Depois dele, Portugal não foi mais o mesmo. Nem o Português

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 07-01-1978. Aguardando revisão.

Quando ele escrevia seus romances, era preciso fechar as janelas, senão os vizinhos pensariam que havia uma briga violenta na casa ao lado. Gesticulava, esmurrava o ar, fazia várias vozes dos personagens, para sentir-lhes a autenticidade, rasgava fragorosamente textos escritos e uma vez incendiou a cesta de papéis com a quantidade de cigarros acesos e não terminados que atirou nela.

Adepto da Ciência, que previa como curadora de todos os males físicos e sociais da humanidade, era um supersticioso, que via em tudo presságios que só ele decifrava e na redação dos jornais só entrava de pé direito.

Elegante no trajar, um verdadeiro dandy, irritou-se com toda a civilização norte-americana, que já lhe era antipática quando um funcionário da Alfândega de Nova York embargou seu sortimento de 150 gravatas sob a alegação de que ninguém teria, para uso pessoal, tantas peças de adorno colorido. Não seriam para vender?

Neste ano de centenário do nascimento de Eça de Queirós, três livros brasileiros (o menos importante deles publicado com a ajuda do Ministério de Educação e Cultura) focalizam o supremo romancista português - há quem ache que se trata do maior prosador da língua, simplesmente - Dicionário de Tipos e Pesonagens de Eça de Queirós, de Paulo Medeiros e Albuquerque, Retrato de Eça de Queirós, de José Maria Bello e Eça de Queirós e o século XIX, de Vianna Moog.

É comum aos biógrafos confundirem sua tarefa com a de caçadores de elefantes, reduzindo suas presas ao limite de uma tese preestabelecida, jaula em que passeiam seus cativos quod erat demonstrandum. Outros esmiuçam receitas de remédios contra disenterias como se fossem a elucidação de mistérios profundamente ligados ao gênio literário.

Bastante inútil, mera compilação dos personagens de Eça de Queirós, que reduz a poucas frases descritivas escolhidas sem habeas corpus dos indefesos, o Dicionário é fácil de se pôr de lado. O que poderia revelar sobre o Primo Basílio, Carlos Maia, O Padre Amaro, o Conselheiro Acácio meia dúzia de epítetos soltos?

As duas biografias estão separadas pelo tempo: a de Bello é de 1945, a de Vianna Moog atinge, neste ano que finda, a 6a edição. Se a mais antiga é mais douta, esquadrinha com mais intensidade o ambiente e a época em que se expandiu a literatura de Eça de Queirós, perde-se no entanto em enumerar migalhas de cochilos gramaticais e alterna-se esquizofrenicamente em elevar o autor ao Rubicão da literatura em português, separando os autores que escreviam antes e depois dele, para depois imputar-lhe falta de imaginação, sentimentalismo incurável, bondade aliada a uma ironia devastadora.

Sem dúvida, as páginas de Vianna Moog são de longe as mais vivas, as mais interessantes, as que captam melhor trechos da verve e da inteligência dinâmica do autor de A Ilustre Casa de Ramires. O biógrafo gaúcho tem suficiente senso de medida para não expandir por mais de poucas linhas a indagação: pelo fato de ter sido bastardo José Maria Eça de Queirós não teria tido uma inclinação natural para destruir as instituições nascentes e uma propensão a ver mulheres sob o prima de peças acomodadas a baças da máquina social? Para em seguida acompanhar o rastilho da revolta que Eça de Queirós cedo sentirá germinar espontaneamente em seu espírito atiladíssimo: das aulas sonolentas de catecismo recorda a ausência de lógica ao decorar impossíveis humanos e divinos: - mas Deus, sendo absoluto e onipotente, não estaria acima dos impossíveis?

Na Universidade de Coimbra, o estudo do Direito Romano logo lhe aparece sob a forma de uma legitimação, pela força, da apropriação indébita, dos privilégios dos fortes sob os fracos, Coimbra mesma parece-lhe um monte de mofo, os alunos vistos como uma fila de cabeças vazias que era preciso encher com o conformismo e a retórica das apostilas a serem decoradas, geração após geração. Verdadeiro trator nivelador de mentes, a Universidade mantinha Portugal à margem do século XIX, amarrado a um culto paralisante e timorato do Passado, da Ordem, da Tradição. Cativado pelo jovem Danton da renovação do pensamento em Portugal que era Antero de Quental, Eça participa de rituais juvenis macabros, encapuzados todos os adeptos da nova ordem, a berrar de madrugada, junto ao muro do cemitério, o nome de Jeová. Arquitetam planos de sequestrar o Reitor retrógado para impor a justiça, a igualdade, a liberdade para todos e, solidários com a Polônia, invadida pela Rússia czarista, empenham livros e batinas para reunir dinheiro e enviá-lo em subscrições inúteis e recheadas de poemas épicos à Embaixada polonesa, com gritos de morte ao Urso do Norte. Eram tertúlias em que se misturava o tétrico ao ingênuo, discussões sobre se as paredes dos quartos das Universidades deveriam ser forradas com a pele do reitor ou as folhas dos compêndios sebentos em que deviam estudar. Enquanto um companheiro tocava no violino a Lúcia de Lamermoor, Eça de Queirós recitava os monólogos de Hamlet e Antero de Quental destruía seus próprios versos, afirmando: “O ritmo é necessário mesmo no delírio!”

