Um Romance de Ítalo Svevo

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Diário de Notícias, 1960/08/7. Aguardando revisão.

“Quem lê um romance, deve ter a sensação de ouvir contar uma coisa realmente sucedida. Mas quem a escreve, deve crê-lo ainda mais, mesmo se sabe que na realidade nunca sucedeu o que relata. A imaginação é uma verdadeira aventura: não anotes demasiado rapidamente senão a retratas quadrada e pouco adaptável a seu meio. Ela deve permanecer fluida como a vida que é e se torna eternamente. Enquanto ela é, não sabe como se transformara e se recorda de como foi anteriormente, mas não com o mesmo sentimento, a mesma sensação de quando foi. Então mal se cria entonação justa, a imaginação e a vida igualmente se tornam harmoniosas, recordando-se. É preciso crer na realidade de sua própria imaginação, mas é preciso não intervir com esforço algum para regulá-la porque se não nos tornamos um verdadeiro Deus que falta na natureza e então a natureza pouco difere da realidade, na qual falta uma regra e as coisas nascem umas das outras espontaneamente, surpreendentemente, segundo uma lei que ninguém poderia ter previsto e que só então se revela. A imaginação é menos monótona do que a realidade somente porque nela se agitam criaturas que nasceram da realidade, mas isoladas do nosso desejo, da nossa paixão”. Estas palavras de Ítalo Svevo documentam sua atitude com relação à Literatura, que ele veio renovar profundamente na Itália, depois da incursão meteórica de D’Annunzio, com seu “culto sensual da palavra” e da nova dimensão que trouxe à novela em toda a Europa Giovanni Verga, um dos três ou quatro supremos novelistas de todos os tempos. O crítico e escritor Elio Vittorini, em ensaio que dedica ao criador de Una Vita e La Coscienza di Zeno exalta o “estilo novo” de Svevo que, em pleno apogeu do dannunzianismo – um culto bombástico e barroco da verbosidade sonora, como o definem seus acérrimos inimigos – refutava tais “leis” e não apelava para regionalismos fáceis e profundamente antiartísticos em sua essência. Svevo, como recorda Vittorini, queria escrever seriamente e sua vontade vital e absoluta de escrever o leva a abandonar os artificiais cânones artísticos predominantes em sua época. Solmi, outro estudioso italiano de sua obra, afirma que Svevo adotou, por conseguinte, um método stendahliano de descrever a realidade, utilizando uma escritura cursiva, enxuta, sem empolamentos nem excessiva adjetivação, contentando-se com “a linguagem aproximativa dos empregados de banco e dos comerciantes de sua cidade, Trieste”. Svevo tentava dar à linguagem uma poesia que brotava das próprias palavras, a sua fé na expressão artística por meio da palavra conduz à formulação de uma poesia e de uma verdade “que era necessário trazer à tona, extraindo-as do mais recôndito do nosso ser”. Tratava-se de impregnar todos os vocábulos utilizados não só com extrema economia, mas com profundo discernimento, tratava-se de impregná-los de um alto significado humano, transcendendo sua própria beleza material e a vacuidade de sua mera beleza sonora. Contrastando com D’Annunzio, ele afrontava o problema da “forma e conteúdo” de maneira mais radical, reduzindo tudo a uma só e insuperável dificuldade: a de escrever, a de criar. Como Verga, ele não acrescia suas páginas de nenhuma palavra supérflua, dando a cada termo a sua tonalidade específica e sua função única de representar uma nuance de realidade, mostrando que havia por detrás da aparência das coisas e, ao mesmo tempo, revelando a íntima e sutil evolução psicológica de seus personagens. Precedendo de quase meio século a literatura contemporânea, declara Vittorini, Ítalo Svevo não só contrariou critérios artísticos válidos até então como descobriu, a par de Proust, um mundo maravilhoso recriado pela linguagem e reduzido, em seu estro severo, a seu esqueleto vital: “E a obra de Svevo só terminará quando as lágrimas e as ações, os sentimentos e conjecturas de seus protagonistas se tornarem incompreensíveis à sensibilidade do Homem”.

Interessado pelas doutrinas psicológicas que recentemente tinham surgido em Viena, mas sem visíveis influências naturalistas francesas ou alemãs ou até mesmo dos romancistas russos, o grande prosador triestino “nunca nos reconduz ao ideal nitidamente romântico por meio do qual de uma maneira ou outra os caracteres e suas reações psicológicas se transfiguram muitas vezes em exemplificações e paradigmas de grandiosos princípios materiais. Nada há em sua obra que transcenda o gosto acre e quase caligráfico da interpretação psicológica, a anotação extremamente móvel e sinuosa das ações e reações mais sutis do espírito de seus personagens”, como ressalta Solmi. A realidade, como a via Svevo, era “uma casualidade cinzenta da nossa vida de todos os dias”.

Por seus livros flui lenta a passagem de tudo através do tempo e se desenrola incessante a sucessão de fatos, uma sucessão cinzenta, pequeno-burguesa e cotidiana, reproduzindo de forma angustiante a sensação de fosca monotonia dos bancos, das ruas, do porto e das praças enevoadas da Triste de fins do século passado. A vida de seus personagens é toda interior: passa-se entre um escritório, uma pensão familiar e um ambiente de ricos burgueses, sempre mantida pela ilusão de um futuro melhoramento das condições econômicas ou de uma rápida “carreira”. Em Una Vita é toda a hierarquia burguesa que se vê retratada com fidelidade: os funcionários secundários, com seu decoro burguês, seus horizontes limitados, “pobres diabos que engolem às escondidas um ovo frito no fogareiro a álcool e passam metade do dia ao espelho” desenhados com traços realistas, mas com refinada comicidade. Como a luz de um cinematógrafo, desfila a vida cinzenta e impassível, só aqui e ali se notam manchas de cor, imprecisas e baças; em Trieste predomina o amarelo dos lampiões a gás que iluminam as ruas, os corredores das casas e dos bancos onde se concentram os contadores e os correspondentes em seu monótono trabalho diário, nos sórdidos quartos de pensão e nas salas da Biblioteca Municipal.

