Foi nosso primeiro happening urbano

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1972-02-24. Aguardando revisão.

A semana de Arte Moderna, em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, foi o primeiro happening urbano do Brasil. “O rural foi a festa comemorativa dos índios que devoraram, nas costas da Bahia, o Bispo Sardinha”. Conteve miados, cacarejos de galinhas, apupos, os chinelos de Villa-Lobos e a sementeira mais radical para o duplo processo que a Semana veio focalizar, acelerar e tornar urgente, no campo das artes brasileiras: a nacionalização e a atualização da literatura, das artes plásticas, da música.

Mas da mesma forma que D. Pedro I às margens do Ipiranga, literariamente a Semana é um grito de independência que ecoa outros anteriores, sobre os quais se apoiou. O que hitoricamente os configurou como Guerra das Emboabas, de Inconfidência Mineira, de Guararapes tem suas correspondências exatas no amadurecimento de um sentir-pensar brasileiro em literatura.

Oswald de Andrade continua um elo que começou, cronologicamente, om Gregório de Matos Guerra, o baiano da época colonial que satirizava a exploração lusitana dos brasileiros. O Macunaíma tem uma dívida indireta com os temas - não o estilo, evidentemente - das Ircemas e Guaranis do cearense José de Alencar. E, sem Euclides da Cunha e sua denúncia do Brasil cindido entre o fanatismo da cultura arcaica dos jagunços rurais e o tecnologismo impessoal do poder do Estado munido do Exército, a Semana teria um território muito exíguo no qual desfraldar seus slogans.

Qualquer apreciação crítica da literatura produzida pela Semana e especificadamente pelos Andrades, Oswald e Mário - desperta, portanto, por mais objetiva que pretenda ser, uma enxurrada de protestos. Só é possível uma visão menos pessoal na autópsia, mas no organismo vivo das ideias a Semana continua viva e debatível. Afirmar que Oswald de Andrade, com Serafim Ponte Grande e João Miramar, trouxe para o romance brasileiro elementos inéditos, como a sobreposição rítmica de imagens visuais, uma espécie de estenografia narrativa, e dessa forma introduziu na prosa elementos que a pintur cubista com sua simultaneidade de visões já obtivera em Paris com Picasso. Braque e Juan Gris, é uma afirmação só parcialmente positiva. Porque ao lado de seus lampejos de gênio, esses romances são abortados na sua feição, não têm seguidores nem se realizam totalmente como estruturas narrativas coesas e completas em si mesmas.

A irreverência, o humor, as forças instintivas de raças que divergem da cultura branca judaico-helênica introduzidos pela Semana, a absorção, nos poemas de Mário de Andrade, de vozes dialetais, principalmente italianas, no linguajar paulistano, a paródia dos estilos empolados de Coelho Neto e Ruy Barbosa - todas essas conquistas lançadas no palco do Teatro Municipal de São Paulo há 50 anos foram de decisiva importância para a formação de uma literatura contemporânea brasileira. Mas as insuficiências, as expectativas não cumpridas da Semana porejam a nossa literatura - espelho de uma realidade social, mesmo quando vista pelo prisma deformante de um autor subjetivíssimo - e a deixaam com hiatos imensos, dificilmente respondíveis com os elementos da crítica.

Como provar que o avanço estilístico do romance, com Clarice Lispector, por exemplo, passou pela leitura dos textos da Semana e não diretamente da fonte, os romances de Joyce? Se Guimarães Rosa e a realização plena dos melhores ideais da Semana de Arte Moderna - ética e esteticamente - como esmiuçar a biblioteca do grande escritor mineiro para documentar uma influência comprovável dos textos de 22 em Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas?

Pior ainda é a constatação tristonha de que vários postulados essenciais daquela Semana de três dias não não frutificaram nem na nossa poesia e no nosso romance. O negro, por exemplo, um dos elementos mais fecundos e onipotentes da nossa cultura, continua sendo o “homem invisível” da nossa literatura. Há os poemas negros de Jorge de Lima, há os elementos negros da literatura ingênuo-popular da Bahia de Jorge Amado, mas quando um romance ou um poema documentaram a presença negra como fator cultural vítim de preconceitos entre nós? O irracionalismo que a Semana de Arte Moderna trouxera um pouco atabalhoadamente da Europa da Belle-Epoque junto com o surrealismo de Breton, o Cubismo, o Futurismo de Marinetti também deixou raros exemplos da nossa narrativa. Ou será que o fantástico de Panamérica ou de O Labirinto nos vieram por meio dos hispano-americanos Borges, Rulfo, Márquez, Carpentier?

