Drummond

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
17-8-1985. Aguardando revisão.

Uma escola no Maranhão, entregue aos alunos, passou a não ter necessidade de sede fixa, nem mestres, nem alunos permanentes: sem currículo, sem diploma, só teme que o Incra divida o terreno em que se encontra em “fatias burocráticas e legais”. A mesa de um médium, vendida para um vetusto representante do Lloyd Brasileiro, continua a levitar, causando pavor no jantar familiar e acaba doada a um asilo de velhos. Um fabricante de abotoaduras, verificando que elas estão em desuso, resolve suicidar-se. Mas uma camisa esporte, estampada, voa pelos ares com tal encanto que ele desiste do seu intento e passa a fabricar camisas sem mangas. No dia em que se mandar eternizar o verbo “prorrogar” tudo dura até além do limmite: os mandatos de deputados e senadores se prorrogam, rasgam-se os calendários e os relógios ficam abolidos. As aulas de História também foram eliminadas: “Para que História? Se tudo era a mesma coisa, sem perspectiva de mudança…” Até que um mecânico consertou a chuva que também se tornara permanente. E tudo voltou ao normal. Só o filósofo concluiu que “não se deve plagiar a eternidade”.

Carlos Drummond de Andrade estarrece o leitor em cada livro que publica. Estes Contos Plausíveis, da Editora José Olympio, já tinham sido um livro publicado em 1981. Ele volta agora com uma tiragem mais acessível ao grande público. Desde que deixou de colaborar com suas deliciosas crônicas curtas nos diários Jornal da Tarde, em São Paulo, e Jornal do Brasil, o Rio, o supremo poeta da língua portuguesa ainda vivo deixou uma lacuna insanável na crônica brasileira. Só Rubem Braga o iguala, embora seus estilos sejam diferentes, com suas crônicas diáfanas, maravilhosamente construídas.

Carlos Drummond de Andrade destila uma ironia sutilíssima ao contemplar, como o travesso adolescente de Shakespeare, Puck, em Sonho de Uma Noite de Verão, aestupidez infinita dos seres humanos: “Oh, what fools these mortal be!” A sua sabedoria, a sua fundíssima humanidade generosa infunde a estes contos uma aura de bondade, de tolerância, diante do estapafurdio e incompreensível absurdo da convivência humana. O que se rotula, um pouco apressadamente, de fantástico se insere sempre em suas histórias um pouco como aqueles seres prodigiosos (geralmente crianças) que permeiam de magia as Primeiras Estórias, de seu mágico conterrâneo Guimarães Rosa. É o caso do misterioso menino Paulo, que todos tomavam por mentiroso: contava com naturalidade que vira dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. Ficou de castigo. Na semana seguinte, esquecido da punição, relatava que no pátio do colégio caíra um pedaço da lua e, provando-o, achara que tinha gosto de queijo mesmo. Novas privações: estava proibido de jogar futebol e de ver televisão por mentir tanto, arre! Sua mãe achou demais quando ele afirmou que todas as borboletas do céu queriam formar um tapete voador para carregá-lo até o sétimo céu. A mãe levou-o ao médico, mas para o dr. Epaminondas não tinha cura. Só sacudiu a cabea:

“Nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia”.

Depois há o causo do homem que botou anúncio no jornal porque lhe tinham roubado a alma. Chegaram elo correio embrulhos de alms, mas nenhuma lhe servia. E não é que se resignou a viver sem alma, depois que a mesma “se alteou, voando para a zona Norte”? Essa sucessão de “esquisitos”, para a mentalidade estritamente racional-mecanicista, não tinha o menor sentido. Fernão Soropita convenceu-se de que o ouro é o melhor investimento nestes tempos brabos de crise. Ora, não tendo dinheiro na Suiça para investir na Bolsa em Zurique, mandou arrancar todos os dentes (como o personagem “Boca de Ouro”, de Nélson Rodrigues) e logo ficou arrependido: como lhe profetizara o dentista, a dentadura lhe pesava por demais n boca e a cada cotação do ouro sua boca subia e descia no dia-a-dia: um inferno! Ficou até com medo de dar informações a quem o parava na rua e nem sorrir não sorriu mais, temeroso de que o roubassem. Apaixonada pelo luzir de sua dentadura brilhante, uma moça se encanta, coitado, não por ele, mas por sua dentadura vistosa. E, mal se tornaram íntimos, ela aproveitou, mansinho, mansinho, roubou-lhe a dentadura enquanto ele dormia.

