Virginia Woolf. Anotações vívidas de uma estilista perfeita

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1986/12/27. Aguardando revisão.

Pobre Virginia Woolf! A maioria dos tradutores brasileiros passou com o trator de sua incompetência sobre seus jardins literários mais requintados como To the Lighthouse (Viagem ao Farol). Sua prosa cintilante de inteligência, wit e sensibilidade matizadíssima virou uma polpa pegajosa.

Agora, a vetusta Biblioteca Britânica adquiriu um original de 77 páginas escritas em 1940 pela extraordinária autora de Mrs. Dalloway e The Waves e só arrematadas em 1980. Este acréscimo inesperado e suas notas autobiográficas vem completar o que faltava na edição de Momentos de Vida sob o título de Um Esboço do Passado e ilumina ângulos novos da personalidade dessa escritora que revolucionou a literatura e a crítica literária inglesas, fortemente influenciada por Proust e o pós-impressionismo francês.

Cuidadosamente, como quem percorre um jardim íntimo, cujos labirintos misteriosamente se comunicam com os salões de discussões literárias da elite pensante inglesa no período da Segunda Guerra Mundial, levantam-se pistas aqui e ali. Todas ou quase todas ensombrecidas pela tristeza resignada de Virginia Woolf diante de sua infância e adolescência tiranizada por um pai arrogante, choramingas, autoritário e odiado/amado, o intelectual Leslie Stephens. Uma parte importante destas notas retrata, desconsoladamente, o inferno da vida familiar, o desamparo, a fuga para a introspecção e a literatura:

“Nossa vida era organizada com grande simplicidade e regularidade. Parece dividir-se em dois grandes períodos, não repletos de acontecimentos, mas de certa forma mais extraordinariamente naturais do que qualquer outro, pois nossos deveres eram muito simples e nossos prazeres absolutamente banais. A terra nos dava toda a satisfação que desejávamos. Um período era passado dentro de casa, na sala de visitas e no quarto de brincar, e outro nos Kensigton Gartens (parque de Londres)”.

Os acontecimentos que se desenrolam na parte inicial deste manuscrito são sombrios. As mulheres desempenham um papel de liderança que vai da mãe, uma beleza conhecida como tal em toda a Inglaterra, à irmã de Virginia Woolf, Vanessa, que também herdara do lado materno uma beleza de escultura grega; e Stella, a irmã “feinha”, desajeitada, sem imaginação, mas tocantemente dedicada à família e aos caprichos irritantes do pai, escroque emocional. A morte preside a quase todos os episódios dessa primeira fase. E a esplêndida autora inglesa reitera as intuições em seus livros de ficção – fortemente calcados na realidade que observara com cristalina precisão: “Nossas vidas são pedaços de um desenho”. Um desenho que ela tentava decifrar como quem ajusta um mosaico ao lado de outro. Temas de suas novelas reaparecem com frequência: a pintura, de desempenha um papel sutil em Viagem ao Farol como captação artística imperfeita de aprisionar o fugidio júbilo de um instante feliz. A morte sempre a morte – que ela enfrentara, já pessoalmente, em sua primeira tentativa de suicídio, e a morte de pessoas que puseram fim a suas vidas, como o soldado traumatizado pela guerra, em Mrs. Dalloway.

Conquanto estar páginas arrancadas do esquecimento e do pó de bibliotecas trancadas sejam vitais para completar a monumental biografia de Virginia Woolf que dela fez seu sobrinho Quentil Bell, dobra um sino remoto no coração destas linhas: “O efeito da morte sobre aqueles que continuam vivos é sempre estranho, e muitas vezes terrível, pela destruição de desejos inocentes”. Até a presença aureolada de encanto e ação prática da mãe desiludida de Deus aparece envolta como que na mortalha de uma fatalidade que não nos deixa escapar, façamos os esforços que quisermos, das malhas de uma melancolia a que estamos a priori condenados:

“Fazia visitas aos pobres, cuidava dos moribundos e sentia-se, afinal, dona do verdadeiro segredo da vida, que ainda não é conhecido por alguns, mas que cedo ou tarde virá a sê-lo: que a tristeza é aquilo que nos cabe na vida, e o melhor que podemos fazer é enfrentá-la com coragem”. Esse estoicismo de muitas décadas é absorvido pela filha que concebe a existência humana como uma proposição grega: o destino brinca conosco, a seu bel-prazer a deusa da Fortuna ora bafeja um, logo o deixa cair e não há como escapar, pois o livre-arbítrio é uma dolorosa ilusão: “O destino, que algumas pessoas acusam de fazer o que quiser com as vidas humanas…”

