Entrevista - Toni Morrison e os negros da América

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1990/11/08. Aguardando revisão.

Na realidade, o amor que eu sentia pela extraordinária escritora de cor, a norte-americana Toni Morrison, já vinha entre cada linha e cada fala de seus personagens em livros líricos, nada ortodoxos, vibrantes como Tar Baby, Song of Solomon e Beloved. A incendiária e controvertida entrevista que dera em duas páginas à revista Time em 1989 dividira os EUA entre os que a defendiam e os que a achavam exagerada. 300 anos de escravidão a incitavam a escrever sobre seu povo, menos do que com a pesquisa, mais com a imaginação poética e uma sutilíssima sensibilidade. Há trechos da revolucionária prosa de Toni Morrison que têm o mesmo impacto das canções plangentes de Billy Holliday, em sua voz toda tristeza e abandono.

Pergunto-lhe se o sonho idealista de Martin Luther King, o supremo líder negro, de ver uma América de brancos e negros irmanados e livres de preconceitos ruiu como um prédio ou uma ideia condenados. “Seu ideal sofreu muito desde que foi formulado até hoje”, ela explica, paciente. Para ela, desde então surgiram áreas de indiferença por parte dos brancos e de desespero dos negros. Mas continuam a existir os que estão horrorizados com a situação atual e outros que dariam a vida para modificá-la, acrescenta. Várias práticas legais, vários hábitos sociais daqueles 30 anos até hoje diluíram-se, tornaram-se símbolos esvaziados de qualquer conteúdo. Secaram muitos ramos da assistência social aos negros mais pobres, com o corte das verbas do Welfare; outras fontes de ajuda financeira desapareceram também nas duas últimas décadas. De modo que “os supostos beneficiários jamais produziram uma segunda geração”, pela evaporação das verbas. A situação que daí se deriva é igual a de uma ponte semiconstruída sobre um rio caudaloso. Todos dirão vendo-a: ” Mas não se pode passar por ela de uma a outra margem, ela ficou fragmentada!” Sim, ela concorda, essa parada se deve em grande parte aos problemas econômicos agudos da sociedade norte-americana: o meio milhão de brancos sem teto, espalhados, maltrapilhos, pelas ruas de Nova York e outras metrópoles foram os recipientes da ajuda governamental, não há dúvida.

E Miss Morrison dá números monstruosos para apoiá-la: depois da administração Carter, aquele tradicional 1,5 % da população total que controlava 26% da riqueza do país, quando terminou a presidência de Ronald Reagan, de 8 anos, passou a deter 6% a mais do que já tinha em mãos. Daí a falta de verbas para cursos especiais para os negros, de moradias, o que se transforma numa acusação pessoal contra os negros por serem pobres. Os que discordam dela acham que as medidas tomadas de cima eventualmente beneficiarão os negros desfavorecidos na escala social. Ela, ao contrário, acha que é preciso aumentar o dinheiro para combater o analfabetismo, a “indústria” das drogas, as doenças que dizimam os guetos negros e os impedem de se desenvolver plenamente. “Como enfatizou Buckminster Fuller, a dívida para acabar com esses problemas é infinitamente menor do que a dívida para se criar e se manter uma sociedade onde predominam a violência, a falta de opções, a insegurança geral”. Mesmo as camadas de cor que ascenderam em termos de dinheiro, de poder aquisitivo, nada contribuem para melhorar esses males, identificam-se com os valores da sociedade branca majoritária, perdendo sua própria identidade, identificando-se como outra classe social.

Ela não vê a diáspora africana escravizada como um holocausto comparável ao dos judeus e outros grupos nos campos de concentração alemães durante o período nazista. Sim, foi um genocídio, é claro, com um total de 60 a 200 milhões de negros que morreram nos navios negreiros, nas plantações ou não resistiram à vida crudelíssima que lhes era imposta por seus “donos”. Mas nota diferenças: no caso da escravidão, os “proprietários” estavam comprando capital produtivo, de graça praticamente, e sem ter que arcar com os filhos dele, ou a esposa, a não ser no caso de garanhões mantidos apenas para reprodução de mais escravos.

O direito do comprador era ilimitado: podia-se violar e até matar quem bem se quisesse: não havia ninguém que se opusesse às práticas mais hediondas.

Quando lhe conto que uma sensível amiga norte-americana me disse, desalentada, que cada vez que vai aos EUA adquire a certeza já quase inabalável de que o racismo nos Estados Unidos é insolúvel. “A sua amiga tem razão em grande parte” – Toni Morrison responde – “Aumentou o número de linchamentos causados apenas por motivos raciais e a Ku Klux Klan que tem contactos mundiais, realizou há pouco uma enorme conferência internacional em Londres”. Sem nos esquecermos de que a sede mundial do Nazismo é em Chicago e ela nunca esteve inerte. Sim, e a Klan já tem até um Senador no Congresso, um legislador, mas já tivemos até Presidentes da Nação que pertenceram à Ku Klux Klan, como Truman, que depois abandonou a organização, mas há outros, defensores às ocultas da “intrínseca superioridade branca”, apesar dos esforços dos Republicanos de se distanciarem oficialmente deles…

Para eles, “todos os imigrantes que entraram nos EUA procedentes da Europa se uniram na discriminação contra o Outro, o diferente, o negro. Estabeleceu-se uma hierarquia e ninguém – nem os católicos, nem os irlandeses, nem os judeus etc. – queriam ficar por baixo, portanto os negros, obviamente, tinham que ser o fim da linha. E, por força, o negro tornou-se”o inimigo”, como o índio, já que ambos destoavam do único padrão nacional que era a brancura da pele.

