Italo Calvino

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1971/04/17. Aguardando revisão.

Como três disparos sucessivos, de repente, em 1960, três personagens invadiram o panorama da literatura italiana: um desgraçado Visconde, partido ao meio por um pérfido canhão inimigo, tem suas duas metades cosidas e vive nelas, separado: a boa: a boa é angélica e generosa, a outra é cruel e incendiária.

Um ardoroso servidor do Imperador Carlos Magno, a pedido de Sua Majestade, ergue a viseira de seu elmo para que o soberano conheça seu fiel defensor: mas é um Cavaleiro totalmente invisível, quem sabe até inexistente?, que só existe pela força da fé.

Um jovem barão, desgostoso com a família rígida, refugia-se numa árvore e passa a viver acima da terra, participando de batalhas e encontros com Napoleão, até desaparecer arrebatado por aeronautas cujo balão passa perto da árvore.

O Visconde Partido ao Meio, O Cavaleiro Inexistente e O Barão Rompante, vagamente aparentados com Dom Quixote de la Mancha, surgiram para subverter os valores estabelecidos. Numa Itália ainda mail refeita da destruição da guerra, da farsa do Fascismo e da invasão estrangeira, eles opunham à literatura sensível e pessimista de Pavese e Vittorini uma visão da vida cheia de força, de poesia, de rasgos de imaginação e de uma graça intelectual, irônica e erudita, que ao mesmo tempo que caricaturava o homem lobo do homem ressaltava as qualidades de generosidade e de grandeza de indivíduos isolados.

Para os escritores “engajados” em excesso com a autópsia de uma burguesia apodrecida pelo comodismo e pelo imoralismo hipócrita, como Os Indiferentes, de Moravia, demonstravam que os altos ideais são por si sós péssima munição literária quando não disparada por um talento à altura dessas elevadas intenções.

Para autores como Cassola, dedicados a escrever uma realidade verista, objetiva, sem intervenção quase do artista, explodiam a contenção e a disciplina da mera denúncia social com uma verdadeira revolução da fantasia fantástica, de lirismo, de situações deliciosas de humor, de ironia voltairiana e de base filosófica de profunda erudição.

Esse fenômeno literário não era fácil de rotular dentro das tendências diversas da literatura italiana do pós-guerra: Italo Calvino, o tranquilo combatente ao lado dos partigiani, que da sua Ligúria natal enviava aquelas três figuras estranhas como livres-atiradores da sua concepção livre e imaginativa da vida e da condição do homem, estava afinal isolado como magnífico novelista em toda a Europa moderna. Seu mundo estava tenuamente relacionado com um mundo anterior, mas que não era moderno nem antigo – era imutável em seu classicismo. Seu Visconde meio médico meio monstro, seus Cavaleiros que não se veem nos combates, seus Barões refestelados em árvores frondosas pertenciam à estirpe dos loucos Fidalgos da Triste Figura que empunhavam a lança contra moinhos na Mancha, descendiam de Ulisses em sua peregrinação pelo Mediterrâneo, enfrentando deuses e tempestades, na afirmação da supremacia humana sobre todos os obstáculos à sua ação destruidora e redentora na terra.

Paralelamente a Ítalo Calvino, outros autores de grandeza europeia surgiram na Itália: Carlo Emilio Gadda, que compõe com o brasileiro Guimarães Rosa e o irlandês James Joyce a renovação da linguagem, incorporando raízes dialetais a termos clássicos e neologismos para descrever uma Roma, uma Dublim e uma Minas Gerais míticas, populares e aristocráticas, regionalistas e universais. O nobre Marquês de Lampedusa, que com seu romance crepuscular, Il Gattopardo, encerrava com fecho magnífico a série de novelas sicilianas iniciadas por Verga e que narravam a epopeia do apogeu e da queda da aristocracia e a transformação social violenta de uma região agrária e feudal.

Mas Calvino é diferente, é inédito. Tem um senso de humor que o aproxima dos criadores ingleses de figuras bizarras: o Gulliver gigantesco acossado por homens de Liliput ou o excêntrico Tio Toby de Tristam Shandy.

