Amoroso, elegíaco, meditativo, social, épico: Carlos Nejar

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1978-07-08. Aguardando revisão.

“E, contudo, uma meditação suficiente e persistente chega à convicção: a metafísica jamais proporciona, por sua essência, ao habitar humano a possibilidade de se estabelece propriamente na paragem, isto é: na essência do esquecimento do ser. É por isso que o pensamento e a poesia devem retornar lá, onde, de certo modo, já tínham sempre estado… Chegamos tarde demais para os Deuses e cedo demais para o Ser. Cujo rosto iniciado é o ser humano.”

Martin Heidegger em Sobre o Problema do Ser e Aus der Erfahrung des Denkens.

Raramente um poeta atinge, no meio da sua trajetória criadora, o crisol em que convergem todos os matizes do seu prisma lírico. Carlos Nejar, que iniciou a publicação de seus livros há quase 20 anos, com Sêlesis, chega agora ao cadinho em que se somam, acrescidas, todas as suas potencialidades poéticas.

A variedade de temas - amoroso, elegíaco, meditativo, social, místico, épico - não significa dispersão, mas domínio seguro de um sopro poético que de livro para livro se adensa e refina. Carlos Nejar tem assim a singularidade, entre todos os poetas novos do Brasil, de enfeixar uma pletora de elementos que impedem que seu canto se torne monocórdio. Ele é o único poeta cronologicamente posterior a Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto a ter um espectro poético múltiplo na sua indagação filosófica multifacetada do ser humano atado a suas peias sociais e temporais, mas capaz de ultrapassar essas barreiras físicas pela inquietação metafísica de uma busca espiritual do significado heideggeriano de estar no mundo.

Chapéu das Estações retoma, assim, muitos dos elementos de inspiração mágica do poeta gaúcho e os aprofunda numa dimensão de inquirição coerente e multifacetada. É surpreendente, portanto, averiguar que Carlos Nejar é um marcante e candente poeta social, sem aderir a um ideário partidário pré-estabelecido e, talvez por isso mesmo, capaz de ferir com brasa viva as feridas sociais brasileiras. Sem jamais descer ao farisaísmo espúrio de uma pregação “engajada”, ele sobrepõe - caso sumamente raro na poesia que se faz hoje no Brasil - à mensagem um ingrediente - o talento - ausente de quase todos os poetas que se autoproclamam “arautos da Esquerda”. Por isso sua voz é sincera, vibrante e capaz de contagiar o leitor em sua concisão viril e nunca panfletária. Todos os partos da “poesia comprometida” do Brasil foram impotentes para fazer jorrar versos de tal veemência, ao mesmo tempo poética e social, como os que formam o poema intitulado “O Povo”:

“O povo

a ribeira do sangue.

Coração, arcaico regimento.

Avanço das tropas

sob o vento.

Nos sentamos

na tora de um milênio.

A história

nos molha, nos invade

com sua língua precária.

Descansamos o fardo, a mão

na dança de um pensamento.

Nos sentamos

à soleira do sangue.

De que norte ou aragem,

começamos a vida?”

Esta síntese, vigorosa e despoajada de qualquer retórica rançosa e altissonante, dá seguimento a uma preocupação nuclear do poeta: em Canga (1971), principalmente, a dor da injustiça social se refletira na biografia dolorida de Jesualdo Montes, o irmão gaúcho dos miseráveis da área rural nordestina de Morte e Vida Severina e Cão Sem Plumas, do magnífico poeta de denúncia lapidar da exploração aviltante dos Severinos massacrados pelo poder deformado. “O Povo” é um Réquiem coletivo pelos Jesualdos individuais, que o poeta já amortalhara em suas esplêndidas metáfaforas em que a dor é comparada a um colorido e agônico:

“A dor não se retrai e anda sem pés,

aonde? Está aqui, ali,

soberba como um touro

Na praça, no país,

Entre fuzis”

Assim como o anonimato dos Severinos massacrados em Pernambuco o torna apenas um dado estatístico a mais a ser registrado pelos sobreviventes Jesualdo Montes é a célula inicial dessa tragédia de um povo ue eclode agora no último livro, o peão ignorante e sufocado pela miséria a quem o poeta indagara, lúcido:

“Onde tua janela, Jesualdo,

o retrato?