Um dos momentos, a meu ver, prodigiosos de quem já tinha escrito uma crônica inesquecível de leveza e doce sátira sobre uma suposta chegada de Greta Garbo a Belo Horizonte envolta no seu famoso “I want to be alone!” (“Quero ficar só!”) se encontra à página 31. “A Mulher Variável” resumia a perfeição da fidelidade conjugal (só sua parte inferior ficava imutável) com a emoção do adultério e da variedade. Pois a cada dia seu rosto assumia feições diferentes. Pega em flagrante pelo marido no momento em que tira do armário os rostos que substituía dia a dia para vencer a monotonia que mata tantos casamentos, ela lhe sussurrou, com o dedo nos lábios e um sorriso misterioso: “- Souvent femme varie”. E foram felizes para sempre, apesar da meledicência dos invejosos, ignorantes e maledicentes.

A Guerra Conjugal de Dalton Trevisam adeja também pelo miniconto “A Noite da Revolta”: o idoso casal discute porque ele quer tomar o comprimido para dormir e ela prefere ficar acordada para ver na televisão um filme que se projeta, tarde, de seu antigo ídolo da tela, Gary Grant. Trata-se de uma sátira deliciosa, com o toque levíssimo de Mestre Drummond, capaz de empalidecer toda, ou quase toda, sejamos justos, a súcia de palermas que assinam uma gosma sem graça a que dão, pomposa e injustificadamente, o nome de “crônica”, Deus nos acuda!

E não há como que um hálito borgiano perpassando pela invenção magistral do livro perfeito - a folha em branco?:

“A verdadeira sabedoria está nos livros escritos não escritos, isto é, nas folhas de papel em branco, reunidas em volumes encadernados. É a conclusão de um bibliófilo que se tornou filósofo. Trocou os livros impressos, que lhe feriam a vista, por outros de imaculada brancura, e verificou que neles reside a essência do conhecimento.

Gostava de abri-los ao acaso e passar os dedos, suavemente, na superfície virgem. Nenhuma teoria falsa, nenhum erro habitava aquelas páginas. Pelo contrário: era como se o saber fora de discussão se aninhasse ali. O saber é branco, refletiu ele. As mentiras são coloridas, e as letras são a representação visual de sofismas ou enigmas carentes de interpretação”.

No fim, reduz a biblioteca a um único livro em branco, “que continha a verdade absoluta e suprema”. Até o desfecho surpreendente…

Há ainda muito mais à espera do leitor inteligente e sensível, como o homem que, por força, queria mandar fazer uma operação plástica nas gordas Três Graças pintadas por Rubens, que se encontram no Museu do Prado, na Espanha. Os ideólogos, economistas e estrategistas dos males nacionais e suas soluções em torno de uma mesa de botequim regada a vodca e uísque são tratados com uma humanidade hilariante, contagiante. Há o homem que paga uma enorme quantia para não ouvir Frank Sinatra cantar no Brasil. Há o moço do Pará que enriqueceu inventando a máquina de fazer poesia; como o leitor se deleita com o medo que sente a nota de 500 cruzeiros não valer nada com a inflação galopante do Brasil e o boato de que já estão preparando uma cédula de cinco trilhões, que a humilhará para sempre.

Enfim, um espiégle e divertidíssimo Carlos Drummond de Andrade, profundo ao abordar, de maneira aparentemente superficial, leve, temas abissais e que tem do Cortázar de “cronópios” e “famas” muito da inventividade, docemente zombeteira, mas irmanada com os disparates humanos, sem julgá-los severamente.

Pode-se esperar mais de um livro tão próximo da perfeição, na sua concissão de hai-kai em prosa e de cunho universal pela sua poesia e funda humanidade? Eivada de uma fantasia tão arrebatadora quanto a de Lewis Carrol ela parece tocar um realejo voluntariamente escolhido e fazer dele brotar uma música que eleva e encanta.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1985) 2022. “Drummond .” In Poetas brasileiros contemporâneos, edited by Fernando Rey Puente, 4:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.