Dalton Trevisan. Mais uma obra-prima. Trágica, hilariante, patética

Autor

Leo Gilson Ribeiro

Resumo
Jornal da Tarde, 1985-8-10. Aguardando revisão.

Senhoras da Liga de Defesa da Moralidade de Santana, horrorizaivos!

Puritanos de todo o Brasil, temei por vossas mais caras tradições, pela Pátria, pela família!

Dalton Trevisan, aquele escritor tarado de Curitiba, que só escreve indecências sobre sexos e perversões inomináveis, está nas praças de novo, envenenando mentes e lares onde penetrar!

Não há como negar, de fato. Um dos três ou quatro melhores contistas brasileiros, o nosso Joyce dessa Dublin/Curitiba incendiada de sexo e frustração, volta à cena. Não como palhaço, como demolidor da moral, perdão, Moral com maiúscula, das reservas ditas sadias da Pátria etc. etc., mas como uma das florações mais importantes da abolição da censura Buzaid-Falcão entre nós, ufa! Que alívio indizível!

Agora, para horror dos hipócritas, Dalton Trevisan não usa reticências, encaixa as palavras mais “chulas”, mais “chocantes” da pornografia em seus escritos. E o resultado é mais uma obra-prima: trágica, hilariante, patética, do autor de O Vampiro de Curitiba, Guerra Conjugal, Cemitério de Elefantes, Morte na Praça e outros prodígios que o colocam entre os melhores contistas (pátria amada, inflai o peito de orgulho varonil) não só do Brasil como de todo o mundo, sem ufanismos que onerem a nossa catastrófica dívida interna.

A Polaquinha, que eu saiba o primeiro romance do magnífico escritor paranaense, está nas prateleiras (Editora Record, 156 páginas incendiárias!). E é imensamente triste este relato comovente, minucioso e hilariante da ascensão e queda da desvairada polaquinha.

Não disse? O pecado sempre é castigado. Deus tarda, mas não falta, as laberedas do Inferno devorarão todos os prevaricadores.

Não, moralistas de mente tão estreita que cabe na ponta de um alfinete, de cabeças miniaturizadas por alguma tribo de índios da Amazônia: compreendei, afinal, que Dalton Trevisan está defendendo, se for esta a palavra, uma Moral, esta sim, merecidamente com M maiúsculo. Qual Moral? Uma profunda Moral cristã ou de qualquer religião digna desse nome: a do amor ao próximo. Porque estas 156 páginas percorrem, se for permitida a imagem mística, a Via-Crucis do sexo, os labirintos feitos de espelhos do egoísmo. A loira polaquinha – regozijai-vos, feministas inteligentes! – é o mais violento libelo já escrito na literatura brasileira em prol da mulher. Ela demonstra a que ponto a mulher, realmente, é o capacho sexual dos nossos sheiks de araque, integrante de haréns imaginários do machão de unha do dedo mindinho suja e comprida, para melhor cavoucar o nariz e coçar lá dentro aquela comichão gostosa no ouvido etc.

Protegido pelas novenas feitas por todas as 11 mil virgens imaculadas de Curitiba, Dalton Trevisan e o profeta de sua libertação. Destruidor de falsos ídolos, ele corajosamente prova, documentalmente, que não importa a classe social – motorista de ônibus, advogado, médico – a imensa maioria dos homens brasileiros tem vocação e genes de árabes, quase se poderia dizer que são discípulos do divino Marquês de Sade e de Masoch, dispostos sempre a chicotear a mulher, física e metaforicamente, ou a despejar nela suas frustrações, sem o menor resquício de consciência, de respeito ao objeto que usam, sem a menor sensibilidade para o afeto sincero que se encerra naqueles peitos juvenis (ou senis).

Superior aos melhores momentos de Oswald de Andrade romancista, Dalton Trevisan consegue maravilhas telegráficas como este hai-ku:

“Passamos o domingo na praia. Galinha com farofa, a descoberta do mar, o rosto em fogo de sol. De volta, no ônibus, minha mãe dormia ao lado. Começamos a nos beijar ali no escuro.”

Como os personagens da dramaturgia de Tennessee Williams, quase todos os personagens curitibanos estão possuídos por uma eterna erotomania, são quase todos ninfomaníacas ou sátiros insaciáveis. Há alusões divertidas a versos de Castro Alves (“À sombra das bananeiras, agarradinhos, debaixo dos laranjais.”), paródias de Camões (“Estava ela posta em sossego”), de entremeio com pormenores naturalistas, prosaicos, para muitos leitores são até detalhes porcos, desnecessários e dignos mais de um Germinal de Zola. E ditado tudo pela insistência, semelhante a Henry Miller, no coito, nas acrobacias de um Kama-Sutra reinventado no Brasil toscamente. E além desse aspecto superficial, da mecânica genitália, uma funda angústia de uma lady Chatterley procurando, desesperadamente, o amor, o gozo, o amparo. Mmes. Bovary da província, Luísas do Primo Basílio de Eça de Queiróz, Annas Karenina do subúrbio, todas as polaquinhas loiras, as morenas, as nisseis, são sorvidas pelo vulcão do sexo, que lhes propõe enigmas sobre o próprio ser humano e as come por não saberem a resposta.

