Testemunhos Literários do século XX

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Autor

Fernando Rey Puente

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O livro que o/a leitor/a tem em mãos foi, na verdade, concebido por Leo Gilson Ribeiro como um curso que teve início no dia 12 de agosto de 1965 no Estúdio Raquel Levi em Copacabana e com duração prevista de dois meses. Como relata um/a jornalista de O Globo em um breve artigo datado do dia 11 de agosto do mesmo ano: “o interesse pelo curso foi tão grande que, 48 horas depois de anunciado na imprensa, só restavam 10 vagas para inscrição, preenchidas logo depois”. Vários jornais do Rio de Janeiro escreveram sobre o curso, mas me aterei aqui ao artigo que acabei de mencionar de O Globo que possui um longo título “Curso de Literatura Nova Vai Aproximar o Público do Vanguardismo Artístico” e à coluna “Escritores e Livros” do jornal Correio da Manhã na qual o jornalista e escritor José Condé, na véspera do início do curso, dado que ambos colherem brevíssimos depoimentos de Leo Gilson Ribeiro.

Na coluna de José Condé publicada no Correio da Manhã em 11 de agosto de 1965 e intitulada “Testemunhos Literários do Século XX” LGR descreve a origem de seu curso: “Pensei na criação desse curso atendendo aos pedidos de muitos amigos que desejavam que se traçasse um panorama, digamos assim, dos temas, das preferências literárias do nosso século. Como você sabe, a profunda e por vezes radical revolução dos meios expressivos na música, nas artes plásticas, no teatro, espraiaram-se simultaneamente pela prosa e pela poesia. A partir de Baudelaire opera-se então uma alteração que corresponde ao Cubismo, à Arte Abstrata, à música atonal, dodecafônica. O belo passa a ser destronado como inspiração única do poeta, do novelista, e a frase do religioso barroco espanhol, lo feo tiene su hermosura, adquire grande atualidade com as Flores do Mal, com a Saison en Enfer, de Rimbaud, com as evocações fantasmagóricas e naturalistas dos artistas expressionistas alemães. A arte da pintura, por exemplo, distanciou-se do grande público a partir do Impressionismo, que causou escândalo em Paris ao inaugurar sua primeira exposição. Esse desequilíbrio, ou melhor, essa diferença de ritmo entre o artista e o público, de modo geral, é que seria necessário sanar ou diminuir e, a única forma, é dotando o leitor de uma chave de interpretação da Literatura Moderna. Os escritores a partir de fins do século passado passaram a utilizar um vocabulário menos acessível, mais difícil e hermético, isto é: a arte tornou-se, em certos aspectos, especializada, como a física, a química, a filosofia. Conhecer a sua linguagem e as suas expressões, eis o propósito do meu Curso”. Inquirido por José Condé sobre os autores que abordaria no curso, LGR responde: “Sendo uma visão panorâmica, os autores mencionados estarão enquadrados num mural de que fazem parte, mas mesmo assim ressaltarei algumas de suas obras fundamentais, como, para Baudelaire, os magníficos Poemas em Prosa, para Kafka, as Cartas a Milena, para João Guimarães Rosa, Campo Geral, para Jean Genet, Nossa Senhora das Flores…”. LGR é aqui interrompido por José Condé que menciona que este é precisamente o livro que LGR está traduzindo, a que o entrevistado assente acrescentando: “Exatamente, depois de quase um ano de esforços interrompidos. E não deixarei de focalizar Kazantzakis, García Lorca e seu esplêndido Romancero Gitano, Henry James e outros autores, pois o curso terá a duração de dois meses, como lhe disse. Projetarei slides alusivos aos temas e promoverei a audição de trechos musicais relacionados com as análises a serem feitas. Os alunos disporão de apostilas mimeografadas contendo os trechos estudados. Naturalmente o material inteiro será em português, dada a diversidade dos idiomas a serem incluídos…”

O outro artigo acima aludido traz duas informações importantes para a nossa reconstrução dos interesses e projetos de LGR nesse ano de 1965. A primeira é que ele, segundo a/o jornalista “no momento elabora um longo ensaio sobre Guimarães Rosa, que deverá estar pronto até o fim do ano” e a segunda é que, além disso e da tradução de Jean Genet, já mencionada na coluna de José Condé, LGR “prepara ainda um volume de interpretações sobre a literatura americana contemporânea, de Henry James a Saul Bellow, isto é, dos fins do século passado até a atualidade que só será concluído em meados de 66”. Como em outros casos, infelizmente esse longo ensaio sobre Guimarães Rosa ficou apenas fragmentário e não encontramos nenhum registro do livro sobre literatura norte-americana aludido, mas obviamente esse material foi sim apresentado de modo esparso por LGR ao longo de muitos anos de intensa e qualificada produção jornalística em colunas e artigos escritos para a imprensa nacional.

