busca de uma Canaã mítica – perdida, inacessível ou inexistente? -, dos judeus que displaced na Alemanha de Hitler, terminaram cremados nos infernos de Dachau e de Ausschwitz. Mas são também desambientados os jovens irados ingleses e os beatnicks que procuram no orgasmo e no Zen budismo, na maconha e no jazz uma expressão para o seu inconformismo e finalmente são displaced em seu sexo os travestis mimetizados com um ideal feminino.

Nos Estados Unidos, um décimo da sua população simboliza, de forma candente, esse status moderno, fruto amargo do desenraizamento violento do seu habitat africano: os negros. Libertados da escravidão ao preço de uma Guerra Civil e emancipados pelo sinistro resgate de seu mais luminoso defensor – Lincoln -, os negros americanos assumiriam uma posição sui generis entre os negros de todo o mundo.

Não lutavam, como seus irmãos africanos, pela libertação política, nem afirmavam, através da Négritude, a sua fisionomia cultural autônoma. Constituindo educacionalmente a “elite” dos negros em qualquer país, compartilhando em grande parte a prosperidade econômica americana nada tinham em comum com os Simbas canibais do Congo belga ou com os bantus, de nível pré-histórico, vítimas da fanática apartheid sul-africana. Os negros dos Estados Unidos encontram-se na situação paradoxal de serem os que mais assimilaram da civilização ocidental, nela se integrando inteiramente, e ao mesmo tempo os elementos menos acatados, em geral, por essa parte da sociedade ocidental que é o povo norte-americano, sobretudo nos Estados do Sul. Os negros que forjaram o destino da América viam-se agora despojados, como “cidadãos de segunda classe”, dos direitos elementares aceitos pelas comunidades em que moravam, de poderem decidir dos rumos políticos e econômicos da nação que era sua também e, em última instância, das leis que regeriam as suas próprias vidas. Dentro da gama de saídas para esse impasse e para esse absurdo, surgiram movimentos cívicos que vão desde os que exercem uma ação persuasiva na defesa dos direitos do negro, até os que, como os black muslins (muçulmanos negros) preconizam a destruição violenta da raça branca. Dentre todos, destaca-se o reverendo Martin Luther King, Prêmio Nobel da Paz do ano passado, pela sua grandeza moral, pela sua lucidez, pela sua fé inquebrantável na doutrina da não-violência inspirada em Gandhi. O extraordinário líder protestante opõe à doutrina do ódio e do terror as suas marchas da liberdade, a pressão sobre as cúpulas governamentais, a prece aliada à ação.

James Baldwin encarna nessa autêntica “guerra fria” nacional o papel do intelectual autêntico, do novelista de grande sucesso, do ensaísta brilhante. Muito superior à Richard Wright, ele supera também a influência dos artistas de jazz e até dos atores negros porque, ao contrário destes, não apela para a sensibilidade artística dos brancos apenas mas também para o seu raciocínio, para a sua introspecção. Talvez mais importante como ensaísta e pensador do que como ficcionista, suas argutas considerações sobre a situação do negro nos Estados Unidos publicadas na prestigiosa revista The New Yorker e logo depois enfeixadas em livro permanecerem 29 semanas consecutivas à frente da lista de best-sellers do seu país, The Fire Next Time, título desse abalador testemunho, foi aclamado na Inglaterra, na França, na Itália, na Alemanha, enquanto as mais importantes universidades norte-americanas convidavam seu autor a pronunciar conferências perante seus milhares de alunos e os editores europeus duelavam com cifras e telegramas par obter os direitos de tradução de suas obras.

The Fire Next Time (Da Próxima Vez, Fogo!) não granjeou ao escritor de 39 anos apenas fama mundial – uma capa da revista Time, um número especial da publicação liberal inglesa Encounter – revelou a fundo uma situação humana contundente para o homem branco pela acusação veemente que encerrava, o De Profundis de um pária que falava com a linguagem compreensível aos opressores. Amaríssimo na sua diagnose e na sua rebelião, este volume violento não preconiza, porém, uma solução violenta. Seu apelo final e sóbrio, altivo, digno, em prol da cooperação das duas raças na tarefa que lhes é comum de banir a barbárie da intolerância, da ignorância cifrada no preconceito, da desumanidade expressa pela discriminação. É para impedir um Palmares de proporções imprevisíveis entre os fanáticos dos “muçulmanos negros” e os sequazes da Ku Klux Klan sulista que ele adverte contra os Hitlers em potencial, os Lee Oswalds sempre prontos a assumir um soturno papel nas catástrofes da História. Ainda há esperança no seu brado final, que encerra seu anátema contra a humilhação imposta pelos brancos: “Tudo agora, devemos supor, está em nossas mãos, não temos o direito de supor outra coisa. Se nós – quero dizer, nós, os brancos e os negros relativamente conscientes, que temos de insistir junto à consciência dos outros – se nós não esmorecermos agora no cumprimento do nosso dever, poderemos, embora sejamos poucos, por termo ao pesadelo racial e concretizar o destino do nosso País e mudar a História da humanidade. Se não ousarmos tudo agora, o cumprimento daquela profecia, recriada da Bíblia numa canção composta por escravos, recairá sobre nós:”Deus deu a Noé o sinal do arco-íris – Basta de água, da próxima vez: fogo!”