Quem costurou a tua fome

e os botões do casaco?

… secaram o corpo

que o sangue reveste;

Secaram o corpo,

A ideia não secam.”

O admirável poeta não se cinge a incorporar os seres deslocados e manifestos à sua paisagem evocativa. Nos versos de Nossa Pátria, é a própria condição efêmera do homem que amplia a dor do estar-no-mundo: os arreios e o feudalismo que atavam Jesualdo aos pampas, inexoravelmente, são o estigma de uma coisificação do ser humano, jungido a outros que o dominam. Mas recentemente o poeta viu mais abrangentemente: todos os condicionamentos sociais são os microcosmos de uma antevisão maior. Sem alijar-se da luta pela justiça social, ele se desenlaça das contingências cerceadoras: “Nossa Pátria, o tempo… Nossa Pátria:/ andar à margem/ com o chapéu das estações/ e nenhuma bagagem”.

“Não temos idade. Temos

hábitos, percalços, botas

de calendas engolidas.

um gibão de sementes

na palavra.”

A palavra que nomeia, a palavra que traduz, a palavra que semeia - estas são a munição do poeta, seu mapa será rastreado pelo satélite, bússola e sismógrafo da palavra. Decifração humana do Cosmos. E a palavra é a antecâmara do conhecimento. Caraceristicamente, Carlos Nejar aproxima-se da lição de Platão de um conhecimento prévio da vida que o ser humano teria: a existência é lembrança e o nome é código, é a memória o catalisador de todas as ações humanas:

“Comemos

a laranja do nome

o miolo do nome.

Vivemos

com a pólvora

do nome. Matamos, ferinos, oxidamos

com a lâmina do nome. Do abdômen do nome

fluía o sangue do nome.

O processo do nome.

A infância do nome

a nênia.”

O nome, labirinto, senha, trombete do Juízo Final, vai sendo reconhecido como a matriz da política, da religião, da especulação filosófica, das leis, até chegar à Origem: “Acordão celestial do nome.” O verbo bíblico está no princípio do Homem e é também seu meio e seu fim. De social e telúrica, a palavra poética passa a desfiar o novelo de uma enteléquia que desemboca em Deus. Místico, Carlos Nejar, em degraus cada vez mais altos de revelação do Desconhecido, reconhece com Plotino que “pode a alma ser bússola” E parte para um das mais soberbas e admiráveis Epifanias poéticas do mundo contemporâneo, não só no limite da língua portuguesa mas no âmbito mais amplo da poesia ocidental, com o coral deflagrado com a primeira frase do seu majestoso poema “A Chuva do Velho Testamento”:

“Encontrei a alna

Na infância.”

O fio da meada capaz de sair do labirinto meramente humano é a inocência, que os grandes poetas românticos alemães e ingleses celebraram desde a imortal ode de Wordsworth à imortalidade pressentida na infância até a cisão entre inocência e exeriência cantada por Blake em suas Songs of Innocence e Songs of Experience. A infância, sinônimo deslumbrante de alma, é a intuição central, prístina, que o conhecimento não abate:

“Quis possuir a alma

Como se um arado empurrasse

Na saga deste instante

O corpo amado

Paa o corpo amante.”

Com acentos do Velho Testamento e de Dionísio de rebelião contra um Deus inescrutável por critérios humanos, ele se revolta inicialmente contra o acorrentamento da alma ao corpo - “Fui condenado ao corpo,/ Como isolar a alma,/ se está morto?” - e se vê, claramente, como adorador de uma divindade atroz, colérica e punitiva:

“Fui condenado a Deus,

a seu estado mais feroz,

aquele que, de amor,

as coisas tremem

e as vozes não conseguem separar.”

