Mário Chamie. Meditações sobre a falta de liberdade

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1986-04-12. Aguardando revisão.

Afinal, nenhum dos poetas oficiais de qualquer esquerda irrompeu, neste Brasil pós-1964, com a veemência lúcida e o dizer patético e eloquente deste mais recente livro de Mário Chamie. A Quinta Parede, Editora Nova Fronteira, enfeixa em suas sóbrias 154 páginas uma das mais cristalinas e apavorantes meditações poéticas sobre a falta de liberdade. Neste país em que se esquece a tesoura da censura Buzaid-Falcão, como se deixa impune um ex-ministro da Justiça como Abi-Ackel, os poemas aqui contidos falam com uma linguagem incendiada de escárnio e ódio paradoxalmente sereno, de um longo período de falta de liberdade. Sem pretender fazer uma poesia “engajada”, Mário Chamie no entanto se revela, íntegra e integralmente como um secreto guardião da palavra. Proibida, mutilada sussurrada, sufocada, a palavra varou a noite, luta ainda contra os obscurantismos soezes, e o poeta não a celebra como se fosse um réquiem: não, é com cólera que ele a resgata dos porões dos gritos, do sangue e da morte:

“Mesmo que seja

esta palavra

o visgo e o cuspo

que seca e mata,

cuspo o ferro e a baba,

atrozes balas

de minha mira

na ponta de vossa ira.”

Assumindo uma dimensão dramática, personagens se alternam no falar, como o Sacerdote, o Analista, o Operário, o Soldado; na maioria das vezes se opõem a um pano de fundo viscoso, vil, o dos “conchavos viscerais”, da “Pátria dos Costumes”, que simbolizam a imobilidade, a Inquisição, a interdição do exercício da inteligência e da própria meditação que precede a criação artística ou científica. O autor consegue momentos de rara comoção quando se desarma a si mesmo e se revela numa estrutura plural:

“Os outros que eu sou”, rompendo a muralha da separação entre um ser humano e outro e erguendo em seu lugar, ao contrário, uma sólida corrente de solidariedade.

Mesmo a concisão das parcas frases do primeiro monólogo do Sacerdote, por exemplo, já emociona pelo recalque de qualquer palpitação vital, verídica, nessa figura que se aprisiona na submissão, surdo à sua própria consciência:

“Recebo o sopro, o ruído de folhas novas

e o bafo do velho testamento.

Folheio o drama do tempo:

deixo os cabelos crescerem sobre a tonsura.

Raspo a barba do desejo

na lâmina desta censura.”

O Tempo e suas mudanças culturais, políticas, sociais e de costumes desempenham um papel crucial para cada personagem e para as próprias tradições que se querem perpetuar como forças dominantes. Assim, se ao religioso cabia, na belíssima metáfora, apenas não se imiscuir e “folhear o drama do tempo”, para o Analista, naquele que talvez seja o mais perfeito poema desta coletânea, “o tempo é meu paciente”. E aqui as imagens adquirem um significado pungente, ainda latejante em nossa memória: o paciente não é um neurótico a despejar angústias e traumas em algum divã freudiano, reichiano, junguiano; ele é, no sentido da sua raiz latina original, o patiens, isto é, aquele que sofre. Que sofre a tortura da dilaceração membro a membro, na medonha confusão de carne e humano sentimento:

“Cortei o seu corpo

em mil pedaços

e me contemplo

em seu regaço.”

Paciente e analista, torturado e algoz imbicados na massa amorfa em que o horror não se distingue mais da fria autópsia ou da douta vivissecção:

“Havia o vermelho

do sangue

em cada osso.”

Até a verificação derradeira em que a pasta dos nervos se revela pelo que é: a somatização de sentimentos humanos sempre disfarçados ou recusados.

“… Era o vermelho do susto

e da mágoa em seu refúgio”

Será inútil sonhar com um convívio da justiça com a liberdade? O jogo é de antemão de cartas marcadas e portanto invencível? A “Pátria dos Costumes”, sábia, maquiavélica, monstruosa em seu desejo de imutabilidade sob a aparência de metamorfose retórica se limita a pedir pouco e tudo:

“Peço-vos a baba do cão

que não se sabe preso.”

Mas de que serviria o poeta, áuspice dos acontecimentos futuros conhecedor do significado secreto da época, essa que é uma das mil faces do tempo, se ele não guardasse também a lembrança do que foi e que não pôde ser dito então e que tem de ser evocado agora?

