O negro Baldwin luta pelos seus

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1966/10/29. Aguardando revisão.

O aguilhão, cravado desde o nascimento na pele luzidia e negra, não pára de doer nunca quando você é negro em certas regiões do mundo. A princípio atônito, quando ainda criança, James Baldwin não compreende porque seu pai, pastor protestante, o proíbe de brincar com crianças brancas na calçada, de entrar no parque onde estão as palavras incompreensíveis “só para brancos” e porque ele abraçou a religião que fala do amor ao próximo, com seus hinos religiosos de força e poesia.

Confusamente, o pai e a mãe explicam que brancos afastados do amor pregado por Nosso Senhor Jesus Cristo é que puseram a tabuleta no parque, onde há o escorrega e o balanço e onde ele gostaria de pular e brincar om os outros meninos da sua idade. Mas as explicações não explicam, falam sempre de paciência, de um Reino Futuro de Justiça e de Bondade e o jovem James está interessado no presente, no agora.

Na escola, continuam as humilhações incompreensíveis. E seus primos do Sul lhe dizem que na cidade é melhor, “lá em casa”, na terra de onde sua família veio, os pretos são perseguidos por ferozes cachorros policiais, por policiais armados de gás lacrimogêneo e de mangueiras d’água de enorme violência. Mas lá longe pouco importa, ele dá de ombros: estou vivendo aqui mesmo. E não é que se possa dizer que estou morando como eu quero! De fato, o Harlem é um círculo do inferno, o inferno de que falam os sermões do pai na Igreja Batista aos domingos: o fogo é o calor infernal, os suplícios são os mesmos: as misérias, os ratos, o amontoado de famílias juntas, a falta de perspectiva para os jovens que se tornam criminosos ou aceitam tornar-se “cidadãos de segunda classe”. O que quer dizer: sem os privilégios do país mais privilegiado em riqueza e em progresso na terra. Mas não em humanidade. E James Baldwin parte. Escreve. Vive intensamente: o amor, a fome, o desespero, raramente a esperança e a fé. Parte para a Europa, dando-se por vencido. O preconceito, o ódio, a indiferença que o circundam são mais fortes do que a sua insistência em lutar, em afirmar-se contra a hostilidade generalizada. Na Europa, passa 9 anos, a maioria dos quais em Paris. Como milhares de outros americanos, às margens do Sena, isolados da maneira de viver americana que um compatriota irreverente, Henry Miller, chamara de “um pesadelo dotado de ar condicionado”.

Na França, Baldwin escreve:

“Nos Estados Unidos, a cor da minha pele se erguera sempre entre mim e a minha personalidade; na Europa, aquela barreira caíra… Revelou-se então que a indagação:”quem sou eu?’ não fôra solucionada porque eu me afastara das pressões sociais que me ameaçavam… A pergunta sobre quem eu era tornou-se finalmente uma questão pessoal cuja resposta teria que ser encontrada em mim mesmo”.

Mas os quadros de Rembrandt, as cantatas de Bach, as peças de Shakespeare e a Catedral de Chartres permanecem tão distantes dele, quanto na América nativa, o Empire State, o mais alto edifício do mundo, como que a encarnação maciça de uma indiferença monumental para com a sua sorte:

“Nada disto tudo representava criações minhas, não continha a história da minha raça; eu podia procurar em todas essas manifestações, em vão, eternamente, um pálido reflexo de mim mesmo sem nunca encontrá-lo. Eu era sempre um intruso, um pária”.

Na Suíça as crianças, os adultos de vilas serenas espelhando a majestade de suas montanhas nos lagos azuis aproximam-se dele como de um animal manso e perdido perto dos Alpes. Tocam-lhe a pele como se acaricia um filhote de lobo e passam as mãos pela sua carapinha, riem, escondem-se com medo.

Baldwin assiste à conferência sobre a Négritude, quem sabe viria da África original, ventre de que brotou a sua raça, a reposta que o investiria de uma identidade finalmente perdida entre aqueles estranhos ídolos que não eram os seus? Aimé Cesaire, Senghor, o poeta que se tornou presidente de uma República Africana, depois da libertação do colonialismo, Léon Damas da Guiné Francesa, mais os representantes de novas e orgulhosas nações negras o Ghana, a Nigéria, estão todos reunidos em Paris. Discutem, debatem, desentendem-se dias a fio sobre o papel do negro na civilização moderna, ventilam problemas políticos incandescentes, marxistas, liberais e reacionários acusando-se com furor mutuamente. Não, não será daquela discórdia que lhe virá a paz tão ambicionada.

