Gadda (1893-1973)

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Veja, 1973/05/30. Aguardando revisão.

Quando um jornalista do Times londrino indagou se ele era um Joyce italiano, Carlo Emilio Gadda, sorriu com ironia: “Eu? Eu sou um humorista…”. Na semana passada, aos oitenta anos de idade, morria de pneumonia, em Milão, infinitamente mais do que um modesto “humorista”, o mais profundo revolucionador do romance italiano contemporâneo, realmente tão importante em suas inovações para a literatura italiana quanto Joyce para a de língua inglesa com o Ulysses.

Durante 27 anos, alternando seu trabalho de engenheiro industrial, Gadda teceu aquele seu sutilíssimo Quer Pasticciaccio Brutto de Via Merulana, a obra-prima que desencadeara admiração e estupor igualmente violentos na Itália. Um grupo minoritário vislumbrou a audácia inédita de entremear cenas inteiras no saborosíssimo dialeto popular de Roma dentro de uma estrutura filosófica inquietante: a indagação sobre o significado maior do crime, do furto, da miséria, da solidão, do amor.

Comparável a um labirinto, o romance de quase quatrocentas páginas é um afresco da cidade, vital e humana, desde as mansões do tédio da alta burguesia até a tosca batalha pelo pão diário nas vielas dos mercados, da prostituição e do delito. Moderando o ceticismo e a melancolia, sempre a nota viva do humorismo de Gadda.

Para os acadêmicos, era a mistura de gêneros que confundia. Quer Pasticciaccio não se deixava rotular facilmente: começava como novela policial, o relato de um furto banal. Mas logo seguia num assassínio misterioso e numa rede de intrigas, suposições e análises psicológicas exclusivas do romance “sério”: a defasagem entre uma quarentona solitária, rica e melancólica, e um jovem desempregado, venal e violento, disposto a traficar só sexo em vez de amor. Aos poucos era o retrato de Roma, clássica, barroca, moderna, que emergia sob o regime fascista.

A falsa grandezza do Estado se opunha à realidade das delações diárias, da censura sufocante e das incursões colonialistas na Etiópia. Uniformemente, a obra magistral de Gadda desagravada aos acadêmicos e aos extremistas da ideologia política. Para o crítico Contini era “uma macarronada… que mistura estilos e linguagens”.

Gadda rompeu seu silêncio altivo para esclarecer: “Escrever macarronicamente é reivindicar e revolver os resíduos profundos nos pratos rasos, é imergir-se na comunidade vida das almas, tendo o autor oportunidade de expressar-se com traços alegres”. Para o marxistizante Alberto Moravia, a obra de Gadda era, em última análise, a de um palhaço, com a “neurose de não ver a realidade social, preferindo afastar-se em sua cômoda alienação burguesa”. Gadda sorria diante dos fatos sociais em vez de analisá-los à luz de O Capital. Só anos mais tarde, e mesmo assim num ensaio cômico sobre o poeta Foscolo, Gadda redarguiria que o escritor tem que encontrar sempre “a metafísica do real”.

Solitário, arisco, captara sua primeira impressão amarga da vida quando, durante a Primeira Guerra Mundial, caíra prisioneiro dos alemães aos 24 anos de idade. Seu desgosto o levou a publicar, daí a três anos, seus primeiros contos, sempre de veia satírica, e no fundo traindo sua decepção e seu fascínio pelo bicho homem, imutavelmente cambiante e indiferente ao próximo. Em seguida, como engenheiro industrial, empreendeu viagens à França, à Alemanha, à Suécia. A mais longa o manteve vários anos da Argentina, onde por certo tempo pensou em radicar-se, longe do Velho Mundo e suas guerras e nacionalismos estreitos. Da pampa argentino e de sua permanência por lá resultaria, talvez, seu livro mais perfeito, embora deixado inacabado: La Cognizione del Dolore.

Pastiche de novella seiscentista, mistura de neologismos arcaizantes e de termos híbridos, semi-espanhois, semi-italianos, La Cognizione é um dos mais lancinantes monólogos sobre os limites da comunicação entre mãe e filho e sobre as limitações da própria condição humana, com sua renúncia ao amor, sua intraduzibilidade de um ser humano a outro, sua impotência diante da brutalidade do convívio humano e do anulamento final do pó e da morte.

Fora de qualquer roda literária, sem frequentar círculos de promoção jornalística ou televisiva, Carlo Emilio Gadda guardou sempre uma distância altiva das disputas inúteis. Sua condenação cabal do fascismo – não bastasse o painel trágico-grotesco de Quer Pasticciaccio – ficou mais claramente documentada em Eros e Príapo, em que, sob uma capa ténue de mitologia clássica, ele traçou hilariantes e argutas relações entre a frustração sexual e a Censura, entre o expansionismo totalitarista fascista e os rituais de saudação do Duce, forma patética de substituir, externamente, uma aridez afetiva e uma visão burocratizada e esquálida da convivência humana estereotipada e desindividualizada.

No Brasil, até hoje, Gadda é um mero nome, havendo editores que ao ouvi-lo pronunciado se indagam se não seria a designação de um promontório no golfo de Nápoles. Os editores portugueses, mais esclarecidos e céleres, arrebatam “direitos de tradução para a língua portuguesa” que impedem nova tradução além da oficial, lisboeta. Alega-se ainda a extrema dificuldade de traduzir Gadda, uma espécie de texto de Guimarães Rosa redigido em italiano. Para o autor de L’Adalgisa esse impasse seria mais um pasticciaccio. Interessante por ser risível e desvelar mais uma vez a incomunicabilidade não só entre os seres humanos, mas até entre uma cultura e outra.

Reuso

Citação

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Gadda (1893-1973) .” In Perscrutando a alma humana: A literatura italiana do pós-guerra, edited by Fernando Rey Puente, 8:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.