Lírios, luar, rosas desfolhadas: é a poesia de Alphonsus

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1971. Aguardando revisão.

O Simbolismo, como todos os movimentos literários anteriores à Semana de Arte Moderna de 1922, veio transplantado da Europa para o Brasil. De todos os gêneros importados, foi o que menos se aclimatou aqui.

O Romantismo vingou logo, exuberante: afinal coincidia com o desejo de independência artística, para completar a separação política de Portugal; permitia formular uma poesia social, nativista (como se chamava o nacionalismo então) que cantava a natureza tropical. Sobretudo, ajustava-se perfeitamente ao sentimentalismo brasileiro: daí a popularidade inestinguível, até hoje, de Castro Alves e Casimiro de Abreu, entre outros.

O Parnasianismo também pegou bem: correspondia a uma visão escultórica do poema, tronco forte no qual Olavo Bilac e Cia. Logo enxertariam a seiva de voluptuosidade brasileira, estranha aos Herédias e Leconte de Lisles francêses pelo menos nessa intensidade.

E o Simbolismo? Pobre flor de estufa, não resistiu à intensidade do sol brasileiro, que cresta qualquer vegetação mais sutil. Além disso, o Simbolismo exige um refinamento estético que o Brasil estava - e está - longe de possuir, com exceções contadas nos dedos de uma só mão.

É natural que os simbolistas fossem considerados com escárnio, com risadas e chacotas. Falavam de Idade Média, num país descoberto quando a Europa despertava para o Renascimento, tinham como critério de estilo a contenção - num país de versejadores caudalosos - e como ideal estético a melancolia musical, a imagem pura da amada, as paisagens baças. E Deus, a morte, a solidão como temas.

Mas, nos últimos dez ou vinte anos, surgiram poetas tão abaladores desse status quo medíocre do Brasil, que há esperança de uma ressureição do Simbolismo entre nós. Afinal, a prosa intensamente poética de Guimarães Rosa e de seu romance magistral Grande Sertão: Veredas, o cultivo elevadíssimo da metáfora em Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima e João Cabral de Melo Neto vieram desafiar a sensibilidade jovem a penetrar num território poético cuja magia tem que ser decifrada não só pela sensibilidade mas também pela interpretação culta do leitor.

Outro fator deve pesar para ressuscitar essas vozes apagadas pelo realismo do romance nordestino (Graciliano Ramos) ou carioca (Lima Barreto) ou pela poesia antropofágica celebrada em 1922: o esnobismo cultural.

Na Europa e nos Estados Unidos, há uma volta nostálgica ao período do fin de siècle da arte decadente da Paris de Mallarmé, Baudelaire e Proust: o art Nouveau. Por tabela, manuseando objetos de Gallé que pertenceram a Sarah Bernhardt ou de Tiffany - que formavam o brasão da belle époque de Toulouse-Lautrec e de Degas - uma parte da nossa elite alfaberizada redescobrirá o filão simbolista.

Afonso Henriques da Costa Gimarães, a meu ver, tem todos os méritos para se tornar esse Lázaro poético, arrancado ao esquecimento que que jazia, 99 anos após seu nascimento em Ouro Preto.

Menos rebuscado do que Cruz e Souza, o grande poeta negro da germânica Santa Catarina, Alphonsus de Guimaraens - como ele preferia se assinar, com arcaísmo voluntário -, é um cravo de sons amortecidos comparado com o órgão polifônico de Cruz e Souza. Sua melodia é sempre em surdina, mas sempre encantadora, esmaecida e lânguida.

Partindo da mesma premissa de Love Story - a morte prematura da Amada - Alphonsus de Guimaraens chega, felizmente, a resultados artísticos diametralmente opostos a esse grande impulsionador da venda de lenços de papel nas platéias de Nova York a Londres, de Milão ao Rio de Janeiro.

Tudo em Alphonsus de Guimaraens é contido, musical, abstrato, sutil. Seu mundo é mundo restrito: fala de Portugal, de onde vieram seus pais; fala de Cavaleiros Andantes da Idade Média em busca de Amadas virginais arrebatadas pelo Demônio, como nas gravuras de Marcelo Grassmann; de um amor perdido precocemente, ceifado pela Morte; fala de rosas desfolhadas, de lírios, luar, marfim, sinos e brumas.

A musicalidade é espontânea, doce, como uma sonatina de Mozart:

“Rosas que já vos fôstes, desfolhadas

Por mãos também que já se foram, rosas

Suaves e tristes! rosas que as amadas,

Mortas também, beijaram suspirosas…”

Para o leitor que no ginásio só estudou os versos obrigatórios de “Ismália” (Quando Ismália enlouqueceu, /Pôs-se na tôrre a sonhar…/Viu uma lua no céu, /Viu outra lua no mar…), Alphonsus de Guimaraens tem ângulos novos, até hoje nunca estudados em profundidade por críticos sensíveis. Ecos de Verlaine, quando começa a estrofe inicial de “Serenada”:

“Da noite pelos ermos

Choram violões”.