A tarefa eugênica da Semana de Arte Moderna, desinfetando o linguajar da mesóclise empoeirada (abolição profilática do “dar-lhe-ei” castiço) e da demagogia “condoreira” de Ruy Barbosa, reduzindo o parnasianismo a suas proporções museais verdadeiras - não há dúvida, trouxe lucros incalculáveis. Seria impossível exigir de três dias apenas o sufocamento de taras literárias atávicas do brasileiro: se Deus descansou no sétimo dia, como os celebradores da Semana poderiam tornar nossos leitores invulneráveis ao erotismo piegas e semi-alfabetizado do poemas de J. G. de Araújo Jorge (Amo!) ou antecipar-se ao Mobral, roubando a José Mauro de Vasconcelos uma chusma de admiradores que já se inserem no limbo da literatura, isto é: os espíritos que ficam colocados numa região anterior ao conhecimento e talvez ao raciocínio também!

Pelas sementes extraordinárias que lançou, fevereiro de 22 em São Paulo foi um marco tão importante quanto quanto o relato de Caminha a El-Rey, pois de fato se descobria um continente que voltara as costas a si mesmo: o Brasil. O Modernismo, com sua floração insuperável de Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Jorge de Lima, Guimarães Rosa, outros ainda, foi um salto qualitativo gerado pela explosão de 22. Ano profético: quando simultaneamente os fascistas de Mussolini marchavam sobre Roma e a Rússia delirante de vigor criador - Maiakovsky, Blok, Essenin - ainda não caia sob a pata de Stalin e perambulando pela Europa em miseráveis pensões o semicego professor professor de línguas irlandês, James Joyce, elaborava o grande afresco anglo-saxônico, Ulysses, que completaria o painel da vasta dolce vita parisiense, Em Busca do Tempo Perdido de Proust.

A Semana é, como diria com ironia irreverente qualquer de seus propositores, o tímido arrebol de um Brasil que deflagaria a Brasília de um JK e o reator atômico linguístico que foi o Tutameia de Guimarães Rosa. E também quando os sinos soam para uma Europa crepuscular em seus estertores finais - Henry James, Virgínia Wollf, Katherine Mansfield, Robert Musil, Kafka, Thomas Mann, Pirandello, E. M. Forster, Celine -, promessa em parte paga, a Semana não deve ser comemorada como exéquias de múmia bem embalsamada. Deve realizar-se mais na nossa literatura já líder em vários campos no mundo de hoje: será a colheita de três dias de uma gênesis esboçada, o que é já um longo caminho percorrido na busca de um país e de um povo da sua identidade autônoma.

Compare esta poesia e esta prosa e veja como os rapazes de 1922 conseguiram mudar a arte de brasileira

“Profissão de Fé” de Olavo Bilac (“Le poète est ciseleur, le ciseleur est poète”)

“Não quero o Zeus Capitolino.

Hercúleo e belo.

Talhar no mámore divino

Com o camartelo

Que outro - não eu! - a pedra corte

Para, brutal

Erguer de Atene o altivo porte

Descumunal.

Mais que esse vulto extraordinário,

Que assombra a vista,

Seduz-me um leve relicário

De fino artista.

Invejo o ourives quando escrevo:

Imito o amor

Com que ele, em ouro, o alto-relevo

Faz de uma flor.

Imito-o. E, pois, nem de Carrara

A pedra firo:

O alvo cristal, a pedra rara,

O ônix prefiro.

Por isso corre, por servir-me.

Sobre o papel

A pena, como em prata firme

Corre o cinzel.”