É um humor todo intelectual, feito do grotesco de certas situações e todo permeado de uma filosofia brincalhona que ilumina as grandes questões do egoísmo e da justiça, da guerra, da guerra e da cupidez com um riso franco velado de melancolia. Ao mesmo tempo, a literatura que Calvino propunha era duplamente interessante: afundava suas raízes na história da Itália e, mais amplamente, de toda a Europa, para retratar, na realidade, o homem contemporâneo, o indivíduo de todas as épocas. Pois sua trilogia não tem como subtítulo Os Nossos Antepassados, e não se propõe, como o autor esclareceu, a examinar as relações exatas que existem entre o indivíduo e a História?

Desde o primeiro capítulo dessa trilogia mágica, deliciosa de verve e de graça, Calvino neutraliza o horror da guerra contra os turcos, no século XVI pelos diálogos absurdos entre o Visconde Medardo de Terralba e seu escudeiro Curzio, reminiscentes dos diálogos aloucados entre o romântico Dom Quixote e seu prosaico escudeiro. Mistura propositadamente cenas de devastação com elementos fantásticos, enquanto o Visconde e o escudeiro percorrem as cenas de batalhas.

Levado à presença do Imperador, o Visconde depara com uma cena que evoca já o humor anti-militarista americano de nossos dias, como nos filmes de M.A.S.H., e Catch 22, com a burocracia da guerra criando um emaranhado de ordens contraditórias como um vespeiro de loucuras: o Imperador e seus marechais lutam contra mapas imensos que não se submetem a seus alfinetes e os levam a conservar alfinetes na boca, “o que os obrigava a falar como se estivessem ganindo”. Apresentado como membro da nobreza italiana recém chegado, o Visconde é imediatamente promovido a tenente do Imperador, como a Rainha de Alice no País das Maravilhas que, antes de saber quem era a pessoa que se encontrava à sua frente, mandava incontinenti: “Cortem-lhe a cabeça!”

Nesse panorama fanstástico, as batalhas começam pontualmente: às dez da manhã. Inexperiente, o Visconde aproxima-se de um canhão inimigo e é despedaçado em duas partes. Os carros que vão recorrer os feridos e os mortes, depois da batalha, escolhem a esmo os que serão sepultados, mesmo estando vivos ainda, e os que serão considerados feridos, ainda que estejam mortíssimos. “Assim, os restos de Medardo foram considerados como os de um ferido e jogados no respectivo carro”.

É quando o inferno da guerra com seus aspectos macabros e sanguinários é revelado à luz grotesca da caricatura sarcástica, da incompetência, do capricho e da confusão dos batalhadores, auxiliados por médicos e enfermeiros loucos:

“A segunda seleção se fazia no hospital. Após a batalha, o hospital de campo oferecia um espetáculo ainda mais atroz do que as próprias batalhas. Via-se no chão, uma longa fila de padiolas com os desventurados, e em torno esbravejavam os médicos, trocando de mãos pinças, serras, agulhas, membros amputados e novelos de barbante. Morto por morto, a cada um faziam tudo para torná-lo novamente vivo. Serra aqui, cose ali, tampões de manchas, viravam as vísceras pelo avesso, como luvas, e voltavam a colocá-las em seu lugar, com mais barbante do que sangue em seu interior, mas remendadas e fechadas.

Quando morria um paciente tudo aquilo que havia nele de bom servia par consertar o membro de um outro, e assim por diante. O que mais atrapalhava eram os intestinos, pois uma vez expulsos ninguém sabia como recolocá-los no seu devido lugar.

Arrancado o lençol que o cobria, o corpo do visconde apareceu horrendamente mutilado. Faltavam-lhe um braço e uma perna – e não somente isso, mas tudo aquilo que havia antes do tórax e abdômen entre aquele braço e aquela perna fora igualmente arrancado, pulverizado pelo obus recebido em cheio. Da cabeça, restavam um olho, uma orelha uma face, meio nariz, meia boca, meio queixo e meia testa: da outra metade a sua parte direita, a qual, aliás, fora perfeitamente conservada, sem sequer um arranhão, excluindo é claro, aquela enorme abertura que a separava da parte esquerda, feita em frangalhos.