Essa visão mística conduz à consagração do fugidio, o homem se fazendo Deus, por instantes embora:

“Fui elevado ao corpo”

A noção de que vai morrer é equivalente à certeza de poder transcender a morte, como a ideia de liberdade vencendo o patíbulo de Tiradentes nos versos reminiscentes da grandiosidade do Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles:

“Ele sabe que vai morrer e vai seguro

por entre as linhas e o rompido muro

que o separa do sangue. Já transpôs a agonia,

o seu portão, sob o clarão dos dias.

Está longe, animoso. O que é futuro

tocou com as mãos, cobrindo o corpo

no invisível. Duros os olhos, duros

os minutos, duros os passos pelo pátio.

E sabe que está morto solto

na vala da memória, ultrapassando

o fogo que o tolheu, com outro fogo

que agora amanheceu, de vez, seu rosto.”

Unindo a travessia do ser humano pelos embates da vida-peleja a uma busca já épica de Deus, o poeta tem vislumbres profundos dos Inefável: Deus, o incognoscível, deixa seus vestígios perceptíveis na natureza. A physis da Grécia antiga, recolhida pela voz de Teixeira de Pascoais e de Hoelderlin, é o espelho que reflete o rosto de Deus: “O seu semblante/ é ser o campo”. Deus fulgurante se deixa decifrar em pistas panteístas, o mundo permeado da Sua presença:

“Deus, umidade na parede.

Seu amor é lento, corrosivo,

e segue por um fio

de andar à frente.

Que faz um só

O absoluto

que os amantes enlaça

no fugidio.

O absoluto

em cada bicho,

fruto, inseto.

E esta

insuspeitada, sôfrega

Esperança.”

“Deus

ventania

de seu próprio catavento,

o dia”

“Rachadura

nos ossos do silêncio!”

Essas prodigiosas etapas de um caminho místico flamejante e musical culminam na aceitação e na beatificação da própria vida:

“A santidade

é a visão do real…

……………………

Santa, a vida.

O mais é justaposto.”

Essa via tortuosa de júbilo e pranto, pelo reencontro de Deus fora e dentro do homem, cruza o firmamento da poesia brasileira para fincar-se como uma das mais extraordiárias litanias místicas desde o Mira Coeli, de Jorge de Lima, em todo o decurso de nossa literatura. Finíssimo poeta do amor mais uma nuance em sua matizadíssima rapsódia poética para Nejar confluem, no final, o amor, princípio que Dante vira como átomo gerador do próprio universo e dos astros, e Deus, o término, em um absoluto já pressentido com as próprias e imperfeitas antenas da sensibilidade humana:

“O abosoluto:

donde os amantes vêm

e para onde se tornam consumidos.

O absoluto sol, o absoluto

dente do mar.

O absoluto amor”

Carlos Nejar se alaç, com sua produção poética extensa e agora em seu apogeu do dizer, do pensar e do sentir, ao mais alto nível da poesia brasileira deste final de século. Nenhuma contagem qualificativa da nossa lírica estará sequer esboçada sem a menção de seu nome, aval de uma coerência estética e uma honestidade ética extremamente rarefeitas no Brasil da década de 70. O Chapéus das Estações é não só a soma de sua presenaç poética, o divisor de suas realizações, é um desafio temível para o poeta: como superar-se daqui por diante? Porque com este marco definitivo de maturidade poética formal e filosófica, Carlos Nejar depara-se com seu próprio repto supremo: como dar continuidade ao apogeu e como arcar com o legado terrível de ser a mais versátil voz poética brasileira surgida depois de Drummond, como transcender este umbral já tão colindante com a perfeição que ele ultrapassou agora?

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1978) 2022. “Amoroso, elegíaco, meditativo, social, épico: Carlos Nejar .” In Poetas brasileiros contemporâneos, edited by Fernando Rey Puente, 4:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.