“Poética” de Manuel Bandeira (“Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”)

“Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto

expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no

dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras, sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de

si mesmo. De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de cosenos secretário do amante

exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras

de agradar as mulheres, etc”

O poeta-joalheiro do Parnasianismo, para Bandeira, não passava de um burocrata das rimas e versos

Na “Profissão de Fé”, de Olavo Bilac, estão todos os elementos da poesia parnasiana, que vinha dominando a literatura desde o último terço do século: culto da forma, da palavra certa (o poeta concebido como joalheiro), escritura minuciosa, preferência pela ordem indireta (“não eu!”), temas clássicos. Nada disso na “Poética” de Bandeira. Suas características: ausência de rima, pontuação e métrica; simplificação do vocabulário, emoção musicada, preferência pela ordem direta. Bandeira ataca, nesse poema, a poesia que cultua a forma ao ponto de esquecer a inspiração. Diz que versos assim são trabalhos de burocrata. Bandeira escandalizou ela simplicidade e pela sua instransigência em relação à frase empolada dos parnasianos.

“A conquista” de Coelho Neto

“Sentaram-se os dois e Anselmo pôs-se a falar saudosamente da terra amada e longínqua, berço de ambos, província farta que é um celeiro e um Parnasso onde com a mesma exuberância, pululam o arroz e o gênio; terra de algodão e de odes donde, com ingrata indiferença emigram os fardos para os teares da América e os vates para a rua do Ouvidor; terra das lyricas terra das palmas verdes, terra dos sabiás canoros.

O romancista ouvia a facúndia do patrício, fumando com a impassibilidade de um thuríbulo, os olhos altos como se seguisse um sonho. O silêncio de êxtase em que ficou foi interpretado pelo estudante como uma prostração de saudade.

Elle fôra acordar na alma do patrício a nostalgia que o tempo consumidor havia esmaecido, lembrando-lhe a terra nativa onde lhe haviam rolado as primeiras lágrimas. Céus que seus olhos lânguidos tanto namoravam nas doces manhans cheirosas quando, das margens remotas dos grandes rios vinham, em abaladas, brancas, sob o azul do céu, as garças peregrinas; campos de moutas verdes onde, nas arroxeadas tardes melancólicas, ao som abemolado das frautas pastoris, o gado bravio, descendo das malhadas, em numeroso armento, junto, entrechocando os chifres aguçados, mugia maguadamente quando, por traz dos serros frondosos, lenta e alva, a lua subia espalhando pera terra morna o seu diáphano e pállido esplendor…”

“Primeiras Latitudes” de Oswald de Andrade (De Memórias Sentimentais de João Miramar)

“A costa brasileira depois de um pulo de farol sumiu como peixe. O mar era um oleado azul. O sol afogado queimava arranha-céus de nuvens.

Dois pontos sujaram o horizonte faiscando longínquos bons dias sem fio.

Os olhos hipócritas dos viajantes andavam longe dos livros - agora polichinelos sentados nas cadeiras vazias.

As antenas ruivas do capitão do Marta sondavam naufrágios nos rochedos de Madame de Sevri.

A noite no jardim d’inverno havia festas do Pocinho em torno do dedicado e gordo médico de bordo.

Um cônsul do Kaiser em Buenos Aires viajava como uma congregação.”

Trecho final de Macunaíma de Mário de Andrade (contado na linguagem do homem do sertão)

“…E só o papagaio no silêncio do Uraricoera preservava do esquecimento os casos e a fala desaparecida. Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do heroi.

Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, heroi de nossa gente.

Tem mais não.”

Coelho Neto descrevia a realidade como uma câmara fotográfica. Os Andrade conseguiram ver além do real.

O texto de Coelho Neto é adornado como um monumento do Ipiranga, utiliza uma riqueza de vocábulos com o mesmo preciosismo que orientou o projeto do Palácio Nove de Julho, descreve a realidade com a mesma fidelidade fotográfica que encontramos no quadro de Pedro Alexandrino. Já os textos de Mário e Oswald de Andrade procuram empregar coloquialismos, usam um linguajar cheio de regionalismos (Mário), estrangeirismos (Oswald), neologismos (os dois).

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1972) 2022. “Foi nosso primeiro happening urbano .” In Alguns artistas da Semana de Arte Moderna de 1922: Entrevistas, depoimentos e ensaios, edited by Fernando Rey Puente, 5:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.