A tardia descoberta de um polêmico escritor português

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1983-11-12. Aguardando revisão.

O Brasil e Portugal vivem de costas um para o outro, décadas a fio. É ocioso esmiuçar as razões deste surrealista alheamento: a ditadura fascista de Salazar? Mas tínhamos uma ditadura fascista de Vargas aqui. A intensiva colonização cultural norte-americana no Brasil? No entanto, os grandes escritores franceses e italianos do pós-guerra, sem falar nos ingleses e até alemães, coexistiram com a recente enxurrada de esplêndidos escritores hispano-americanos: Virgínia Woolf, Doris Lessing, Ítalo Calvino, Pavese, Pasolini, Proust, Musil que só conhecemos tardiamente em traduções brasileiras.

Foi um trabalho sutil mas eficiente de lusofobia: primeiro, para extirpar toda e qualquer influência cultural portuguesa, nós, com complexos de ex-colonizdos politicamente, começamos a macaquear, com resultados frequentemente ridículos, um romantismo aguado que Mme. de Staël conseguia nos filtrar da Alemanha; depois veio a imitação servil e igualmente inautêntica de todos os “ismos” parisienses importados. E toca Olavo Bilac a insuflar carnalidade a um parnasianismo granítico de Leconte de Lisle. E aí de nós, não é que um “preto” (credo!), Cruz e Souza, da louríssima Santa Catarina, desandou a metrificar palavras arrevesadas em louvor de alvas musas simbolistas?…

Mais recentemente, pulamos levianamente toda a magnifica renovação portuguesa (com Teixeira de Pascoais, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro) para atravessar a alfândega, deglutindo-os, antopofagicamente, todos de cambulhada nas malas da Semana de 22, o cubismo, o expressionismo, o futurismo… Golpe de misericórdia: o currículo brasileiro atual eliminou a literatura portuguesa de nossos livros didáticos, com uma noção doentia de nacionalismo: entra Carlos Drummond de Andrade, sai Fernando Pessoa. Até a denominação do estudo do português empertigou-se de cores objetivas e que nada significam: em vez de português passamos a estudar linguagem

Com grande atraso, porém, os brasileiros se dão conta de que a literatura portuguesa não parou com Eça de Queirós e Fernando Pessoa, guru de poucos iniciados. É verdade, como advertia Virgílio Ferreira, que o neorealismo, se se pode generalizar, era pouco digerível: teses políticas rarissimamente dão bons romances, mas era a innere Emigration, a revolta surda dos portugueses que à semelhança dos autores alemães diante de nazismo, se recolhiam a barricadas anti-salazaristas, franco-atiradores a disparar contra uma estrutura fascista…

Agora, planetariamente interdependentes que somos, percebemos, (não será tarde?) que a literatura portuguesa moderna é das mais vivas dentro daquele célere Crepúsculo dos Deuses literários europeu, com fogos de artifício e marcha fúnebre. José Cardoso Pires talvez não tenha passado de todo despercebido daqueles que ainda leem autores portugueses, dissociando inteligentemente a cultura da política. Ou será esse Cardoso Pires um colonizador de Angola, agente da Pide, polícia secreta temível do salazarismo, a torturar os resistentes ao domínio lusitano em Luanda? Ao contrário, é um marxista consequente, mas de modo algum (por que, senão, como seria consequente?) dogmático: crê no socialismo pluralista, democrático. Será por isto que ele não agrada tanta gente? Afinal, denunciar as mazelas de um regime ditatorial e seus delatores não é “sujar o prato em que come”? A mesma onda de indignação burguesa se levantou contra Thomas Mann quando ele revelou a ponta do comercialismo antiartístico de Luebeck, na sua Alemanha natal? “Enodoa o próprio ninho”, declaravam, indignados, os defensores do status quo lânguido da Alemanha de então. Ato contínuo: Hitler.

O autor português fez, há anos, uma breve incursão pelo mecado editorial brasileiro com seu romance O Delfim que agora a Editora Civilização Brasileira lança, em segunda edição, sem referir-se à data de publicação da 1a. Paciência, é a civilização brasileira.

Dentro da importante renovação literária ibérica (na Europa o sol se põe no Atlântico) contemporânea, José Cardoso Pires tem causado a mais funda impressão. Por sua causa, agitaram-se os meios televisivos, radiofônicos, da imprensa escrita, do Parlamento. Por quê?