Neste romance, um personagem se destaca, vivendo abandonado a si mesmo, ao contrário dos outros que aceitaram essa causalidade cinzenta, esta “pobre vida de todos os dias”, Alfonso se rebela, suicidando-se: como o Julien Sorel de O Vermelho e o Negro de Stendhal, ele é um ambicioso que sucumbe vítima da impossibilidade de concretizar seus sonhos de vã glória mundana e material. Analisando, porém, o título original de Una Vita, Un inepto, Vittorino esclarece: “trata-se de sua inaptidão para a vida, da sua inaptidão para tornar-se como todos os outros, de manter-se a vida de maneira segura e agarrar-se sofregamente a tudo aquilo que conseguirem arrancar à avarice da vida”. Alfonso, como todos os personagens centrais das novelas de Svevo, espera outras coisas e bem mais da vida. Deslocando-se da província para Trieste, ele aí assume o cargo de correspondente num banco, a Casa Bancária Maller. Muitas vezes, contudo, sua natureza exuberante, sua repugnância instintiva a “fazer uma carreira brilhante” o fazem perguntar a si mesmo: “Não seria melhor se eu voltasse para casa?” Ele preferiria o trabalho sereno nos campos e a obscuridade de sua aldeia natal porque a carreira bancária não lhe traz, na realidade, grandes perspectivas de glória ou de riquezas. Suas aspirações espirituais são frustradas, não lhe bastava ser uma pessoa soberanamente inteligente e rica; “Apenas desce no campo da luta citadina, ele percebe a inutilidade do combate, a miséria infinita do sucesso pelo qual pugnam seus colegas e, esmagado pela imagem de uma vida débil e incolor à qual não pode aderir, quase ofendido pela desilusão, ele escreve a carta à mãe que inicia admiravelmente esse romance. Ele diz que trabalharia até mesmo no cultivo dos campos, mas depois leria tranquilo seus poetas preferidos, à sombra dos carvalhos, respirando”aquele ar bom e incorrupto de nossa região”. Mas é a resposta da mãe que faz renascer nele a ilusão vã: “Mas e se eu ficasse?” Este “se” sintetiza toda a sua tragédia: a mãe, numa resposta desesperada, o exorta a permanecer, a fazer “uma bela carreira”, o encoraja, transformando o banco num reino fabuloso, cheio de apelos à riqueza e ao sucesso. Logo depois, porém, Alfonso reconhece seu engano e vê claramente a miséria em que vive a família proprietária da pensão onde está alojado, a mediocridade e estreiteza do ambiente bancário, a precariedade de sua relação amorosa com uma moça de condição social superior à sua. Tenta então alcançar a glória literária, dedicando-se aos estudos; “é preciso primeiro formar-se uma cultura e frequenta a biblioteca municipal durante horas noturnas. A filha do banqueiro Maller começa a interessar-se por ele. Num momento de sua admiração pelo talento literário do jovem empregado, ela acede em permanecer uma noite com ele. Mas esta violação de um sentimento, mais do que a sedução de um corpo, deve ser punida: passada a ilusão de uma hora, ela se rebela à ideia de”casar-se com um pobre diabo”, ela que estava noiva do primo Macário, que é rico!” e Alfonso reconhece que “pelo menos aparentemente o que fiz foi uma traição, um furto”. Não quer insistir e prefere abandonar a arena, acorrendo para ver a mãe que está moribunda. Esta precisamente é a sua inépcia: a sua inaptidão para uma luta sórdida e esta é a sua fraqueza que o derrota; a de ser bom e não abandonar a mãe nos momentos finais, que seria decisivo para a sua “brilhante carreira” se ele tivesse permanecido em Trieste. Voltando rapidamente à esta cidade, vê baldado todos os seus esforços de reconquistar a amada, todos o desprezam e ele se sente sufocar pela impossibilidade de solucionar o impasse que criara com sua inépcia. E com verdadeira ferocidade ele se atira não contra a sociedade, mas contra si mesmo: a carta da Firma Bancária Maller conclui o romance de maneira tipicamente sveviana: “Foi encontrado morto em sua cama no dia 16 do corrente, as quatro da manhã, pelo senhor Gustavo Lanucci, que, voltando à casa àquela hora, achou suspeito o odor intenso de carvão que encontrou difuso por todo o quarto… Os funerais se fizeram no dia 18 do corrente, com a participação dos colegas e da direção do banco”. Com esse grande romance, como sublinha Vittorini, Svevo abria à literatura italiana os caminhos da grande tradição europeia. Na realidade, mais do que isso; Svevo vinha adicionar ao afresco do romance europeu um novo e riquíssimo cosmos, colocando seus personagens na galeria criada, fora do tempo, por Proust, Joyce, Stendhal, Balzac, Kafka e Henry James.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. 2022. “Um Romance de Ítalo Svevo .” In Perscrutando a alma humana: A literatura italiana do pós-guerra, edited by Fernando Rey Puente, 8:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.