Os índios só obtiveram a cidadania europeia em 1912! Apesar de tudo, sou otimista com relação ao racismo. No mundo de hoje não só se revelou a falácia do racismo como sobretudo o racismo não funciona mais! O racismo, estou certa, é uma tarefa para educadores, as pessoas têm que desaprender o que a tradição do preconceito lhes transmitiu de ideias pré-concebidas a respeito dos negros.

Para a magnífica escritora norte-americana, escritores brancos sensíveis como Mark Twain, Faulkner, Styron e outros já refletiram profundamente sobre os conceitos de liberdade, de ética, de humanidade com relação ao negro. O Huck de Hucklerberry Finn, por exemplo, considera o escravo fugitivo que protege um ser humano e não apenas um nigger.

E que método ela preconiza para acabar com o racismo ou diminuir consideravelmente as limitações que ele impõe? “Em primeiro lugar quero reconquistar todo um território que nos foi roubado”. E o primeiro passo seria mudar os livros escolares, que omitem o negro de suas páginas? Seria um dos passos imediatos, opina. Mas, contradigo, os alemães eram um povo culto e foi entre eles que brotou o nazismo, não? Eles não eram cultos, ela retruca, tinham frequentado escolas, o que é diferente. Temos que pôr abaixo toda a literatura de pensamento e preconceito que se deriva de uma falsa educação, acentua. A partir dos 8, 9 anos, quando eles ainda não se encrustaram na mente da criança.

Pergunto sobre a naturalidade com que as comunidades negras, em seus livros, falam de fantasmas, convivem e dialogam com eles: os fantasmas até influem na vida dos vivos. Mas é claro, ela responde: é um mundo mágico, e os fantasmas realmente existem, minha mãe a vida inteira conversou com eles, eu sei que estamos rebaixando um pouco o conhecimento factual, racional, tradicional, mas o mundo do além completa o nosso, é um fragmento do todo. E como são as relações entre as preocupações com o racismo, a raça, e a literatura como alvo estético? “eu deliberadamente eliminei as personagens brancas de meus livros, só para ver como seria o mundo vivido apenas pelos negros. Como músicos que, quando se juntam, tocam um para o outro, discutem peças musicais e interpretações, sem interferência de estranhos, entende? Eu não queria a intervenção de outros critérios que não fossem os dos negros em meus livros, queria um ambiente sem a reação negra aos juízos que porventura se façam deles.

É uma tarefa difícil, porque me proponho a escrever ficção, se possível boa, mas sem panfletarismo, sem confundir literatura com proselitismo ou com um editorial veemente – “O que é difícil de se conseguir, há que se ter muito cuidado.”

Outra característica extraordinária de Toni Morrison, como escritora, que ela compartilha com Ishmael Reed, é seu propósito de capturar todo um mundo oral, um mundo de sons emitidos por negros, um folklore negro. Mas ela gostaria de um dia escrever um livro em que não tivesse que identificar protagonistas por sua cor de epiderme. Duas vezes já, acredita, conseguiu isso em Beloved (Amada), quando há cenas, não importa se curtas, em que o leitor não pode distinguir se se trata de brancos ou pretos. Quando ela confirma minhas suspeitas de que os brancos são vistos, genericamente, como estúpidos e claramente insensíveis em seus romances, ela se apressa em corrigir: os brancos que se “protegem” do mundo usando o fato de serem brancos como escudo e como justificativa para qualquer coisa que façam, esses são os brancos que lhe parecem inferiores. “Porque, realmente, ver tudo sob um prisma racista significa aceitar um mundo mais estreito, mais pobre, menos variado. Os seres humanos, pessoas que são gente e não apenas a cor de sua pele, não são racistas. De todos os livros que já li – e são muitos, muitos mesmo – nunca deparei com uma cena em que uma personagem branca toca numa personagem negra a não ser por meio do estupro ou da violência, nunca, acredita? É um sentimento geral dos europeus, discriminar outras raças, você tem razão: mesmo na Rússia e em outros países eslavos, o horror ao negro é patente: mesmo que os negros estejam lá só para estudar em faculdades, não estão disputando empregos com os brancos, no entanto, o preconceito europeu parece estar sempre presente e onipresente.

Ah, sim, os árabes parecem que partilham esse sentimento: não decididamente, o preconceito racial não foi inventado em nossos países! “Há um livro extraordinário de Orlando Patterson chamado Slavery and Social Death, em que ele vai às fontes da escravidão em todas as regiões e épocas e chega à conclusão de que não há ninguém que não descenda de escravos”. É verdade, lembro, a antropologia contemporânea fala de uma mãe universal, negra, africana, mãe dos mais louros escandinavos e até de Hitler… E mesmo a majestosa Constituição dos Estados Unidos ignorou o status dos negros, dos índios: eles teriam alma? Seriam seres inteiramente humanos? “É, o Iluminismo e o racismo surgiram juntos, eis outra contradição da condição humana, Toni Morrison observa, prosseguindo: temos, é indispensável que mudemos isso antes da possível guerra no Iraque, sei lá, nos levar de roldão a todos pelos ares”. E concorda comigo quando aos livros escolares e às leis anti-racistas acrescento o amor: “Realmente, o amor humano, embora não possamos legislar o coração. São os três elementos necessários além de eliminarmos o trauma de todos os preconceitos, não só o racismo. A literatura, a arte, têm poder, por isso estiveram sempre vigiadas por regimes totalitários, por puritanismos, pela censura. Mas mesmo que dure gerações e gerações, é imperativo mudarmos o mundo”.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Entrevista - Toni Morrison e os negros da América .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.