Consciente ou inconsciente, Dalton Trevisan desfralda, imensa, uma bandeira tecida penosamente por Wilhelm Reich, o pensador e psicólogo austríaco que pregava a revolução do orgasmo, a liberação da couraça que nos oprime a todos, urdida pela Igreja, pelo ensino, pela sociedade castradora, pela hipocrisia vitoriana. Uma hipocrisia que não é privilégio, aí de nós!, apenas de uma época na Inglaterra nem das brumas londrinas em que Jack, o Estripador, mutilava as prostitutas que capturava nos becos e vielas nos bairros “do vício e da perdição” da capital inglesa. Somos todos prisioneiros da nossa sexualidade reprimida, a sexualidade que é, como a literatura, mantida em camisa de força em todos os regimes políticos tirânicos que vão do fascismo mussoliniano-franquista-nazista ao puritanismo calvinista da Rússia bolchevista, da China maoísta. Depravação, solerte forma de minar as bases da sociedade! Urram todos os que temem a própria liberação, encapuzados e sedentos de novos campos de concentração, de Auschwitz ao Gulag.

O vibrador a pilha, as revistas pornográficas, as posições insólitas, a dimensão, cor e volume dos órgãos sexuais masculinos, as calcinhas, o fetichismo, a masturbação, a impotência andam de mãos dadas com duas companhias inesperadas. Os defeitos físicos – o mau hálito, a perna paralisada, a bronquite asmática, a dentadura, o bigode que fede a cigarro e cerveja, as fissuras causadas na mulher. E a busca alucinada, suicida, de um príncipe ideal que venha resgatar aquelas multidões de Gatas Borralheiras ou Cinderelas que adormecidas à espera de seu beijo redentor, guardando escondido, em vão, o outro pé do sapato de cristal de um baile no palácio que só existiu na imaginação romântica, idealista delas. Um homem que fosse não apenas macho, mas tivesse ternura, caráter, generosidade: é sonho irrealizável? É. O sonho se desmorona, de degrau a degrau, em pesadelo. Dos muitos amantes egoístas, fracos, eticamente impotentes, embora potentíssimos e afetados de priapismo, as Cinderelas resvalam para o bordel. Decaem no simulacro patético, heroico, hilariante da cópula ideal com velhos cambaleantes, mas que deixam as duas notas em cima da mesinha de cabeceira e não beijam na boca, sequiosos de mentiras gritadas de que “você é que é o grande macho da minha vida! Sou só tua. Sempre. Inteirinha!”.

Há uma surpreendente correspondência de abordagens – não de diagnósticos ou de conclusões – entre a criação literária de Dalton Trevisan e o teatro de Nélson Rodrigues, ambos marcados a fogo pela obsessão pelo sexo, sucedâneo ineficaz do amor. O coito como perdição espiritual, o horror de mesclar a família como o orgasmo, a ameaça do inferno eterno, a prostituição, o incesto, a busca de terreiros milagrosos, de centros espíritas que possam salvar suas vítimas desse “encosto” diabólico. Todos os lugares-comuns da música popular brasileira cantada pela velha guarda, Nélson Gonçalvez, Dalva de Oliveira, desfilam: “Nunca deixei faltar nada em casa; Você não veio virgem para as minhas mãos; Eu é que te fiz mulher, lembre-se; Minha pobre mãe, mártir do fogão e do tanque, o que diria se me visse assim?”

O jornal, é óbvio, não pode acolher todas as transcrições mais genuínas, porque mais ousadas, de um livro desse tipo: este é que contém a essência da qual a crítica literária pode apenas – e mal – espremer e exprimir um resumo. Exemplo: os capítulos finais, de uma absoluta mestria de estilo. Como um disco quebrado ou um rolo de filme que girasse infinitamente, as situações no bordel se repetem e é o sinete inconfundível do grande escritor que é Dalton Trevisan que lhe permite a genial união do mais patético como mais hilariante. O leitor gargalha entre lágrimas de comiseração. E ficam os sinais misteriosos, propositadamente não esclarecidos: a polaquinha é mão do nenê que ela pede a deus que não chore enquanto atende a seus “clientes” apressados? Fenecida a sua fugaz sedução de jovem, ela se tornará como a cafetina “tia Olga”, com seu robe negro e seus chinelinhos de pompom vermelho a proclamar que “a mulher foi feita para servir o homem”?

Com Dalton Trevisan se confundem, se fundem as tradicionais máscaras do riso e do pranto que ornam os cartazes de teatro. O riso é o pranto. Nenhuma salvadora filosofia existencialista poderá separá-los. Nenhum estoicismo poderá consolar esse desespero de vivermos, perplexos e paralisados, dentro do absurdo, da ignomínia, da injustiça, da lei selvagem do mais forte. Não há milagres, não há um “mais além”, um “depois da morte”. Não há Deus, é óbvio, pois aqui é o deserto final onde todas as veleidades de bondade, amor, solidariedade e calor humano morreram. Ou quem sabe nunca vicejaram, mortos pelo sol escaldante do desamor.

Reuso

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Por favor, cite este trabalho como:
Gilson Ribeiro, Leo. (1985–8AD) 2023. “Dalton Trevisan. Mais uma obra-prima. Trágica, hilariante, patética.” In Grandes contistas brasileiros do século XX, edited by Fernando Rey Puente, 10:undefined. Textos Reunidos de Leo Gilson Ribeiro. https://doi.org/10.5281/zenodo.8368806.