Resolvemos nos guiar, em nossa tentativa de reconstruir o que teria sido esse curso, pelas páginas datilografadas disponíveis do curso apenas quando elas não foram transformadas pelo próprio LGR em ensaios mais elaborados do ponto de vista da linguagem e que apareceram em diversos jornais e revistas da época (opção adotada no caso de Baudelaire). A sequência dos autores e títulos são do próprio LGR que em uma página manuscrita apresenta uma espécie de índice com os autores que ele mesmo selecionou para o livro. Os autores que ele elenca nessa página são: Charles Baudelaire, García Lorca, Franz Kafka, Jean Genet, Henry James e João Guimarães Rosa.

Resolvemos inserir como um adendo a cada capítulo artigos anteriores ou posteriores escritos por LGR sobre algum desses seis autores que comporiam para o escopo desse curso um painel panorâmico, como o autor mesmo ressalta, da Literatura Moderna. Acreditamos que esses adendos podem ajudar as/os leitoras/es a perceberem como certas intuições de LGR permaneceram constantes, mas também como outras perspectivas de análise desses autores emergem diferentemente em outros textos posteriores ou mesmo anteriores ao curso ministrado.

A intenção de LGR enquanto crítico literário sempre foi a de construir uma ponte entre a Literatura que ele tanto amava (não por acaso ele enfatiza tantas vezes a frase de Kafka sobre a importância da Literatura) e o público em geral, que, por vezes, sentia-se distanciado e com dificuldades para mergulhar em autores tão decisivos, mas difíceis e complexos, para a expressão literária moderna. Por isso, respondendo uma pergunta da/o jornalista de O Globo para caracterizar seu curso ele afirma; “O nosso curso tem, assim, o fito de demonstrar que o elo entre a liberdade criadora do artista e o público não é tão remoto como pode parecer. Nesse sentido é que, longe de implicar num ato de alienação, ele situa-se numa área de divulgação da cultura que afinal é intermediária entre a imprensa e o magistério. Divulgação que me parece indispensável num país como o nosso, onde a cultura ainda aparece como uma planta de estufa, limitada a raros Jardins de inverno da Zona sul”. Por fim, elucidando a arte de vanguarda ele declara que “longe de qualquer pretensão rebuscada, o vanguardismo artístico representa um fenômeno de especialização e concentração específico, que não é de todo diverso aos que atravessaram a física, a química e a medicina modernas. A expressão de um mundo novo através de uma arte renovada é irreversível: não pôde ser evitada nem mesmo pelos próprios baluartes da arte acadêmica. A própria União Soviética não conseguiu furtar-se de todo a essas transformações radicais da linguagem e da temática que estão ligadas aos próprios fenômenos do nosso tempo”.

Ao percorrermos as páginas do material escrito do curso e dos artigos publicados antes ou depois do mesmo, percebe-se com clareza a importância que LGR concebia à circunscrição histórica para a compreensão de cada um desses escritores, bem como para o difícil lugar do artista na Modernidade, mas sobretudo a importância por ele conferida para a linguagem, isto é, para o estilo de cada um deles. E é justamente nesse aspecto que LGR procurava colmar o hiato entre o público em geral e os escritores geniais aos quais ele pretende introduzir todas as pessoas interessadas.

Apesar de tantas décadas terem se passado desde quando esse curso foi pela primeira vez ministrado, acreditamos que os ensaios de Leo Gilson Ribeiro ainda sejam capazes de levar muitas/os e leitoras/es de hoje a se interessar, a conhecer e a apreciar melhor esses seis grandes testemunhos literários da primeira metade do século XX.


Fernando Rey Puente

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Rey Puente, Fernando. 2022. Edited by Fernando Rey Puente. Testemunhos Literários do século XX. Vol. 3. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.