A Mãe Coragem negra de Canindé. Sobre os diários de Carolina Maria de Jesus

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Christ und Welt, n.28, ano XV, 1962/07/13. Aguardando revisão.

Através do mapa de São Paulo corre uma linha sombria que representa simbolicamente a estrutura social e a rígida hierarquia da metrópole industrial da América Latina de quatro milhões de habitantes. Dos terrenos ondulados dos quarteirões aristocráticos – Jardim Europa, Morumbi – com suas mansões milionárias essa linha desce para o centro comercial e para os quarteirões proletários, Brás e Vila Maria, até que ela desemboca na escuridão putrefata da favela Canindé, localizada entre as águas negras do rio Tietê e a reluzente autoestrada que leva ao Rio de Janeiro.

Não há nenhum elo entre esses mundos separados hermeticamente um do outro. No apartamento de luxo do Conde Matarazzo, o mecenas brasileiro ao estilo de Rockfeller, estão dependurados nas paredes quadros de Miró, Cézanne e Rouault que foram pleiteados ciumentamente por alguns museus e leiloeiros da América do Norte e da Europa, quando eles estiveram à venda. Nos quarteirões proletários, na floresta de fábricas do Conde Matarazzo e do playboy Baby Pignatari, para mencionar apenas esses dois, trabalham assiduamente italianos, japoneses, poloneses e alemães que sonham o sonho capitalista de enriquecer rapidamente, enquanto em Canindé os vencidos pela vida – a maioria negros e retirantes do Nordeste ressequido – vegetam em barracões de metal e madeira assediados pela fome e promiscuidade, alcoolismo e desesperança. Um dia, contudo, os finos fios que conectam fragmentariamente entre si as células sadias e doentes desse organismo gigante, provocaram, por um instante, uma reação em cadeia que embaralhou todos esses valores hierárquicos.

Audálio Dantas, um jovem repórter, que devia estar fazendo uma reportagem rotineira na favela sobre os arruaceiros que roubavam com violência as crianças do bairro na sua praça de brinquedos, ouviu próximo a ele os gritos indignados de uma negra alta e elegante. “Inacreditável, esta embalagem!”, vociferou ela majestosamente. “Elas vêm todas em meu livro para que não sejam esquecidas”.

O faro do repórter deixou-o entrever uma história que poderia emergir do pântano de tantas esperanças humanas. Ele ganhou a confiança da pretendida autora e no primitivo barraco de madeira construído por ela leu o diário dela. Escrito penosamente à mão; notas gramaticalmente inábeis desvelam a terrível descrição de um submundo, de um mundo de subhomens, o mundo da favela – um mundo como o Ocidente, desde o livro Recordação da Casa dos Mortos de Dostoiévski, não mais havia vivenciado. “Canindé é a filial do Inferno na Terra” proclama Carolina Maria de Jesus. Como outrora das poesias de Stadler e Heym, emerge as visões horripilantes de uma grande cidade, em meio à qual “o fedor de carne e peixes putrefatos… crianças esfarrapadas berrando sobre pobres brinquedos… enquanto ao longe a cidade ecoa no estrondo da autoestrada”.

Depois de três anos de uma persistente batalha o repórter conseguiu encontrar uma editora para a sua “descoberta proveniente da selva humana”: uma editora conservadora que até aquele momento tinha publicado apenas livros escolares e que então queria arriscar uma “nova linha (editorial)”. A elite brasileira – intelectuais, jornais e redes de televisão, professores e estudantes, ministros e deputados – recebeu com uma reação relâmpago a descarga elétrica deste desmascaramento de um mundo que nas capitais significa um problema social de dimensões catastróficas; somente no Rio há duzentas favelas; apesar disso se trata de um mundo escondido, fechado e omitido que na vida cotidiana é banido de nossa consciência.

“Assim vivem as pessoas na favela?” perguntaram muitos Cândidos que de tal miséria não tinham “noção alguma”. E o desmascaramento desta realidade desconhecida – Sartre disse no Rio de modo lapidar: “Copacabana é apenas a janela, a realidade por trás dela é a favela” – segue rapidamente uma tragicomédia sul-americana que emparelha em uma confusão barroca o grotesco com o comovente.

Em uma semana venderam-se de uma só vez dez mil exemplares - um recorde no Brasil -, e logo esse diário desalojou Graham Greene, Bertrand Russel e o mais popular escritor nativo, Jorge Amado, da lista dos mais vendidos para os lugares abaixo. O importante jornal conservador O Estado de São Paulo fala de um dos melhores livros brasileiros deste século, o liberal Diário de Notícias o denomina “uma bofetada estrondosa no rosto da administração brasileira”. Ao mesmo tempo os comunistas agarram avidamente o material de propaganda excelente e inesperado contra a “decadência do sistema capitalista no Brasil”.