Os médicos todos contentes:

E os miseráveis em derredor, enquanto os pobres soldados com uma flecha no braço morriam de septicemia. Coseram, taparam, emplastaram – quem sabe que cois mais fizeram. Mas o fato é que no dia seguinte meu tio abriu o único olho, a meia boca, dilatou o nariz e respirou. A forte fibra dos Terralba havia resistido, a gora ele estava vivo, embora pela metade.”

Daí por diante, as duas metades, do Visconde partido ao meio, passar a agir separadas: a má começa, para espanto dos camponeses, a cortar exatamente pelo meio peras, rãs, cogumelos. A velha ama que o criou reconhece: “De Medardo só voltou a metade má.” Cruel, sádico, revoltado por não ser um homem inteiro, escondendo sua outra metade inexistente num longo manto negro que cobre a metade que foi decepada desde a cabeça aos pés, o Visconde logo encontra um percursor dos cientistas atuais. Mestre Pietrochiodo, que como os criadores de armas mais destrutivas, como gases venenosos, bactérias, até chegar à bomba atômica, já “aperfeiçoa” os instrumentos de tortura e de morte:

“Coube a Mester Pietrochiodo, albardeiro e carpinteiro, a tarefa de construir a força: tratava-se de um trabalhador inteligente, que se empenhava com diligência e apuro em tudo o que fazia. Cheio de dor, já que dois dos condenados eram seus parentes, construiu uma forca ramificada, como uma árvore, da qual as cordas podiam pender todas ao mesmo tempo, manobradas por um único torniquete. Era uma máquina tão grande e tão engenhosa que nela se podiam enforcar muito mais pessoas do que aquelas que haviam sido condenadas, tanto assim que o visconde disso se aproveitou para enforcar também dez gatos os alternando com os réus”

Típica da criação de Calvino é a figura excêntrica, aluada: neste Visconde é o Dr. Trawley, um médico inglês que se dedica a curar uma moléstia que só atinge a um em cada mil grilos e mesmo a este não causa o mínimo dano, ou a encontrar um meio de prender os fogos fátuos que se desprendem das sepulturas recentes. Eternamente embriagado, desde que chegara às costas da Itália, náufrago da expedição do Capitão Cook, montado num tonel, o médico sentia repugnância e temor dos seres humanos e suas doenças: “Tinha horror do sangue e só tocava os doentes com a ponta dos dedos, e daite dos casos graves tapava o nariz, com um lenço de seda embebido em vinagre. Pudico como uma donzela, ruborizava-se ao ver um corpo nu; e, se se tratava de uma mulher, baixava os olhos e começava a balbuciar”.

Toda a humanidade é que sofre de alienação mental nas histórias de Calvino: uma colônia de leprosos passa o tempo embriagando-se, inventando estranhos instrumentos musicais, cantando em falsete e pintando as uvas com pinceladas de todas as cores como se fosse sempre Páscoa. Um grupo de fanáticos huguenotes cultiva os campos e lê a Bíblia cercado de proibições puritanas de divertir-se ou sentir qualquer prazer no trabalho, na natureza, no amor ou na própria vida. O significado mais profundo dessa limitação dos seres humanos é dado pelo próprio Visconde mau, mas lúcido, que, decepando polvos pela metade, tarefa que alternava com atear incêndios em todas as propriedades do lugar, explica a seu sobrinho:

Veículo para suas reflexões filosóficas e para a sua concepção do mundo, os personagens de Calvino lhe servem para exprimir seu ceticismo diante de soluções políticas que prometam à coletividade um paraíso instantâneo e total. As comunidades alienadas da realidade, cada uma ligada só a seu mundo imediato, os cientistas, os religiosos, os miseráveis, simbolizados aqui pelo inventor da força múltipla, pelos huguenotes, pelo Dr. Trawley e pelos leprosos, são comunidades decepadas, que não concebem o homem na sua totalidade.

A outra metade do Visconde aparece, a metade boa, que se alterna com a má, reparando os erros e crueldades do Mau: consertando as patas das andorinhas, devolvendo os peixes à água e mostrando aos huguenotes como é inútil uma religião que fala do céu mas impõe preços extorsivos pelos cereais que cultivam:

“Em seguida, o Bom visitou o campo; entristeceu-se com a pobreza das colheitas, mas ficou contente ao saber que, em compensação, o ano havia sido bom para o centeio.

