Carlo Levi e a outra Itália

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Diário de Notícias, 1959/11/15. Aguardando revisão.

A Carlo Levi, doublé de escritor e pintor, devemos uma obra definitiva no rico panorama da literatura italiana atual. O seu livro publicado em 1945, Cristo si è fermato a Eboli, constitui um encontro raro de lirismo puro, sem sentimentalismo espúrio, de perfeição da forma literária – classicamente concisa, clara e bela – e de densidade de conteúdo. Dentro da linha contemporânea de literatura social, esse livro precioso não se limita, porém, a descrever a tragédia dos camponeses do Sul da Itália – que é também a miséria dos homens no Nordeste do Brasil e das populações rurais do Egito e da Índia. Retomando a temática da cinematografia neorrealista do pós-guerra, Levi revela-nos uma Itália desconhecida, conturbada por problemas políticos e sociais e impregnada da mais profunda melancolia. Uma Itália tão oposta à visão simplista do bel paese das belas paisagens e das Belas Artes quanto a Espanha “de pandereta” ridicularizada por Machado se encontra distante da Espanha verdadeira e trágica. Baseado num episódio autobiográfico real, esse livro constitui a evocação dos anos passados pelo autor em duas aldeias da Itália Meridional, como prisioneiro do fascismo italiano. Unicamente em algumas páginas das Recordações da Casa dos Mortos, de Dostoiévski, encontraremos uma pujança expressiva comparável à de Cristo si è fermato a Eboli, onde por vezes a narrativa toca as raízes mais profundas da tragédia humana. Já o início dessa obra nos indica o tom que colore todo o seu relato sombrio e poético, intimamente ligado ao sofrimento alheio, causado pela miséria e pela injustiça social:

“Passaram-se muitos anos, cheios de guerra e daquilo que se costuma chamar de História. Empurrado de cá para lá, não pude até agora manter a promessa feita aos meus camponeses, ao deixá-los de voltar para o meio deles e não seu realmente se e quando a poderei cumprir. Mas, fechado em um quarto e num mundo fechado, agrada-me reviver, pela memória, aquele outro mundo, circundado pela dor e pelos costumes, negado à História e ao Estado, eternamente paciente, aquela minha terra sem consolo e sem doçura, onde o camponês vive, na miséria e na distância, a sua civilização imóvel, sobre um solo árido, em presença da morte. Não somos cristãos – eles dizem – Cristo só chegou até Eboli. Cristão significa em sua linguagem, homem: e a frase proverbial que ouvi repetir tantas vezes, talvez em seus lábios seja só a expressão de um angustioso complexo de inferioridade. Não somos cristãos, não somos homens, mas animais, bestas de carga e ainda menos…: porque devemos suportar o mundo dos cristãos que estão mais para lá, além do horizonte, e sentir o seu peso e o seu confronto. Mas a frase tem um sentido muito mais profundo, que, como sempre, de maneira simbólica, é o sentido literal. Cristo (o Homem) realmente parou em Eboli, lá onde a estrada e o trem abandonam a costa de Salerno e o mar e se adentram pelas terras desoladas da Lucânia. Cristo nunca chegou aqui, nem chegou o tempo, nem a alma individual, nem a esperança, nem a ligação entre a causa e o efeito, a razão e a História. Cristo não veio, como não vieram os romanos, que guardavam as grandes estradas e não penetravam nas florestas e nos montes, nem os gregos, que prosperavam no mar de Metaponto e de Sibari… nenhum homem do ocidente trouxe para aqui o seu sentido do tempo, nem a sua perene atividade, que se desenvolve por si mesma. Ninguém tocou esta terra a não ser como conquistador, inimigo ou visitante incompreensivo. As estações escoam-se sobre a labuta dos campos, hoje, como há três mil anos antes de Cristo: nenhuma mensagem, humana ou divina, foi dirigida a esta pobreza refratária. Falamos idiomas diferentes: a nossa língua aqui é incompreensível. Os grandes viajantes não foram além dos confins do próprio mundo, percorreram os caminhos da própria alma e os do bem e do mal, da moralidade e da redenção. Cristo baixou até o inferno subterrâneo do moralismo hebraico para romper-lhe as portas do tempo e as lacrar na eternidade. Mas nesta terra escura, sem pecado e sem redenção, onde o mal não é mora, mas é uma dor terrena que está sempre em todas as coisas, Cristo não desceu. Cristo parou em Eboli”.