Embora repelindo as teorias violentas e apelando para a cooperação entre as raças, Baldwin reconhece não só a sua solidão como intelectual negro dentro da massa negra como também a inadequação, a insuficiência das palavras diante dos fatos, numa conclusão semelhante à de Sartre quanto à impotência do escritor, como escritor, diante da injustiça social. De fato, a História registra as modificações trazidas às vidas dos povos pelos Césares, pelos Napoleões e pelos Hitlers; mas a modificação aportada pelos Shakespeares e pelos Prousts não se traduz nunca em vitórias militares, em conquistas territoriais, em fatos que podem ser medidos estatisticamente. A mais inflamada peça de Brecht, mais inspirado poema de Lorca ou o mais inteligente ensaio de Sartre jamais conduziu um público à tomada de Bastilha alguma. Ao reconhecer que não tem “poderio político nem econômico”, Baldwin intrinsecamente especifica quais são as alavancas suscetíveis de causar qualquer modificação concreta. Como A Cabana do Pai Tomás, como os discursos de Joaquim Nabuco e José do Patrocínio, os seus livros podem “acelerar” a conscientização de um problema, formulá-lo, expô-lo, denunciá-lo, nunca solucioná-lo. (O trágico fim da nossa Inconfidência política urdida por poetas comprova a disparidade de meios para a alteração de uma situação de fato.)

Lucidamente, porém, ele lança mão da sua forma de participação, sem jamais transformar as suas observações penetrantes em matéria panfletária, primariamente didática e ineficaz. Volta do exílio voluntário em Paris, depois de nove anos, para enfrentar as “condições normais” de vida do negro americano no seu país de origem.

Essas “condições normais” foram vividamente descritas por um homem branco, John Howard Griffin, que após intensa radiação com iodo e raspagem do cabelo conseguiu adquirir uma aparência de negro, dirigindo-se ao Sul dos Estados Unidos. Nos Estados ultra-racistas do chamado Deep South, ou sejam o Mississipi, o Alabama e a Louisiana, ele experimentou durante semanas o estigma candente. Além das humilhações constantes e diabólicas das salas de espera só para brancos, dos bebedouros e bancos de jardim só para brancos, dos restaurantes em que lhe era recusada comida, dos postos de gasolina onde lhe era negada a venda de gasolina devido à pigmentação de sua pele – além de todas essas humilhações sórdidas e mesquinhas que marcam a fogo a sensibilidade dos negros, havia sempre presente o medo de ser linchado, a expectativa acuada das palavras ofensivas, dos olhares de desprezo e dos risos de chacota coletiva.

James Baldwin ultrapassa essa incursão que terminou quando cessou o efeito das radiações, pois para ele é válida não a experiência, mas a vivência determinada biologicamente, por fatores genéticos imutáveis. O seu libelo não deve atingir só os brancos racistas norte-americanos, mas a totalidade da raça branca, herdeira involuntária do delito da escravidão, partícipe, contra a sua vontade dessa injustiça, já que integra com os americanos brancos a coletividade de raça branca:

“A brutalidade com que os negros são tratados na América simplesmente não pode ser exagerada. A princípio, o negro não acredita que os brancos o tratem dessa forma… Ainda não existe uma linguagem sequer para descrever o sofrimento pessoal do negro neste país..”

Agora, James Baldwin forjou admiravelmente esta linguagem, que utiliza como uma catapulta de ideias e reflexões. A nossa época, que já conta com o Diário de Anna Frank e o de Maria Carolina de Jesus, além do Journal du Voleur de Jean Genet, tem agora completo o triângulo dos párias de vários regimes e várias épocas: o judeu, o negro e o homossexual. São misteriosas e muitas vezes ilógicas as trajetórias das palavras de um reformador que se exprime através da literatura. Não se exclui assim a possibilidade de que, apelando para a razão do americano branco consciente das suas responsabilidades, o autor nascido no Harlem atinja o ponto central do qual unicamente poderá partir a modificação que ele propõe e todos ambicionamos. Exemplarmente, a língua inglesa fala de a change of heart quando uma pessoa muda de opinião ou de ideia. É nesta “transformação de corações” e de cérebros cegados pelo racismo que reside a nossa esperança.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Literatura negra nos Estados Unidos - James Baldwin .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.