Esboça-se um movimento semelhante ao que, na semana de 1922, se desencadearia no Brasil, no Teatro Municipal de São Paulo: a Escola de Coimbra quer despertar o país da sua modorra, inserir Portugal no seu século, substituir a marcha pelos trilhos das locomotivas, as caravelas pelo navio movido a vapor, o cultivo das azeitonas pelos altos fornos, a oligarquia pelo liberalismo e pela democracia. Se no plano real o descompasso entre Portugal e os países adiantados era tão evidente, no plano das artes igualmente o que se queria ardentemente era escrever sem pedir o carimbo de aprovação dos mestres mumificados: “Dizer e não repetir, inventar e não copiar”. Para Eça surge, cristalina, a certeza de que a arte tem um sentido social: deve convencer o leitor da necessidade urgente de reformas sociais sem as quais a própria sociedade meramente adia sua sentença de morte. Um Socialismo democrático, o horror à Arte pela Arte a crença quase absoluta no naturalismo de Flaubert compõem a sua bússola. Por que o governo não cederia, a ele e a seus companheiros, um ilha ou ao menos uma ilhota para lá experimentarem suas teorias e pôr em prática governos copiados da Revolução Francesa ou de Platão, ou até mesmo uma tirania: quatro ministros e uma forca? Formado em Direito, na pasmaceira da Capital, Eça de Queirós já acumulava inimigos por seus ditos mordazes e devastadores. Sobre Lisboa diz a Ramalho Ortigão:

“Como Roma, Lisboa tem sete colinas; como Atenas tem um céu tão transparente que poderia viver nele o povo dos deuses; como Tiro, é aventureira do mar; como Jerusalém, crucifica os que lhe querem dar uma alma. Todavia, Lisboa o que faz? Lisboa nem cria, nem inicia: vai. No vício é tímida: copia desajeitadamente as Babilônias distantes. Aproveita o fogo de Sodoma para aquecer os pés; apara as unhas ao diabo; é o banho tépido dos pecados mortais. A sua iluminação é um coro de gás, bocejando. De noite é tão silenciosa que quase se sente crescer a erva que haverá de cobri-la no dia das ruínas”.

Começava a glória da sátira corrosiva de Eça, derramada na publicação As Farpas, que redige de parceria com Ramalho Ortigão, nas conferências do Cassino, em Lisboa, proibidas por uma portaria do Ministro da Ordem Pública, e sobretudo na sua saborosíssima conversação chistosa, inimitável de graça, de instinto caricatural. A inveja que seu talento despertava cresceria com os anos, quanto mais se firmasse em superioridade intrínseca sobre a mediocridade acachapante de seus contemporâneos.

Vianna Moog esclarece melhor, porém, trechos obscuros da carreira consular do magnífico escritor português. Mostra o lado ativo da sua bondade e seu senso incorruptível de justiça na defesa intransigente que faz dos 100 mil escravos chineses trazidos de Macau a Havana. Infenso a qualquer suborno, que o tornaria imensamente rico, Eça de Queirós não pactua com as fortunas do momento, luta pela libertação daqueles párias explorados e desse embate, aos vinte e seis anos de idade, com uma realidade que ele combatera quixotescamente, lhe advém a primeira comoção obliquamente patriótica. Ele que sempre via os pobres aureolados de dignidade e bondade, vislumbra agora proporções de miséria e exploração humana inimaginadas até então. E, com exceção do Brasil, pelo qual nutria uma ternura irracional a ponto de afirmar que “o Brasil é branco”, enquanto a América Hispânica era “despeitada e mulata”, pelas Américas ele tinha um total desprezo. Os Estados Unidos, cuja cultura desconhecia, chocam-no por seus aspectos claramente negativos e que já Henry James considerava prosaicos e repugnantes com conhecimento direto de seus país. A percepção eciana da América do Norte é fúnebre e funesta:

“Entrevemo-la assim: movimentos imensos de capital; adoração exclusiva e única do deus Dólar; superabundância de vida, exageração de meios; violenta predominação do individualismo; grande senso prático; atmosfera pesada de positivismos estéreis; uma febre quase dolorosa de movimento industrial; aproveitamente avaro de todas as forças; extremo desprezo pelos territórios; preocupação exclusiva do útil e do econômico; doutrina de uma filosofia e de uma moral egoísta e mercantil; todo o pensamento repassado dessa influência; movimentos, construções, maqiunismo, fábricas, colonizações, exportações colossais, forças extremas, acumulação intensa de insdústrias… A civilização não é uma máquina para tudo - e um milhão para cada coisa: a civilização é um sentimento, não é uma construção”. E fulminante: “é um povo bárbaro, que aprendeu a civilização de cor, como e detesto esta canalha!”