Virginia Woolf, que precocemente indagara Why live? (Para que viver?) e descobrira sob o mais belo e perfumado bouquê de rosas um escorpião mortal à espreita, tem sempre, mesmo nos supremos momentos de sua requintadíssima mestria artística, uma filosofia trágica. A mãe, por exemplo, “se mantinha extraordinariamente atenta a todas as mudanças que aconteciam à sua volta, como se ouvisse continuamente o tique-taque de um imenso relógio e nunca conseguisse esquecer que um dia ele ia parar para todos nós”. Ela outorga à mãe uma noção clara da futilidade de tudo, como um poeta barroco que deprecasse a vaidade estulta de tudo que breve perecerá no pó e no esqueleto. O que é a vida, afinal? Vista de forma completa (era) “composta de tolos, palhaços e rainhas maravilhosas, uma enorme procissão caminhando para a morte”. E de forma arrebatadora explodem linhas adiante, as reflexões céticas até chegar à borra da amargura:

“‘Vamos aproveitar ao máximo o que temos, pois não sabemos o que o futuro nos reserva’, era a razão que a levava a lutar incessantemente em nome da felicidade, da probidade, do amor; e os ecos melancólicos respondiam: ‘Que diferença faz?’ Talvez não haja futuro”.

Estas notas, porém, não se limitam às fases depressivas da escritora que, finalmente, vítima de suas crises nervosas agravadas pelos bombardeios nazistas sobre Londres, resolveu suicidar-se, costurando pedras pesadas nos bolsos de sua saia e se atirando a um rio próximo de sua casa – e deixando a seu fiel companheiro Leonard Woolf, talvez o mais sóbrio e eloquente bilhete de amor que um ser humano pode legar a outro.

Há também a Virginia Woolf do famoso grupo de Bloomsbury, com a elite pensante daquele Império Britânico, com resquícios vitorianos ainda, que lentamente entrava em declínio, dizimado pelas guerras mundiais e pela perda de suas colônias. As conversações do grupo não poderiam ser mais fascinantes, personagens magníficos como Henry James são retratados em seus aspectos de bondade natural, de preocupação com os outros, as discussões com Arnold Bennett (que no Brasil seria um dos rançosos “membros da Academia Brasileira de Letras”, convencidos da sua imortalidade como de seu valor intelectual) são trocas de ironia civilizadas:

“Desculpe, Sra. Woolf – disse ele –, por ter falado mal de seu livro a noite passada…

Gaguejava. E eu respondi com toda a sinceridade:

Aquele grupo excêntrico de intelectuais estaria na realidade organizando orgias para as quais era necessário que se chamasse a atenção da polícia? Ou quem sabe era uma seita satânica, dedicada a horrendas missas negras?

O grupo de Bloomsbury, com todo o seu esnobismo, discuta horas e horas sobre absolutamente tudo: Platão, Gauguin, sodomia, Proust, sobre a natureza do bem. Enquanto isso, se sucediam os chás com ladies hospitaleiras, visitas a galerias de arte, discussões francas sobre o papel do erotismo nas obras de D. H. Lawrence, encontros com o grande matemático e anarquista iconoclasta Bertrand Russel, que detestava o mito do trabalho como elemento enobrecedor do homem como um mero pretexto das classes dominantes para explorar os assalariados sem escolha; sucedem-se os mexericos entremeados com a efervescência intelectual, Virginia Woolf pronunciando conferências sobre mitologia grega para operários de fábricas…

Ler estas anotações vívidas da mais perfeita estilista da literatura inglesa em prosa de todos os tempos, talvez, é aspirar o perfume de um passado e revivê-lo na memória saudosa e arquejante. É como encontrar um sinal sutilíssimo do tempo em meio às páginas amarelecidas de um álbum de fotografias tiradas há muito tempo. Que maravilha!

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Virginia Woolf. Anotações vívidas de uma estilista perfeita .” In As três grandes damas da literatura europeia: Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar e Doris Lessing, edited by Fernando Rey Puente, 7:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.