James Baldwin parte novamente para o Norte, para a Suécia. Entrevista Ingmar Bergman, o mago dos filmes de extraordinária densidade lírica, de pregnância de pensamento e requinte de imagem e palavra. O grande diretor lhe fala de amor, de erotismo, de morte e de misticismo, como que refletindo em sua voz pausada e nos seus olhos azulados os temas que inspiram seus poemas cinematográficos: Morangos Silvestres, A Fonte da Donzela, O Silêncio.

Pela última vez, James Baldwin parte. Desta vez de volta. O seu lugar é a América. É na própria arena em que os gladiadores travam o combate desigual com a ferocidade humana que ele deve estar, que ele forçosamente, pela força da sua cor tem que estar. Em 1955 sua primeira coleção de ensaios sobre a discriminação racial irrompe como a explosão de uma bomba-relógio: a mesma que já explodira cem anos antes na Guerra de Secessão sangrenta e que quase desmembrara o país em duas Repúblicas antagônicas.

Notes of a Native Son revela perante uma América estarrecida o “filho bastardo da civilização ocidental”, o negro, displaced person de todo um Continente, arrancadas suas raízes, pela violência dos negreiros de outros séculos, da sua própria terra natal. Depois do degredo físico, a masmorra espiritual agora naquela terra que ele próprio ajudara a construir com seu sangue e seus músculos – e como comprovavam milhões de mulatos – com o ventre de sua mãe violada na senzala. Poderia não ser amargo, monstruoso, incendiário, um livro que como um vulcão faz estremecer a superfície aparentemente plácida de toda uma sociedade.

No entanto, a inteligência, o brilho, o ressentimento justo perante a iníqua crueldade, nenhum desses elementos fundamentais dos ensaios de Baldwin lhe permite escrever um libelo unilateral, vingativo e cego pelo ódio. Ele vislumbra a solidariedade – arduamente conquistável – entre as duas raças se, dentro do espírito cristão, agirem com boa vontade ou, dentro do espírito prático, reconhecerem que o bom senso imporá a integração fatalmente. Até mesmo The Fire Next Time que contém por certo algumas das mais candentes e irrespondíveis acusações à civilização criada pelo homem branco, nem mesmo esse longo e sombrio lamento termina com uma nota de desalento, mas sim com um apelo a brancos e negros para que deponham as armas do fanatismo e da ignorância em prol de uma América, como vaticinam suas moedas cunhadas com a efígie e Lincoln, feita uma através da diversidade de seu cadinho de raças, de religiões, de nacionalidades e culturas. A América futura.

Contudo, é feita de várias facetas, de várias camadas, a tragédia de James Baldwin. Giovanni’s Room revela francamente sua segunda marginalização, ao documentar sua paixão erótica pelo mesmo sexo. Nobody Knows my Name volta a insistir na impossibilidade de um intelectual negro ser absorvido pelos movimentos religiosos que pregam a destruição da raça branca, a sua extirpação da parte da América – vastas regiões do Sul – que integrarão uma República Negra da América do Norte:

“A única coisa que todos os americanos têm em comum é a de que a sua identidade como povo é única e está sendo forjada exclusivamente aqui, neste Continente”

E será neste Continente que juntos perecerão ou criarão uma nova América.

A última faceta da angústia de Baldwin desvenda-se então, nas palavras dos críticos e no espanto do grande novelista inglês E. M. Forster: “Este livro foi escrito por um negro? Wonderful! Wonderful!” James Baldwin sacrificou a sua vocação de novelista, de ficcionista, em prol dos seus libelos veementes a favor da paz racial. O ensaísta arguto, brilhante, sagaz, matou o romancista com a pujança de um talento dramático e pungente.

São apressados porém os seus críticos, embora honestos no reconhecimento unânime dos seus dons verbais inigualáveis entre os autores de cor de língua inglesa.

Porque, em seu último livro, Baldwin assumiu plenamente a sua identidade americana, com tudo de esplêndido e de terrível, de promissor e de responsável que isso acarreta:

“In short, I had become na American”. Em poucas palavras: eu me tornei um americano. Eu ingressara, tropeçara, inevitavelmente, na confusão sem fim que é tão individual e tão pública da República Americana”.

É legítimo esperar do seu destemor que se adentrou na raiz de todo o seu crucial problema a floração, agora, da sua imaginação. Agora que sua mente lúcida produziu já, em abundância, os seus frutos de agridoce sabor, que seu coração nos falou de tão perto, será a vez de sua fantasia criadora trazer a uma humanidade faminta da sua voz as novas perspectivas e a nova esperança que o negro traz para uma Civilização exausta e necessitada da sua redenção.

Reuso

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Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “O negro Baldwin luta pelos seus .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.