Clarice, uma mulher que morreu pela vontade de escrever

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1982-12-9. Aguardando revisão.

No plano utilitarista da vida, Clarice Lispector foi uma grande escritora de alcance internacional que morreu vítima de seu maravilhoso talento, no dia 9 de dezembro de 1977, há cinco anos. Morreu vilmente explorada por editoras que lhe roubavam direitos autorais, por jornais que subitamente “dispensavam” as suas inigualáveis crônicas escritas duas, três vezes por semana. Dizer que Clarice morreu pobre, internada de favor, com câncer, num hospital da Previdência Social, é pouco. Em seu depoimento comovente ao Coojornal de Porto Alegre, ela relatou a miséria (a fome também?) que passara ludibriada por editores, jornais, pela ausência de uma estrutura industrial brasileira que lhe desse o sustento para seu extraordinário talento. Ela literalmente morreu vítima da compulsão que a tornava quase uma mendiga altiva: a vontade indetível, inútil de escrever.

Noutro plano, Clarice Lispector já como que tinha nascido marginal num país que sempre marginalizou a inteligência e a cultura ao plano da inexistência. Mas se ela escrevia detestando o ofício que seu talento maravilhoso lhe impusera, por outro lado ela escrevia como forma de doação de si mesma ao leitor e como autêntica revolução da lingugem no Brasil. Ela inaugurou um modo de escrever - imitado em vão por talentelhos menores que lhe estavam à volta - do qual só se pode dizer, documentadamente, que equivaleu, na literatura das Américas, a antes e depois de Clarice Lispector. Contista introspectiva, que compreende as múltiplas aparências do real que se esboçam, todas, uma transcendência do ser humano, da natureza, do tempo (à semelhança de Lygia Fagundes Telles), ela frutificou, na prosa, todas as teorias do Movimento de 22, sem jamais ter lido mais do que dois ou três livros, fora a cartilha, em toda a sua vida. Clarice Lispector detestava conversar sobre literatura e abominava tanto a leitura quanto o jargão literatês. Gostava de animais (até de baratas, das quais se condoia por estarem destinadas a morrerem esmagadas pelos homens), de crianças, de velhos, de empregadas domésticas, de cinema, de Coca-Cola com café e cartomantes.

Qualquer citação fragmentária de suas obras-primas - Felicidade Clandestina, Laços de Família, Água Viva, A Paixão Segundo G. H. e outras - revela uma parte minúscula que seja do todo deslumbrante: sensibilíssimo perfil no conto “A Criada” deixa entrever seu misterioso modo de adivinhar um ser humano:

“… Ela era gentil, honesta.”Deus me livre, não é”, dizia ausente.

Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar”.

Ou sobre o fardo e o mito de escrever:

“Logo eles que, na desesperada esperteza de sobreviver, já tinham inventado para eles mesmos um futuro: ambos iam ser escritores, e com uma determinação tão obstinada como se exprimir a alma a suprimisse enfim. E se não suprimisse, seria um modo de só saber que se mente na solidão do próprio coração”.

A originalidade da visão do extermínio das baratas por um inseticida que contém gesso e agora as matou eficientemente:

“…de madugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu, está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas que se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de uma um pouco de comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras - subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! - essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te…”

Relembrar o que de Clarice Lispector, decorridos não importa quantos anos da sua morte? Que ela viera pequena da Ucrânia, com os pais judeus fugidos de mais um pogrom e se aclimatara no Recife, cujo sotaque agridoce ela conservara pela vida afora? Que seus personagens apreendem a banalidade do cotidiano num diapasão metafísico que os transforma e transforma também esse real aparente? Que em cada linha sua transparecem, ao lado da originalidade do dizer, uma solidão e uma angústia que se atenuam, talvez, através da palavra? Que ela escrevera sempre com uma correção de linguagem insuperada, a par de uma singeleza de temas absoluta, que redescobre, como no mundo infantil, as mágicas associações entre o estar-no-mundo e a busca mística, desesperada, de Salvação, de Redenção?

Clarice Lispector é o paradoxo para sempre vivo de não se poder falar de uma escritora genial com palavras que a esmiucem. O segredo do seu fascínio feminino e literário recusa, altivo, as homenagens dos aniversários e das efemérides, pois ela está, como assinalava Bergson, não no Tempo, mas na durée do momentâneo transmudado em eterno.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1982–12AD) 2022. “Clarice, uma mulher que morreu pela vontade de escrever .” In Os escritores aquém e além da literatura: Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Hilda Hilst, edited by Fernando Rey Puente, 2:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.