Durante toda a semana a autora negra diariamente teve de dar entrevistas na televisão, falar sobre problemas sociais nos encontros e aparecer como estrela em inúmeros coquetéis em livrarias de luxo, onde ela amigável e sorridentemente escrevia dedicatórias pessoais em seus livros para senadores e até mesmo para o Ministro do Trabalho. Na escolha da Miss São Paulo, ela recebeu, como convidada de honra, a coroa da rainha da beleza. Na visita de uma elegante casa noturna ela teve de subir ao pódio a fim de deixar-se aplaudir. Os alunos da prestigiada Faculdade de Direito da USP em São Paulo nomearam essa mulher, que frequentou por apenas dois anos a escola primária em uma aldeia afastada do interior, membro de honra da Faculdade – um título que deveria ser concedido a Sartre; Carolina de Jesus, contudo, foi preferida pelos futuros advogados, porque ela seria “incomensuravelmente mais valiosa na luta pela liberdade” do que o filósofo do existencialismo.

O estrangeiro se interessou por este – visto historicamente – talvez atrasado protesto de um proletariado oprimido, que trouxe junto à literatura o exótico colorido local dos trópicos e do meio negro. Do Japão e da França, Alemanha e América do Norte chegaram com velocidade de entrega postal ofertas em dólares: todas dirigidas à mulher, cujo manuscrito havia sido recusado por treze editoras, dentre as quais a norte-americana Reader’s Digest, com a lacônica observação “sem interesse para nós”. Revistas ilustradas com milhares de exemplares, Life, Paris-Match e outras solicitaram entrevistas exclusivas. A outrora coletora de sucata e papel velho viajou então com seus três filhos através de todo o Brasil; o sonho de sua vida, o de possuir uma casa, realizou-se com os seus crescentes direitos autorais. No Rio, como atração da Feira do Livro, ela hospedou-se no mesmo hotel, que havia sido atacado alguns anos atrás com pedradas, porque este hotel havia recusado abrigar a cantora negra norte-americana Marian Anderson.

A segunda parte da comédia teve lugar no napolitanamente despreocupado e ensolarado Rio, que está em forte contraste com a cidade industrial de São Paulo milanesamente firme e obstinada. Consciente de seu propósito, a mulher, que literalmente apanhava sua comida cotidiana da lixeira dos ricos, caminha em direção a sua “nova vida”. “Eu gostaria de imitar os ricos a fim de que eu possa inseri-los em meu próximo livro”, afirmou a obcecada escritora pouco antes do jantar em sua homenagem junto ao governador do Estado. Ela começou a “imitar” em seu segundo livro o seu novo meio circundante, no momento em que a sua conta bancária aumentou até aproximadamente dez mil dólares.

Como atua o mundo da burguesia culta e especialmente da High society brasileira na enérgica, simples, mas perspicaz mulher, que no sentido mais verdadeiro da palavra alcançou um lugar ao sol? Maria Carolina de Jesus reagiu sobretudo com a mesma sinceridade desarmada com a qual ela lidava com pessoas influentes e companheiros de pobreza: “Tirem as mãos do dinheiro do povo, bons homens. Deem-no antes aos pobres. Vocês já são tão gordos, como vejo, deixem os favelados engordarem um pouquinho”. No restaurante mais chique do Rio, Au Bom Gourmet, reúne-se toda a multidão ao redor dela: ricos industriais, mulheres que compram seus vestidos de dois mil dólares na Dior ou na Givenchy, frívolos críticos sociais, partidários dos príncipes Orleans e Bragança, todos a queriam tocar, admirar, falar com ela, estar ao redor dela, de modo semelhante a como, no século XVI, se comportavam os nobres da corte francesa ao avistaram os primeiros índios brasileiros. Carolina Maria de Jesus ceticamente balança a cabeça ao deixar o local. “Nenhuma dessas pessoas refinadas daria um único centavo aos negros esfarrapados que mendigam aqui nas ruas. Elas falaram comigo sobre caridade e injustiça social simplesmente porque elas gostam de se deixarem fotografar junto a uma personalidade importante quando isso sairá nos jornais. Isso é apenas palavrório vazio. Quando elas finalmente se tornarão humanas? O dinheiro estrangulou nelas a compaixão pela dor alheia?”

Significativo é também como ela caracterizou os círculos intelectuais, que em Paris ou no Rio aprendem insidiosamente a caluniar pelas costas: “A maldade de nossos intelectuais é como a nuvem: infinitamente refinada, mas penetra em alguém através dos ossos”. Frequentemente ela reflete sobre as causas sociais e culturais da favela, frequentemente ela sente um profundo sentimento de solidariedade com os “irmãos que eu deixei na favela”. Isso, muito embora os vizinhos dela, furiosos acerca dos retratos desprovidos de beleza que ela fez deles, à sua partida atiravam pedras nela. De vez em quando ocorrem a ela observações filosóficas, cuja essência poderia ter ocorrido a Marco Aurélio ou a Bertolt Brecht, conforme elas possuam uma tonalidade elegíaca ou revolucionária: “Preconceito de raça…? O ser humano é tão efêmero sobre a Terra… ele devia durante a sua viagem mundana viver em paz e não odiar nenhum dos seus próximos..” Ou: “Os pobres são tratados tão mal, que eles obrigatoriamente devem renunciar a seus bens..” E: “Se o sol pertencesse à Terra, ele seria destinado ao privilégio de poucos seres humanos..”