Este introito – de majestosa musicalidade no original italiano – dá-nos a perceber a atitude estoica, cética e melancólica do autor, expressa com uma grande simplicidade de estilo, que oculta a sua erudição humanística e denota sua linhagem literária humanística, em que a luminosidade da forma prevalece sobre o tumulto emotivo do conteúdo e uma serenidade intelectual disciplina a paixão interior.

Desde as novelas magistrais de Verga – talvez o maior novelista italiano depois de Boccaccio – a literatura de protesto social não atingira um nível artístico tão alto, nem houvera tão estreita correspondência entre a realidade externa e a sua transmutação poética em realidade artística. Só uma sensibilidade privilegiada poderia captar as mais finas e contrastantes nuances de um mundo infra-humano, de uma atmosfera que em muitos passos recorda o círculo de angústia que envolve as obras de Kafka e o fatalismo das tragédias gregas. Em Gagliano, a menor das duas “aldeias malditas” sobre que se detém o autor, os camponeses, desiludidos das promessas de todos os conquistadores – desde Carlos V até os latifundiários de nossos dias – vivem alheios a todas as guerras, a todos os entusiasmos, imunizados contra qualquer esperança. Portanto, não lhes importavam as glórias do fascismo em Roma nem os triunfos iniciais na conquista da Abissínia. “Os Estados, as Teocracias, os Exércitos organizados são, naturalmente, mais fortes que a população esparsa dos camponeses, estes devem, portanto, resignar-se a serem dominados: mas não podem sentir como suas as glórias e os empreendimentos daquela civilização, radicalmente sua inimiga. As únicas guerras que tocam o seu coração são as que eles combateram para defender-se contra aquela civilização, contra a História e os Estados, a Teocracia e os Exércitos. São as guerras combatidas sob os seus negros estandartes, sem disciplina militar, sem arte e sem esperança: guerras infelizes e fadadas sempre à derrota: ferozes e desesperadas, e incompreensíveis aos historiadores”. E como sucedia em partes do Nordeste, em que as devastações de Lampião e dos Cangaceiros eram acolhidas como uma investida contra uma sociedade compactamente surda à misérias das massas, também os habitantes de Cagliano celebravam em seus cantos, em suas memórias, a guerra dos bandoleiros, dos briganti, que, em 1865, assolaram o Sul da Itália. “Até o seu aspecto, hoje, evoca a imagem antiga do”brigante”: tez escura, fechados, solitários, carrancudos, cabelos pretos e roupas escuras, e, no inverno, o capote negro também; sempre armados, quando vão pelos campos, de fuzil e machado. Seu coração é brando e a alma paciente. Séculos de resignação pesam sobre sua espinha e a consciência da vaidade das coisas humanas e da força irresistível do Destino… Os bandidos defendiam, sem razão e sem esperança, a liberdade e a vida dos camponeses contra o Estado, contra todos os Estados… Com o banditismo, a civilização dos camponeses defendia a sua própria natureza, contra aquela outra civilização que lhe era oposta e que, sem compreendê-la, eternamente a subjuga: por isso, instintivamente, os camponeses veem nos bandidos os seus heróis. A civilização dos camponeses é uma civilização sem Estado e sem Exército: as suas guerras não podem ser mais do que estas explosões de revolta e são sempre, forçosamente, derrotas desesperadas…”