Seguindo passo a passo a carreira deslumbrante de humorista digno de um Heine de um Dickens, de um Voltaire, de um Sterne ou um Swift, Vianna Moog acompanha simultaneamente a mudança que se opera nas preferências de Eça de Queirós. Mais e mais ele se reconcilia com Portugal: o Jacinto, personagem desiludido da civilização técnica das grandes metrópoles em A Cidade e as Serras, é só inicialmente o milionário brasileiro Eduardo Prado, amigo do escritor português: na realidade assume crescentemente as suas próprias feições autobiograficamente. Eça de Queirós é que se casa e abandona de bom grado as viagens, a vida diplomática, o exílio. Abomina o Tout-Paris por sua futilidade, procura instintivamente voltar a Portugal, instalar-se no campo, constitui família, sem nunca, porém, como sugere maldosamente seu outro biógrafo, José Maria Bello, aderir a qualquer tendência reacionária em política. Mais surpreendente é sua preferência acentuada pela França transformar-se numa admiração objetiva e fria da Inglaterra como grande exportadora de ideias, desde a ciência de Newton e Darwin até a filosofia e a literatura, que, a contragosto, passa a encarar como superior à literatura francesa.

Com um toque melancólico, já célebre antes dos quarenta anos de idade com o primeiro romance em Portugal que abordava o sexo com franqueza - O Crime do Padre Amaro ou o adultério, O Primo Basílio - Eça de Queirós antes dos cinquenta já pertencia ao grupo dos mais brilhantes intelectuais de Portugal, como o historiador Oliveira Martins, que se intitulara Grupo dos Vencidos da Vida. Não era a glória literária, que o levara a ser saudado efusivamente por Emile Zola, quando fora apresentado ao maquinista da locomotiva chamada Naturalismo em Paris, que consolava. Amargamente ele considerava que “para um homem ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou - mas do ideal a que aspirava”.

Para sustentá-lo em seu ceticismo derrotista havia todas as provas concretas: a Europa abandonara seus voos liberais para não deixar uma nesga de terra na África independente do seu jogo, a industrialização servira só para criar massas embrutecidas sugadas por uma pultocracia cruel e egoísta, a ciência pusera rótulos de mitos gregos aos complexos de Édipo e às neuroses e esquizofrenias catadas na cabeça do cidadão moderno por Freud. O sonho de igualdade da Revolução Francesa se esboroara tanto nos Estados Unidos quanto na Rússia de 1917, uma regida pelo poder do lucro roubado, outra pela aquiescência do Partido único diante dos crimes mais iníquos.

A vida não mereceia ser vivida? Seu desalento não chegava a tanto. Com a extorsão de territórios colonizados por Portugal na África e a criação fictícia da Rodésia, sob o ultimatum das canhoneiras da Inglaterra postadas diante de Lisboa, crê que ainda vale o esforço de reconstruir Portugal. Ele que se distinguira por destruir, por tocar as chagas com seus romances insolentes, galvanizadores, queria agora servir a seu país, insuflar-lhe nova vida, novo alento. Como um Thoreau do outro lado do Altântico, quer fundar uma Ordem dos Mateiros, “cuja missão seria a de promover um retorno à natureza e à simplicidade, libertando os seus adeptos da civilização suntuária dos novos tempos e das suas falsas necessidades”. Tachando a si mesmo de analfabeto, ele pretende estudar os mestres da língua, desvendar-lhes os segredos, escrever para crianças ou desentulhar de todo o pó teológico a divina Consciência do Cristo. Ele que apavora beatas e crentes com sua irreverente mistura de orgasmo e devoção mística em A Relíquia dedicava-se agora a escrever vidas de santos, a revolver a verdade que a religião, desprezada antes, pudesse conter, imutável. Era tarde. Com ele morria o século XIX e seu gênio não deixaria herdeiros. A sua generosidade, a sua graça sempre elegante, seus princípios morais inabaláveis, se o singularizam como escritor, aureolam de uma fidelidade a si mesma impoluta, reta, sua personalidade humana. Nunca mais Portugal seria o mesmo e a própria língua portuguesa se imantara do seu magnetismo irresistível. De fato, haveria agora duas eras: a anterior a Eça e a posterior a ele. Em ambos os lados do Atlântico ele se tornava a antítese do empolado, do postiço, do retoricamente retumbante. Como Balzac na França, Galdós na Espanha, Dickens na Inglaterra, Eça de Queirós elevara toda uma vasta galeria de seres banais ou heroicos, baços ou exigentes à atemporalidade de uma Arte que por ser social não deixa de ser profundamente estética: lição da indissolubilidade de talento e criação que ele deixou a ser aprendida pelos que hoje forjam novas maneirass de dizer.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (7AD–1AD) 2022. “Depois dele, Portugal não foi mais o mesmo. Nem o Português .” In Redescobrindo Portugal: Perfis e depoimentos de alguns escritores portugueses, edited by Fernando Rey Puente, 6:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.