Uma simultaneidade de sensações - audição, visão, olfato - que lembra as metáforas de Baudelaire, como no terceto final de “Sonetos”:

“Nasce a manhã, a luz tem cheiro… Ei-la, que assoma

Pelo ar sutil… Tem cheiro a luz, a manhã nasce…

Oh sonora audição colorida do aroma!”

Sua poesia não exclama, não brada, não emite interjeições. Não há lugar nela para pieguismos à la J. G. de Araújo Jorge, nem para facilidades vocabulares que a tornem imediatamente acessível a todos. Não: seu mistério pede certa cumplicidade do leitor, que deve desvendar termos raros, preciosos - como hialino (que tem a transparência e a textura frágil do vidro), ou arcaizantes como arneses (peças de armadura), ou a forma antiga de rouxinol: ruscinol.

Há rimas internas, há misticismo e, como característica principal, uma simplicidade de expressão que flui como uma melodia quieta e suave. O seu é um lavor fino, no qual o artista engastou, como jóias, palavras coloridas e de um esplendor discreto (endecha, engoivas, heráldico, armorial etc.) e medievalizante.

Para quem estiver disposto a desligar a guitarra elétrica da nossa época rock, Alphonsus de Guimaraens tem prelúdios líricos e noturnos como peças de Chopin a oferecer a ouvidos sensíveis e ainda não embotados pelo berro eletrônico.

A seguir LGR seleciona para seus leitores cinco poemas de Alphonsus de Guimaraens:

“O mistério imortal das olheiras de opala,

Onde vagueia a dor dos seus olhos proibidos,

Manda que venham terra e céu para adorá-la…

Morre no seu olhar a vida dos sentidos.

Mesmo calada, quem a vê julga escutá-la,

Pois canta o seu olhar pelos nossos ouvidos.

De que estrela lhe desce a voz? Quando se cala,

Que rumor de orações nos olhos doloridos!

Não existe cá embaixo uma expressão humana

Capaz de definir-lhe o grande olhar tristonho;

E quem a vê, ou sonha uma estátua romana,

Marmoreamente branca, imaculada e fria,

Ou tem por entre o nimbo estrelado do sonho

A áurea Revelação de outra Virgem Maria…

(Sonetos)

“Nem luz de astro, nem luz de flor somente: um misto

De astro e flor.

Que olhos tais e que tais lábios, certo,

(E só por serem seus) são muito mais do que isto…

Ela é a tulipa azul do meu sonho deserto.

Onde existe, não sei, mas quero crer que existo

No mesmo nicho astral entre luares aberto,

Em que branca de luz sublime a tenho visto,

Longe daqui talvez, talvez do céu bem perto…

… Nasce a manhã, a luz tem cheiro… Ei-la que assoma

Pelo ar sutil… Tem cheiro a luz, a manhã nasce

Oh sonora audição colorida do aroma!

(Sonetos)

“Por essas noites, brancas telas,

Cheias de esperanças de estrelas,

O luar é o sonho das donzelas.

Tem cabalísticos poderes

Como os olhares das mulheres:

Melancoliza e enerva os seres.

Afunda na água o alvo cabelo,

E brilha logo, algente e belo,

Em cada lago um setestrelo.

Cantos de amor, salmos de prece,

Gemidos tudo anda por esse

Olhar que Deus à terra desce…

(Ária do Luar)

“Hão de chorar por elas os cinamomos,

Murchando as flores ao tombar do dia.

Dos laranjais hão de cair os pomos,

Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: - “Ai, nada somos,

Pois ela se morreu silente e fria…”

E pondo os olhos nela como pomos,

Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,

Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la

Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos…

E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,

Pensado em mim: - “Por que não vieram juntos”?

(Sonetos)

“De noite pelos ermos

Choram violões.

São como enfermos

Corações.

Dorme cidade inteira

Em agonia…

A lua é uma caveira

Que nos espia.

Todo o céu se recama

De argêntea luz…

Uma voz clama

Por Jesus…

Toda a triste cidade

É um cemitério…

Há um rumor de saudade

E de mistério…

E em meio da cidade

O rio corre,

Conduzindo a saudade

De alguém que morre…

(Serenada)

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1971) 2022. “Lírios, luar, rosas desfolhadas: é a poesia de Alphonsus .” In Poetas brasileiros contemporâneos, edited by Fernando Rey Puente, 4:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.