Sente-se ela de fato mais feliz agora “na outra margem, a margem rica da vida?” Há pouco uma peça foi encenada inspirada em seu livro; um assistente de De Sica acena com uma oferta para a filmagem de sua saga de miséria. Agora seus filhos pela primeira vez podem comer bem e com regularidade, podem ir para a escola calçados, podem dormir em colchões. O novo esplendor descoberto custa um banho quente. Como um ser humano religiosamente determinado ela sente profunda gratidão a Deus; dado que agora ela “vive no Paraíso”; ela se alegra com o fato de que ela poderia fazer o bem a milhares de pessoas: “Como o sol que é um só e apesar disso envia o seu calor a todos igualmente.”

Logo, contudo, ela teve de reconhecer sobriamente que sua nova vida era um simples Purgatório, e que por trás das máscaras dos “protetores”, “salvadores”, “conselheiros” e “amigos” ela descobre os interesseiros, os parasitas, os inventores necessitados de capital. Se ela já ficava horrorizada no bairro miserável com a depravação dos seres humanos – agora a impressiona a depravação ética de uma sociedade irresponsável que finalmente, como ela percebeu, é corresponsável pela pobreza de milhões de pessoas.

“Às vezes eu reflito sobre isso: na favela há seres humanos toscos que são ignorantes. Aqui há rivalidades, cobiça. Nenhuma sinceridade… Eu me sinto como se eu vivesse em um mundo de joias e ornamentos falsos.” Ao redor do nome deles, cujo “bem é valioso”, disputam políticos, publicitários, imprensa, associações de negros; com uma imagem ela ilustra a sua nova posição: “Eu tenho a impressão que eu sou um cadáver e que os abutres aguardam ao meu redor. Os carniceiros humanos têm fome de dinheiro.”

E assim se encerra como em uma balada o círculo de sua vida: os mundos extremos se tocam por um instante: Carolina, a mulher andrajosa, janta com um membro da família Matarazzo. Nisso deveria residir o valor de seu livro? No contato entre as camadas distintas que compõem a sociedade brasileira? Ou, sobretudo - como especialmente alguns estrangeiros a partir de uma falsa perspectiva afirmam -, talvez o seu livro sirva para a dissolução institucional da favela Canindé? Desconhecendo os traços demagógicos dessas medidas atrasadas e insuficientes, eles esquecem as incontáveis favelas da América Latina nas quais milhões ainda vegetam e nas quais continuamente se devoram como um câncer ulceroso.

Igualmente falsa é a afirmação otimista de que o diário dela seria uma espécie de “Cabana do Pai Tomás” brasileira. Qualquer um que conheça as condições brasileiras e que leia esse importante testemunho, diria antes que ele tem o valor social de um ardente protesto contra a administração e a oligarquia brasileiras. Mais ainda: Provavelmente ele é a chave para o entendimento da explosiva realidade latino-americana – que facilmente pode conduzir para soluções ao estilo de Castro.

Carolina Maria de Jesus é uma autêntica representante do povo brasileiro: o amor dela pela justiça e pelos pobres, a religiosidade dela e o estoicismo de sua vida o testemunham – mas também o profundo ceticismo dela em relação à intenção dos políticos brasileiros. Todavia, ela se diferencia da massa por meio de sua capacidade de discernimento, que permite que ela tome partido de modo coerente em relação a esta ou aquela personalidade, graças a sua recusa da superstição e graças ao seu amor pela instrução.

Talvez nós encontremos o sentido profundo de seu documento à miséria humana, modesto e quase analfabeto, em uma surpreendente analogia com a obra de Kafka - naturalmente em outro nível do dizer literário. Não apenas na célebre citação de Kafka: “Eu escrevi assim, porque eu vi a vida assim!” se fundamenta essa inesperada afinidade. Também na semelhança da temática por eles tratada se baseia a aproximação entre ambos habitantes solitários de guetos sociais e culturais: é a descrição do medo e da angústia. Sem dúvida, a cronista da favela se ocupa de um medo físico por sua sobrevivência biológica, enquanto o criador do inalcançável “castelo” sentia angústia metafísica. Nas suas confissões Carolina escreve: “Há pessoas que desesperam da vida e somente pensam na morte como solução. Eu me defendo sempre contra isso na medida em que eu escrevo o meu diário.” Como um eco distante soam as palavras de Kafka: “No ato de escrever há uma consolação especial, enigmática, talvez perigosa, talvez salvadora… Talvez a literatura leve à oração..”

O livro da brasileira testemunha similarmente uma crença absoluta na transcendência da palavra, na sua força de mudar o mundo circundante, como ela muito concretamente deveria vivenciar. Como um negro spiritual esse livro amargo contém ao lado de tanta tristeza uma faísca de consolação quando Carolina afirma que: “O ser humano não nasce despido - veste-o a esperança.”

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “A Mãe Coragem negra de Canindé. Sobre os diários de Carolina Maria de Jesus .” In Racismo e literatura negra, edited by Fernando Rey Puente, 1:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.