Invenções e algemas de Castro Alves

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Veja, 1971/07/14. Aguardando revisão.

Nem sempre o crítico e o leitor falam do mesmo Castro Alves. Existe a imagem “oficial” do poeta romântico que se inflama na descrição épica do “Navio Negreiro”. E uma visão mais rigorosa, que peneira versos esplêndidos da ganda volumosa de seu Amazonas poético. Os 24 anos de sua vida intensa foram breves demais para disciplinar sua inspiração desenfreada. Não lhe foi concedida a dilatação de prazo que pedira na véspera de sua morte, há cem anos: “Ai, o Quilombo dos Palmares! Seria minha obra-prima… Dai-me, meu Deus, mais dois anos de vida!”

Atualmente, perderam a validez a crítica excessivamente severa de Jamil Almansur Haddad (“Castro Alves é o orgulho elevado ao auge”) quanto a excessivamente entusiasta de Mário de Andrade (“Teve a maior glória, de discernir, entregando-se a ela, a causa dos escravos”). Que visão do poeta baiano se tem depois que a poesia brasileira recuperou sua poesia social (com João Cabral de Melo Neto), sua poesia de inspiração nativista, principalmente baseada no negro (com Jorge de Lima, e apresentou um poeta de grandeza universal que expressa uma temática brasileira complexa e profunda (Carlos Drummond de Andrade)?

Para a sensibilidade moderna, Castro Alves perdeu em renome retórico o que ganhou em verdadeiro pioneirismo. Lidos cem anos depois, nota-se que seus poemas intimistas, de aguda percepção da natureza tropical, ampliam o itinerário esboçado por Casimiro de Abreu. Os sociais mantêm a força de sua sinceridade e, sobretudo, Castro Alves precede o culto parnasiano da imagem poética ousada. Mas não podava com devido rigor a linguagem.

A própria denúncia de uma situação de exploração humana aviltante – a escravidão - exige dele um estilo heroico, cheio de interjeições e metáforas eruditas que um poeta consagrado pelo povo não consegue domar. Cauteloso ao tratar com o maior desafio para a poesia romântica – o adjetivo -, Castro Alves cai no lugar-comum inexpressivo (“o rir calmo da turba”, “guerreiros ousados”, “areias infindas”). A poesia de exortação cívica e moral, próxima demais da oratória, arrebata o ouvido de uma multidão empolgada pelo entusiasmo do momento. Mas na página impressa a mediocridade de versos gratuitos susta o fluxo poético com estrofes meditativas e de rimas fracas e insossas: “Do Espanhol as cantilenas/ Requebradas de langor/ Lembram as moças morenas/ As andaluzas em flor”. A impressão que fica é a de um voo poético arrastado, preso às algemas da retórica como o albatroz preso à terra.

Fruto de uma época que se empolgava com a palavra altissonante, numa Bahia ainda acostumada à pirotécnica verbal de um padre Vieira, a sonoridade esmaga momentos de autêntica identificação entre o poeta e sua legítima indignação moral. Assim, a coragem e a vibração de versos como “E existe um povo que a bandeira empresta/ Para cobrir tanta infâmia e cobardia!”, ou a musicalidade rítmica de “Auriverde pendão da minha terra,/ Que a brisa do Brasil beija e balança”, são anuladas pelos versos seguintes, desprovidos de força e de seguimento lógico: “E deixa-a transformar-se nessa festa/ Em manto impuro de bacante fria!”, ou “Estandarte que a luz o sol encerra,/ E as promessas divinas da esperança..”

Cultuado nas palavras do poeta senegalês Léopold Senghor como “o poeta dos continentes” (A América e a África), Castro Alves, examinado depois do estudo da cultura da África negra e das reivindicações da poesia da Négritude, revelaria, ao contrário, uma visão estereotipada do negro como um caçador indolente, puro, bom e tanto quanto os selvagens de José de Alencar, dotado de virtudes dos heróis clássicos da Grécia antiga. Sua poesia amorosa – inspirada por uma bela judia que morava diante de sua casa em Salvador, por sua paixão pela atriz portuguesa Eugênia Câmara, por Sinhá Lopes dos Anjos a quem dedicou seus versos num baile em São Paulo, e pela jovem italiana Agnese Trinci – também decepciona pela artificialidade “literária” no sentido pejorativo do termo. Ligadas a uma sensualidade sempre faminta, suas imagens libidinosas eram ousadas para uma época que considerava pouco pudicos versos que diziam “Teu seio é vaga dourada/ Ao tíbio clarão da lua/ Que ao murmúrio das volúpias/ Arqueja, palpita, nua”. Essa erotização da paisagem chegaria ao cúmulo de comparar o rio São Francisco a um corcel fogoso que, ao banhá-las, possui as terras de suas margens.

Mas, se a perspectiva do presente emagrece seu perfil qualitativo, aumenta a importância de suas inovações. Castro Alves não hesita em chocar os ouvidos afinados por uma gramática e uma paisagem rigidamente importadas de Portugal. Utiliza a contração “pra” em vez de “para” e integra uma geografia brasileira em versos que falam de “picadas” na floresta, “gerais” e “capinzais” – embora se limite a só ver borboletas azuis forçado pela rima e cego à variedade de colorido de nossa fauna. Nessa descrição intimista de estados da natureza – alegria, melancolia, morte, esperança – que refletem as emoções humanas diante da paisagem, ele cria pequenas joias de perfeita adequação de linguagem onomatopaica e frescor inventivo: “Em músico estalo rangia o coqueiro”, ou “a surdina da tarde ao sol, que morre lento”, entre dezenas de outros achados à procura de um garimpador paciente.

Ao formular sua poesia social – em parte deslocada no tempo, pois alude ao tráfico negreiro abolido quase vinte anos antes de seu nascimento – ele se aproximaria da definição de poesia que Shelley formulou: “O poeta é o desconhecido legislador da humanidade”. Seus versos aceleraram a proclamação da lei de 13 de Maio e apressaram indiretamente a proclamação da República por sua arrebatadora comunicabilidade popular. No continente americano, só Whitman teria, em sua época, um impacto e uma grandeza democrática tão profundos.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Invenções e algemas de Castro Alves .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.