Médico, além de artista, Levi vê-se impedido pela ciumada do médico da região de assistir, gratuitamente, os doentes e a sua pintura desse mundo dantesco é impressionante: “A doença, aqui, é um flagelo bastante pior do que se possa imaginar: atinge todos e, mal curada, dura toda a vida. O trabalho sofre o seu entrave, a raça debilita-se e enlanguesce, as pobres poupanças desfazem-se em fumaça: daí resultam a mais negra miséria, a escravidão sem esperança. A doença nasce da miséria… de uma agricultura sem recursos, esta, por sua vez, gera a miséria, num círculo mortal” … As mulheres que sob o sol feroz subiam com um saco de trigo à cabeça, como condenados no inferno, por cada saco recebiam uma lira. O melhor e mais humano pensador daquela região criara a “política do nada”. Quantas vezes por dia essa palavra fazia parte das conversas dos camponeses?: O que comeste hoje? Que esperas? Nada. Que se pode fazer? Nada. A mesma palavra e os olhos se erguem, acompanhando o gesto de negação, para o céu. A outra palavra que surge sempre em suas conversas é crai, do latim cras: amanhã. Tudo o que se espera, tudo o que deve acontecer, que deve ser feito ou mudado é crai. Mas crai quer dizer nunca”.

Afastados da “religião oficial” – o livro descreve sacerdotes venais, materializados e insensíveis ao sofrimento alheio – e anticlericais por amarga experiência própria, os camponeses têm toda uma mitologia confusa de lendas e superstições em que creem cegamente, com comovente pureza e ingenuidade: as mulas sem cabeça, a intervenção miraculosa da Madonna que salva os recém-nascidos dos ataques dos lobos, o poder sobrenatural do Diabo, a contenda do Bem e do Mal. Seria uma conclusão apressada crer, porém, que Cristo si è fermato a Eboli seja um mero memorial, literariamente brilhante, sobre as populações rurais misérrimas do Meridione. Levi retrata momentos de extraordinária bondade humana, de solidariedade entre os seres humanos. Seus personagens são palpitantes de vida, presas do orgulho, da vaidade, do fanatismo, mas intensamente humanos e reais. As manifestações artísticas desse lugarejo ignoto e perdido ao Sul de Roma – o limite extremo do turismo e da “outra” Itália – são sumamente interessantes. Das suas improvisações teatrais – um misto de magia, de exorcismo e de grotesco realismo satírico – surgem traços dos dramas e danças gregos e relações sutis com a commedia dell’arte, no que esta tem de caricatural e exuberante.

Analisando as diversas formas de regime estatal (fascista, liberal, socialista), todos opostos ao visceral “anti-estadismo” dos camponeses, Levi conclui que “só poderemos transpor esse abismo quando conseguirmos criar uma forma de Estado da qual os camponeses também se sintam parte integrante”.

Referindo-se, nas páginas finais, ao problema do Sul da Itália – bastante semelhante ao do nosso Nordeste em seus aspectos econômicos, sociais, geográficos e humanos, - o autor distingue três aspectos essenciais: a coexistência de duas civilizações diversíssimas e os aspectos econômico e social. O primeiro gera o problema da miséria, derivado do empobrecimento do solo, das culturas inadequadas, da inexistência de açudes, da ausência de indústria, baixíssimo nível de saúde e analfabetismo quase total. Quanto ao lado social: “Não só o latifundiário é o maior inimigo dos camponeses misérrimos, mas quem impede a esses párias toda liberdade e toda possibilidade de existência civil é a pequena burguesia da região, incapaz de preencher a sua função social e que vive só da pequena rapinagem e de uma tradição abastardada de um direito feudal”.

Um livro de tal densidade recomenda-se indistintamente a todos que desejem conhecer uma obra-prima da literatura italiana e meditar sobre um depoimento de significação profunda e inquietante. Raras vezes como nesta obra o problema estético encontrou-se tão magnificamente confundido com reivindicações éticas inerentes – na nossa época, acentuadamente – ao Artista que simbolize a consciência de uma nação ou um período de sua história.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Carlo Levi e a outra Itália .” In Perscrutando a alma humana: A literatura italiana do pós-guerra, edited by Fernando Rey Puente, 8:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.