“Fazer a caridade, irmão, não quer dizer baixar o preço”.

Denunciando a hipocrisia dos grandes industriais que apregoam seu apreço pelo valores “da nossa tradição cristã”, mas criam barreiras de protecionismo aos produtos dos países subdesenvolvidos ao mesmo tempo que depreciam os preços das suas matérias primas, Calvino não poupa simultaneamente a ciência moralmente neutra, que como a tecnologia contemporânea tanto pode levar o homem à lua como cair sobre milhares de seres humanos em Nagasaki e Hiroshima.

“O mestre carpinteiro enchia-se de angústia:”Será que dentro de mim existe apenas essa maldade que me leva a só conseguir fazer máquinas cruéis?” E no entanto continuava a construir e inventar, com zelo e habilidade, outros tormentos”

Frequentemente, a veia literária cria cenas de maravilhoso sopro poético, como no duelo final de madrugada entre as duas metades, o Bom e o Mau Viscondes:

“Era um alvorecer esverdeado; no prado, os dois delgados duelistas negros estavam firmes, com as espadas prontas. O leproso soprou a trompa: era o sinal. E então o céu vibrou como uma tensa membrana, os arganazes em suas tocas enterrava as unhas da terra, as pegas, sem tirar a cabeça de baixo da asa, arrancam dolorosamente uma pena da axila, a boca da minhoca comeu a própria cauda, e a víbora picou-se com seus próprios dentes, e a vespa quebrou o ferrão na pedra, e todas as coisas se voltavam contra si mesmas, os poços gelaram, e os líquens se transformavam em pedra e a pedra em líquens, a folha seca virou areia, e a goma espessa matava as árvores, sem salvação. Assim o homem joga-se contra si mesmo com uma espada em ambas as mãos.”

Caindo um sobre o outro, as veias jorrando sangue, os dois Viscondes, no final desta maravilhosa alegoria, são cosidos novamente pelo Dr. Trawley, “com um quilômetro de ataduras”.

Os outros livros que completam a trilogia têm o mesmo encanto e a mesma visão filosófica arguta e profunda dos homens e suas contradições, seus fogos-fátuos e sua natureza até hoje imutável por todos os regimes políticos e religiões. Mas sobretudo em O Barão Rompante – o mais longo dos três romances – é que a graça elegante de Calvino se faz sentir mais amplamente. O barão que faz seu lar nas árvores, Cosimo, acomoda em seu reino arbóreo nobres da Espanha exilados por um rei injusto: “Despedindo-se de Don Frederico, Cosimo foi levado pelo padre Sulpício par fazer uma visita aos vários membros da colônia, em suas respectivas árvores residenciais. Todos esses fidalgos e damas assumiam, embora a falta de comodidade em que se encontravam, poses e atitudes habituais. Alguns homens, por exemplo, para manterem-se montados nos galhos, usavam selas de cavalos, e isso surpreendeu agradavelmente Cosimo, a quem em tantos anos, jamais ocorrera tal sistema (utilíssimo para evitar a estafa – conforme logo notou -, pois eliminava o inconveniente de se manter sempre as pernas suspensas, o que dá cãibras). Alguns usavam binóculos da Marinha (e entre eles um tinha a patente de Almirante), que provavelmente serviam para olharem-se entre si, de uma árvore para outra, para bisbilhotar e mexericar. As senhoras e senhoritas sentavam-se em coxins por elas mesmas bordados, entretidas em sua costura (eram as únicas pessoas, aliás, que faziam algum trabalho) ou acariciando gordos gatos… Nessa espécie de pequenos salões arbóreos, Cosimmo foi recebido com uma grave hospitalidade. Ofereceram-lhe café e, logo em seguida, começaram a falar dos palácios que haviam deixado em Sevilha e Granada e dos seus domínios e bosques e celeiros e escuderias, convidando-o a visitá-lo um dia, quando tivessem retornado a seu país e propriedades…”

Cosimo, como Rousseau, o filósofo suíço, preocupava-se com a criação de uma sociedade justa e esboça um “Projeto de Construção de um Estado ideal a ser criado sobre as árvores”, uma imaginária República Arbórea onde a humanidade viveria feliz. Dedica seu trabalho ao enciclopedista francês Diderot, que “agradeceu com um bilhete”.