Balada da Praia dos Cães (em edição mal costurada da mesma Civilização) é parte daquele tríptico moderno no qual, sem que haja influência mútua nem plágios, três autores exponenciais de seus países focalizaram o crime de gravador em punho: Norman Mailer com seu prisioneiro, Truman Capote com os assassinos de A Sangue Frio. José Cardoso Pires arma um quebra-cabeças político, como Jorge Semprun em A Segunda-Morte de Ramon Mercader. Com uma diferença: Semprun inspira-se em Proust na sua biografia do assassino de Trotsky, no México a mando de Stalin. Cardoso Pires narra, de maneira admirável, o choque de duas esquizofrenias: de fora, a estrutura rígida do fascismo salazarista, sua “lei e ordem”, sua hipocrisia, sua opressão, sua mesquinhez; de dentro, um major igualmente enlouquecido, que com sua amante, um arquiteto e um pobre-diabo de um cabo desertor do Exérccito prepara uma alucinada revolução esquerdista em Portugal. Tudo dentro de uma casa, à espera de apoio e armas que nunca houve e nunca chegarão em seu auxílio para derrubar o ditador. Era a psicose: armar os camponeses e os proletários e, com a parte sã do militarismo, esmagar os corruptos da casta do generalato.

Como já em O Delfim, o epicentro de tudo é um cadáver: aqui os frangalhos apavorantes, patéticos, do major delirante, disputados por uma matilha de cães famintos numa praia qualquer de Portugal.

A école du regard do nouveau roman francês privilegia o aspecto visual das coisas: é em parte o que o escritor também faz, aproximando-se do roteiro cinematográfico na descrição minuciosa de cenas até com tomadas de primeiro plano (close up). E, à maneira de Manuel Puig em El Beso de La Mujer Araña, mescla fontes díspares para compor o seu romance-mosaico: cabeçalhos de jornal, textos de uma revista pornográfica estrangeira, depoimentos de testemunhas na delegacia, orações para que se reproduza na parede a imagem do divino coração, até trechos de uma notícia sobre as ocorrências em Portugal extraídas de um vespertino brasileiro. Será necessário insistir no óbvio de que para o autor o escritor que, sozinho, sabe e dispõe do destino de todos os protagonistas de seu romance acabou? E que os documentos e as declarações também focalizam, cada um à sua maneira, a tragédia central?

Se houvesse dúvidas quanto à grandeza de José Cardoso Pires como criador, bastaria este livro para dissipar as dúvidas dos descrentes. Insere-se no cotidiano das investigações policiais sobre o crime todo um riquíssimo submundo e mundo paralelo das coisas existentes e das coisas sonhadas, delírios mentais ao lado de surrealismos reais. E fica, indelével, inesquecível, a figura do investigador Elias, apelidado de Covas por sua macabra reputação de implacável coveiro de presos políticos. Estes eram seu preferido filet mignon num sinistro menu de torturas e crimes “legais”, em defesa da “Segurança do Estado”. Passeando por Lisboa, Elias contempla a paisagem urbana, da qual o autor retrata o lado apavorante e onírico:

“Do outro lado é que sim, do outro lado, rua da Madalena a descer, é a feira dos ortopédicos. Aí nunca falta que ver nem que meditar.

“Hoje, graças à Ciência, podemos reconstituir as partes mortas do ser humano. Podemos animá-las de energia motora e restituir-lhes as formas e as expressões que foram da sua natureza” - Eminente prof. Hasaloff, de Viena da Áustria.

“Calçada a pico, cada loja com o seu carrinho de inválido exposto à porta como se estivesse à espera da ordem de partida para um rally-surpresa. Vistas do cimo da rua, aquelas cadeiras resplandecentes parecem prontas a rolar a qualquer momento pelo plano inclinado abaixo, ganharem velocidade, altura, e desaparecerem como máquinas loucas sobrevoando os telhados da cidade. Ao pôr-do-sol recolhem domesticamente, mas ficam as montras (vitrinas) iluminadas porque essas são de todas as horas como os sacrários dos ex-votos no caminho de quem passa. Exibem membros articulados, espartilhos dramáticos que lembram palácios de tortura, pescoços de metal, prótese e fundas medicinais. Numa das vitrinas, em moldura de veludo-relíquia, está o professor Hasaloff a proferir as suas palavras redentoras sobre as parte mortas do corpo.”