“Para o que for e o que foi

não vos lembro o medo do passado

a fúria da tortura

que se embaa nos olhos

do afogado…”

E o que assegura o poeta: a docilidade? O conhecimento das regras de um jogo de embustes? O poeta, desassombradamente, é o que traz ânimo a todos que duvidam ou se entregaram à inércia da desistênci diante de qualquer veleidade de alteração:

“Ao contrário

eu vos digo sim

do fundo deste naufrágio”

Torna-se rica a interpretaão destes poemas se se altera a ordem em que são lidos e se as falas do Analista ou do Sacerdote passam a estar alinhadas, saltando páginas. Assim, quando na sua auscultação do morto-vivo o esudioso das alma constata: “Toquei a mancha do soco/ na boca do meu estômago”, em seguida sua análise se aprofunda: se “corria o rio seco/ dos coágulos”, esse era o mapa de uma geografia do horror:

“Eram feridas

as ihas do arquipélago.

Tomei ao largo o barco

do meu exame.

Mortas abelhas do medo

formavam o meu enxame.”

E mais adiante, em outros versos, a sua anatomia será, cada vez mais nitidamente, uma identificação inextricável entre quem sobre e quem contempla. Atingindo um dos ápices de sua criação poética nesse longo e coerente itinerário de poesia cosida junto às entranhas do social ou, em outros termos, do próximo, Mário Chamie faz o Analista dizer:

“Desci com olhos de águia

no vácuo do coração.

……………………………….

Percebi que lendo eu lia

com meus olhos de morcego

vosso cego alfabeto

pelo avesso de meu texto.

Eram ruínas de letras

com seus sóis de despropósitos…”

Até o reconhecimento derradeiro de que nem os corpos se distinguem mais um do outro:

“Nem o baixo desse relevo

Vinha à tona do meu corpo

Se o meu corpo era o seu todo”.

O Tempo e a Palavra Proibida são também ritmos desse canto: eles é que impõem aos personagens e a seus contendores da inércia impune e exporadora momentos mais ou menos lentos, de maior reflexão ou de afrouxamento da interiorização muda. Quem observa se contagia dessas premissas, o passar do tempo e a prisão ou liberdade das palavras. Usando uma linguagem dura, onomatopaica, voluntariamente rígida e cacofônica, o Analista nota que:

“Um marulho de pedregulhos

triturava esse idioma.

Com garatujas de lesma,

pus pedras em minha boca,

formigas em minha língua

para o murmúrio das sílabas.”

Explodindo a declaração fundamental, o sol negro dos tempos silentes:

“Eu era o tempo sem palavras”.

Essa suprema desumanização, a fase do não, é idêntica a um deserto sem oásis: sem a palavra dita nem gravada em hieróglifos nem no mármore, a proibição se estende sem fronteiras: do sexo à comunicação entre uma pessoa e outra, do conhecimento aos argumentos. Os donos da imutabilidade conseguem transformar as vísceras das coisas: o côncavo vira convexo, o que é necessário é “o sossego na assembléia do infortúnio sem desavença”. Que o povo sem pão lamba as feridas e se dê por contente. Esta é a palavra final dos tempos que ocorrem e dos tempos de ontem? Mas a palavra do poeta não tinha sido, absurdamente, de alento? Sim, os dois versos finais enveredam pela mesma loucura que violenta a lógica:

“e eu ruminava o discurso

das esperanças do mundo.”

Contra a sabedoria cautelosa do status quo a insanidade de uma esperança aos frangalhos e desprovida de retórica, mas uma esperança que penetrou a medula dos que sofrem e esperam, traídos, adulados, enganados, esperam.

Mais até do que em sua obra anterior Plenoplenário, Mário Chamie amplia com mais engenho semelhante a um vasto painel vivo, com a palpitação humana, solidária de Lavra Lavra Lavra e Indústria.

Creio que certas soluções, a meu ver fáceis, não empanam esse afresco soberbo em sua totalidade, como os versos descartáveis pelo insistente e vazio jogo de palavras que representam dentro de um longo poema épico como na realidade é esta Quinta Parede:

“Na divisa

que me intimida

não duvido

da tua dúvida

nem divido

a nossa dívida

já dividida”.

São, parece-me, adiposidades podáveis, senões de um poeta que com força crescente se afirma, a cada livro, como um dos poetas que mais soberanamente aliam a emoção da denúncia social à percuciente análise intelectual das estruturas econômicas que nos dominam. Seria injusto não reconhecer também, abertamente, que estes poemas denunciam, simultaneamente, os totalitarismos de esquerda ou direita, sem adotarem nunca uma posição morna, em cima do muro. Como os poetas renascentistas de um mundo tumultuado de terras por descobrir, o poeta brasileiro aqui, mais uma vez, se antecipa a um porvir que só aos vates é dado divisar: nas palavras de Shelley: “os poetas são os desconhecidos legisladores da humanidade.”

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1986) 2022. “Mário Chamie. Meditações sobre a falta de liberdade .” In Poetas brasileiros contemporâneos, edited by Fernando Rey Puente, 4:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.