Encontra soldados russos que perseguem Napoleão. Hussardos franceses que combatem os soldados austríacos dirigidos por um oficial poeta que recita versos como incitação ao combate. Chega a dialogar com um militar russo melancólico, que detesta a guerra: é nada menos que o príncipe André, do romance Guerre e Paz de Tolstoi, que Calvino insere em sua história do paradoxal Barão, que se isolava da humanidade que adorava, colaborando com os revolucionários franceses para abolir a nobreza de Gênova e escrevia do alto das árvores um “Projeto de Constituição Republicana, seguida da Declaração dos Direitos dos Homens, das Mulheres, das Crianças, dos Animais Domésticos e Selvagens, bem como as Plantas, sejam as de Grande Porte, sejas as Hortaliças e Ervas”, um excelente trabalho, que, no entanto, foi ignorado por todos os governantes.

Se O Visconde Partido ao Meio simbolizava a própria humanidade, o ser humano dilacerado entre seu lado que produz um Hitler e outro que produz um São Francisco de Assis, a colocação numa época remota servia de pretexto para o autor criticar uma ciência destrutiva, uma religião obcecada pelo lucro e os ancestrais dos povos do Terceiro Mundo à mercê de senhores cruéis e todo-poderosos. Mas o Barão, habitante das árvores e filósofo do amor à humanidade, à erudição e à transformação social tão próximo dos Enciclopedistas franceses que intelectualmente prepararam o campo para a Revolução de 1789 e a Queda da Bastilha, reflete melhor a sua própria posição de misantropo temeroso do mal que o homem pode fazer ao seu semelhante convivendo com o idealista que deseja fazer o bem ao seu próximo e cogita de meios capazes de trazer a fartura e a justiça à Terra, sem encontrá-los no final.

Admirável escritor, finíssimo estilista cuja virtuosidade as inexatidões da tradução brasileira não permitem refletir integralmente, Italo Calvino, é o personagem mais fascinante de suas histórias, o mago que agita nos bastidores os cordéis dessas figuras exemplares da sua concepção de vida contrária a violência, favorável à democracia, alérgica a qualquer totalitarismo limitativo da liberdade humana. O direito à liberdade é para ele um direito tão intrínseco e inalienável quanto a fé do Cavaleiro Inexistente, tão inteiriço quanto o Visconde recosido, tão individualista que leva seu Barão a fugir do convívio com a tirania. Partigiano combatente do Fascismo, autor de mirabolantes contos de ficção científica, Calvino vem com esta soberba trilogia reator os laços com o humanismo culto da Itália de Boccaccio e colori-lo de uma graça cavaleiresca mais próxima dos séculos que produziram o Renascimento e sua forma moderna de reavivar o interesse pelo ser humano que novamente passa a ocupar o centro da criação numa época cheia de efervescência artística e cultural, alicerce da sociedade moderna.

Como que explodindo a literatura meramente social, Calvino vem confirmar que o social é um dos elementos integrantes, mas não o único do riquíssimo caleidoscópio que a literatura apresenta ao homem e nela se espelha. É a sua própria poesia, aliada a seu calor humano e à sua pregnância intelectual e filosófica, que torna indispensável a leitura destes três singulares excêntricos ao leitor que quiser descobrir uma das literaturas mais pujantes e mais interessantes da Europa contemporânea. Ela chega ao Brasil em um de seus autores mais prodigiosos, 11 anos depois do furor que causou na Itália e paulatinamente nos outros países cultos. O leitor inteligente tem um encontro marcado com este Visconde simbólico da bifurcação humana, com este Cavaleiro que existe só pela fé de servir uma causa santa; e com este Barão arbóreo, irmão gêmeo de Rousseau e Diderot, com uma pitada inglesa de humor e uma dimensão trágica mesclada à comicidade espanhola de um Dom Quixote alijado de seu reino ideal.