As polícias, a Judiciária, alcunhada de a Judite, e a Pide, disputam os imputados como os cães a estraçalhar os restos podres do major assassinado por seus companheiros de revolução inexistente. A burocracia detalhista e ociosa, faz crescer os autos, até atingirem a altura de oito grossos volumes repetitivos e monótonos, vazados no estilo fúnebre das polícias totalitárias. Fugindo a essa monotonia de funcionários públicos que não têm muita escolha entre arrancar o sangue alheio e escarafunchar o próprio nariz, há os saltos fantasiosos à la De Sica do autor: como no caso da espécie de coleira, o cabeção, usada pelo major quando se disfarça de sacerdote:

“Um cabeção não é mais que um coleira branca. Dominis canis, coleira de cão divino.

“Ou anel, pensa ainda. Uma espécie de anel de castidade enfiado no pescoço.

“Anel de castidade, hóstia furada, o cabeção que o inspector gira no eixo duma esferográfica é a órbita na qual se suspende o corpo dos padres dese mundo. E eles lá vão: subindo ao céu, gravitando naqueles anéis, rodandos sobre os mesmos muito hirtos, mãos cruzadas sobre o peito, sotainas ao vento, subindo a prumo, subindo sempre, no sentido da eternidade. Todo o planeta está sobrevoado por padres suspensos em cabeções de pureza, a gente é que não os pode ver por causa dos nossos pecados.

“Mas esta coleira que caiu em cima da secretária do inspector traz remetente. Com ela muito bem guardada num envelope a mão da Judite bateu à porta dum costureiro de teatros, Parque Mayer Lisboa, por sinal pederasta e toucado de capuchinho. Reconhecce? perguntou.”

Haverá lugar para uma comoção do leitor diante do monstruoso Elias e sua sordidez vulgar e solitária? Com seu lagarto lazardo que alimenta com insetos e mantém debaixo de um copo; o desejo que sente pela presa política bonita, Mena, a amante do Major hoje morto; a devoção sacrossanta que sente pelas fotografias dos pais e das irmãs mortas; sua luta diária contra os ratos que lhe invadem os móveis, as lembranças, a dignidade:

“Na manhã seguinte quando acordar na presença das imagens veneradas, falecida irmã, falecidos pais, quando passar revista às ratoeiras que deixou de sentinela por toda a casa e as vir inúteis e humilhadas e encontrar móveis de família passeados de cagadelas insultuosas, quando, enfim, se aproximar do reduzido condado do Lizardo e der de caras com o Tejo a saudá-lo, Elias só guardará dessa noite a nódoa que lhe assinala o pijama masturbado. Uma lágrima crestada que ele irá lavar à torneira”.

Que haveria muitíssimos mais trechos desta obra-prima que ressaltar, o leitor intui, para divulgar e meditar a importância e a profundidade da renovação que José Cardoso Pires traz seja ao romance seja à condição humana, seja aos anseios políticos. Em conversa com um dos assassinos do Chefe dessa Conspiração-que-Nunca-Houve, o arquiteto Fontenova confidenciou-lhe com trágica lucidez:

“Eu creio que o medo é uma forma dramática da solidão. Uma forma limite também, porque corresponde à ruptura do equilíbrio do indivíduo com aquilo que lhe é exterior. Mas o pior é que essa ruptura acaba por criar uma lógica de defesa, eu pelo menos apercebi-me disso, a lógica do medo vai estabelecendo certas relações alienadas de valores até um ponto em que se sente que o medo se torna assassino”.

A estas reflexões como que saídas de um ensaio de Camus, José Cardoso Pires acrescenta, em sua sóbria “Nota Final”:

“Então como hoje ele (o arquiteto) sabia que na sua tragédia individual existiu uma parte maior de erro colectivo; que as sociedades de terror se servem dos crimes avulsos para justificarem o crime social que elas representam por si mesmas e que em todos esses crimes a sua mão está presente, em todos.”

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1983) 2022. “A tardia descoberta de um polêmico escritor português .” In Redescobrindo Portugal: Perfis e depoimentos de alguns escritores portugueses, edited by Fernando Rey Puente, 6:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.