Vamos falar sobre a tradução.

Como sempre, o único senão que o leitor brasileiro vai enfrentar ao descobrir, maravilhado, a riqueza e profundidade desta trilogia única em toda a literatura europeia do pós-guerra é o obstáculo da tradução, brasileiramente desigual, do jornalista Joel Silveira. É verdade que desta vez Joel Silveira não cometeu os mesmos erros arbitrários, as mesmas impropriedades que desfiguraram para o público brasileiro a obra-prima do romance argentino atual, Boquitas Pintadas, de Manuel Puig. Mas o balanço é melancólico. Enquanto o Brasil tem o privilégio de encontrar no trabalho devotado, de anos a fio, do diretor do Instituto Cultural Italiano de São Paulo, professor Bizarri, o melhor intérprete de Guimarães Rosa – revelando-o numa tradução estilisticamente perfeita, ao leitor italiano – esta obra-prima do romance italiano moderno sofre bastante nas mãos de seu inepto tradutor brasileiro, particularmente o Barão, de fôlego mais prolongado. Já o título é uma aberração. Em italiano Il Barone Rampante nada tem a ver com o adjetivo “rompante”, definido pelo Dicionário Caldas Aulete como “arrogante, precipitado” ou que “denota orgulho, altiveza”, defeitos que de forma alguma condizem com o amável barão arbóreo, conforme melhor traduzido em inglês. O tradutor apresenta uma série de incorreções, à escolha do leitor: erros de concordância: “quando estiveres se balançando no ar, estará em território meu” (p.28); “Não, Mino, me leve… Não deves ficar… (p.34). Joel Silveira chega a criar formas verbais novas. Como o imperativo:”Dizes tudo o que queres que eu faça” (p.28). “Escute, vê se apanhas um cobertor” (p.36). “Logo meu irmão se viu assim ensacado, sem mesmo compreender como, e de tal maneira que lhe podiam amarrar com um salame” (p.61). “Perguntou o Marquês de Osdavira, aparecendo solenemente na escadaria da vila, de uniforme e barrete, o que lhe fazia esquisitamente semelhante ao Cavaleiro Advogado”; “a firme determinação de litigar com os vizinhos”. Litigare é brigar, ao passo que litigar é questionar em juízo, entrar em litígio jurídico (p.62). “Tinhas razão, cidadão Rondó: dê-me a constituição…” – uma confusão de tratamento entre tu e você demasiado frequente para ser atribuída ao erro ou inventividade do tipógrafo ou ao cochilo proverbial da revisão (p.268). “E como que tomados de fúria, todos começaram a empurrar a menina para a carruagem” (p.67). Furia quer dizer pressa e não fúria, da mesma forma que em outros trechos, do Visconde (p.111), outros italianismos pululam: “juntamente com Esaú, embora esse nunca se fizesse ver”. Farsi vedere significa aparecer, mostrar-se. “Entenda-se com a minha mãe, recomendo-lhe” (p.110). Mi raccomando quer dizer aconselho, preste atenção, olhe lá etc. O mal de coração (p.89) é uma dor no coração ou uma doença no coração. “A ama avançou em passos lentos” (p.48) deve ser “a passos lentos”. “Havia renunciado às prerrogativas do seu título em favor do único filho macho” deveria ser “filho varão” etc., etc. Felizmente as incorreções são menores do que na tradução de Boquitas Pintadas e permitem sem excesso de irritação que o leitor saboreie as histórias insólitas de Calvino. Afinal, nada se exige do tradutor no Brasil, desde que ele não reclame das remunerações pífias que recebe: o leitor reclamará para quem? O livreiro não devolverá seu dinheiro porque a tradução é falha, o editor não tem interesse em melhorar o nível de pagamento dos tradutores – portanto, instaura-se um círculo vicioso inexpugnável: temos más e até péssimas traduções porque temos tradutores incompetentes e mal pagos, e por eles serem mal pagos temos traduções incompetentes, variando de más e horrendas.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Italo Calvino .” In Perscrutando a alma humana: A literatura italiana do pós-guerra, edited by Fernando Rey Puente, 8:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.